Em noites claras
de luar sereno
tento por vezes
arrumar estrelas
no ceu ,
saberd destinos e caminhos
no brilho distante
de luzes em coleções.
O ceu se faz espelho
e devaneio
para o meu eu
disperço no caos do mundo.
Sinto me-me como criança
no infinito obscuro
das posibilidades d vida.
Em liberdades e acasos
meu se faz
quase absoluto.
Este Blog é destinado ao exercicio ludico de construção da minima moralia da individualidade humana; é expressão da individuação como meta e finalidade ontológica que se faz no dialogo entre o complexo outro que é o mundo e a multiplicidade de eus que nos define no micro cosmos de cada individualidade. Em poucas palavras, ele é um esforço de consciência e alma em movimento...entre o virtual, o real, o simbolo e o sonho.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
O MITO DO SIGNIFICADO
Nenhum fenômeno é mais fascinante do que o da consciência. Pode-se dizer que ela difere a condição humana da condição animal na medida em que estabelece a objetividade do mundo através de imagens de sentido e uma infinita alternativa de significados.
Em outras palavras, a consciência é o lugar do humano como sujeito da criação do mundo exterior e, ao mesmo tempo, objeto de seu mundo interior ou inconsciente.
Como observa Aniela Jaffé em O MITO DO SIGNIFICADO NA OBRA DE C G JUNG:
“ O “Mito do Significado” de Jung trata da consciência. A tarefa metafísica do homem consiste na contínua ampliação da consciência em geral, e seu destino como indivíduo, na criação da consciência individual. É a consciência que dá significado ao mundo. “ Sem a consciência reflexiva do homem, o mundo carece de uma gigantesca falta de sentido, pois o homem, pela nossa experiência, é o único ser capaz de perceber sentido”, escreveu Jung a Erich Neumann ( março de 1959). Entretanto, a ênfase de Jung na consciência nunca significou uma desvalorização do inconsciente, nem ele sequer cogitou que este pudesse ser “subjulgado”. Uma substituição do inconsciente pela consciência é totalmente inconcebível, se considerarmos que a esfera de ação dos dois não pode ser comparada, e que a consciência só adquire seu poder criativo estando enraizada no inconsciente, embora possamos ser inteiramente inconscientes da existência deste. A alta avaliação que Jung fazia da consciência estava presente nele, em embrião, desde o começo. Mas só no curso das décadas ele chegou a reconhecer seu papel predominante no destino humano. Inicialmente, antes de ter sondado as profundezas da sua natureza paradoxal, confiou nos poderes criativos do inconsciente. Foi isso que o induziu a dar uma oportunidade aos primórdios do nacional socialismo, apesar de todas as suas reservas objetivas. Ele o viu, muito corretamente, como uma erupção de forças coletivas oriundas do inconsciente, mas estava ainda inclinado, na ocasião, a dar precedência ao mito do inconsciente sobre o mito da consciência.”
(Aniela Jaffé. O Mito do significado na obra de C G Jung./ tradução de Daniel Camarinha da Silva e Dulce Helena Pimentel da Silva. SP: Cultrix,, s/d, p. 141 et seq)
Em outras palavras, a consciência é o lugar do humano como sujeito da criação do mundo exterior e, ao mesmo tempo, objeto de seu mundo interior ou inconsciente.
Como observa Aniela Jaffé em O MITO DO SIGNIFICADO NA OBRA DE C G JUNG:
“ O “Mito do Significado” de Jung trata da consciência. A tarefa metafísica do homem consiste na contínua ampliação da consciência em geral, e seu destino como indivíduo, na criação da consciência individual. É a consciência que dá significado ao mundo. “ Sem a consciência reflexiva do homem, o mundo carece de uma gigantesca falta de sentido, pois o homem, pela nossa experiência, é o único ser capaz de perceber sentido”, escreveu Jung a Erich Neumann ( março de 1959). Entretanto, a ênfase de Jung na consciência nunca significou uma desvalorização do inconsciente, nem ele sequer cogitou que este pudesse ser “subjulgado”. Uma substituição do inconsciente pela consciência é totalmente inconcebível, se considerarmos que a esfera de ação dos dois não pode ser comparada, e que a consciência só adquire seu poder criativo estando enraizada no inconsciente, embora possamos ser inteiramente inconscientes da existência deste. A alta avaliação que Jung fazia da consciência estava presente nele, em embrião, desde o começo. Mas só no curso das décadas ele chegou a reconhecer seu papel predominante no destino humano. Inicialmente, antes de ter sondado as profundezas da sua natureza paradoxal, confiou nos poderes criativos do inconsciente. Foi isso que o induziu a dar uma oportunidade aos primórdios do nacional socialismo, apesar de todas as suas reservas objetivas. Ele o viu, muito corretamente, como uma erupção de forças coletivas oriundas do inconsciente, mas estava ainda inclinado, na ocasião, a dar precedência ao mito do inconsciente sobre o mito da consciência.”
(Aniela Jaffé. O Mito do significado na obra de C G Jung./ tradução de Daniel Camarinha da Silva e Dulce Helena Pimentel da Silva. SP: Cultrix,, s/d, p. 141 et seq)
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
ANTI COTIDIANO
Todos os dias
Perco-me nas mesmas rotinas
Em cotidianos ritos.
Mas sonho em cada
Mecânico ato
O inesperado
Da singularidade
De uma noite infinita
Em puro acontecer
De vida
Em súbita subjetividade
E alegria de acaso.
Perco-me nas mesmas rotinas
Em cotidianos ritos.
Mas sonho em cada
Mecânico ato
O inesperado
Da singularidade
De uma noite infinita
Em puro acontecer
De vida
Em súbita subjetividade
E alegria de acaso.
CONTROVÉRSIA DE ESPELHO
Leio nas entrelinhas
Do dia
Que me cobre a face
Os sorrisos escondidos
De distantes instantes
De imaginações e sonhos.
Em tudo que pensamos
Há, afinal,
Mais fantasia
Que realidade,
Mais alegrias e oceanos
Do que certezas
E enganosos acenos
De sedutoras verdades.
Meu destino
É o controvertido esforço
De criar um futuro
Que sustente o presente
Dos meus equívocos
Na intuição de mim mesmo
Alem do rosto
E em aleatório movimento
De plena liberdade.
Do dia
Que me cobre a face
Os sorrisos escondidos
De distantes instantes
De imaginações e sonhos.
Em tudo que pensamos
Há, afinal,
Mais fantasia
Que realidade,
Mais alegrias e oceanos
Do que certezas
E enganosos acenos
De sedutoras verdades.
Meu destino
É o controvertido esforço
De criar um futuro
Que sustente o presente
Dos meus equívocos
Na intuição de mim mesmo
Alem do rosto
E em aleatório movimento
De plena liberdade.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
CRONICA RELAMPAGO XX
As vezes vislumbro um verdadeiro abismo entre as palavras que cotidianamente me povoam, articuladas por pueris discursos de pragmático estar e ser, e os sentimentos ( valorações) difusos que me inquietam intimamente. Talvez tal distanciamento revele na verdade o abismo que condiciona a relação do meu eu com o mundo; o quanto somos em alguma medida disfuncionais a vida em sociabilidades publicas e privadas ( “sociedade” ). Contra isso, movimenta-se minha própria consciência em construção e busca.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
EXPERIÊNCIA E IMAGINAÇÕES
Um brilho de luz
Em gota de sonora
Chuva
Explode em mim
Um sol de pensamento.
A chuva se faz
Metáfora...
Vida,
Em algum intimo
Alem de mim mesmo.
No obscuro fundo
De imagens e imaginações
De ser
Apreendo e aprendo
Meu próprio rosto.
Em gota de sonora
Chuva
Explode em mim
Um sol de pensamento.
A chuva se faz
Metáfora...
Vida,
Em algum intimo
Alem de mim mesmo.
No obscuro fundo
De imagens e imaginações
De ser
Apreendo e aprendo
Meu próprio rosto.
POEMA QUADRADO
Entre quatro paredes
Descubro o infinito
De estar e saber
Nos quatro cantos do ser.
Descubro o limite
entre a pele e o mundo
na intensidade das sensações.
Não há dentro ou fora...
Tudo é intenso
nos quatro cantos da matéria.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
MITO: LINGUAGEM E META LINGUAGEM
Pode-se dizer que o homem é um zoom phonanta, um animal com linguagem. Mas tal afirmação só faz pleno sentido quando transcendemos o verbo e mergulhamos no complexo universo da relação entre linguagem e mito. De certa modo, pode-se dizer que o m,itop é uma ontologia linguistica, em poucas palavras, algo distinto dos conceitos cognoscitivos da elaboração verbal e configurados pela imagetica do simbolo. Tal imagetica nos remete a uma deficiencia linguistica elementar e a busca de sua superação na "paronímia" da palavra, na ambiguidade do verbo tranvertido de imagem, e que jamais pode ser reduzido a formulação e expressão de conceitos verbais. Isso na medida em que remete a um outro da própria linguagem, ao avesso da correspondência entre as palavras e as coisas.
UTOPIA
Impossível dizer
E fazer-se
No próprio rosto
Que no alem do céu
Descobre o oposto.
Sonho a vida,
O acaso
E o outro.
Sonho a realidade
De fantasias
E o sorriso de viver.
Sonho dentro
Do gosto e do sonho
Do sabor do corpo
Em um mundo sem pensamento
E fazer-se
No próprio rosto
Que no alem do céu
Descobre o oposto.
Sonho a vida,
O acaso
E o outro.
Sonho a realidade
De fantasias
E o sorriso de viver.
Sonho dentro
Do gosto e do sonho
Do sabor do corpo
Em um mundo sem pensamento
A ALQUIMIA E A IMAGINAÇÃO ATIVA
Alquimia e a imaginação ativa reúne seis palestras da Dr. Marie Louise von Franz realizadas no Instituto C G Jung em Zurique durante os meses de janeiro e fevereiro de 1969.
Para explorar este complexo tema a autora toma como base a obra de Gehard Dorn, medico e alquimista que viveu no sul da Alemanha na segunda metade do séc. XVI. Trata-se de um discípulo de Paracelso que contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da farmacologia.
Vale lembrar que a partir do séc. XVII a alquimia ocidental diluiu-se na consciência cristã perdendo sua base empírica enquanto filosofia da matéria e da natureza. A partir de então gradativamente ela reduziu-se a uma espécie de ensinamento moralista e relegado ao obscurantismo do ocultismo moderno. Em Dorn, ao contrário, ainda podemos encontrar a tendência inerente à tradição da alquimia ocidental de funcionar como uma vertente compensatória e subterrânea com relação ao cristianismo ortodoxo problematizando suas contradições e limitações..
