sexta-feira, 22 de agosto de 2008

PARA QUE SERVE TUDO ISSO?



Tomo a liberdade de reproduzir aqui a saborosa introdução de um texto interessante sobre o sentido da vida de Julian Baggini. Refiro-me a provocante introdução de seu livro “PARA QUE SERVE TUDO ISSO? A FILOSOFIA E O SENTIDO DA VIDA, DE PLATÃO A MONTY PYTHON” .


Rio de Janeiro
Tradução:
Cristiano Botafogo
Título original:
What’s It All About?
(Philosophy and the Meaning of Life)
Tradução autorizada da edição inglesa
publicada em 2005 por Granta Books, de Londres, Inglaterra
Copyright © 2004, Julian Baggini
Julian Baggini asserts the moral right to be identifi ed as the author of this Work.
Copyright da edição brasileira © 2008:
Jorge Zahar Editor Ltda.



Introdução



“Você é o T.S. Eliot”, disse o taxista ao famoso poeta quando
Eliot entrou em seu táxi. Eliot, então, perguntou a ele como
sabia. “Ah! Eu sempre reconheço as celebridades”, respondeu o
taxista. “Um tempo atrás, eu peguei o Bertrand Russell, e disse
para ele: ‘E aí, lorde Russell, qual o sentido da vida?’ E, sabe o
quê? Ele não sabia.”
Quem está sendo zombado nessa história? Lorde Russell,
o grande fi lósofo, que, apesar de toda a sua presumível inteligência
e sabedoria, não soube responder ao taxista? Se alguém
é capaz de nos dizer qual é “o sentido da vida”, esse alguém
deveria ser Bertrand Russell, o maior fi lósofo vivo do mundo,
certo? Ou seria o taxista, que esperava ouvir a solução de um
problema tão profundo em um curto percurso? Mesmo que
Russell soubesse a resposta, explicar os segredos do universo
demandaria tempo e paciência.
Talvez o melhor a dizer seja que nenhum dos dois merece
ser zombado. Russell certamente não, pois se fosse possível
responder a essa pergunta de forma adequada em dez minutos,
alguém já o teria feito e o taxista não precisaria perguntar. Também
não deveríamos zombar do taxista por não saber disso. Sua
pergunta é uma que todos se fazem em algum ponto da vida.
O problema é que a pergunta é vaga, inespecífi ca e obscura.
Não é bem uma só pergunta, mas o ponto central de uma
série de questões: por que estamos aqui? Para que serve a vida?
Ser feliz é sufi ciente? Minha vida serve a um propósito maior? Estamos
aqui para ajudar os outros ou somente a nós mesmos?
8 Para que serve tudo isso?
Qual o sentido da vida?
Para responder a essas perguntas, temos que realizar uma
investigação racional e secular. E com “secular” não quero dizer
“atéia”. Quero apenas dizer que nossa argumentação não deve
partir de nenhuma verdade supostamente revelada, de doutrinas
religiosas ou textos sagrados. Em vez disso, ela deve recorrer
a razões, evidências e linhas de pensamento que possam ser
compreendidas por todos, sejam pessoas de fé ou não. Isso porque,
mesmo para muitos fi éis, a autoridade das reli giões não
pode ser vista como absoluta. Conhecendo a grande diversidade
de religiões no mundo, entendendo as forças e os acontecimentos
históricos que moldaram suas doutrinas e textos sagrados
e percebendo a falibilidade dos seus líderes, a idéia de
que elas nos fornecem acesso direto a verdades absolutas perde
credibilidade. A mão humana está claramente presente ali, seja
por inspiração divina ou não. Isso signifi ca que, mesmo que
tenhamos fé, não podemos aceitar os ensinamentos religiosos
sem questioná-los. Precisamos usar nossa inteligência para determinar
por nós mesmos se as respostas que eles nos dão fazem
ou não sentido. E como em algum momento da vida sempre
acabamos nos perguntando “qual o sentido da vida?”, não
dá pra fi car postergando esse fi losofar para sempre.
