segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

DEFINIÇÃO DE VIDA

A vida não  cabe na biografia,
escapa ao documento de identidade,
a palavra trocada,
a certidão de nascimento,
aos títulos, rótulos,
e ao sobrenone de família.

A vida é caos em movimento
de desconstrução de certezas.

Ela não é humana,
Transborda em sociedade.
Pois é o animal,
a natureza.
É composição e transformação,
que faz desabar o rosto
no abismo da incerteza.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O EU E O NADA

Só é certo o incerto.
Pois a vida é movimento,
mudança perpétua,
contra nossa vocação a inércia.
Por isso nada me prende a nada.
Sou livre até de mim mesmo
na indeterminação de ser ,
no absoluto devir de todas as coisas.

Vivo em triste estado de desabrigo.
Sei que não existo na concretude do corpo,
este provisório arranjo da matéria.

Hoje sou nada na possibilidades do mundo.
Amanhã serei nada no devir do universo
e o mundo regressará ao estado anterior ao meu nascimento.




segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

CORPO E PENSAMENTO

A vida que nos inventa o corpo
é, antes de tudo, consciência  de mundo. É saber de si e dos outros, palavra e movimento, através  do Ser que nos escapa no tempo.
É através da semelhança do diverso que a existência se apresenta a nós como um enígma na comunicabilidade da pele que inventa a experiência dos corpos em movimento como pensamento movente.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

O CORPO E O TEMPO

O sumo do instante atravessa o corpo
na confusão  do eu e das coisas.
A percepção torna-se vertigem
entre a duração e a matéria. 
Inventa um sempre no quase de um segundo
contra  a fatalidade do esquecimento. 
O  tempo
é a inconstância dos arranjos do corpo
a margem da finitude
e no absoluto do instante.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

SOBRE O INCONVENIENTE DE EXISTIR

Pensar, sentir, querer,
pouco importa.
A vida é uma vontade cega
formada pelo embate
de forças que me ultrapassam.

É do conflito que nasceram as estrelas
no negrume do céu. 
Mas eu não sou uma estrela,
e meus pés não sabem do céu.

Em mim se autodevora gratuitamente
o finito infinito
de um provisório arranjo de matéria.
Nada mais além disso.

Pensar, sentir, querer,
pouco importa.

 

sábado, 11 de dezembro de 2021

EPITÁFIO PARA UM ILUMINISTA

Prisioneiro de conceitos,
verdades e enunciados,
morreu despido de vida,
sufocado na bolha
do seu mundo imaginário. 
Sabia de razões, fatos,
causalidades e resultados,
mas ignorava a si mesmo
e os absurdos que nos inspiram os atos.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

CONTRA CULTURA URBANA

Adivinhe intensidades não humanas
contra a realidade tosca
que nos prende a cidade. 
Procure segredos nos becos
e converse com os animais de rua.
Escute as árvores,
o capim contra a calçada. 
Nada é o que parece  ser,
 nada é humano.
Tudo é selvagem.
Persiga o vento
entre os carros
contra a miséria da realidade.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

DESEJO SELVAGEM

Devir desejos
onde tudo escapa
e as horas morrem
 nas ruinas da eternidade!

Em todos os tempos o desejo explode a prisão das vontades
e se faz novamente selvagem
contra a razão iluminada e viril
que aprisionou todos os sonhos e delírios.
Ainda existimos no início do mundo.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

SOBRE O ILEGÍVEL DA VIDA

A vida que há dentro da palavra
falada ou escrita
contém qualquer coisa além 
da vida vivida.
Algo intenso, desconhecido,
que nos aguça a intuição do ilegível,
 que nos cala a própria existência,
e qualquer definição unilateralmente humana de vida
Contra a própria vida.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

DESENCANTO NIILISTA

Desaprendi o mundo.
Agora sei a vida
através dos olhos de uma criança.

Na liberdade da ignorância 
e do desencanto das coisas
através do assombro do sublime,
enxergo o nada como um devir absoluto.

Tudo é livre e provisório, 
um mudar cego e constante,
na estética viva da incerteza de Ser.


terça-feira, 30 de novembro de 2021

PASSADO & EXISTÊNCIA

 

O passado é a realidade transfigurada em sonho através da ficção da memória. É o que nos situa no tempo e espaço do agora, estruturando nossa existência.

Mas o que é a existência além de um fluxo descontínuo de experiências impessoais através das quais o mundo se apresenta e se re-apresenta como íntimo enígma?

O passado é o ausente em relação ao qual nos reconhecemos como parte de qualquer totalidade cindida. Como Ulisses experimentamos o desconhecido como nostalgia da origem. Mas, ao contrario do guerreiro mitico, jamais regressaremos a Ítaca.



sábado, 27 de novembro de 2021

O ENÍGMA DO ETERNO INSTANTE

Neste instante,
 estou aqui,
 ainda não nasci,
e também já morri.

A indeterminação do ser e do não  ser 
desfaz a finitude como questão.
A eternidade é um eterno agora
onde existir é mera ilusão. 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

TEMPO E MUNDO

O mundo tornou-se um labirinto em linha reta,
um progresso de restos
na vertigem do correr dos anos.

A vida agora é finitude absoluta
no corpo que não suporta o peso do tempo.

Tudo passa.
Não há duração, 
criação de sentidos
que  transcendam
o imediato da informação. 

Há apenas esquecimento,
memória efêmera de uma vida 
despida de grandes acontecimentos.

Impera a rotina, a inércia.
onde desaparecem
 palavras e atos.

A vida é um acento de ruinas
que não para de crescer ante nossos pés cansados e incertos.








INSTANTE E DISTÂNCIAS

 

Muitas distâncias decoram o instante.

Sejam elas físicas, abstratas,

ou somente imaginadas.



A própria vida parece distante,

ausente de si,

mergulhada em mudanças e

vazia de mundos,

enquanto o tempo,

que muitos dizer que passa,

é sempre o mesmo,

que nos vê morrer lentamente

entre distâncias e saudades.



Agora mesmo,

me aperta o peito

um vazio de infância,

uma morte íntima,

que me conduz ao longe.



quarta-feira, 24 de novembro de 2021

CORPO SEM MUNDO

Falta a cabeça 
um mundo
que proporcione realidade
ao corpo
na expressão viva do inumano.

Falta verdade no agir das mãos,
no gesto de um abraço,
no morder dos dentes,
no silêncio das palavras,
e percepção das bactérias
que me habitam a boca e a pele.