Como observa a autora, por exemplo :
“... As questões do feminino e do corpo eram enormes problemas para Dorn, e seu plano consciente era, para falar cruamente, o mesmo que castrar a alquimia , como o fizeram mais tarde os franco maçons e os rosa cruzes, e torná-la artificialmente ajustada em sua weitanschauung. Assim, ele era, de certa forma, um daqueles pecadores. Por outro lado, uma genuína fascinação ainda o movia e, como medico e farmacologista, continuava com seus experimentos, portanto, não teve êxito em simplesmente pensar sobre a tradição alquímica e alicerça-la num tipo de visão cristã convencional, ele ficou atolado no conflito, que nunca conseguiu resolver embora tivesse tentado todos os caminhos. ( ...) como medico ele não podia, como fez o pároco Andréa, ignorar por completo o aspecto material do homem, isto é, o corpo e a vida real.”
( Marie Louise von Fran. Alquimia e imaginação Ativa, SP: Cultrix, s/d; p. 39)
Em um capitulo de sua obra “ A Filosofia Especulativa” intitulada “conversação por cujo intermédio o Animus tenta atrair para si o corpo e a alma”, encontramos um dialogo dramático cujo a forma, segundo von Franz, se aproxima do que hoje chamamos de imaginação ativa. Os protagonistas deste dialogo são S- o Spiritus, A- a Anima, C- o Corpo; e F- o Amor Filosófico. Como elucida a autora em outro momento:
“Resumidamente, pode-se ver que Dorn concebe quatro elementos no trabalho interior de unificação e três estágios ou graus. Os quatro elementos são Spiritus, Anima, Corpus e Cosmos. No inicio, Spiritus e Anima se unem, e transformam-se em Mens. A seguir, Mens e Corpus se unem e se convertem em Vir unus e, finalmente, na morte, o vir unus une-se ao universo, embora não em sua forma visível, mas como unus mundus, seu background potencial, invisível.
( idem p.152)
Para explorar este complexo tema a autora toma como base a obra de Gehard Dorn, medico e alquimista que viveu no sul da Alemanha na segunda metade do séc. XVI. Trata-se de um discípulo de Paracelso que contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da farmacologia.
Vale lembrar que a partir do séc. XVII a alquimia ocidental diluiu-se na consciência cristã perdendo sua base empírica enquanto filosofia da matéria e da natureza. A partir de então gradativamente ela reduziu-se a uma espécie de ensinamento moralista e relegado ao obscurantismo do ocultismo moderno. Em Dorn, ao contrário, ainda podemos encontrar a tendência inerente à tradição da alquimia ocidental de funcionar como uma vertente compensatória e subterrânea com relação ao cristianismo ortodoxo problematizando suas contradições e limitações..
Como observa a autora, por exemplo :
“... As questões do feminino e do corpo eram enormes problemas para Dorn, e seu plano consciente era, para falar cruamente, o mesmo que castrar a alquimia , como o fizeram mais tarde os franco maçons e os rosa cruzes, e torná-la artificialmente ajustada em sua weitanschauung. Assim, ele era, de certa forma, um daqueles pecadores. Por outro lado, uma genuína fascinação ainda o movia e, como medico e farmacologista, continuava com seus experimentos, portanto, não teve êxito em simplesmente pensar sobre a tradição alquímica e alicerça-la num tipo de visão cristã convencional, ele ficou atolado no conflito, que nunca conseguiu resolver embora tivesse tentado todos os caminhos. ( ...) como medico ele não podia, como fez o pároco Andréa, ignorar por completo o aspecto material do homem, isto é, o corpo e a vida real.”
( Marie Louise von Fran. Alquimia e imaginação Ativa, SP: Cultrix, s/d; p. 39)
Em um capitulo de sua obra “ A Filosofia Especulativa” intitulada “conversação por cujo intermédio o Animus tenta atrair para si o corpo e a alma”, encontramos um dialogo dramático cujo a forma, segundo von Franz, se aproxima do que hoje chamamos de imaginação ativa. Os protagonistas deste dialogo são S- o Spiritus, A- a Anima, C- o Corpo; e F- o Amor Filosófico. Como elucida a autora em outro momento:
“Resumidamente, pode-se ver que Dorn concebe quatro elementos no trabalho interior de unificação e três estágios ou graus. Os quatro elementos são Spiritus, Anima, Corpus e Cosmos. No inicio, Spiritus e Anima se unem, e transformam-se em Mens. A seguir, Mens e Corpus se unem e se convertem em Vir unus e, finalmente, na morte, o vir unus une-se ao universo, embora não em sua forma visível, mas como unus mundus, seu background potencial, invisível.
( idem p.152)
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
SHAKESPEARE E A TRAGÉDIA DE McBETH

A tragédia de Macbeth, composta provavelmente entre os anos de 1606 e 1909, impossível maior precisão, é uma das mais conhecidas de Shakespeare, muito embora, não rivalize com Hamlet ou Julio César que de muitas maneiras apresentam com esta certo paralelismo ou simetria temática e imagética.
Macbeth, pressupõe a fusão de dois imaginários destintos : o celta e o romano. É um épico de crime e expiação; uma tragédia cujo pano de fundo é o sombrio universo do poder, da traição, da astúcia, da loucura e do destino.
Esta tragédia, singularmente sangrenta, nos faz pensar sobre o peso das conseqüências e significados possíveis das ações humanas até os meandros que levam cada um de nós a retirada do palco da vida. Sua atmosfera é sombria... ou, poderíamos dizer, demasiadamente humana.
Julgo conveniente para ilustra-la uma pequena fala de Lady Macbeth na cena II do III Ato:
“Nada temos e tudo se gastou quando nosso desejo foi obtido sem alegria. É mais seguro ser o que destruímos do que, pela destruição, viver um contentamento duvidoso. Porque andais sozinho, meu Senhor, fazendo das mais tristes imaginações os vossos companmheiros e usando pensamentos que, na verdade, já deveriam ter morrido com elas? Não se deve estimar o que não tem remédio, e o que esta feito, esta feito.”
(William Shakespeare. A Tragédia de Macbeth. Lisboa: Edição Livros do Brasil, 1987, p.117)
Macbeth, pressupõe a fusão de dois imaginários destintos : o celta e o romano. É um épico de crime e expiação; uma tragédia cujo pano de fundo é o sombrio universo do poder, da traição, da astúcia, da loucura e do destino.
Esta tragédia, singularmente sangrenta, nos faz pensar sobre o peso das conseqüências e significados possíveis das ações humanas até os meandros que levam cada um de nós a retirada do palco da vida. Sua atmosfera é sombria... ou, poderíamos dizer, demasiadamente humana.
Julgo conveniente para ilustra-la uma pequena fala de Lady Macbeth na cena II do III Ato:
“Nada temos e tudo se gastou quando nosso desejo foi obtido sem alegria. É mais seguro ser o que destruímos do que, pela destruição, viver um contentamento duvidoso. Porque andais sozinho, meu Senhor, fazendo das mais tristes imaginações os vossos companmheiros e usando pensamentos que, na verdade, já deveriam ter morrido com elas? Não se deve estimar o que não tem remédio, e o que esta feito, esta feito.”
(William Shakespeare. A Tragédia de Macbeth. Lisboa: Edição Livros do Brasil, 1987, p.117)
A FLOR, TEMPO E FINITUDE
A natureza
Em aleatório capricho
Faz a beleza
De uma pequena flor selvagem
Surpreender as pedras de um muro.
Improvável combinação
Colhida por olhos humanos
Que na permanência quase eterna da pedra
Questionam a presença daquele perene adorno.
Como se entre a flor e a pedra
Houvesse a mesma distância
Que há entre o homem
E o tempo
Em suas ilusões de infinito
E angustias de finitude.
Em aleatório capricho
Faz a beleza
De uma pequena flor selvagem
Surpreender as pedras de um muro.
Improvável combinação
Colhida por olhos humanos
Que na permanência quase eterna da pedra
Questionam a presença daquele perene adorno.
Como se entre a flor e a pedra
Houvesse a mesma distância
Que há entre o homem
E o tempo
Em suas ilusões de infinito
E angustias de finitude.
CRÔNICA RELÂMPAGO XIX

Gostamos de imaginar que estamos sempre em algum preciso ponto de nossas vidas.
Como se os passados todos pudessem ser organizados em torno do momento presente, definindo um teleológico processo de continuidade biográfica. Mas nada é mais ilusório do que esta hipotética totalidade definidora do agora de nossa presença no mundo. O tempo, em verdade, quase não existe como cumulativa experiência de nós mesmos. Somos o contraditório “outro” de uma sucessão de “eus” que se perderam ao acontecer... Somos um vácuo entre o que foi e o que será em nossas ausências.
Como se os passados todos pudessem ser organizados em torno do momento presente, definindo um teleológico processo de continuidade biográfica. Mas nada é mais ilusório do que esta hipotética totalidade definidora do agora de nossa presença no mundo. O tempo, em verdade, quase não existe como cumulativa experiência de nós mesmos. Somos o contraditório “outro” de uma sucessão de “eus” que se perderam ao acontecer... Somos um vácuo entre o que foi e o que será em nossas ausências.
NUVENS
Nuvens passeiam
Por um noturno céu
Sem estrelas.
Seguem em procissão
De lugar algum
Ao nada adiante.
Como a própria vida
Em seu acaso.
Esqueço os planos
Do dia seguinte
Abandonando-me
Em abismos de horas,
Passando por em sonho
Como mais uma nuvem
Sem destino ou rumo.
Por um noturno céu
Sem estrelas.
Seguem em procissão
De lugar algum
Ao nada adiante.
Como a própria vida
Em seu acaso.
Esqueço os planos
Do dia seguinte
Abandonando-me
Em abismos de horas,
Passando por em sonho
Como mais uma nuvem
Sem destino ou rumo.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
A INDIVIDUAÇÃO COMO CRITICA A MODERNIDADE
É redundante dizer que Jung foi um critico da modernidade e suas instituições políticas, tanto quanto da modalidade de coletivização social representada pela massificação que definiria as sociedades pós industriais do ocidente. Mas para uma compreensão adequada de sua critica é conveniente bem compreender o papel que o processo de individuação desempenha em seu pensamento.
Podemos em linhas muito gerais defini-lo como um novo foco de subjetivação centrado na experiência psicológica da unidade dos opostos, na emancipação do individuo das regras coletivas mediante a elaboração ou constelação de uma imagem e sentimento próprio de mundo através da progressiva retirada de projeções e integração de conteúdos psíquicos.
A individuação, mais do que um processo vital, compreende o novo mito elaborado e vivido pelo homem contemporâneo, uma resposta a diluição de sua consciência nas configurações impostas pela sociedade de massas.