O assunto, às vezes, é tão complicado e profundo que a tentativa
de escrever um livro sobre o tema já pode ser considerada
arrogante. Eu até poderia ser acusado se estivesse afi rmando que
o “sentido da vida” é um segredo que somente alguns poucos
podem descobrir através da contemplação, de uma revelação ou
de uma vida inteira de investigação intelectual. Esse tipo de promessa
subentende que o sentido da vida é um enigma que, após
desvendado, revela todos os mistérios e explica todas as coisas. E,
como a grande maioria de nós não conhece esse segredo, é preciso
ser realmente muito sábio para tê-lo descoberto.
Eu acho essa idéia uma palhaçada e espero que a maioria
dos leitores concorde comigo. Se realmente existisse um grande
Introdução,segredo, já estaria correndo algum boato. O problema do sentido
da vida não é a falta de acesso a uma informação secreta que
nos faria compreendê-lo. Não é uma questão que se possa resolver
a partir da descoberta de uma nova informação, mas sim
pensando-se nas questões sobre as quais não possuímos muitas
evidências. Grande parte do que vem a seguir, espero, demonstrará
isso.
Sendo assim, eu diria que a explicação do sentido da vida
presente nesse livro é “defl acionária”, pois reduz a busca mítica
e misteriosa por um único “sentido da vida” a uma série
de questões menores e pouco misteriosas a respeito dos vários
sentidos da vida. Dessa forma, o livro apresenta a questão
como, ao mesmo tempo, algo menor e maior do que normalmente
é considerada. Menor porque não é um grande mistério
inatingível para a maioria de nós; e maior porque não gera uma
só pergunta, mas muitas.
Essas perguntas podem ser respondidas – não por eu ser
um grande sábio, mas pelo simples fato de estar aqui reunindo
a sabedoria dos grandes fi lósofos do passado. Ao selecionar
e apresentar suas idéias, contudo, necessariamente estou
também mostrando uma visão particular, e não uma pesquisa
imparcial sobre o que disseram a respeito do tema. Este livro é
um relato pessoal, mas espero que a maioria dos fi lósofos concorde
com ele.
Quem quiser embarcar na busca pelo sentido da vida deveria
prestar atenção ao alerta feito por Douglas Adams no livro
O guia do mochileiro das galáxias. Nessa história, uma raça de
seres se cansa de brigar por causa do problema e decide construir
um supercomputador para obter uma resposta. O “Pensador
Profundo”, como fi cou conhecido, demora sete milhões
e meio de anos para responder a questão sobre “a vida, o universo
e tudo”. No dia de anunciar a resposta, com “majestade
e calma infi nitas”, o Pensador Profundo fi nalmente deu o seu
veredicto: “Quarenta e dois.”
10 Para que serve tudo isso?
O problema é que os engenheiros que construíram o
compu tador pediram uma resposta para “a questão da vida,
do universo e de tudo”, sem nem ao menos se questionar se
eles mesmos sabiam o que ela signifi cava. Agora eles tinham a
resposta, mas não a compreendiam porque não sabiam a que
questão ela estava direcionada. Fazer as perguntas certas é tão
importante quanto responder corretamente.
Nunca vai haver uma explicação defi nitiva para o sentido
da vida, em parte porque todo indivíduo tem que fi car satisfeito
tanto com as perguntas quanto com as respostas. A busca
pelo sentido da vida é essencialmente pessoal. Este livro não
poderá dar aos leitores um mapa mostrando exatamente onde
ela terminará – se é que isso um dia vai acontecer. Mas pode
lhes fornecer algumas ferramentas que auxiliarão na procura.
Como serão utilizadas, e se serão úteis ou não, é o leitor que
deve determinar.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