Que a intensidade de qualquer angustia
me conduza a carne da alma
da mãe natureza,
ao transbordamento de todas as ausências que  me preenchem
como uma chama.


domingo, 21 de novembro de 2021

A ARTE DE ESPANTAR

Espantar é nosso modo de esperançar,
de superar o quebranto,
de sonhar um mar,
para perder de vista a terra firme e seca
que hoje nos rouba os pés.

O Espanto é um afeto que nos arranca do agora,
que nos faz fugir,
buscar, qualquer outro lugar ou forma,
de viver e fazer viver.

Existir é constantemente
Espantar, assombrar, afetar, e
afastar, tudo que impaca,
que inventa  inércias,
e regras, 
nos impedindo de criar.

Espantar é o melhor modo de protestar, lutar, tentar avançar
e estranhar o mais intimo de nós nos outros.

Espantar é ser estranho 
ao que é distante
e paradoxalmente familiar.




sexta-feira, 19 de novembro de 2021

DETERMINAÇÃO

Ainda que eu seja finito,
que meus dias sejam de pedra,
e minha vontade fragil e incerta,
quero provar tempestades,
perder o pé na beirada de abismos,
inventar outra realidade.

Quero provar o sabor de uma estrela,
pintar a noite de vermelho,
e correr com lobos pelo labirinto de uma antiga floresta.

Quero ter a saúde dos lunáticos,
o desejo livre dos desatinados.

Ainda que eu morra amanhã
ou que o mundo termine ao ritmo de um tango argentino.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

A PALAVRA COMO TERRITÓRIO EXISTENCIAL

A palavra como acontecimento é inerente ao corpo que percebe, que se movimenta, mesmo estando inerte.

A palavra não  representa o mundo,
ela inventa mundos, 
cria realidades, signifacados,
reconhecimento do fora 
como uma dobra do dentro.
Escrever é um modo de caminhar,
de passear pela imateriaridade de territórios artificiais ao sabor de intensidades e afetos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

TRANS ANIMAL

Meu segredo é ser 
um organismo vivo
que guarda a memória de diversas naturezas.
Existo entre o orgânico e o inorgânico,
entre o humano e inumano.

Sou um animal estranho
que tenta viver como as árvores
reinventando a terra e o tempo
indiferente a paisagem.

Sou uma fera transfiguada,
indeterminada e inclassificável.
Não tentem me compreender
 pelo abecedário de qualquer saber ou ciência. 

domingo, 7 de novembro de 2021

PALAVRA VIVA

É urgente
Corporificar o texto
até que não haja fronteira 
entre a palavra e a vida,
ficção e realidade,
na contramão de todo falso realismo racional.

O pensamento é um afeto
que transfigura a palavra,
reinventa o som,
absolutizando a musicalidade,
como caminho do eu ao outro.


A palavra é carne,
vida sem espírito,
que transforma a matéria 
em mundo.

Somos sígnos e símbolos
na trama do sentido
que nos transfigura os sentidos,
que nos refaz no indeterminado
da natureza em infinito.

A palavra é corpo,
poesia viva,
ou natureza em ato  físico e metafísico.


sábado, 6 de novembro de 2021

ATEMPORALIDADE E ESPANTO

Da morte da história nasceu o não tempo do espanto, do inumano contra o antropoceno, reafirmando  a morte do homem, a reviravolta das subjetividades, através  dos corpos que germinam da terra, contra as vertigens do céu e da razão luminosa.
Desvelamos a animalidade e seus afetos, as profundezas do caos da existência, a pobreza do progresso, na redescoberta de um mundo, intenso e  arcaico, entre o mito e a imanência.
Nosso passado nunca foi moderno e nosso futuro é a potência do espanto da vida substantiva.
O atemporal da existência nos surpreende antigos e dissassossegados na falência de todas as épocas.

O DIA SATURADO

Saturado de signos,
significados,
saberes e mercadorias,
o dia era quase ilegível
na praça do mercado.

A vida não vivia.
O tédio nos adoecia,
e as horas apodreciam
a céu aberto.

Todos estavam cansados
de tanta informação 
contra os fatos
E era inútil qualquer interpretação 
daquele dia.
Mas nada que sentiámos
deixaria vestígio. 
O mundo era um cadáver
dentro de um livro.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O ENÍGMA DA LINGUAGEM



O grande esoterismo da linguagem é a invenção da realidade como acontecimento verbal, como devir do corpo, além da confissão de verdade, de toda mimese e representação. 

A linguagem é como um organismo vivo que nos transforma, uma imaginação-máquina, que no inventar-se das palavras, nos lança as intensidades do inumano. 

COMUNICAÇÃO HOJE

O grande paradoxo da comunicação é que sempre há mais vozes do que ouvidos no mundo para poucos discursos.
Isso proporciona ao silêncio  a grandiosidade de um evento invisível. 

terça-feira, 2 de novembro de 2021

ADIVINHAÇÃO

Desaprendi a escrever 
no naufrágio das palavras,
e tropeços do pensamento.
Agora exploro a grafia do ilegível,
os sinais rabiscados em cavernas,
a magia de letras esculpidas em pedras.

Há muito hermetismo na escrita dos loucos
e nos garranchos de uma criança.
 Nada é figurativo.
Tudo é enigma pré discursivo.

Sou avesso a qualquer realismo.
sei que um risco diz mais do que um signo.
Por isso não leio.
Adivinho,
como quem interpreta
cartas de tarô.








sexta-feira, 29 de outubro de 2021

APRENDIZ DO VENTO

Resisto as inércias do barulhento silêncio humano,
e afirmo o indeterminado do movimento.

Tudo em mim é transitório e incerto,
Provisório arranjo dos quatro elementos,
onde o sopro é corpo e verbo.

A verdade em mim não é vontade
e identidade,
é um se fazer experiência 
sem a ilusão  de finalidades
ou causalidades.
Verdade é aprender a ser vento.




COISIFICAÇÃO

O mundo é feito de coisas.
Existimos para as coisas.
Apenas as coisas são. 

Somos governados pela razão das coisas.
 Pois só as coisas importam.

Você precisa de coisas.
pois o corpo
também é coisa
entre coisas.