Valho-me do seguinte fragmento para aprofundar esta delicada questão:
“ Vivemos numa época de conturbação e desintegração. Tudo tornou-se problemático. Como costuma acontecer em tais circunstâncias, conteúdos do inconsciente forçam passagem para as fronteiras da consciência com a finalidade de compensar a situação de emergência. Vale a penas, pois, examinar minunciosamente todos os fenômenos limite, por mais obscuros que possam parecer, a fim de descobrir neles os germes de uma nova ordem possível. O fenômeno da transferência é, sem duvida alguma, uma das síndromes mais importantes e decisivas do processo de individuação e significa mais do que uma simples atração e repulsa de ordem pessoal. Graças a seus conteúdos e símbolos coletivos, ele ultrapassa de longe a pessoa, e atinge a esfera do social, trazendo-nos à memória aqueles contextos humanos superiores que, por dolorosa que seja, faltam à nossa ordem, ou melhor, à desordem social dos nossos dias. Os símbolos do circulo e da quaternidade , tão característicos do processo de individuação, remetem-nos, por um lado, ao passado, a uma ordem originaria primitiva da sociedade humana e, por outro, apontam para o futuro, rumo a uma ordem interior da alma, como se esta fosse instrumento indispensável à reorganização da comunidade cultural, em oposição às organizações coletivas tão apreciadas hoje em dia, as quais constituem um agregado de seres semi-humanos, inacabados e imaturos. As referidas organizações só tem sentido, se o material que pretendem ordenar é de algum valor. O homem massificado, contudo, não tem valor; é uma simples partícula que perdeu sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade. O que falta ao nosso mundo é a conexão anímica. Não há associação profissional ou comunidade de interesses econômicos, não há partido político ou Estado que possa jamais substitui-la. Não é de estranhar-se, portanto, que não sejam os sociólogos, mas sim os médicos, os primeiros a sentirem claramente as verdadeiras necessidades dos homens, pois ao eles, como psioterapeutas, osque lidam mais de perto com as aflições da alma humana.”
( C.G. Jung. Obras Completas. Vol. XVI/2: Ab-reação, Analise dos Sonhos, Transferência./ tradução de de Maria Luiza Appy. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 186 et seq.)
Podemos em linhas muito gerais defini-lo como um novo foco de subjetivação centrado na experiência psicológica da unidade dos opostos, na emancipação do individuo das regras coletivas mediante a elaboração ou constelação de uma imagem e sentimento próprio de mundo através da progressiva retirada de projeções e integração de conteúdos psíquicos.
A individuação, mais do que um processo vital, compreende o novo mito elaborado e vivido pelo homem contemporâneo, uma resposta a diluição de sua consciência nas configurações impostas pela sociedade de massas.
Valho-me do seguinte fragmento para aprofundar esta delicada questão:
“ Vivemos numa época de conturbação e desintegração. Tudo tornou-se problemático. Como costuma acontecer em tais circunstâncias, conteúdos do inconsciente forçam passagem para as fronteiras da consciência com a finalidade de compensar a situação de emergência. Vale a penas, pois, examinar minunciosamente todos os fenômenos limite, por mais obscuros que possam parecer, a fim de descobrir neles os germes de uma nova ordem possível. O fenômeno da transferência é, sem duvida alguma, uma das síndromes mais importantes e decisivas do processo de individuação e significa mais do que uma simples atração e repulsa de ordem pessoal. Graças a seus conteúdos e símbolos coletivos, ele ultrapassa de longe a pessoa, e atinge a esfera do social, trazendo-nos à memória aqueles contextos humanos superiores que, por dolorosa que seja, faltam à nossa ordem, ou melhor, à desordem social dos nossos dias. Os símbolos do circulo e da quaternidade , tão característicos do processo de individuação, remetem-nos, por um lado, ao passado, a uma ordem originaria primitiva da sociedade humana e, por outro, apontam para o futuro, rumo a uma ordem interior da alma, como se esta fosse instrumento indispensável à reorganização da comunidade cultural, em oposição às organizações coletivas tão apreciadas hoje em dia, as quais constituem um agregado de seres semi-humanos, inacabados e imaturos. As referidas organizações só tem sentido, se o material que pretendem ordenar é de algum valor. O homem massificado, contudo, não tem valor; é uma simples partícula que perdeu sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade. O que falta ao nosso mundo é a conexão anímica. Não há associação profissional ou comunidade de interesses econômicos, não há partido político ou Estado que possa jamais substitui-la. Não é de estranhar-se, portanto, que não sejam os sociólogos, mas sim os médicos, os primeiros a sentirem claramente as verdadeiras necessidades dos homens, pois ao eles, como psioterapeutas, osque lidam mais de perto com as aflições da alma humana.”
( C.G. Jung. Obras Completas. Vol. XVI/2: Ab-reação, Analise dos Sonhos, Transferência./ tradução de de Maria Luiza Appy. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 186 et seq.)
TRANSFIGURAÇÃO NATURAL
Desnuda-se a vida
Na transcendência
De pensamentos.
Escreve-se o mundo
Nos cinco cantos
Do meu corpo
Em sensações abertas.
Todas as coisas
Animadas e inanimadas
Apresentam-se
Em sabores e sabedorias
De imprecisas infâncias.
Tudo que vejo
É um relâmpago
De diurno sonho,
Festa de cores
Em fatos e atos
Despidos em sol.
Na transcendência
De pensamentos.
Escreve-se o mundo
Nos cinco cantos
Do meu corpo
Em sensações abertas.
Todas as coisas
Animadas e inanimadas
Apresentam-se
Em sabores e sabedorias
De imprecisas infâncias.
Tudo que vejo
É um relâmpago
De diurno sonho,
Festa de cores
Em fatos e atos
Despidos em sol.
INDIVIDUALIDADE, IDENTIDADE E SIGNIFICADO
O tempo de uma existência humana não vai alem do breve espaço de algumas miseras décadas. Mas a mítica que impomos ao campo das singularidades individuais nos condiciona a atribuir a biografia humana o estatuto de um “segredo”, um significado único que representa o próprio si da vida.
É na imanência, no imediato e no particular da fenomenologia humana onde hoje nos abrigamos e buscamos compreender nosso “estar- presente- no-mundo” sem o conforto de metas narrativas de inspiração “coletivista” ou política.
Nada mais natural que o individuo, entretanto, já não se apresente como uma unidade definível e inteiramente cognoscível, mas como uma pluralidade difusa de fenômenos enfaixados pela simples auto consciência e auto afeição de si mesmo estabelecida em sua inteiração com o outro de sua consciência que é o próprio mundo.
A individualidade humana é um fluir cada vez mais obscuro cuja imagem chave ou estruturante parece ser o mito do herói em suas infinitas variações.
Neste sentido, a idéia de meta, de propósito, talvez seja mais presente e decisiva ao destino do individuo e a experiência da individualidade do que propriamente a invenção e consciência coletiva de uma sociedade.
É na imanência, no imediato e no particular da fenomenologia humana onde hoje nos abrigamos e buscamos compreender nosso “estar- presente- no-mundo” sem o conforto de metas narrativas de inspiração “coletivista” ou política.
Nada mais natural que o individuo, entretanto, já não se apresente como uma unidade definível e inteiramente cognoscível, mas como uma pluralidade difusa de fenômenos enfaixados pela simples auto consciência e auto afeição de si mesmo estabelecida em sua inteiração com o outro de sua consciência que é o próprio mundo.
A individualidade humana é um fluir cada vez mais obscuro cuja imagem chave ou estruturante parece ser o mito do herói em suas infinitas variações.
Neste sentido, a idéia de meta, de propósito, talvez seja mais presente e decisiva ao destino do individuo e a experiência da individualidade do que propriamente a invenção e consciência coletiva de uma sociedade.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
O HERMETISMO E AS ORIGENS DA CIENCIA MODERNA

Da Alquimia a Química: Um estudo sobre a passagem do pensamento Mágico Vitalista ao mecanicismo de Ana Maria Alfonso Goldfard, constitui uma obra de referência para as pesquisas sobre a gênese do cientificismo moderno cujas as origens, contraditoriamente, devem ser buscadas no hermetismo neo platônico renascentista e sua critica a escolástica então estabelecidos como universo lingüístico configurador do imaginário medieval, tanto quanto na reforma protestante.
Ironicamente foi movendo-se em um horizonte de inspiração aristotélica que tal critica iniciou a desconstrução do próprio aristotelismo não resistindo ao seu crepúsculo e a desarticulação da cosmogonia que sustentava e a emergência do mecanicismo como aurora da construção de novas sensibilidades e imagens de mundo.
Como observa aa autora aqui citada:
“... O estudo das chamadas ciências “herméticas” ou “mágicas”, panacéia universal contra os males que oprimiam o europeu a partir do séc. XIV, tornara-se sinônimo de resistência e esperança. Alguns lugares, onde o poder eclesiástico deixava de ser soberano, onde a Reforma começava a se estabelecer ou onde o domínio pertencia à burguesia crescente da época, tornaram-se paraísos para o estudo de tudo aquilo que tinha sido proibido pela Igreja. E, como ela havia se tornado sinônimo do pensamento aristotélico, a sentença de morte dedicada ao poder eclesiástico acabaria por atingir também a este.
Estados inteiros europeus assimilam idéias herméticos e neo-platônicos a sua literatura, arquitetura e vida cotidiana. Homens cultos, das mais variadas procedências, buscam, ávidos, textos antigos, na tentativa, na tentativa de restabelecer o conhecimento que os escolásticos tinham “desperdiçado” ou “distorcido”. A enchente de textos alquímicos e magicos; iniciada no séc. XV, torna-se o foco para as reformas sociais; de ensino e de conhecimento, que a resistência quer propagar.
O que talvez essa resistência não soubesse era que, ao chocar-se frontalmente contra o sistema estabelecido, estava oferecendo elementos que acabariam por fazer ruir a base comum cosmológica, que também se baseava sua reforma.
São talvez essas contradições que acabam por tornar a história mais interessante. É do conhecimento geral que trabalhos como o de Copérnico e Kepler basearam-se nas teorias neo platônicas da perfeição mágica do circulo, contra o modelo ptolomaico assimilado pela escolástica. Entretanto, esse mesmo modelo por sua vez, acabaria por determinar a eliminação do modelo antropocêntrico e, com ele, o das cadeias simbólicas que ligavam macro e micro cosmo. O segundo acabaria por descobrir que o modelo celeste, perfeito e harmônico, de onde provinham as emanações criadoras do mundo, teria de ser rompido para dar lugar a um sistema baseado numa figura menos perfeita, mas mais próxima da realidade.”
(Ama Maria Alfonso Goldfard. Da Alquimia a Química: Um estudo sobre a passagem do pensamento mágico-vitalista ao mecanicismo. SP: Nova Stella, EDUSP, 1987; p. 255 et seq.)
Ironicamente foi movendo-se em um horizonte de inspiração aristotélica que tal critica iniciou a desconstrução do próprio aristotelismo não resistindo ao seu crepúsculo e a desarticulação da cosmogonia que sustentava e a emergência do mecanicismo como aurora da construção de novas sensibilidades e imagens de mundo.
Como observa aa autora aqui citada:
“... O estudo das chamadas ciências “herméticas” ou “mágicas”, panacéia universal contra os males que oprimiam o europeu a partir do séc. XIV, tornara-se sinônimo de resistência e esperança. Alguns lugares, onde o poder eclesiástico deixava de ser soberano, onde a Reforma começava a se estabelecer ou onde o domínio pertencia à burguesia crescente da época, tornaram-se paraísos para o estudo de tudo aquilo que tinha sido proibido pela Igreja. E, como ela havia se tornado sinônimo do pensamento aristotélico, a sentença de morte dedicada ao poder eclesiástico acabaria por atingir também a este.