COISAS

O tempo é como um vento que nos conduz a essência do movimento de ser.




Há coisas que apagam
A gente
E se fazem absolutas
No modo como dizem
O mundo.
Há coisas que se fixam
Na alma,
Como se fossem
Um eu mais profundo.

ESPERA

A noite seguinte,
O fato seguinte...
Talvez nunca cheguem.

Tudo pode de repente,
Sem causa aparente,
Permanecer em estático transe,
Sem tempo...

Tudo pode acontecer
Entre esperados desconhecidos
No movimento vivo
De aguardar aqui
impotente
O que quer que seja.

ESPERA

A noite seguinte,
O fato seguinte...
Talvez nunca cheguem.

Tudo pode de repente,
Sem causa aparente,
Permanecer em estático transe,
Sem tempo...

Tudo pode acontecer
Entre esperados desconhecidos
No movimento vivo
De aguardar aqui
impotente
O que quer que seja.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

MOVIMENTO

A vida pressupõe
O desconhecido
Como provisório sentido
Do acaso que nos leva
A algum destino.

Sei que avanço
Na medida em que me desconheço,
Em que me esqueço
E surpreendo outros no espelho...

Escravo dos meus atos
Vislumbro liberdades
Em algum outro lado
Do tempo futuro.

CRÔNICA RELÃMPAGO XXXIV




É conhecida a frase segundo a qual fazemos nosso próprio destino. Segundo essa máxima, nossas opções pessoais determinam aquilo que somos. Mas cabe questionar se tudo o que nos tornamos na vida pressupõe uma cristalina consciência de nossos fatos e contextos vividos; o quanto nossas representações de nós mesmos e do mundo efetivamente correspondem a alguma teleológico significado objetivo de todas as coisas. Paradoxalmente, não somos senhores de nossas próprias opções. Em grande parte elas dependem também daquilo que os outros projetam sobre nós e que em contra partida projetamos no mundo. Sei que hoje não sou a mesma pessoa que em algum passado relativamente distante optou por isso ou aquilo.
Definitivamente não fazemos nosso próprio destino. Participamos dele tanto quanto participamos de tudo aquilo que somos. Não questiono o livre arbítrio que rege a biografia de cada individuo, o que de fato não me parece fazer sentido é a idéia de que uma identidade fixa e cristalina nos orienta o agir e o escolher. As decisões mais importantes de nossas vidas não passam de escolhas de momento guiadas por um misto de intuição e acaso no mais que profundo da superfície de um momento.

domingo, 17 de agosto de 2008

EU E O TEMPO

Vazios
Insinuam infinitos
Em tardes de puro tédio.

Procuro no corpo das nuvens
Que decoram o azul profundo
Retratos de sonhos de infância.

Guardo até hoje pedaços
Da criança que fui um dia
No absoletismo de meus sentimentos
Frente ao absolutismo das razões de ser.

Maior do que eu
É o mundo
No gosto de aos poucos
Perecer....

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Invasão britânica ( Brithsh Invasion)



A expressão Invasão Britânica ( Brithsh Invasion) associado ao surpreendente e estrondoso sucesso de bandas britânicas, encabeçadas pelos Beatles, nos E U A entre os anos de 1964 e 1966 costuma ser também utilizado para as sucessivas ondas posteriores de bandas de origem britânica que conseguiram transcender as fronteiras da Grã-Bretanha e conquistar amplamente o público americano. Se ainda nos anos 60 bandas como Rolling Stones, The Who, The Animals, The Kinks, The Dave Clark Five, Gerry & The Pacemakers beneficiaram-se do impacto da “invasão clássica” e da Beatlemania, nos anos 70 assistimos uma onda de invasão de grandes proporções comportamentais e culturais assolarem o território americano. Se por um lado tínhamos o had rock inovador do Led Zeppelin e Black sabbath, do outro tinhamos o verdadeiro furacão punk dos Sex Pistols e The Clash. Isso para não falar da reminiscência psicodélica personificada pelo estilo único do Pink Floyd e pelo pós punk de bandas como Siouxsie & the Banshees e Joy Division.
Nos anos 80 seria a vez da new have através da explosão de bandas como The Police, Soft Cell, The Pretenders, The Wham ou os alternativos The Smiths, The Stone Roses, The Cure e Echo & the Bunnymen) aos quais se contrapunham em termos estilísticos bandas como Iron Maidem, Def Leppard, Saxon e Motörhead.
Chegando finalmente aos anos 90, somos surpreendidos pelo Britpop representado por bandas como Oasis, Blur e Radiohead. Por sua vez contrapostos ao cumulo da pop music das Spice Girls.
Bom, ficando nos anos 90, mas sem querer desmerecer bandas como o Coldplay, Amy Winehouse, Arctic Monkeys, Lily Allen ou Klaxons, cabe observar que ao longo dessas “invasões britânicas”, através de estilos e contextos diversos podemos vislumbrar uma musicalidade ou sensibilidade peculiar dos músicos britânicos que a diferencia significativamente do rock americano. Tal especificidade cultural, mesmo que não muito bem definida, é reveladora de algo que, no alem da lógica da industria fonográfica, podemos explicar pelos traços peculiares da própria cultura britânica e seu caráter ao mesmo tempo insular e cosmopolita. Universalista por excelência em decorrência da herança imperialista, o rock em solo britânico pressupôs sincretismos culturais diversos e únicos como, por exemplo, com a musica indiana, através dos Beatles e do the Who nos anos 60, com a musica folk através do Led Zeppelin ou um misto de folk e erudito como no caso do Deep Purble em seu álbum singular The Book of Taliesyn (1968). Evidentemente existem outros exemplos. O panorama atual da musica no reino unido, dada a massiva presença de imigrantes, é ainda mais rico em ritmos, tons e diferentes estilos até a fusão máxima e desconcertante de tudo através do mágico delírio da musica eletrônica. Certamente, podemos esperar ainda por muitas invasões britânicas...