As coisas estão em todas as partes.
Todo mundo é mais coisa
que gente
em um mundo intensamente coisado.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

O SOM DA ESCRITA

Há uma sonoridade na escrita que transcende as letras arrumadas em delicado artesanato sobre a tela branca.
Ela sabe mais nossos olhos do que os ouvidos, confundindo os sentidos nas testuras e movimentos do texto que se inventa na nervura de um real ausente.
A linguagem é viva, mutante,  e indomável, quando livre do jogo da representação ou do vazio da comunicação ordinária. 
Ela se torna esta sonoridade que  inventa a potência do sopro da voz, sendo onda e movimento, no compor das letras. Ou qualquer outra coisa além da própria letra. 
A muda melodia do significado que sempre foge,  alucina as palavras  dentro do branco da tela.
O corpo  encontra a si mesmo e se transforma nas  abstratas sensações que o expandem no mágico som  de uma escrita.
As palavras transcendem a comunicação no inventar de universos e transvalorações.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

O FUGITIVO

Adivinho em cada momento um desvio,
em cada afeto uma fuga,
para tudo aquilo que avessa a vida
e me escravisa a banalidade.

Ir além da linguagem,
libertar o corpo da razão  e do humano,
é meu sublime objetivo.

Sou onde não faço sentido,
onde desisto,
e nada mais é possível. 
Penso e não sei
se realmente existo.

domingo, 24 de outubro de 2021

A TOPOGRAFIA DA ESCRITA

Um texto é uma geografia,
um ecossistema.
Habitamos palavras
e através delas penetramos em um território existencial.
O eu do texto é um ente que arruma letras arquitetando moradas e ausências.
Para ele a realidade é pura ficção, Visto que viver é um ato de imaginação criadora. 
Assim, a verdade é qualquer ilusão que nos move como uma necessidade corpórea. É aquilo que nos leva a dançar,  o texto como movimento, percurso, onde o caminhar cria o caminho. Não há texto que não contenha em si uma dimensão não verbal, que conforma uma ação no mundo. O texto é um modo de enxergar, de estar na paisagem e experimentar.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A ARTE DE PENSAR

O pensar não está na cabeça.
O pensar é corpo, presença,
intensidade e movimento.
Não é  palavra que se sustenta,
é gesto e silêncio. 
É natureza,
e não está no sujeito que acha que pensa
o pensamento que o inventa.
Pensar não cabe nos livros,
mas no verbo livre
que transfigura o mundo
como imagem em movimento
que através de nós
afirma a natureza.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

A INTUIÇÃO DO CAOS

Há algo ausente que nos define a presença,
algo que virtualmente persiste
em tudo que fazemos,
que é dito, pensado, ou sabido.

Este algo insiste em um silêncio  estridente.
Mas é impertinente e ausente.
É uma intuição de vertigem,
um brilho ofuscante e distante.

É um isso, um aquilo.
Algo que nós dissolve,
ou qualquer forma de caos.

O INIMIGO DA VERDADE

Confesso minha nulidade,
minha impaciência,
e má vontade com o mundo.

Adimito minha falta de objetivos,
meu desprezo pelos humanismos,
meu incorrigivel niilismo.

Não tenho vocação para fanatismos.
Recuso toda confissão  de fé,
ou vontade de verdade.

Sou nulo, sou livre,
e sem vaidade.
Não advogo qualquer poder
sobre a realidade.





domingo, 17 de outubro de 2021

MUNDO HUMANO

O mundo humano é um artificio anti natural de sobrevivência,  uma maquina metafísica, orgânica e simbólica, produtora de verdades em movimento,   na circulação alucinada de signos e símbolos e criação de valor, afetos e apetites. Trata-se aqui de algo pior do que qualquer Leviatã.

sábado, 16 de outubro de 2021

SER LIVRE

Liberdade é uma palavra 
desconfortável 
em qualquer frase.
Pois sua realidade é o corpo em ato.
Só é livre aquele que cria,
que confia na imaginação,
e quase não sabe de si,
na invenção do mundo.

Liberdade não se define,
e nos livra de toda definição. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

O PARADÓXO DO PARTO

Hoje lembram o dia

do parto da minha mãe

como se eu fosse

o feto que alí se apresentou

atônico e abismado

quando  desabrigado e lançado ao mundo.

 

Mas tal trauma não  deixou memória.

Não era eu aquele princípio de gente,

aquele feto indigente.

Mas nele já estava contido este corpo,

objeto de  afetos e experiências.

Corpo que soube gradativamente  de si no acumular dos anos,

além de toda ilusão  de consciência,

E ainda contém aquele feto

que  nunca terminou de nascer,

enquanto o corpo

aprendia a morrer.



 

 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

SOBRE A EXISTÊNCIA

Os anos passam e não  me definem.
Sou o que se perde,
o que desaparece,
o que definha,
em  corpo que reinventa o espaço enterrado na cidade. 

Tenho todas as idades
nos afetos que me transformam,
que me apagam do mundo
na alucinação do momento.



sábado, 9 de outubro de 2021

PRÁTICA DE EXISTÊNCIA

Prática de existência como um inventar-se permanente nas desarrumações do tempo. Individuar contra o próprio rosto, corpar a vida no movimento da memória, esculpindo o tempo presente, contra os imediatismos do agora.
Prática de existência como silêncio e fala, pausa e escrita de si, musicalidade sem notas ou, simplesmente, movimento de quase ser, na inconstância de um devir outro sempre atualizado em suas metamorfoses.
Pratica de existência como borboleta que passeia entre as flores de um jardim,
como verbo/acontecimento.

NOVÍSSIMO SELVAGEM

Tenho os pés enlameados de mundo,
e as mãos turvas de terra.
Meu pensamento é o verde das matas,
meu amanhã é o agora das flores.
Sei a vida como os animais.
Minha alma é a floresta
em devir natureza.
Sou corpo através dos corpos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

O QUE REALMENTE IMPORTA

O que realmente me importa,
é aquilo que não pode ser comprado,
embrulhado pra presente,
e transformado em lixo
ao longo dos anos.

É aquilo que não pode ser conquistado,
que não requer esforço,
mas acontece expontâneamente
em qualquer ponto abstrato
do meu encontro concreto com o mundo.

O que realmente importa
foge a palavra e me atravessa
em direção ao indefinido e incriado de um grande nada.

O que realmente importa carece de qualquer importância.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

EXISTO

 

Existo entre a inconsciência do corpo

e a consciência do mundo,

como um ponto indeterminado

entre o tempo e o espaço.


Existo na ilusão de ser livre,

único e admirável,

como se a razão

me colocasse no centro do universo

desvelando enigmas entre as palavras e as coisas.


Existo no delírio da extensão da matéria

preso aos apetites

que me acordam o corpo.


Existo anonimamente entre muitos outros

atravessado por signos, símbolos e imagens,

que me adivinham pelo avesso.


domingo, 3 de outubro de 2021

MUDANÇA

Mudar não é uma escolha.
Mudar é escapar a si mesmo,
É perder-se,
é não saber ou poder
ser como antes,
na confusão de todas as certezas.