Estados inteiros europeus assimilam idéias herméticos e neo-platônicos a sua literatura, arquitetura e vida cotidiana. Homens cultos, das mais variadas procedências, buscam, ávidos, textos antigos, na tentativa, na tentativa de restabelecer o conhecimento que os escolásticos tinham “desperdiçado” ou “distorcido”. A enchente de textos alquímicos e magicos; iniciada no séc. XV, torna-se o foco para as reformas sociais; de ensino e de conhecimento, que a resistência quer propagar.
O que talvez essa resistência não soubesse era que, ao chocar-se frontalmente contra o sistema estabelecido, estava oferecendo elementos que acabariam por fazer ruir a base comum cosmológica, que também se baseava sua reforma.
São talvez essas contradições que acabam por tornar a história mais interessante. É do conhecimento geral que trabalhos como o de Copérnico e Kepler basearam-se nas teorias neo platônicas da perfeição mágica do circulo, contra o modelo ptolomaico assimilado pela escolástica. Entretanto, esse mesmo modelo por sua vez, acabaria por determinar a eliminação do modelo antropocêntrico e, com ele, o das cadeias simbólicas que ligavam macro e micro cosmo. O segundo acabaria por descobrir que o modelo celeste, perfeito e harmônico, de onde provinham as emanações criadoras do mundo, teria de ser rompido para dar lugar a um sistema baseado numa figura menos perfeita, mas mais próxima da realidade.”
(Ama Maria Alfonso Goldfard. Da Alquimia a Química: Um estudo sobre a passagem do pensamento mágico-vitalista ao mecanicismo. SP: Nova Stella, EDUSP, 1987; p. 255 et seq.)
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
BREVE HISTÓRIA DA UNION JACK

Ao que se sabe, a primeira versão da Union Jack ou Union Flag ( bandeira da união) foi criada em abril de 1606 pela combinação das cruzes de São Jorge e Santo André, representadas respectivamente nas bandeiras nacionais da Inglaterra e da Escócia. Sua origem remonta ao reinado de James VI da Escócia o qual, já chamado James I da Inglaterra, ascendeu ao trono inglês em 1603 e uniu os dois reinos em um só. Tornou-se o primeiro rei com pretensões ao titulo de rei da Grã Bretanha., oque lhe foi vedado pelos parlamentos da Inglaterra e da escócia. No século XVII, a bandeira sofreu várias mudanças: após a execução de Charles I em 1649, o Lorde Protetor, Oliver Cromwell, introduziu uma bandeira especial da Commonwealth (Comunidade Britânica), a qual consistia na cruz de São Jorge e a harpa dourada da Irlanda, mas com a revolução gloriosa, a restauração da monarquia e a conseqüente coroação de Charles II em 1660, a Union Flag de James I foi reintroduzida.
A atual versão da Union Flag surgiu em 1801, logo após a união da Grã-Bretanha com a Irlanda, com a inclusão da cruz de São Patrício. A cruz permanece na bandeira, embora, atualmente, apenas a Irlanda do Norte faça parte do Reino Unido.
Paises como a Nova Zelândia ou Austrália possuem a union flag na parte superior esquerda de suas bandeiras como sinal de filiação a Commonwealth ( comunidade britânica).
A atual versão da Union Flag surgiu em 1801, logo após a união da Grã-Bretanha com a Irlanda, com a inclusão da cruz de São Patrício. A cruz permanece na bandeira, embora, atualmente, apenas a Irlanda do Norte faça parte do Reino Unido.
Paises como a Nova Zelândia ou Austrália possuem a union flag na parte superior esquerda de suas bandeiras como sinal de filiação a Commonwealth ( comunidade britânica).
O que mais me chama atenção é a popularidade desta curiosa bandeira multi nacional para alem de seu originário contexto cultural... Seu apelo simbólico é dificil de definir...
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
LITERATURA INGLESA XX

"Aqui jaz o corpo de Jonathan Swift, doutor em Teologia e deão desta catedral, onde a colérica indignação não poderá mais dilacerar-lhe o coração. Segue, passante, e imita, se puderes, esse que se consumiu até o extremo pela causa da Liberdade".
Jonathan Swift ( 1667-1745) foi um dos mais notórios escritores irlandeses de todos os tempos. Notabilizou-se por suas obras satíricas como por exemplo a derradeira “ Conversação Polida” ( 1738) sobre a arte da conversação na Inglaterra. Mas foi um romance que lhe assegurou definitivamente a notoriedade. Refiro-me evidentemente As Viagens de Gulliver, originalmente publicada em 1726 com o titulo Viagens de Lemuel Gulliver , que hoje encontra-se injustamente relegado a opacidade do imaginário literário infanto juvenil.
Mas a referida obra compreende na verdade uma viva expressão do polêmico, critico e sarcástico espírito do seu autor. Podemos compara-la a UTOPIA de Morus quanto a critica da sociedade do seu tempo a partir de paisagens e lugares imaginários, mas diferente do autor da Utopia, não é o modelo ou possibilidade de um lugar ideal e exemplar de inspiração platônica ( A Republica) que lhe inspira, mas surpreendentemente um discurso de alteridade frente a vaidade da civilização ocidental ou européia no dialogo ou encontro com outras culturas. Este ideal de alteridade , de relativismo cultural, compreende a atualidade desta obra nada inocente.
“... Pode o leitor admirar-se de que eu acabasse comigo a fazer uma descrição tão franca da minha própria espécie entre uma raça de mortais já demasiado inclinada a haver em tão pequena conta o governo humano, em virtude da minha perfeita semelhança aos yahoos. Mas devo confessar francamente que as virtudes desses excelentes quadrúpedes, colocadas em oposição às corrupções humanas, me tinham aberto de forma os olhos e ampliado o entendimento que principiei a encarar o s atos e as paixões dos homens a uma luz muito diferente e a julgar que a honra da minha própria espécie não merecia ser poupada; o que alias me seria impossível fazer diante de pessoa de tão aguda percepção como meu amo, que diariamente me convencia da existência de mil defeitos em mim mesmo, dos quais eu não tivera ainda o mínimo discernimento e que , entre nós, nunca seriam contados entre as fraquezas humanas. Eu aprendera também, com seu exemplo, a detestar inteiramente toda e qualquer falsidade ou disfarce; e a verdade seme entrefigurava tão amável que determinei tudo sacrificar por ela...”
( Jonathan Swift. Viagens de Gulliver/ tradução de Otavio Mendes Cajado. RJ: Editora Globo, 1987, p.294)
“... É fácil para nós viajarmos em paises remotos, raro visitados por ingleses ou por outros europeus, e apresentarmos descrições de maravilhosos animais, tanto no mar como na terra. Devera ser, todavia, o principal intento do viajante tornar mais sábios e melhores os homens e aprimorar-lhes o espírito pelo exemplo, bom ou mau, do que dizem acerca de terras estranhas.”
( Jonathan Swift. Viagens de Gulliver/ tradução de Otavio Mendes Cajado. RJ: Editora Globo, 1987, p.294)
SOMBRA
Alem da noite
E do dia
Habitam sombras
Sem tempo.
Silêncios e sonhos
Esquecidos
De alguma parte
Perdida de mim.
Testemunho de avesso
Mágico de espelhos
Onde contemplo atônicoMeus outros eus.
E do dia
Habitam sombras
Sem tempo.
Silêncios e sonhos
Esquecidos
De alguma parte
Perdida de mim.
Testemunho de avesso
Mágico de espelhos
Onde contemplo atônicoMeus outros eus.
A CONSCIÊNCIA EGOICA E OS LIMITES DO COGNOSCIVEL

Existimos como consciência de nossa própria existência e do mundo no tempo e no espaço, na peculiaridade de um determinado eu. Mas o que é o eu a não ser a pluralidade das presenças que nos configuram entre o inefável e o nefando da consciência e seu universo mágico?
Enquanto complexo de identidade o eu apresenta uma fenomenologia sinuosa que tentarei aqui problematizar reproduzindo uma breve passagem de A BUSCA DO SIMBOLO: CONCEITOS BÁSICOS DE PSICOLOGIA ANALÍTICA de Edward C. Whitmont:
“No inicio do nosso século, o mapeamento que Freud fez da dinâmica do inconsciente revelou o fato surpreendente de que nós somos mais do que o ego, mais do que o “eu” que sabemos que somos. Hoje, a idéia de um inconsciente tornou-se mais ou menos aceita. Habituamo-nos à divisão de nossas psiques numa área de consciência do ego que admitimos como racional e cognoscível e numa área de inconsciência que admitimos ser desconhecida e até mesmo em parte incognoscível.
Entretanto, quando começamos a investigar o ego, ficamos atônicos ao descobrir que até mesmo a área de consciência não é tão racional ou explicável como pensamos. O ponto essencial da dificuldade, como Kant deixou claro, reside no fato de que o “eu” esta tentando observar a si mesmo. Tocamos neste ponto o impasse mais crítico de toda a psicologia, isto é,m o fato de que a psique é tanto objeto como o sujeito da investigação. Quando a consciência estuda o inconsciente, há pelo menos uma aparente separação sujeito-objeto, mas quando o consciente tenta fazer uma afirmação a seu próprio respeito, é como se o olho tentasse ver a si mesmo; somos então confrontados com o apogeu de um impasse lógico. Como surge o consciente ou o ego ( será que eles são diferentes) ? Onde essa identidade se funde com o inconsciente? A cada passo o mistério se aprofunda. Se não somos capazes de entender sequer o ego, o que não dizer do resto?”
(Edward C. Whitmont. A BUSCA DO SIMBOLO: CONCEITOS BÁSICOS DE PSICOLOGIA ANALÍTICA/ tradução de Eliane Fittipaldi Pereira e Kátia Maria Orberg.. SP: Cultrix , p. 205)
A dinâmica da psique não se reduz a qualquer leitura ou experiência possivel dela. Qualquer imagem cientifica ou não formada em nossas cabeças a seu respeito é em tudo produto desta mesma psique e das configurações especificas do nosso ego e consciência. Esse limite do cognoscível é o que nos conduz a uma aproximação criativa entre ciência e fantasia na elaboração do mundo enquanto realidade de um discurso ontológico.
Enquanto complexo de identidade o eu apresenta uma fenomenologia sinuosa que tentarei aqui problematizar reproduzindo uma breve passagem de A BUSCA DO SIMBOLO: CONCEITOS BÁSICOS DE PSICOLOGIA ANALÍTICA de Edward C. Whitmont:
“No inicio do nosso século, o mapeamento que Freud fez da dinâmica do inconsciente revelou o fato surpreendente de que nós somos mais do que o ego, mais do que o “eu” que sabemos que somos. Hoje, a idéia de um inconsciente tornou-se mais ou menos aceita. Habituamo-nos à divisão de nossas psiques numa área de consciência do ego que admitimos como racional e cognoscível e numa área de inconsciência que admitimos ser desconhecida e até mesmo em parte incognoscível.