Emily Dickinson e o lirismo popular da nova Inglaterra...



Já comentei escrevi anteriormente aqui sobre a poética de Emily Dickinson. Mas é inevitável voltar ao assunto após uma descompromissada visita ao encantador universo de sua poesia. Talvez, o que mais me atraia nela seja seu peculiar lirismo definido por um misto de ingenuidade infantil, subjetividade feminina, magoa de mulher e profundidade de poetisa que traduz como ninguém a simplicidade do canto popular da Nova Inglaterra em palavras aladas a correr ao vento de nossas próprias e contemporâneas almas.


Compartilho aqui alguns de seus versos:


I’ll tell you how the Sun rose-
A Ribbon at a time-
The Steeples swam in Amethyst-
The news, like Squirrels, ran-
The Hills unidet their Bonnets-
The Bobolinks- begun-
Then I said softly to myself-
“That must have been the Sun”!
But how he set- I know not-
There seemed a purple stile
That litlle Yellow boys and girls
Were climbing all the while-
Till when they reached the other side,
A Dominie in Gray-
Put gently up the evering Bars-
And led the flock away-


Tradução de Aila de Oliveira Gomes:


Vou-te contar como é que o sol nasceu:
De repente uma fita apareceu,
Campanários nadaram em ametista
E noticias correram como esquilos;
Colinas desataram seus toucados,
Os passarinhos romperam em trinados.
Então disse baixinho p’ra mim mesma,
‘Deve sido o sol’!
Mas como foi que ele se pôs, não sei dizer.
No céu, um torniquete avermelhado-
Meninos e meninas de amarelo
Pulavam por ali em atropelo,
Na pressa de alcançar o outro lado-
Quando um clérigo de hábito cinzento
Fez o gradil da noite subir manso-
E dispersou o bando.
Love-is anterior to Life-
Posterior- to Death-
Initial of Creation, and
The Exponent of Earth-
Tradução de Aila de Oliveira Gomes:
O amor é à vida anterior,
À morte posterior,
Da criação o nascente, e
Do respirar, expoente.
The Rat is the concisest Tenant.
He pays no Rent.
Repudiates the Obligation-
On schemes intent
Balking our Wit
To sound or circumvent
Hate cannot harm
A foe so reticent-
Neither Decree prohibit him-
Lawfut as Equilibrium.
Tradução de Aila de Oliveira Gomes:
O rato é o inquilino mais conciso.
Não paga aluguel-
Repudia o compromisso;
Atento e ardil.
Frustra nossa astúcia
De alarme ou laço rente-
Nem ódio traz prejuízo
A inimigo tão reticente.
Love-is anterior to Life-
Posterior- to Death-
Initial of Creation, and
The Exponent of Earth-

Tradução de Aila de Oliveira Gomes:


O amor é à vida anterior,
À morte posterior,
Da criação o nascente, e
Do respirar, expoente.


The Rat is the concisest Tenant.
He pays no Rent.
Repudiates the Obligation-
On schemes intent
Balking our Wit
To sound or circumvent
Hate cannot harm
A foe so reticent-
Neither Decree prohibit him-
Lawfut as Equilibrium.


Tradução de Aila de Oliveira Gomes:


O rato é o inquilino mais conciso.
Não paga aluguel-
Repudia o compromisso;
Atento e ardil.
Frustra nossa astúcia
De alarme ou laço rente-
Nem ódio traz prejuízo
A inimigo tão reticente.
Nenhum decreto
Inibe-o-
Legal como
O equilíbrio.

Nenhum decreto
Inibe-o-
Legal como
O equilíbrio.



MEDOS



Guardo muitos medos em silêncio
No desenho dos atos
E apostas tolas de pensamento.


Cada passo de mundo
É como um pisar de abismos
Sobre hiatos que rasgam vontades
Construindo fronteiras
Entre sonhos e realidades.