A vida, afinal, é algo indeterminado.
Ela não é feita de identidades. 
Tudo muda,
mesmo que ninguém perceba.

A mudança nos consome,
nos escolhe,
e nos rouba a ilusão de ser.


sábado, 2 de outubro de 2021

CORPO, VIDA E LUGAR

O mais estranho lugar do mundo é o corpo. Pois ele é o que somos em todos os lugares, no  além da própria consciência de estar em qualquer parte.
O corpo é mundo, e o mundo é corpo. Ele não nos pertence, mas lhe pertencemos, no além de todas as pretensões da ficção de um eu consciente que lhe nega a autonomia, por mais que ela seja evidente.
Todos os lugares são movimento, passagens, como o próprio corpo que não passa de um provisório arranjo de matéria. A vida é  paisagem. O corpo é paisagem dentro de paisagens. Todas as paisagens mudam constantemente. Todos os lugares são incertos.
Nenhum lugar é realmente um lugar.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O ANTI ADÃO

Uma parte de mim é selvagem.
Nunca tocou o mundo,
nunca foi criança
ou morrerá adulta.

Uma parte imprecisa de mim
sonha profundamente 
enterrada no caos primordial.
Ela delira contra a ordem e a realidade.
permanece guardada em uma potência crua de criação 
contra tudo que se tornou diurno e demasiadamente  humano.

A VIDA E O ALÉM DO HUMANO

A vida é alguma coisa que ainda não nos aconteceu.
Ela é algo entre o corpo e a natureza,
uma porta seme aberta entre o animal ,o homem, e além,
que leva a uma outra condição de existência. 

A vida é devir,
coincidência  de todas as coisas
na arquitetura de um caos em movimento,
que não cabe na ridicula ilusão da razão e do humano.


terça-feira, 28 de setembro de 2021

O MUNDO É TUDO AQUILO QUE ESCAPA

O mundo é a realidade de todos
e de ninguém. 
O mundo é a nulidade do rosto,
a ilusão da opinião,
e o imperativo biológica 
da vontade de um dizer verdadeiro,
de uma moral dos fracos,
contra a potência de criar,
de viver nas alturas das profundezas da terra,
a inexistência dos fatos,
contra os rebanhos.
O mundo é aquilo que escapa,
que se transforma,
dentro e fora de nós.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

NO FUTURE

O futuro será hibrido,
impreciso,
abstrato
e frio.

O amanhã será solitário,
vago, inconclusivo,
e sem sentido.

Há de nos faltar ar,
vida,
afeto e poesia.

domingo, 26 de setembro de 2021

O MELHOR DE NÓS


O melhor de nós é irredutivel a definições,

saberes, versos,
verdades,

ou convicções. 

O melhor de nós é inumano,

selvagem, natural,

e abomina tudo que nos tornamos,

em nome da razão universal. 

O melhor de nós é corpo,

extensão, e movimento,

em caosformação de afetos
sem alma. 

.



sexta-feira, 24 de setembro de 2021

O DESAPARECER DO MUNDO

O mundo tornou-se ausente de nós, enquanto a vida é simulada através das telas.
Tudo foge em signo e quimera.
Existimos nos olhos da imaginação
e todas as coisas escapam a realidade.
A palavra a deriva des-significa a vida.
Talvez finalmente nos libertemos
do dilema moral da verdade.
Nada é o que parece ser,
nada será,
acontecer é desaparecer
no corpo como novo mundo
onde os signos e simbolos
se desfazem no ar.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

FILOSOFIA DE JARDIM

 


O vôo irregular de borboletas e beija flores redesenha o jardim nos olhos.

Tudo está em movimento, principalmente as cores,

que através da luz inventam a visão.

O olhar constrói o observador indiferente ao observado.

Tudo se move em muda revolução.

ESFINGES & GARGALHADAS

O mundo nos escapa
liberto dos enunciados.
Nele não cabem verdades.
A incerteza, agora,
é quem inventa a realidade,
como processo inumano,
selvagem.

Há esfinges em todos os tempos e cantos.
Elas nos devoram sem dizer enigmas
em coros de gargalhadas.

Não existem saídas no fim do caminho,
nenhuma questão para qualquer resposta.


domingo, 19 de setembro de 2021

DEFINIÇÃO DE MEMÓRIA

A consciência é memória, uma ferida aberta na materia viva de um corpo que sobrevive, entre o esquecimento e a lembrança, através  do agora...

A memória é sempre algo que  chora....

CORPO E NATUREZA

Á sombra dos dias
o corpo é devir natureza
no pensamento selvagem
de uma paisagem inumana.

Tudo é desejo em movimento,
intensa composição de todas as coisas no espaço tempo
de um retorno eterno.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A VIDA CONTRA A HUMANIDADE

Há muito passado
e pouco futuro para humanidade.
O que justifica toda nossa ansiedade.
 O mundo
não cabe no desejo
e a vida é selvagem
na intensidade do inumano.

sábado, 11 de setembro de 2021

A IMANÊNCIA DO DEVIR



Seguiremos atônicos
entre o assombro e o desassossego.

Já não pertencemos ao mundo,
nem a nós mesmos.

Nosso tempo é o impertinente e inconcluso absurdo
que desafia os limites do presente,  os abusos de um futuro pré moldado por um eterno passado.

Nada nos define.
Tudo é angustia,
em nossa embriagada busca
por liberdade e infinito.

Estamos sempre em mudança,
em movimento,
onde pouco importa
o que hoje é notícia
na contramão do intempestivo desejo.







quinta-feira, 9 de setembro de 2021

FORA DA ORDEM



Entre a vertigem da desmedida dos fatos descontrolados que desfilam nas telas do mundo digital e a mesmice do sob controle da rotina mais banal, inventamos a existência como mansa loucura, desequilíbrio coletivo, singularizado como forma de simulação de vida, como ação que circula através dos signos entre o verbal e o não verbal dos acontecimentos.

A genealogia da moral dos fracos frequenta a critica dos solitários e desassossegados aos mansos de espirito. Há muita saúde entre os condenados à um novo dia do sempre igual. Pois na contramão do tempo vivido e institucionalizado, eles sabem que qualquer coisa muda e urgente foge e transborda sempre ao controle da razão, se transmuta em luto e luta na emoção da queda de algum velho enunciado no chão.
Há palavras grávidas de um sem tempo dizendo o impossível no vento nas encruzilhadas do surrealismo ... isso é o que hoje sabemos na intuição de uma vida que ainda nos espera desde parto.


domingo, 5 de setembro de 2021

FLORESTAS

Toda floresta é um corpo vivo,
um ecossistema,
 intenso e multiplo.