Entretanto, quando começamos a investigar o ego, ficamos atônicos ao descobrir que até mesmo a área de consciência não é tão racional ou explicável como pensamos. O ponto essencial da dificuldade, como Kant deixou claro, reside no fato de que o “eu” esta tentando observar a si mesmo. Tocamos neste ponto o impasse mais crítico de toda a psicologia, isto é,m o fato de que a psique é tanto objeto como o sujeito da investigação. Quando a consciência estuda o inconsciente, há pelo menos uma aparente separação sujeito-objeto, mas quando o consciente tenta fazer uma afirmação a seu próprio respeito, é como se o olho tentasse ver a si mesmo; somos então confrontados com o apogeu de um impasse lógico. Como surge o consciente ou o ego ( será que eles são diferentes) ? Onde essa identidade se funde com o inconsciente? A cada passo o mistério se aprofunda. Se não somos capazes de entender sequer o ego, o que não dizer do resto?”
(Edward C. Whitmont. A BUSCA DO SIMBOLO: CONCEITOS BÁSICOS DE PSICOLOGIA ANALÍTICA/ tradução de Eliane Fittipaldi Pereira e Kátia Maria Orberg.. SP: Cultrix , p. 205)
A dinâmica da psique não se reduz a qualquer leitura ou experiência possivel dela. Qualquer imagem cientifica ou não formada em nossas cabeças a seu respeito é em tudo produto desta mesma psique e das configurações especificas do nosso ego e consciência. Esse limite do cognoscível é o que nos conduz a uma aproximação criativa entre ciência e fantasia na elaboração do mundo enquanto realidade de um discurso ontológico.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
O PROBLEMA DO QUARTO NA TRINDADE
O símbolo trinitário, enquanto expressão ou tradução da totalidade da psique ou experiência do arquétipo do Self, tal como encontramos no cristianismo hortodoxo, revêla-se em franca contradição com a experiência desta mesma totalidade caso consideremos amplamente o patrimônio simbólico e mitológico das representações do sagrado difundido em um sem numero de épocas, lugares e culturas.
Tal contraste pode ser interpretado como um indício da dissociação psíquica introdizida pelo mito cristão, enquanto religião dos mistérios originária dos hibridismos e releituras da imagem do sagrado a partir de uma matriz “orientalista” que tiveram lugar no crepúsculo do mundo grego clássico.
Parto para tal julgamento da premissa de que a formula quaternária é a mais recorrente e significativa nas representações da totalidade. O que faria do símbolo trinitário cristão hortodoxo uma quaternidade imperfeita. Afinal, ela pressupõe um quarto elemento em oposição e complementação, seja mediante a imagem do “adiversário” (diabo) ou do feminino reprimido ( Maria).
Tal contraste pode ser interpretado como um indício da dissociação psíquica introdizida pelo mito cristão, enquanto religião dos mistérios originária dos hibridismos e releituras da imagem do sagrado a partir de uma matriz “orientalista” que tiveram lugar no crepúsculo do mundo grego clássico.
Parto para tal julgamento da premissa de que a formula quaternária é a mais recorrente e significativa nas representações da totalidade. O que faria do símbolo trinitário cristão hortodoxo uma quaternidade imperfeita. Afinal, ela pressupõe um quarto elemento em oposição e complementação, seja mediante a imagem do “adiversário” (diabo) ou do feminino reprimido ( Maria).
MARCO
O dia de hoje
é como um muro
a desconstruir futuros
no caminho de um
impertinente presente.
em minha alma
entregue
a a riscos e sortes
vislumbro os imperativos
do acaso
nos rumos incertos do vento.
O dia de hoje
é o limite de um amanhã
provável
a separar silencioso
o tempo de amanhã
e o de ontem.
é como um muro
a desconstruir futuros
no caminho de um
impertinente presente.
em minha alma
entregue
a a riscos e sortes
vislumbro os imperativos
do acaso
nos rumos incertos do vento.
O dia de hoje
é o limite de um amanhã
provável
a separar silencioso
o tempo de amanhã
e o de ontem.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
MUDO ESPELHO MUNDO
Nenhum propósito
Me define
A existência das coisas.
Tudo é aleatório jogo
De apostas e ilusões
Em caminhos ocos
De pensamento.
Nenhum background
Assegura-me sortes
Ou destinos
No sofrer a vida
Que em tudo
Só diz meu rosto
E meu caminho.
Me define
A existência das coisas.
Tudo é aleatório jogo
De apostas e ilusões
Em caminhos ocos
De pensamento.
Nenhum background
Assegura-me sortes
Ou destinos
No sofrer a vida
Que em tudo
Só diz meu rosto
E meu caminho.
CRONICA RELÂMPAGO XVIII
Vislumbro cada dia vivido como uma pequena peça do complexo quebra cabeça da minha consciência de mundo. Ação e pensamento definen, assim, a “presença”, “o-estar aqui-presente” que á a própria existência.
Sei que o encadeamento de significados que vivo e me vivem em cada vislumbre cognitivo, depende do fluxo de aleatórios e intercalados acontecimentos que acumulados formam meu enredo biográfico ou o quebra cabeça cuja imagem a ser formada é a meta do meu próprio rosto; não como o esboço provisório de minha imagem nos dias, mas como acabada e nítida definição de quem sou.
Em poucas palavras, o metafórico quebra cabeça aqui concebido é minha própria consciência na aventura da absoluta fluidez absoluta de seu movimento.
Sei que o encadeamento de significados que vivo e me vivem em cada vislumbre cognitivo, depende do fluxo de aleatórios e intercalados acontecimentos que acumulados formam meu enredo biográfico ou o quebra cabeça cuja imagem a ser formada é a meta do meu próprio rosto; não como o esboço provisório de minha imagem nos dias, mas como acabada e nítida definição de quem sou.
Em poucas palavras, o metafórico quebra cabeça aqui concebido é minha própria consciência na aventura da absoluta fluidez absoluta de seu movimento.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
PAGANISMO
Cada movimento
de inquieta palavra
é uma tentativa
de escrever o invisivel.
Inutil esforço
de vislumbrar
o multiplo
que nega o absoluto
na matéria d'alma.
Deuses e Deusas
sussurram a natureza
no saber do sol e da lua
encantando o mundo
no beijo de imaginações perdidas.
de inquieta palavra
é uma tentativa
de escrever o invisivel.
Inutil esforço
de vislumbrar
o multiplo
que nega o absoluto
na matéria d'alma.
Deuses e Deusas
sussurram a natureza
no saber do sol e da lua
encantando o mundo
no beijo de imaginações perdidas.
JAMES HILMAN E O BINARIO ANIMA/ANIMUS

Dentre os inúmeros conceitos que ilustram o dinamismo do inconsciente na perspectiva da psicologia analítica, o binário Anima/Animus pode ser considerado um dos mais complexos .
Anima é normalmente traduzida como o aspecto contra sexual inconsciente da psique masculina, enquanto animus é empregado de modo similar para definir o aspectro contrasexual inconsciente da psique feminina.
James Hilman, entretanto, de modo heterodoxo, estabelece a premissa de que estar envolvido com anima implica simultaneamente estar envolvido com Animus. Anima e Animus tornam-se assim arquétipos presentes indiscriminadamente na psique masculina e feminina, personificando o animus o plano lógico e discriminatório da consciência enquanto anima a própria imaginação criadora e a subjetividade.
Como esclarece o autor:
Anima é normalmente traduzida como o aspecto contra sexual inconsciente da psique masculina, enquanto animus é empregado de modo similar para definir o aspectro contrasexual inconsciente da psique feminina.
James Hilman, entretanto, de modo heterodoxo, estabelece a premissa de que estar envolvido com anima implica simultaneamente estar envolvido com Animus. Anima e Animus tornam-se assim arquétipos presentes indiscriminadamente na psique masculina e feminina, personificando o animus o plano lógico e discriminatório da consciência enquanto anima a própria imaginação criadora e a subjetividade.
Como esclarece o autor:
“ Imaginar em pares e casais é pensar mitologicamente. O pensamento mítico conecta os pares em tandens, em vez de separa-los em opostos, que é o modo da filosofia. Opostos prestam-se a pouquíssimos tipos de descrição: contraditórios, contrários, complementares, negações- formal e lógica. Tandens, por sua vez, como irmãos, inimigos, negociantes ou amantes apresentam infinita variedade de estilos. Tandens favorecem o intercurso- em inúmeras posições. A oposição é apenas um dos vários modos de estar num tendem.
A noção de sizilia demanda que uma exaustiva exploração de anima examine o animus na mesma medida. Para fazer justiça à isto aconteceu todas as nossas observações nasceram de uma posição contrastante, e cada uma dessas outras posições pode ser encarada representando o outro, o animus, em uma de suas perspectivas. Isto, de certa maneira, justifica uma velha discussão de Neuman de que o desenvolvimento da consciência egoica no homem e na mulher são da mesma forma essencialmente um processo ( ou protesto) masculino, emergente de um inconsciente feminino. Aqui esta a sizilia mais uma vez. Eles brincam um com o outro, constelados por padrões específicos, ou mitologemas. Alguns nós já vimos: (...) onde a controvérsia entre unidade e pluralidade transforma a anima num rabo de pavão polioftálmico e multicolorido, e o animus num ciclope monoteísta; (...) onde uma noção de integração de anima concebe-a como um dragão obscuro e encara o animus como um espadachim sempre alerta.”
(James Hilmam. Anima: Anatomia de uma Noção Personificada. SP: Cultrix/ Tradução de Lucia Rosenberg e Gustavo Barcellos, p. 187)
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
ANIMA E O INCONSCIENTE
Enquanto componente da psique, Anima é uma personificação arquetipica do feminino. Dada as configurações culturais patriarcais que definem o imaginário ocidental, costumamos erotiza-la, associa-la ao reino de Afrodite. Jung chegou a atribuir-lhe a função de ligação entre o mundo da consciência e do inconsciente através da função sentimento ( valorativa).
Como relacionamento, portanto, Anima corresponde a uma configuração intermediária entre o pessoal e o coletivo que encontra-se fora do horizonte das situações humanas concretas, das vivências intersubjetivas de toda espécie.
Ela não configura, em outras palavras, relacionamentos reais, pois a sua esfera é a da fantasia, apesar da vivência venesuana que geralmente temos dela.
Anima funciona na verdade como o elo com “ o outro mundo”, com a pluralidade dos arquétipos, o obscuro reino do desconhecido psíquico. Ela é a própria personificação do feminino que em suas inesgotáveis imagens e vivências instiga a consciência ao envolver-se com o inconsciente ou com a autonomia dos complexos psíquicos.
Como relacionamento, portanto, Anima corresponde a uma configuração intermediária entre o pessoal e o coletivo que encontra-se fora do horizonte das situações humanas concretas, das vivências intersubjetivas de toda espécie.
Ela não configura, em outras palavras, relacionamentos reais, pois a sua esfera é a da fantasia, apesar da vivência venesuana que geralmente temos dela.