Entre o real e o fantástico
Afinal
O medo é tudo que existe.
No jogo da existência
a regra é aprender limites...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

NOSTALGIA

Desbotados passados
Pendurados nas paredes
D’alma
Ainda me dizem
Algum amanhã possível
Enquanto sombras passeiam pelo vazio
Do provisório de cada dia.

Guardo a nostalgia
Dos coloridos jardins
De quintais de infância.

Aguardo-me na porta dos fundos
Da memória
Para reinventar o futuro
Em resgates de sonhos perdidos.

NOSTALGIA DE FUTURO

Procuro
No fundo das horas
Um pedaço aberto de céu
Para guardar medos e sonhos,
Esquecê-los em degredos
E descobrir em meus passos
Toda liberdade de ser.

Quero caminhar
Sobre um chão transparente
E incerto
Que me conduza a paisagem
De um feminino rosto escrito
Na alma dos meus sentidos.

Talvez, então,
Eu finalmente me veja
Do outro lado do pensamento,
Na realidade do outro,
buscando um delírio de acaso
que conduza a vida
A própria Vida
Até o infinito dos sentimentos...

Procuro
No fundo do tempo futuro
A perdida metade do meu ser
Sofrendo sonhos e nostalgias
De amanhãs quase perdidos.

A ARTE DE NAOTTO HATTORI: Um exemplo de "pos cultura"








As “psicodélicas” ou "surreralistas" imagens de Naotto Hattori ( 1975- ...) , ilustrador e artista gráfico japonês contemporâneo, nos conduzem a aventura de subversão das representações tradicionais da vida e do mundo através da fantasia como linguagem, como forma de des-leitura do real que nos leva ao avesso de uma narrativa do mundo. É articulada a tal orientação que sua obra personifica a desconstrução da própria idéia de arte e estética tradicionalmente estabelecidas. Podemos considerá-lo demasiadamente “pop”... demasiadamente distante de nossas sensibilidades a ponto de representar algo como uma "pos cultura". Mas o que poderia ser mais contemporâneo no plano das artes do que esse deslocamento absoluto de nossas sensibilidades compostas por retalhos de “classicismos” e “modernismos”?


terça-feira, 12 de agosto de 2008

CRONICA RELÂMPAGO XXXIII


Há dias que merecem apenas a saudação de um bocejo; dias previsíveis e definidos pela fatalidade serena do acontecer das rotinas; dias que nada nos dizem e contra os quais nos debatemos evadindo em devaneios para algum passado distante, alguma alegria inteiramente perdida, mas que nos habita intensamente como o fantasma de possibilidades felizes em sonhos de futuro. De muitas maneiras somos moldados por essas ingênuas fantasias enquanto percorremos a contra gosto nossos desertos cotidiano.
Todo ato de pensamento é uma manifestação do porvir, do infinito movimento ou mutação permanente que nos faz de algum modo existir contra a inércia dos fatos.

RADIOHEAD: NO SURPRISES...



Formada no ano de 1988, em Oxford, por Thom Yorke (vocais, guitarra, piano), Jonny Greenwood (guitarra), Ed O'Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo, sintetizador) e Phil Selway (bateria, percussão), o Radiohead tornou-se uma das mais originais bandas inglesas de rock alternativo.
OK Computer, seu terceiro álbum, lançado em 1997, uma alegoria cinzenta para o mundo moderno, pode ser considerado um dos grandes ícones dos anos 90 do século passado. Considero uma das canções deste álbum, NO SURPRISES, singularmente interessante, uma espécie de anti utopia pós moderna que nos faz pensar sobre a condição do individuo singular envolto em um mundo de incertezas e ausências de significados...

SURPRISES
Compositor: Tom Yorke
A heart that's full up like a landfill

A job that slowly kills you

Bruises that won't heal

You look so tired and unhappy

Bring down the government

They don't, they don't speak for us

I'll take a quiet life

A handshake of carbon monoxide


No alarms and no surprises

No alarms and no surprises

No alarms and no surprises

Silent

silent


This is my final fit, my final bellyache with


No alarms and no surprises

No alarms and no surprises

No alarms and no surprises

please


Such a pretty house, such a pretty garden


No alarms and no surprises (let me out of here)

No alarms and no surprises (let me out of here)

No alarms and no surprises please (let me out of here)


Tradução:


Um coração que se encheu como um aterro
um trabalho que te mata lentamente,
feridas que não cicatrizam.