Associações, trocas,
e encontros,
 definem a floresta
além de qualquer evolucionismo.

Nela todo lugar é caminho.

Tudo é dentro,
nada é fora
e a terra pulsa
em verde devir.



sábado, 4 de setembro de 2021

ULTRA MODERNIDADE

Nos imodernos tempos da ultra modernidade,
as desnecessidades tornaram-se indispensáveis.

São tempos de progresso de bugingangas eletrônicas,
de lucro dos velhos rentistas,
de escravidão assalariada,
e catástrofes climaticas.

A morte rege a política
e todo discurso é sofista
onde tudo se perde
e nada se transforma
para amargura dos mais radicais niilistas.

Nestes imodernos tempos de ultra modernidade,
a vida anda abatida
pelas pestes que nos habitam.



A GRANDE GUERRA

A GRANDE GUERRA

Não existe paz onde alguém respira,
mas um combate incessante pela sobrevivência.

Cada um sabe sua trincheira,
seu lugar de luta e resistência.
Ninguém é inocênte.

Todos adimitem que a vida é guerra,
embate entre forças e vontades,
na tempestade da existência.

Mas ninguém sabe  vitórias.
Todos tombam em batalha.

No final sempre vence o silêncio
espalhado entre os restos dos combatentes
caidos e embriagados por paixões e quimeras.






terça-feira, 31 de agosto de 2021

A VIDA COMO POSSIBILIDADE

cresci sem esperanças,
vivi sem ilusões,
imune a doença
de qualquer verdade.

Na intimidade
de todos os meus tempos,
fui indiferente ao mundo,
identidades,
e  felicidades.

Sei que a vida é qualquer coisa louca
que nos falta. 
Algo que espera a humanidade
na possibilidade de um desvio.
Ela é quase a contra existência de um delírio.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

CONFORMISMO

Algumas pessoas só querem um dia sem sustos,
uma noite sem agonias,
e uma paz de primaveras e jardins.

Em segredo, elas  abominam a realidade,
não naturalizam ou ritualizam
nosso caos diário,
e esperam sempre boas notícias dos jornais.

A realidade, de fato,não lhes interessa.
Confessam, abertamente, através de um  pacifismo conformista,
 suas fragilidades emocionais.

A ilusão, para elas, é o mais urgente dos remédios
na alegria do faz de conta.


CONSCIÊNCIA

A consciência é, de alguma forma estranha, uma experiência coletiva do humano e do inumano, onde o eu só existe como outro, através da memória e da linguagem. A consciência é um fora si. Pois autoconsciência não existe. Consciência é sempre consciência de alguma coisa, entre a imagem e a matéria, entre o orgânico e o inorgânico. Consciência é natureza, participação e não uma forma de narcisismo cognitivo.

domingo, 29 de agosto de 2021

POSSIBILIDADES PERDIDAS

Procuro saber a rua em seus detalhes,
na eternidade de alguns segundos,
registrando futuros
perdidos
ou interrompidos
pela precariedade do agora.

As vezes a gente se perde
no que poderia ter sido,
sonhando a intimidade
de um rosto desconhecido.


terça-feira, 24 de agosto de 2021

VIDA

Ouvi dizer que estamos vivos,
Como se a vida 
fosse uma coisa biologicamente dada,
e não uma potência ou latência,
entre a consciência e a imanência,
 das palavras e dos atos
 de um corpo em movimento.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

PALAVRAS E COISAS

Vemos através das palavras,
entre os enunciados,
ou no buraco dos versos e das frases,
aquilo que escutamos das coisas.

A realidade pulsa, 
é movimento e jogo de forças,
indeterminação e tensão,
ou uma quase alucinação.

Nada é o que parece.
Nada está definido.
A vida é um ato de rebelião permanente das identidades,
significações e verdades.


Vêr é saber-se outro,
é escutar as coisas
e se tornar ninguém
através das palavras.

Apenas as coisas falam.
A linguagem lhes pertence
na contramão das representações.








QUANDO AMANHECE O POENTE



Quando amanhece o poente,
o céu treme no chão,
os sonhos movem montanhas,
e a vida transborda como um rio
que reinventa suas margens,
expandindo mágoas e aflições.

O céu rasgado pelo poente invertido
inaugura o noturno explendor das diurnas imaginações estrelares.

Já não é dia ou noite,
o tempo torna-se um vento de liberdade,
uma tempestade de vontades.

Quando amanhece o poente...


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O POR VIR DA MEMÓRIA

A memória não dá conta do existido.
Não esclarece o passado,
e muito menos explica o presente.

Ela é a potência do tempo,
o virtual dos atos no simulacro de imagens intempestivas
em perpétuo movimento.

É sempre fragmento,
narrativa acontecimento,
que não resolve a vida,
mas que realiza o inventário de suas ausências.

A memória é maior que a lembrança,
é sentimento de mundo,
que nos enterra vivos
entre a eternidade de um encanto e um momento de perda e de espanto
contra toda esperança.

A memória é sempre futura
e guarda um gosto de morte,
no eterno retorno da vida,
na impessoalidade do por vir
que nos reduz a silêncios.

Tudo passa....


terça-feira, 17 de agosto de 2021

A MISÉRIA DO SER

Ser se tornou consumo.
O ego   nos assujeita
na sedução absoluta
do objeto que nos devora a alma.

Ser é o que se come
ou o que define sua fome,
concreta e abstrata,
sua necessidade
ou precariedade,
seu modo de vida
e de morte.

Ser é desver-se no mundo,
desinventar subjetividades,
devir outros mundos,
multiplicar-se nos rostos,
fragmentar-se, 
perder-se,
saber-se um fora
dentro da cidade abismo.

Ousar imaginar imanentes metafísicas
de um corpo que afeta
afetado por um devir inumano.

Ser é saber-se mato, água,
terra e ar,
trair a realidade
antes que ela nos traia
calando a loucura,
transmutando a matéria,
como um insano alquimista.

Ser é viver como coisa,
É consumir,
consumir-se,
misturar-se,
Desaparecer,
gritar,
onde nada existe
além do simulacro
no fluxo das formas,
dos signos e dos limites do sentido e do não sentido.


Ser é o não valor de tudo que existe,
 é dizer o que não pode ser dito
na inconsciência de nossos atos
e na inutililidade de nossas certezas, emoções e conquistas.