Anima funciona na verdade como o elo com “ o outro mundo”, com a pluralidade dos arquétipos, o obscuro reino do desconhecido psíquico. Ela é a própria personificação do feminino que em suas inesgotáveis imagens e vivências instiga a consciência ao envolver-se com o inconsciente ou com a autonomia dos complexos psíquicos.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
A INDIVIDUAÇÃO COMO TRANSCENDÊNCIA DO PESSOAL: apontamentos

O sentimento de vir a ser ( individuação) que define a propria condição humana e sua obvia enfase na experiência do indivíduo, nos leva a pensar o cultivo de Anima como um árduo e amargo processo de fantasiar e compreender o valor de certos conteúdos e atitudes psíquicas de natureza arquetipica.
O ocorrer deste processo, que é o fim e o meio da dinâmica analítica, pressupõe uma gradativa redefinição da vida pessoal e emprica no confronto com o impessoal de sua própria significação irracional ou arquetipica. Isto é, pressupõe uma progressiva despotencialização das imagens e representações que nos são caras no apresentar-se de nossa persona, o que é o mesmo que dizer que retiramos as projeções que fazemos sobre o mundo empiricamente vivido em favor de uma consciência mais ampla e menos pessoal dele.
O sentimento de vir a ser que se faz na complexa economia simbólica do próprio acontecer da psique individual, normalmente, é apenas plenamente vivenciado na segunda metade da vida, quando o declínio físico e a perspectiva da morte não raramenten inspiram questionamentos biograficos, exigem uma reorientação da própria vida.
Quando o circulo de uma biografia humana aproxima-se do fechamento, o confronto entre o ego e o não ego conduz a fantasias de transcendência e a possibilidade do individuo dispir-se do seu próprio rosto para contemplar-se em imagens de pensamento. . .
O ocorrer deste processo, que é o fim e o meio da dinâmica analítica, pressupõe uma gradativa redefinição da vida pessoal e emprica no confronto com o impessoal de sua própria significação irracional ou arquetipica. Isto é, pressupõe uma progressiva despotencialização das imagens e representações que nos são caras no apresentar-se de nossa persona, o que é o mesmo que dizer que retiramos as projeções que fazemos sobre o mundo empiricamente vivido em favor de uma consciência mais ampla e menos pessoal dele.
O sentimento de vir a ser que se faz na complexa economia simbólica do próprio acontecer da psique individual, normalmente, é apenas plenamente vivenciado na segunda metade da vida, quando o declínio físico e a perspectiva da morte não raramenten inspiram questionamentos biograficos, exigem uma reorientação da própria vida.
Quando o circulo de uma biografia humana aproxima-se do fechamento, o confronto entre o ego e o não ego conduz a fantasias de transcendência e a possibilidade do individuo dispir-se do seu próprio rosto para contemplar-se em imagens de pensamento. . .
DIA DE CHUVA
Uma garoa
Acalma a tarde
No sem tempo
De um devaneio.
A alma vestida
De cinza
Deita sobre as horas.
O momento
Esquece o medir do relógio
E desaba sobre mim
Sem respostas.
Entre raios e trovões
De sentimentos e escolhas
Um segundo se apavora.
Celebramos a natureza
No corpo d’ alma
E no avesso do rosto
Em triunfal fantasia.
Acalma a tarde
No sem tempo
De um devaneio.
A alma vestida
De cinza
Deita sobre as horas.
O momento
Esquece o medir do relógio
E desaba sobre mim
Sem respostas.
Entre raios e trovões
De sentimentos e escolhas
Um segundo se apavora.
Celebramos a natureza
No corpo d’ alma
E no avesso do rosto
Em triunfal fantasia.
HAPPY
Há dias
Em que o mundo
Se faz em cores vivas,
Dignas de um porta retrato.
Tudo parece certo
E o futuro mostra-se
Aberto
Em rumos e possibilidades
De lírico infinito.
Não importam as felicidades
Esquecidas pelos anos.
Tudo se torna o aqui
E agora da vida
No absoluto
Do momento bruto.
Em que o mundo
Se faz em cores vivas,
Dignas de um porta retrato.
Tudo parece certo
E o futuro mostra-se
Aberto
Em rumos e possibilidades
De lírico infinito.
Não importam as felicidades
Esquecidas pelos anos.
Tudo se torna o aqui
E agora da vida
No absoluto
Do momento bruto.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
A MIDSUMMER NIGHT'S DREAM
Celebramos a natureza
No corpo d’ alma
E no avesso do rosto
Em triunfal fantasia.
A realidade e a magia
Encantam o destino
No sonho vivo
De uma noite de verão.
Em noturnas florestas
Afloram sentimentos
E a primavera
Parece certa e transparente
No sabio imperativo
De um luar.
No corpo d’ alma
E no avesso do rosto
Em triunfal fantasia.
A realidade e a magia
Encantam o destino
No sonho vivo
De uma noite de verão.
Em noturnas florestas
Afloram sentimentos
E a primavera
Parece certa e transparente
No sabio imperativo
De um luar.
SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

Shakespeare escreveu a lírica comédia Sonho de uma Noite de Verão por volta de 1595-96, sendo sua primeira edição datada de 1600.
Trata-se de uma das obras mais populares do velho bardo e, talvez, a mais curta dentre todas.
Reza a tradição que ela foi composta para as comemorações de um casamento de nobres ingleses onde teria estado presente a própria Rainha Elisabeth. Não há, entretanto, qualquer consenso quanto a identidade do destinto casal. O que podemos afirmar é que, dada as circunstâncias de sua gêneses, nada mais natural que o tema desta saborosa peça, hibrido de romance, magia e descomprometido humor popular, seja os caminhos e descaminhos do amor, sua celebração.
O real e o imaginário confundem-se na noturna paisagem de uma floresta encantada onde nobres se perdem para encontrarem-se sob a inspiração da magia e do amor.
Creio que uma fala da primeira cena do quinto ato, atribuida a Teseu, seja adequada pala ilustrar o Sonho que a quatro séculos encanta imaginações:
“Bem mais que verdadeiro; eu nunca fui
De crer em fadas ou em fantasias.
Loucos e amantes tem mentes que fervem
Com ideias tão fantásticas, que abrangem
Mais que a razão é capaz de aprender.
O poeta, o lunatico e o amante
São todos feitos de imaginação;
Um vê mais demos do que há no inferno:
É o louco; o amante, alucinado,
Pensa em encontrar Helena em uma egipcia ;
O olho do poeta, revirando,
Olha da terra ao céu, do céu a terra,
E enquanto o seu imaginar concebe
Formas desconhecidas, sua pena
Dá-lhes corpo e, ao ar inconsistente,
Dá local de morada e até um nome.
Tal é a força da imaginação.”
(William Shakespeare. Sonhos de uma Noite de Verão e Noite de Reis. Tradução e introdução de Barbara Heliodora. RJ: Nova Fronteira, 1991, p.119)
Trata-se de uma das obras mais populares do velho bardo e, talvez, a mais curta dentre todas.
Reza a tradição que ela foi composta para as comemorações de um casamento de nobres ingleses onde teria estado presente a própria Rainha Elisabeth. Não há, entretanto, qualquer consenso quanto a identidade do destinto casal. O que podemos afirmar é que, dada as circunstâncias de sua gêneses, nada mais natural que o tema desta saborosa peça, hibrido de romance, magia e descomprometido humor popular, seja os caminhos e descaminhos do amor, sua celebração.
O real e o imaginário confundem-se na noturna paisagem de uma floresta encantada onde nobres se perdem para encontrarem-se sob a inspiração da magia e do amor.
Creio que uma fala da primeira cena do quinto ato, atribuida a Teseu, seja adequada pala ilustrar o Sonho que a quatro séculos encanta imaginações:
“Bem mais que verdadeiro; eu nunca fui
De crer em fadas ou em fantasias.
Loucos e amantes tem mentes que fervem
Com ideias tão fantásticas, que abrangem
Mais que a razão é capaz de aprender.
O poeta, o lunatico e o amante
São todos feitos de imaginação;
Um vê mais demos do que há no inferno:
É o louco; o amante, alucinado,
Pensa em encontrar Helena em uma egipcia ;
O olho do poeta, revirando,
Olha da terra ao céu, do céu a terra,
E enquanto o seu imaginar concebe
Formas desconhecidas, sua pena
Dá-lhes corpo e, ao ar inconsistente,
Dá local de morada e até um nome.
Tal é a força da imaginação.”
(William Shakespeare. Sonhos de uma Noite de Verão e Noite de Reis. Tradução e introdução de Barbara Heliodora. RJ: Nova Fronteira, 1991, p.119)
domingo, 20 de janeiro de 2008
DEVANEIO INFANTIL
Uma infância me aguarda
Nas portas dos fundos
Do futuro.
Nenhum passado a define,
Apenas o fantasma
De um céu azul perdido
Na face antiga
Da imaginação do mundo;
Magico absurdo
Do meu viver
Em todas as coisas
Acima e abaixo de mim.
Reminiscências de criança
Me dizem o futuro
E esperanças
De algum dia sofrer
A plenitude de apenas ser.
Nas portas dos fundos
Do futuro.
Nenhum passado a define,
Apenas o fantasma
De um céu azul perdido
Na face antiga
Da imaginação do mundo;
Magico absurdo
Do meu viver
Em todas as coisas
Acima e abaixo de mim.
Reminiscências de criança
Me dizem o futuro
E esperanças
De algum dia sofrer
A plenitude de apenas ser.
POEMA URBANO
Já não celebramos
A lua ou a bela trova,
Se quer buscamos
O mistério da palavra
No dizer de emoções.
Somos filhos da chuva,
Do raio e do vento
No urbano movimento
De rostos ocos.
Cultivamos
Errantes pensamentos
Em ébrias madrugadas
Mastigando a sorte
A cada manhã sem face.
A lua ou a bela trova,
Se quer buscamos
O mistério da palavra
No dizer de emoções.
Somos filhos da chuva,
Do raio e do vento
No urbano movimento
De rostos ocos.
Cultivamos
Errantes pensamentos
Em ébrias madrugadas
Mastigando a sorte
A cada manhã sem face.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
LITERATURA INGLESA XIX

Ian Feming (1908-1964) é normalmente considerado um autor menor no cenário da literatura inglesa, apesar do sucesso de suas novelas de espionagem centradas na personagem do espião britânico James Bond.
Fleming começou a escrever apenas aos quarenta anos. Embora suas obras sejam destinadas a um público de massas, ostenta uma sutil erudição e uma elegância estilística que certamente contribuíram para converter seu personagem em um dos grandes mitos gerados pelo imaginário do séc. XX. Evidentemente, embora as adaptações cinematográficas não façam jus a sua obra, certamente tambem contribuíram para sua mitificação.
O fato é que suas novelas de espionagem podem ser consideradas a melhor romantização de um dos mais sombrios períodos da História da Humanidade; a chamada guerra fria que dividiu ideologicamente o mundo em dois blocos antagônicos sob o constante fantasma de um apocalipse nuclear.