Você aparenta estar tão cansado-infeliz,


Derrube o governo,
eles não, eles não falam por nós.
Eu vou levar uma vida tranqüila,
Um aperto de mão de monóxido de carbono,


Sem nenhum susto e nenhuma surpresa,
sem sustos e sem surpresas,
sem sustos e sem surpresas.
Silêncio, silêncio.


Este é meu ajuste final
minha dor de barriga final.


Sem nenhum susto e nenhuma surpresa,
sem sustos e sem surpresas,
sem sustos e sem surpresas,

por favor.


Uma casa tão bonita
e um jardim tão bonito.


Sem nenhum susto e nenhuma surpresa,
sem sustos e sem surpresas,
sem sustos e sem surpresas

, por favor.

FANTASY

Soube o doce bailado
De uma fantasia
Sob a suave musica
De um outono em chuva.

Naquele instante
Não sofria o tempo,
Não sabia as agonias
Das rotinas e dos dias.

Abraçado a uma fantasia
Percorria jardins antigos,
Sentia o sumo
Do gosto do mundo
Saboreando a verdade viva
Da simplicidade
De todas as coisas vivas.

sábado, 9 de agosto de 2008

C G JUNG E O PROBLEMA PSICOLOGICO DA IMAGEM DO MAL



Comentei a poucos dias a obra de William Golding “O Senhor das Moscas” e me pareceu adequado agora aprofundar a imagem das dimensões sombrias da condição humana, sugeridas pela literatura do autor, através de um fragmento do ensaio Presente e Futuro de C G Jung, originalmente publicado em março de 1057 em Zurique. Se o grande tema aqui é o arquetipico da sombra, cabe lembrar que um dos desafios que conduzem a saúde psíquica e a um desenvolvimento da consciência não é a sua recusa moral, mas sua integração positiva a pluralidade de eus que nos compõe... Na reflexão de Jung, aqui exposta há ainda o espectro da então relativamente recente experiência da Segunda Guerra Mundial e das polêmicas surgidas em torno de especulações sobre sua posição frente ao nacional socialismo. O que importa, porém, é a critica do autor a idéia de que o mal corresponde a uma realidade metafísica da qual somos vitimas em lugar de algo humano, demasiadamente humano...
“Na opinião generalizada de que o homem é aquilo que sua consciência conhece de si mesmo, diz-se sub-repticiamente que o homem é inocente, o que na verdade, só acrescenta uma dose de ignorância a maldade dele presente. Não se pode negar que coisas terríveis aconteceram e ainda acontecem. Contudo, achamos que são sempre os outros, os responsáveis, e como esses acontecimentos pertencem sempre a um passado, seja mais próximo ou mais distante, eles rapidamente acabam mergulhando no mar do esquecimento, num estado de espírito completamente ausente e crônico que chamamos de “estado normal”. Na realidade, porém, nada desaparece definitivamente e nada pode ser reposto. O mal, a culpa, o medo profundo da consciência moral e as instituições sinistras estão ai para quem quiser ver. Forma homens que cometeram esses atos: eu sou um homem e, enquanto natureza humana, compartilho dessa culpa como também trago a em minha própria essência a capacidade e a tendência de fazer, a cada momento, algo semelhante. Do ponto de vista jurídico, mesmo não estando presentes no momento do ato, nós somos, enquanto seres humanos, criminosos em potencial. Na realidade só nos faltou a oportunidade adequada para nos lançarmos ao turbilhão infernal. Ninguém esta fora da negra sombra negra sombra coletiva da humanidade. Se o crime foi cometido por muitas gerações ou se é apenas hoje que se realiza, isso não altera o fato de que o crime é o sintoma de uma disposição preexistente em toda parte, de que realmente possuímos uma “imaginação para o mal”. Apenas o imbecil pode desconsiderar durante todo tempo as condições de sua própria natureza. Mas é justamente essa negligência que se revela o melhor meio para torná-lo um instrumento do mal. A inocuidade e a ingenuidade são atitudes tão inúteis quanto seria para um doente de cólera e s eus vizinhos permanecer inconscientes a respeito da natureza contagiosa da doença. Ao contrário, estas acabam levando a projeção do mal não percebido nos “outros”. Isso só fortalece enormemente a posição contrária, pois, com a projeção do mal, não percebido nos “outros”. Isso só fortalece enormemente a posição contrária, pois, com a projeção do mal, nós deslocamos o medo e a irritação que sem timos em relação ao nosso próprio mal para o opositor, aumentando ainda mais o peso da sua ameaça. Além disso, a perda da possibilidade de compreensão também nos retira a capacidade de lidarmos com o mal. Aqui nos vemos diante de um dos preconceitos básicos da tradição cristã e um grande obstáculo a nossa política. Segundo esse principio, é preciso evitar o mal a todo custo e, se possível, jamais falar dele nem mencioná-lo. O mal é também o “desfavorável”, o tabu e a instância de temor. O comportamento apotropético na relação com o mal e na forma de se lidar com ele ( mesmo que aparente) vem ao encontro da tendência característica do homem primitivo de evitar o mal, de não querer percebe-lo e de, se possível, afastá-lo para outras fronteiras, tal como o pode expiatório, no Na tigo Testamento, usado para afastar o mal para o deserto.
Se entendermos então que o mal habita a natureza humana independentemente da nossa vontade e que ele não pode ser evitado, o mal entra na cena psicológica como o lado oposto e inevitável do bem. Essa compreensão nos leva de imediato ao dualismo que, de maneira inconsciente, se encontra prefigurado na cisão política do mundo e na dissociação do homem moderno. O dualismo não advém da compreensão. Nós é que nos encontramos diante de um estado de dissociação. Todavia, seria extremamente difícil pensar que teríamos de assumir pessoalmente essa culpa. Assim, preferimos localizar o mal em alguns criminosos isolados ou em um grupo, lavando as próprias mãos e ignorando a propensão geral para o mal. A inocência, porém, a longo prazo, não será capaz de se manter porque, como nos mostra a experiência, a origem do mal está no próprio homem e não constitui um principio metafísico como supõe a visão cristã.”
( C G Jung. Presente e Futuro, in Obras Completas de C G Jung. Vol. X/1/ tradução: Márcia de Sá Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 2ºed. 1989, p.44)