Ser é contemplar o próprio cadáver
no anonimato de um crânio
exposto em qualquer vitrine.






MELANCOLIA CLIMÁTICA

As mudanças das estações já não me alteram o Ser.
Dentro de mim está sempre chovendo
e a Terra não me vê.
Apenas gira,
enquanto a agonia do sol
permanece espetacular,
sempre insinuando o fim do mundo, 
esclarecendo a melancolia climática.


domingo, 15 de agosto de 2021

SENTIDO E NÃO SENTIDO

É comum saber em nós mesmos o sentido e o não sentido da vida  como dois impulsos contrários e complementares: enquanto o afeto do não sentido nos dissolve na intuição do vazio da eternidade, o afeto do sentido nos lança a indeterminação e a mudança como forma de criação de si mesmo através do vago infinito  do instante. Ambos os sentimentos são movimento e imanência, modos de  des-subjetivar -se , fragmentar-se, diluir-e na totalidade do sensível, na composição de encontros, onde tudo é corpo composto de corpos na afirmação de uma potência da existência. 
O não sentido é a afirmação da vida levada as suas últimas consequências. Mas o sentido é a própria vida em movimento na realização do multiplo e do singular.  Bem querer a vida, afinal, não nos impede de morrer entre os infinitos do instante e da eternidade.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

NAUFRÁGIOS

A precariedade imaterial de uma consciência ferida pelos enunciados dominantes, pela organização material de uma vida danificada, define nossa herança comum, nossos passados presentes, como um grande naufrágio.
A civilização, este velho mito iluminista, é como um luxuoso transatrântico perdido no mar aberto do silêncio da eternidade. 
Somos todos náufragos em um presente a deriva  que não nos sagrará sobreviventes. Não importa se  a sombra funebre do nosso navio fantasma rememore como funestra paródia, o Titanic, o Príncipe de Austurias,  o Wilhem Gustloff ou um navio negreiro. Estamos todos condenados ao mar como devir inconsciente e ancestralidade de abusmos.


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

EMERGÊNCIA GLOBAL

Pode ser que amanhã
nos falte um mundo
para viver
e a natureza
finalmente
se livre da gente
para que um novo dia
possa acontecer.

Afinal, a indiferente poesia do ser,
nunca será humana.


PALAVRA, SILÊNCIO E PENSAMENTO

As palavras nascem
do fundo  das coisas mudas,
onde falam silêncios,
gritam vontades,
morrem verdades,
e os olhos escutam
o sentir que se esgota
na vida de um verso
ou de uma frase.

As palavras sabem o pensamento.
Mas o pensamento não sabe as palavras,
ignoram o mais profundo
do sopro
que lhes serve de corpo.
Os pensamentos não são humanos.







terça-feira, 3 de agosto de 2021

NECRO ÉTICA

Como pensar uma necro ética  de nossas vidas danificadas, precárias e desertificadas?
 O tempo do mundo diz que estamos mortos antes de nascer. Mas a morte é a médica da vida. Ela nos cura de nós mesmos.
 E o que é  a cura além de um sintoma do silêncio e do vazio que não para de crescer sem nenhum remédio ?
A ética é resistência e transformação do pathos estrutural da existência. 

ALÉM DO HUMANO

 

 

O homem não  tem essência,

nem substância.
É uma sombra triste
que nos conforma.
Um acontecimento sem futuro,
condenado ao desaparecimento
no silêncio da natureza.

O homem não é a medida de si mesmo,
não tem alma.
Nos espreita agora 
no relâmpago
o intempestivo do além do humano,
a iminência do múltiplo
e do informe,
da vida e da morte.

no eterno retorno
da potência das forças
em colisão.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

O SENTIDO DA ARTE

Para qualquer artista a realidade é  uma prisão, 
uma ilusão verdadeira,
frente a qual a obra é uma estratégia  de fuga, 
uma busca de qualquer coisa mais profunda
além do jogo infantil entre sujeito e objeto.
Arte é  criar qualquer coisa mais real do que o próprio mundo.

terça-feira, 27 de julho de 2021

CERNUNNUS

Tenho a idade dos meus fracassos,
das minhas perdas
e arrependimentos.

Garanto que sou mais velho
do que aparento,
carrego o peso das idades do mundo
na leveza do agora fugidio.

Não sou apenas este eu recente,
limitado e provisório 
que não  resiste aos anos.

A parte mais importante de mim
é aquela que fora do tempo
segue livre entre animais
no coração da floresta.

UNIVERSO EM EXPANSÃO

Não  existe inércia. 
Tudo é  movimento,
coincidência de opostos,
deslocamento de si
e do mundo,
nas metamorfoses
do tempo e do espaço,
em uma mente que se expande
ao infinito do corpo vivo.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

TEXTO

Cada texto é  como um mar,
uma força viva da consciência, 
em movimento ondulado de palavras 
que me arrastam
para longe do agora
no sem tempo da imaginação
e do sonhar.

Cada texto é  um lugar
que me desabriga,
que tira da boca a frase feita,
cotidiana,
e suja de feijão.

Quase me afogo num pensar
que me engole através  do escrito,
que me leva,
e desfaz o mundo
em outros mundos que não  cabem na vida
ou na ilusão  do possivel.

Textos são corpos
que se toca com os olhos.
O pensamento é  sua pele,
mas corre como um rio.


Textos são movimento,
Textura, sensação, 
ato abstrato e verbo.

Todo texto é sujeito.






sábado, 24 de julho de 2021

O CORPO E O DIZER

Não existem erros no plano da escrita livre que recusa toda ordem discursiva, que sabe o abismo da retórica  contra a norma do dizer verdadeiro e racional. Existem palavras e conceitos que ainda não  foram inventados, imagens de pensamento  que não foram ainda exploradas na trasvalorização  de todos os valores.
Toda mudança  das formas de vida possiveis começa na intensidade de novas texturas de sensações alcançadas através de um dizer que nos acontece como abstrata materiaridade corporal.