Para finalizar, parece-me interessante uma analise comparativa realizada por Anthony Burgess, entre James Bond e Sherlock Holmes:
“( Bond)...não é tão universal quanto Sherlock Holmes: é durão, engenhoso, e não lhe faltam contradições. E é um homem mais inteiro que Sherlock Holmes: adora as mulheres, enquanto que Holmes admirava apenas uma e nem mesmo teve a chance de dizer-lhe. Holmes, apesar de aparentemente ser um asceta, usa cocaína, enquanto que Bond é viciado apenas nos cigarros Morland Specials, com três anéis dourados. Holmes é um decadente dedicado a lógica rigorosa a serviço da lei, o que é uma grande contradição. Em Bond, há uma forte veia de puritanismo e uma capacidade de autodesprezo que nega a amoralidade de sua vocação assassina e suas compensações sensuais. São semelhantes principalmente porque não são ingleses típicos. Holmes foi a criação de um irlandês educado por jesuítas que estudou medicina em Edimburgo. Seu raciocínio é mais continental do que britânico. Bond é meio escocês e meio suíço-francês, é um elemento que explica tanto o traço puritano quanto o dom granítico de resistência, enquanto que outro o torna fluente em francês e alemão, à vontade para andar de esquis, e um amante do vinho e da boa comida.”
(Anthony Burgess, Prefácio in Ian Fleming: tradução de Thomaz Souto Correa. Porto Alegre: L & PM, 199, p. 7 et seq.)
Fleming começou a escrever apenas aos quarenta anos. Embora suas obras sejam destinadas a um público de massas, ostenta uma sutil erudição e uma elegância estilística que certamente contribuíram para converter seu personagem em um dos grandes mitos gerados pelo imaginário do séc. XX. Evidentemente, embora as adaptações cinematográficas não façam jus a sua obra, certamente tambem contribuíram para sua mitificação.
O fato é que suas novelas de espionagem podem ser consideradas a melhor romantização de um dos mais sombrios períodos da História da Humanidade; a chamada guerra fria que dividiu ideologicamente o mundo em dois blocos antagônicos sob o constante fantasma de um apocalipse nuclear.
Para finalizar, parece-me interessante uma analise comparativa realizada por Anthony Burgess, entre James Bond e Sherlock Holmes:
“( Bond)...não é tão universal quanto Sherlock Holmes: é durão, engenhoso, e não lhe faltam contradições. E é um homem mais inteiro que Sherlock Holmes: adora as mulheres, enquanto que Holmes admirava apenas uma e nem mesmo teve a chance de dizer-lhe. Holmes, apesar de aparentemente ser um asceta, usa cocaína, enquanto que Bond é viciado apenas nos cigarros Morland Specials, com três anéis dourados. Holmes é um decadente dedicado a lógica rigorosa a serviço da lei, o que é uma grande contradição. Em Bond, há uma forte veia de puritanismo e uma capacidade de autodesprezo que nega a amoralidade de sua vocação assassina e suas compensações sensuais. São semelhantes principalmente porque não são ingleses típicos. Holmes foi a criação de um irlandês educado por jesuítas que estudou medicina em Edimburgo. Seu raciocínio é mais continental do que britânico. Bond é meio escocês e meio suíço-francês, é um elemento que explica tanto o traço puritano quanto o dom granítico de resistência, enquanto que outro o torna fluente em francês e alemão, à vontade para andar de esquis, e um amante do vinho e da boa comida.”
(Anthony Burgess, Prefácio in Ian Fleming: tradução de Thomaz Souto Correa. Porto Alegre: L & PM, 199, p. 7 et seq.)
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
O DIABO NO IMAGINÁRIO OCIDENTAL

O Diabo no Imaginário Cristão do historiador Carlos Roberto F. Nogueira, oferece um erudito panorama sobre a História do Diabo que, diga-se de passagem, confunde-se com a História do próprio Cristianismo.
A singularidade da obra de F. Nogueira encontra-se no fato de acrescentar a sua análise uma reflexão sobre significativas transformações ocorridas no significado da imagem do diabo após o advento da modernidade.
Foi depois das Reformas Protestantes e Católicas que o medo a Satã atingiu seu auge e a personagem alcançou uma grandiosidade trágica conforme comprovam, por exemplo, o fenômeno das chamadas guerras de religião e da caça as bruxas. Parafraseando o autor, as reformas conferiram ao “adversário de cristo” o direito de existir em toda a sua potência convertendo-se no “senhor deste mundo”.
Após as ditas revoluções burguesas”, a didática do medo utilizada pelos missionários cristãos das mais variadas tendências foi substituída por um certo prazer estético com o mal ocasionando uma certa reabilitação do diabo.
Recorrendo a uma passagem da obra aqui comentada:
“ O romantismo transformará Satã no símbolo do espírito leve, de vida alegre, não contra uma lei moral, mas segundo uma lei natural, contrária à aversão por este mundo pregada pela Igreja. Satanás significa liberdade, progresso, ciência e vida. Tornar-se-á moda a identificação com o demônio, assim como procurar refletir no semblante o olhar, o Riso, a zombaria impressos nas feições tradicionais do Diabo. O Lúcifer de Lord Byron é sumamente grandioso, encerrado em seu próprio mistério, filho da própria experiência de rebeldia. Amigo do homem e inimigo de Deus, que estabeleceu a ordem como um tirano, condenando ao sofrimento, à humanidade e à morte todos aqueles que tinham por única culpa o desejo de conhecer, Lúcifer está ao lado do homem, uma vez que, como o homem, ele é condenado ao sofrimento.
O diabo passa a representar a rebelião contra a fé e a moral tradicional, representando a revolta do homem, mas com a aceitação do sofrimento porque este é uma fonte purificadora do espírito, uma nobreza moral, da qual só pode surgir a bem da humanidade. E o demoníaco torna-se o símbolo do romantismo: demoníaco como paixão, como terror do desconhecido, como descoberta do lado irracional existente no homem: a explosão da imaginação contra os obstáculos excessivos da consciência e das leis. Com o Fausto, de Goethe, a visão do demoníaco como o problema do mal, une-se ao problema do conhecimento e da vontade de dominar as forças da natureza, anunciando derradeiramente o fim do terror da fé absoluta da existência do Diabo, pois diz Mefistófeles no “Prólogo”: “Um homem bom, no seu próprio obscuro instinto, é sempre sabedor do reto caminho.”
A singularidade da obra de F. Nogueira encontra-se no fato de acrescentar a sua análise uma reflexão sobre significativas transformações ocorridas no significado da imagem do diabo após o advento da modernidade.
Foi depois das Reformas Protestantes e Católicas que o medo a Satã atingiu seu auge e a personagem alcançou uma grandiosidade trágica conforme comprovam, por exemplo, o fenômeno das chamadas guerras de religião e da caça as bruxas. Parafraseando o autor, as reformas conferiram ao “adversário de cristo” o direito de existir em toda a sua potência convertendo-se no “senhor deste mundo”.
Após as ditas revoluções burguesas”, a didática do medo utilizada pelos missionários cristãos das mais variadas tendências foi substituída por um certo prazer estético com o mal ocasionando uma certa reabilitação do diabo.
Recorrendo a uma passagem da obra aqui comentada:
“ O romantismo transformará Satã no símbolo do espírito leve, de vida alegre, não contra uma lei moral, mas segundo uma lei natural, contrária à aversão por este mundo pregada pela Igreja. Satanás significa liberdade, progresso, ciência e vida. Tornar-se-á moda a identificação com o demônio, assim como procurar refletir no semblante o olhar, o Riso, a zombaria impressos nas feições tradicionais do Diabo. O Lúcifer de Lord Byron é sumamente grandioso, encerrado em seu próprio mistério, filho da própria experiência de rebeldia. Amigo do homem e inimigo de Deus, que estabeleceu a ordem como um tirano, condenando ao sofrimento, à humanidade e à morte todos aqueles que tinham por única culpa o desejo de conhecer, Lúcifer está ao lado do homem, uma vez que, como o homem, ele é condenado ao sofrimento.
O diabo passa a representar a rebelião contra a fé e a moral tradicional, representando a revolta do homem, mas com a aceitação do sofrimento porque este é uma fonte purificadora do espírito, uma nobreza moral, da qual só pode surgir a bem da humanidade. E o demoníaco torna-se o símbolo do romantismo: demoníaco como paixão, como terror do desconhecido, como descoberta do lado irracional existente no homem: a explosão da imaginação contra os obstáculos excessivos da consciência e das leis. Com o Fausto, de Goethe, a visão do demoníaco como o problema do mal, une-se ao problema do conhecimento e da vontade de dominar as forças da natureza, anunciando derradeiramente o fim do terror da fé absoluta da existência do Diabo, pois diz Mefistófeles no “Prólogo”: “Um homem bom, no seu próprio obscuro instinto, é sempre sabedor do reto caminho.”
(Carlos Roberto F Nogueira. O Diabo no imaginário Ocidental. SP: EDUSC,2000, p. 104 et seq)
Um exemplo contemporâneo deste novo lugar do diabo no imaginário ocidental é dado pela original banda de rock alternativo Marilyn Manson. Surgida nos anos 90 do último século, ela se tornou um dos mais controvertidos ícones do cenário musical internacional protagonizando inúmeros enfrentamentos e polêmicas com os setores conservadores da sociedade americana. A principal marca da banda é, entretanto, a paródia e seu satanismo personifica uma critica sarcástica aos valores tradicionais e ao próprio mundo do interterimento..
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
ADIVINHAÇÃO
Consulto a agenda
Dos meus afetos
Para saber
As horas de risos
E dias de vazio
Que me dirão a vida
No ano que corre.
Procuro saber
Os atos futuros
Previamente escritos
No já definido
Do meu presente.
O Amanhã,
Acredito,
Já existe dentro de mim
Mudo e absoluto.
Dos meus afetos
Para saber
As horas de risos
E dias de vazio
Que me dirão a vida
No ano que corre.
Procuro saber
Os atos futuros
Previamente escritos
No já definido
Do meu presente.
O Amanhã,
Acredito,
Já existe dentro de mim
Mudo e absoluto.
O PARADOXO DA CONTEMPORANEIDADE
Uma das características da contemporaneidade é o fato de que a legitimidade do homem e do mundo já não é exclusivamente estabelecida pelo artifício da experiência de verdade. A cognição não mais se orienta para o verdadeiro ou para a identidade simples entre os discursos e a realidade.
O pensamento pode hoje em dia ser concebido como experiência da virtualidade ontológica que nos define o mundo e as coisas, o grande teatro da atividade humana, em seu fluir ilimitado entre infinitas possibilidades de sentido e significado.Em função disso, não seria errôneo afirmar que a contemporaneidade coexiste com a modernidade e a supera tanto quanto a perpetua.
O pensamento pode hoje em dia ser concebido como experiência da virtualidade ontológica que nos define o mundo e as coisas, o grande teatro da atividade humana, em seu fluir ilimitado entre infinitas possibilidades de sentido e significado.Em função disso, não seria errôneo afirmar que a contemporaneidade coexiste com a modernidade e a supera tanto quanto a perpetua.
domingo, 13 de janeiro de 2008
HISTÓRIA
A lembrança
é como um eco
que diz algo mais
que a voz.
Pois aquilo
que dentro de nós
sobrevive distante
vive da vida
de imaginações.
Contemplar o passado
é reiventá-lo...
realiza-lo em sonhos.
é como um eco
que diz algo mais
que a voz.