POEMA DO NADA

Nada que somos
E vivemos
É límpido e claro
Como uma certeza
Ingênua de pensamento.

Nada é pré desterminado,
Atávico,
Em nossas vidas
Explodindo no correr do tempo.

Nada é tudo que importa,
Nada é definitivo,
Como um grito perdido
Em uma paisagem morta...

A liberdade é um nada
Que nos faz buscar o impossível
E construir o possível
De nossas possibilidades
Entre casas e jardins
Fora do mundo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008



“AND NOW FOR SOMETHING COMPLETERY DIFERENT!”

IT’S....


O ultimo esquete do episódio 8 da primeira temporada do Flying Circus do Monty Python, exibido originalmente pela BBC em 25 de novembro de 1969, intitulado Full Frontal Nudity, é filosoficamente hilariante ao construir, em fins dos conturbados anos 60, um jogo mágico de espelho cultural através do seu ultimo esquete. Refiro-me, obviamente, a Hell’s Grannies... Esse imperdivel clássico do humor britânico. Que ninguém morra sem o ver...
Enfim, em Notlob, um bairro da cidade de Bolton, surge uma inusitada e crucial questão: A cidade encontra-se, então, sitiada e acuada por uma nova e inédita modalidade de violência: surgem, não se sabe de onde, sombrias gangues de velhas que atacam gratuitamente homens jovens, rebeldes e indefesos. Estes já não mais possuem segurança para saírem de casa, freqüentar a academia de boxe e etc...; entregues ao medo dessas cruéis delinqüentes de vestido e cabelos brancos que também elegem como alvo privilegiadamente inofensivas cabines telefônicas eles se encolhem em seu fazer-se no mundo. Elas também se divertem deproravelmente pichando no silêncio dos muros frases subversivas do tipo Make tea not love, etc...
Mas o pior de tudo acontece no dia do pagamento das aposentadorias, quando essas deploráveis senhoras torram todo o seu dinheiro em leite, pão, chá, comida para gato, e transformam as matinês de cinema em verdadeiros espetáculos dantescos rasgando poltronas e quebrando aparelhos auditivos.
Mas o grande problema dessas delinqüentes senis ancora-se, no fundo, na completa rejeição dos valores que hoje norteiam a sociedade contemporânea. Não é por acaso que muitos jovens se sentem culpados diante dessa absurda ameaça na qual se converteram nossas velhas de estimação. Eles são hoje bem sucedidos corretores, empresários e até sociólogos e historiadores, mas são obrigados a conviver com essas viciadas em crochê, potencialmente instáveis quando lhes falta lã...
Mas essas Hell’s Grannies não são a única ameaça contra a sociedade contemporânea. Esse novo tipo de violência também ganha forma através da dos bebes ladrões que fazem adultos indefesos e diversas coisas desaparecerem e a gangue de pracas de Keep Left ( Mantenha-se a esquerda) que constrangem e impedem o direito de ir e vir de muitos indefesos jovens.