SER & NÃO SER

Ser si mesmo é  qualquer forma de não ser no acontecer do eu, mas saber o eu como um modo impessoal de ser outro entre os outros, saber-se devir não humano como expressão  do mundo.  In-sistir em ex-sistir é uma forma de presença em indeterminação e devir contra todo sedentarismo narcisista do social.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

VIDA MOVIMENTO

A vida não  é  um projeto,
não tem qualquer meta.
Ela é  devir,
quase acontecimento,
um movimento que supera a inércia, 
a fantasia do ser e da verdade,
no indeterminado e sempre renovado instante
do abandono de si
na breve coincidência do mundo e do eu.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

CORPO-COISA

Não quero ser o outro dos seus enunciados,
nem o herói dos meus discursos.
Não pretendo ser sequer mais um humano.
Pretendo me desaprender como ente
no saber do corpo-coisa
em natureza e ato
de desaparecer no correr do tempo do meu desapego.

domingo, 18 de julho de 2021

SOBRE LIVROS

Cada livro é um acontecimento.
Alguns me inventam contra o mundo,
outros me roubam o rosto,
mas poucos guardam enunciados
que se escrevem na minha pele
vestindo meus pensamentos.

CONTRA IDENTIDADE

Conformar-se a qualquer identidade diminui a criatividade subjetiva, estabelece o conformismo e a norma de um sujeito marginal de direito que busca novas formas de poder e não  o inédito  da liberdade como criação ou arte de inventar a si como experimentação.
É preciso pensar/fazer um novo asceticismo.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

NEO PRIMITIVISMO

Cansei de ser narciso,
de fazer da vida biografia,
aventura de um eu capenga,
efêmero, 
imagem e semelhança 
do ser de um homem sem fundamento.

Cansei de fazer sentido,
de habitar discursos,
conformismos e estruturas.

Daqui pra frente serei natureza.
Seguirei errante,
sem explicações e soluções,
em intensidades e imanência.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

CULTO A PROMETEU

 

Devir contra as certezas do homem

nas mutações do inumano assignificante

é o que nos resta contra todos os deuses,

contra toda moral e valor sedentário.



O intempestivo brilha como relâmpago

no peito da tempestade

iluminando a natureza selvagem.



Apaga-se o brilho da velha razão.

Acende-se o fogo primordial.


 

ULISSES PÓS MODERNO

 

Nunca em seus olhos as lágrimas secavam, e ia-se sua doce vitalidade, chorando pelo retorno…
(Canto V – A Odisseia)



A dor de perder-se

do lar e dos outros,

de seguir sozinho

na contramão dos anos,

sem jamais retornar

a casa antiga,

fez dele

um Odisseu pós moderno.



Itaca está morta

e a terra gira.

Não há mais origem

para o navegante nômade.

Sua vida agora

é um trabalho da morte.




quarta-feira, 7 de julho de 2021

VIDA

Toda vida é  pública,
participativa, impessoal,
e perecível
em sua singularidade.

Toda vida é  finita,
intangível,
desconhecida,
em sua abissal banalidade.

Vida é  um atributo da espécie
alheio a nossa pessoal mortalidade.
A vida não tem rosto,
é corpo,
que não se mede no espaço do tempo. 
 
Vida é matéria.
 



terça-feira, 6 de julho de 2021

DAS NUVENS NO CÉU

A arquitetura das nuvens na amplidão azul do vazio do céu  fere meus olhos .

Percebo-me subtraido de mim mesmo diante do firmamento.

Sei que o céu é ateu e debocha em silêncio  da nulidade do humano.

Ele nos assombra com a indiferença da natureza,
com a insignificância da vida,
frente a imanência da imensidão silenciosa.

A imaginação  das núvens não  tem limites
e não sabe nenhuma razão.
Pois o céu é o domínio do caos e do vento
e as nuvens um brinquedo do acaso.

As halturas das asas dos pássaros
não  sabem o mais profundo do céu. 

 



quinta-feira, 1 de julho de 2021

A IMPORTÂNCIA DO INÚTIL

Interessam-me, demasiadamente,
as coisas que não  levam a nada,
que são gratuitas e ridiculas.

Gosto de me perder do mundo
na superfície do ordinário
sem me importar com a vida.

Gosto do inumano,
de tudo que é  estranho ao pensamento e convenções.

Não  reconheço a soberania do eu,
a causalidade ou a necessidade
como matriz da realidade.
Não  sou seduzido por convicções 
verdades prontas e coletivas.
Detesto pactos sociais.

Sou livre de humanismos
e não domestico a natureza
com a teleologia da razão  e do sentido.

É nas sensações que existo,
que me desfaço e persisto
contra a consciencia das coisas,
alheio as modas e modos da sociedade.

Discontínuo e inconcluso
duvido de mim mesmo
e desacredito no mundo.
Sou sempre um outro que me olha, 
que me sabe do lado se fora
Moranda dentro de mim.

Não tenho objetivos.
Tudo em mim leva a nada.
Como neste instante em que me misturo com uma folha
que agora a pouco
caiu de um galho de àrvore. 






A PALAVRA

É  certo que a palavra é  signo,
símbolo,
imagem.

Mas ela também  é  som,
garganta, boca, língua e ouvido
que escapa ao texto
contra o livro,
contra o poder e o saber de dizer,
fazer , sofrer,
domar e escrever o real
que nos lê em silêncio.

Ela é  antes de tudo delirio,
imaginação, lugar e corpo do ser.

A palavra é  ação, 
verbo, criação, 
guerra e destruição
de um "eu"que existe sempre
como um "nós"
e contra tudo.

A palavra é  paradoxo, 
simulacro,
duração 
real ilusão.



quarta-feira, 30 de junho de 2021

O TRIUNFO DA EXPERIÊNCIA SOBRE O PENSAMENTO

É cada vez mais fácil viver sem o tormento de profundas reflexões sobre o significado da vida ou o sentido das coisas.
Neste século de novas sensibilidades e tecnologias gognitivas,  o imediato e o banal ocupam o centro de nossa experiência corpórea do real.
Somos  formatados pelo efêmero e o estantâneo, indiferentes ao Ser e a verdade. Platão  e Aristóteles nunca foram tão despreziveis em seu amor a razão. Esvaziados do universal e do ideal humanista ousamos provar a nudez da existência indiferentes a qualquer profundidade. Trata-se de um ganho existencial sem precedentes, de uma abertura  ao Impensável da experiência de si  como embriaguez do vivente.
o eu se desolve no mundo indiferente a capacidade de pensar. Torna-se, ao contrário,  parte da multiplicidade de extensões e condições inumanas que nos definem dentro do mundo.
Já não  importa dizer as coisas em palavras na materialização do pensamento. Experimentar -se no limite de si mesmo como parte do em torno que nos engole é  agora o que realmente importa.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

FILOSOFIA DA LEITURA

Nego a página como superficie de inscrição
para afirma-la como plano de ação. 
O olho pensa e age,
o corpo veste-se de mundos,
através da potência dos enunciados,
além do significante e do signigicado.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

O TEMPO DO NÃO TEMPO

 


Há um tempo escondido

no simulacro do presente,
um tempo que não  tem tempo,
que é  puro movimento e extensão
no misto do inédito e do antiquíssimo.