Pois aquilo
que dentro de nós
sobrevive distante
vive da vida
de imaginações.
Contemplar o passado
é reiventá-lo...
realiza-lo em sonhos.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
ANIMA
Procuro nos ermos porões d’ alma
O secreto nome
De uma misteriosa mulher.
Mas nada lá existe
Além do ermo deserto
Da soma de todos os tempos.
Entre a perplexidade
E a necessidade,
Vislumbro a virgindade
De um sonho esquecido.
Quase esqueço
a face desconhecida
que me inspira
as margens do mundo.
O secreto nome
De uma misteriosa mulher.
Mas nada lá existe
Além do ermo deserto
Da soma de todos os tempos.
Entre a perplexidade
E a necessidade,
Vislumbro a virgindade
De um sonho esquecido.
Quase esqueço
a face desconhecida
que me inspira
as margens do mundo.
INDIVIDUALIDADE
Utopias esmagam sonhos
No mundo aberto
A minha volta.
Volto ao centro
De mim mesmo
Sem a ilusão de respostas
Para viver sereno
Na ilha d’ alma.
Desfila sem rumo
O tudo das coisas
Em cacafônica festa
De fatos e noticias
Esquecidas.
Na orgia de rotinas
Sofro o esforço de ser
Em vida
Apenas eu mesmo,
Mas me perco
Na confusão dos outros
A cada passo de rosto.
No mundo aberto
A minha volta.
Volto ao centro
De mim mesmo
Sem a ilusão de respostas
Para viver sereno
Na ilha d’ alma.
Desfila sem rumo
O tudo das coisas
Em cacafônica festa
De fatos e noticias
Esquecidas.
Na orgia de rotinas
Sofro o esforço de ser
Em vida
Apenas eu mesmo,
Mas me perco
Na confusão dos outros
A cada passo de rosto.
A POETICA DO POS MODERNISMO
POÉTICA DO POS MODERNISMO: HISTÓRIA, TEORIA E FICÇÃO de Linda Hutcheon, professora de inglês da Universidade de Toronto, Canadá, é uma obra interessante para a avaliação do impacto e significado do pós modernismo enquanto teoria e prática cultural contemporânea.
Parafraseando a autora, pode-se dizer que uma poética pós moderna limita-se a sua própria autoconsciência para estabelecer, em relação a modernidade, a contradição metalingüística de estar dentro e fora, de ser cúmplice e distante, de registrar e contestar suas próprias formulações essencialmente provisórias. Seu objetivo é problematizar as implicações da arte e da teoria enquanto processos de produção de significados e sentidos. Trata-se assim tanto de uma poética quanto de uma problemática.
Tal poética pode, portanto, ser definida como a ultrapassagem das margens e fronteiras que definem as convenções sociais e artísticas através do paradoxo e do paródico. Neste sentido, a ficção centrada na subjetividade do autor, em sua originalidade, dão lugar a citação, a seleção e justaposição de imagens diversas e pré existentes, ou ainda a uma descentralização ilimitada do significado de toda representação.
Parafraseando a autora, pode-se dizer que uma poética pós moderna limita-se a sua própria autoconsciência para estabelecer, em relação a modernidade, a contradição metalingüística de estar dentro e fora, de ser cúmplice e distante, de registrar e contestar suas próprias formulações essencialmente provisórias. Seu objetivo é problematizar as implicações da arte e da teoria enquanto processos de produção de significados e sentidos. Trata-se assim tanto de uma poética quanto de uma problemática.
Tal poética pode, portanto, ser definida como a ultrapassagem das margens e fronteiras que definem as convenções sociais e artísticas através do paradoxo e do paródico. Neste sentido, a ficção centrada na subjetividade do autor, em sua originalidade, dão lugar a citação, a seleção e justaposição de imagens diversas e pré existentes, ou ainda a uma descentralização ilimitada do significado de toda representação.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
DEVIR
Pudesse hoje
Viver apenas
Dos melhores dias
Do meu passado,
Não teria da vida
Nada mais que o vento,
Que o impertinente sentimento
Da falta de realidade
Que decora todas as coisas e rostos.
Tudo é breve
No acontecer do mundo,
no quase existir
de nossas vividas verdades.
Viver apenas
Dos melhores dias
Do meu passado,
Não teria da vida
Nada mais que o vento,
Que o impertinente sentimento
Da falta de realidade
Que decora todas as coisas e rostos.
Tudo é breve
No acontecer do mundo,
no quase existir
de nossas vividas verdades.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
ANT MUNDO
Sei apenas
O absoluto grito
Da tarde em migalhas.
Em meu coração
O mundo se desfaz
Na infantil memória
De antigos futuros.
Imerso em natureza
Descrevo,
Esqueço o mundo
Até o limite de viver
Livre e em sopro de embriaguez
O absoluto grito
Da tarde em migalhas.
Em meu coração
O mundo se desfaz
Na infantil memória
De antigos futuros.
Imerso em natureza
Descrevo,
Esqueço o mundo
Até o limite de viver
Livre e em sopro de embriaguez
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
LITERATURA INGLESA XVIII

Thomas Stearns Eliot ( 1888-1965) nasceu em St. Louis, Missouri, E.U.A. Descendente de imigrantes ingleses vinculados a tradição da Igreja Unitária, adotou em 1927 a cidadania inglesa.
Não é nada fácil definir este dramaturgo, crítico e, acima de tudo, poeta, que traduz em seus versos a tradição viva da poesia universal e, ao mesmo tempo, permanece profundamente moderno.
Sua poética é definitivamente, ao mesmo tempo, metafísica, fragmentária, ambivalente e musical, combinando diversas matrizes composicionais, na síntese de um sentimento ontológico de isolamento e incomunicabilidade diante da fenomenologia do mundo. Nenhum poeta foi mais “clássico” do que ele em sua modernidade.
Para dizer a grandiosidade de sua poética, valho-me aqui muito limitadamente de um insuficiente fragmento da tradução de Ivan Junqueira:
OS HOMENS OCOS ( fragmento)
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como oo vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Forma sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam- se o fazem- não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens espalhados
(T S Eliot. Poesia; tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. RJ: Nova Fronteira, 1981)
Não é nada fácil definir este dramaturgo, crítico e, acima de tudo, poeta, que traduz em seus versos a tradição viva da poesia universal e, ao mesmo tempo, permanece profundamente moderno.
Sua poética é definitivamente, ao mesmo tempo, metafísica, fragmentária, ambivalente e musical, combinando diversas matrizes composicionais, na síntese de um sentimento ontológico de isolamento e incomunicabilidade diante da fenomenologia do mundo. Nenhum poeta foi mais “clássico” do que ele em sua modernidade.
Para dizer a grandiosidade de sua poética, valho-me aqui muito limitadamente de um insuficiente fragmento da tradução de Ivan Junqueira:
OS HOMENS OCOS ( fragmento)
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como oo vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Forma sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam- se o fazem- não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens espalhados
(T S Eliot. Poesia; tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. RJ: Nova Fronteira, 1981)
PÓS METAFÍSICA
From fairest creatures we desire increase...
Que diferença existe
entre a vida
e a morte
no movimento de ser?
A vida é em si
essencialmente
memória,
um quase acontecer
nas ilusões dos atos
e fatos.
Que diferença existe
entre a vida
e a morte
no movimento de ser?
A vida é em si
essencialmente
memória,
um quase acontecer
nas ilusões dos atos
e fatos.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
SHAKESPEARE E CHAUCER

Segundo o grande crítico literário Harold Bloom, existem em Shakespeare apenas três influências literárias significativas: Marlowe, Chaucer e a Bíblia Inglesa. Falando especificamente sobre a influência de Chaucer, talvez a mais decisiva, sirvo-me aqui de alguns apontamentos de Bloom:
“... Mais do que Marlowe ou mesmo do que a Bíblia Inglesa, Chaucer foi o principal precursor de Shakespeare por ter proporcionado ao dramaturgo a referência crucial que conduziu à sua maior originalidade: a representação da mudança ao mostrar os indivíduos ponderando sobre o próprio discurso e modificando-se mediante essa consideração. Julgamos banal, e até mesmo natural esse modo de representação, porém não é possível encontrá-lo em Homero ou na Bíblia, nem em Eurípides ou em Dante.”
(Harold Bloom. Abaixo as Verdades Sagradas: Poesia e crença desde a Bíblia até nossos dias. Tradução de Alpío Correa de França Neto e Heitor Ferreira da Costa. SP: Companhia das Letras, 1993, p. 68)
Desta originalidade de corre o seguinte:
“Shakespeare foi um deus mortal ( como Victor Hugo aspirou a ser), porque sua arte não era, de forma alguma, uma mimese. Um modo de representação que sempre está à frente de qualquer realidade que se desenvolva no plano histórico por força nos contem mais do que somos capazes de contê-la.” ( Idem p.81)
Shakespeare realmente vai além do princípio ficcional da narrativa literária, ele cria vida na complexidade cognitiva e originalidade de seus personagens. O realizar-se em linguagem que os faz singularmente “autônomos” e “inconscientes” na arquitetura de suas escolhas é a essência da genialidade única e atemporal do autor, aquilo que o torna tão familiar e essencial a nossa sensibilidade contemporanea.
“... Mais do que Marlowe ou mesmo do que a Bíblia Inglesa, Chaucer foi o principal precursor de Shakespeare por ter proporcionado ao dramaturgo a referência crucial que conduziu à sua maior originalidade: a representação da mudança ao mostrar os indivíduos ponderando sobre o próprio discurso e modificando-se mediante essa consideração. Julgamos banal, e até mesmo natural esse modo de representação, porém não é possível encontrá-lo em Homero ou na Bíblia, nem em Eurípides ou em Dante.”
(Harold Bloom. Abaixo as Verdades Sagradas: Poesia e crença desde a Bíblia até nossos dias. Tradução de Alpío Correa de França Neto e Heitor Ferreira da Costa. SP: Companhia das Letras, 1993, p. 68)
Desta originalidade de corre o seguinte:
“Shakespeare foi um deus mortal ( como Victor Hugo aspirou a ser), porque sua arte não era, de forma alguma, uma mimese. Um modo de representação que sempre está à frente de qualquer realidade que se desenvolva no plano histórico por força nos contem mais do que somos capazes de contê-la.” ( Idem p.81)
Shakespeare realmente vai além do princípio ficcional da narrativa literária, ele cria vida na complexidade cognitiva e originalidade de seus personagens. O realizar-se em linguagem que os faz singularmente “autônomos” e “inconscientes” na arquitetura de suas escolhas é a essência da genialidade única e atemporal do autor, aquilo que o torna tão familiar e essencial a nossa sensibilidade contemporanea.
META IDENTIDADE
Sou somente
Meu próprio esboço
No fato de cada ato,
Palavra e gesto.
Sou o imperfeito
E incompleto esforço
De buscar a mim mesmo
Na definição de um rosto
Cada vez mais
Distante.
Meu próprio esboço
No fato de cada ato,
Palavra e gesto.
Sou o imperfeito
E incompleto esforço
De buscar a mim mesmo
Na definição de um rosto
Cada vez mais
Distante.
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