Dentro dele o impossível já é  visível
nas metamorfoses do desejo
e não  existe mais céu ou chão.

É um tempo onde tudo é  retorno
e transformação,
onde o passado ainda é futuro
na incerteza do presente.





quarta-feira, 23 de junho de 2021

PARDAIS


 

Não há mais pardais

nos céus da velha cidade

e as ruas não tem mais gosto de pintura.

Há apenas pessoas indo e vindo de lugar nenhum

nas paisagens mortas da ordem vigente.

Mas ainda há rebeldes inventando a praça,

rasgando o céu em sol e revolta.

Ainda não é tarde para o futuro.

Os pardais hão de voltar um dia.

terça-feira, 22 de junho de 2021

ESPIRAL DO TEMPO



O depois sempre esclarece o ontem através da ação,  do corpo em movimento, movendo o tempo e o mundo, através dos atos e acontecimentos.
 
Viver é  levar  em mim, as últimas consequências,  o extemporâneo e o inatural através das composições organicas da matéria.
 
 É realizar a opus alquimica que une o micro e o macro cosmos,  o dentro e o fora, em duração e imaginação criadora, que me ultrapassa como consciência e vivência, transfiguando o ontem, revelando-o como inacabado destino do amanhã, na ilusão da palavra mutante e assignificante. 
 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

DA REALIDADE DO ABSURDO

Sei que o presente foi o impossível de ontem como o amanhã é o improvável do hoje.
O real é por definição incerto e movediço.
Enquanto nos perdemos em nós mesmos somos sementes do inesperado na falência de toda certeza e identidade.
Só há novidade onde acontece o absurdo como assignificante vivência da intensidade do corpo.


domingo, 20 de junho de 2021

CORPO EM MULTIPLICIDADES

Cabem em um só corpo,
em suas multiplicidades,
mais afetos ,
sensações, 
intensidades,
e movimentos,
que o pensamento
pode saber.

Em um só corpo  cabe todo universo,
o infinito e o infimo,
em um só sentimento 
de terra, vento,
e liberdade de se fazer ser
na imaginação  criadora
e suas sincronicidades,
diversidades do viver.



sexta-feira, 18 de junho de 2021

NOVO PROMETEU

Indiferente aos deuses,
descrente dos homens, 
sigo rebelde
nos caminhos da liberdade.

 Embriagado hei de enfrentar o mundo,
destruir tradições,
rasgar o céu, 
e afirmar a terra,
a materia viva e etérea do fogo
despida de toda ilusão metafisica.

ENCANTAMENTO INFANTIL

Quando eu era jovem,
a vida parecia maior que o mundo
e todas coisas belas eram possíveis 
na vontade que atravessava o corpo.
 Na intensidade do sensível ,
Existir era ser arrebatado pela experiência do indizivel das pequenas experiências
que transbordavam o ser.

O ÚLTIMO CANSAÇO

Cansado de estar cansado
deito hoje inconformado
sobre o tumulo da minha vontade.
Dormirei agora o sono dos naufragos afogados
que souberam o futuro como desastre.
Amanhã será,  outra vez,
muito tarde.

domingo, 13 de junho de 2021

ARCAICA METAMORFOSE ANTI CIVILIZATÓRIA

Quero ser livre de tudo que me define,
arrancar de mim esta roupa
que me veste de mundo, 
até  saber a liberdade de sonhar a vida mais que vivida,
produzir outra realidade,
sentindo meu corpo nu  
e em  um outro regime de voz e existência,
além do tempo e cultura,
que me prende ao triste acontecer do presente.

Quero fazer parte do futuro da natureza,
dos animais, das plantas,
e das pedras,
em palavras sem berço,
iletratas, selvagens,
e indiscretas.




sábado, 12 de junho de 2021

SILÊNCIOS REBELDES

Há sempre silêncios 
gritando em nossas palavras,
desdizendo enunciados banais,
certezas midiaticas,
e conformismos.
Há dentro de nós uma raiva muda,
uma vingança adiada,
uma revolta oculta,
contra o tempo e o mundo.

Há sempre um monstro no espelho...




sexta-feira, 11 de junho de 2021

ESTRANHAMENTO

Ontem acordei diferente.
Mas nada havia mudado.
Apenas qualquer coisa,
no dentro do fora de mim,
tinha se quebrado.

Surprendia- me no instante
um vento novo 
que escapava ao momento. 

Já não  era antes ou depois.
Apenas me sentia longe,
despido da vida 
que me vestia todos os dias.


segunda-feira, 31 de maio de 2021

O SILÊNCIO DA VIDA

Hoje em dia as palavras governam a vida,
mas a vida não  inventa as palavras.
A vida segue perigosa ,selvagem 
& insensata
nos subterrâneos de nossos silêncios.
A vida se insinua em tudo que é  obscura sombra
e ainda carece de nome
no mais profundo e fundo
do corpo dentro do mundo.
A vida é o intempestivo do caos e da revolta.


LIMITE

Não há vagas.
Não é justo.
Não faz sentido.
Não afeto.

Acabou a esperança.
Resta gritar.
Arrombar a porta do sonho.
Enfim, delirar.

terça-feira, 25 de maio de 2021

O FILHO DO VENTO

Tudo é  tarde demais.
Seja agora,
ontem,
ou amanhã. 

Meu momento é  a superfície  profunda
do indeterminado finito do sempre,
do urgente,
que foge ao mundo,
ao transcendente,
e brinca com o tempo.

Há em mim um sempre sem esperança ou eternidades,
niilista,
impertinente.


Tudo é  tão  intenso
enquanto dura
que ignoro a intuição  do nada
e a verdade do silêncio. 

Sou imagem e semelhança  do vento,
livre e selvagem,
nas vertigens do pensamento
como corpo e matéria  em movimento.



segunda-feira, 24 de maio de 2021

INCONSTÂNCIA

Vou te contar um segredo:
Amanhã,  pela manhã,
o mundo não será o mesmo.

Mesmo que ninguém perceba,
a vida muda o tempo todo.
Há mortes e nascimentos
como existem dias e noites.

Amanhã seremos outros,
mesmo persistindo em nós mesmos,
através de um hoje que não existe.

Jamais seremos felizes.
Vivemos no incerto do rosto
que contradiz o reflexo no espelho.