BLACK SABBATH



1968 foi o ano de formação de uma das maiores bandas de rock de todos tempos, o Black sabbath. Surgida em Birmingham, Inglaterra e composta originalmente por Ozzy Osbourne (vocalista), Tony Iommi (guitarrista), Geezer Butler (baixista) e Bill Ward (baterista), chegou a se chamar Polka Tulk e mais tarde Earth antes de adotar seu nome definitivo em 1969. O Black Sabbath surgiu no cenário do rock dos anos 70 como uma novidade esmagadora. Podemos atribuir-lhe a ruptura com a musicalidade dos anos 60, o fim do clima de paz, amor e psicodelismo e a criação de uma nova linguagem musical que daria origem ao heavy metal.
Seu LP de estréia Black Sabbath (1970) com seus temas sombrios e místicos rendeu-lhe uma legião de fãs e uma excelente colocação no top 10 das paradas britânicas. Mas foi, definitivamente seu segundo álbum Paranoid ( 1970) com clássicos como War Pigs,Iron Man e Fairies Wear Boots, que lhe assegurou definitivamente um lugar privilegiado no cenário musical de então.
A rebeldia dos anos 70, já não se identificava apenas com questões políticas e filosóficas, compreendia o desregramento dos sentidos, a desmedida, e incorporava o culto ao diabo como uma forma radical de contestação dos valores culturais impostos pela tradição. Pode-se dizer que imperava ainda um certo otimismo ingênuo na cultura da juventude herdado dos anos 60, mas muitas coisas começavam a mudar...

AVENUES

O mundo cabe
Em uma lágrima
E escapa a um pensamento.

È tão pequeno
Que não o percebo...

For we are on
The brink of
Re-relembrance.
I suppose...
In vistas,
Down dark avenues,
Down the avenues...

INVERNO VIRTUAL

Em dias de puro verão
Fico pensando
Se as flores
Não gostariam de um pouco de chuva,

Se minhas dores não sonham
Com um pouco de fuga...

Talvez surja na neve
Presente em alguma parte
Do mundo e do norte
Qualquer sombra de sorte
E primavera
Em absoluto branco e frio
De mil destinos.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

LITERATURA INGLESA XXXIV




Sir William Golding (1911-1993) foi um dos mais fascinantes escritores britânicos do pós guerra. Novelista e poeta graduado em literatura inglesa em Oxford nos anos 30, em 1940 entrou para a Marinha Britânica servindo na Segunda Guerra Mundial. Participou inclusive do histórico desembarque dos aliados na Normandia, em 1944.
Com o fim da guerra passou a lecionar e em 1954 publicou seu primeiro e mais impactante romance: O Senhor das Moscas. Até então só havia publicado uma coletânea de poemas em 1934. Seguiram-se, então, Os Herdeiros (1955) e Queda Livre (1959), dentre outros títulos.
O título de o Senhor das Moscas é uma referência a Belzebu (do nome hebraico Ba’al Zebub, בעל זבו), um sinônimo para o Diabo. Trata-se de uma obra profundamente alegórica e pessimista que nos defronta com o pior e mais elementar da condição humana. Uma das passagens que considero mais significativa desta singular narrativa é o momento em que Simon, um dos meninos perdidos na ilha, imagina uma voz em uma cabeça de porco coberta de moscas. Acreditando que a mesma pertence ao imaginário monstro que habita a ilha, a escuta dizer que jamais escapará dele, pois ele existe no interior de todos os homens. O personagem é pouco depois morto pelos seus próprios companheiros que ao verem saindo de uma floresta o tomam por engano pelo monstro imaginário.
O argumento para essa interessante obra pode ter sido sugerida pela experiência de Golding na Bishop Wordsworths School, uma escola católica para meninos, em Salisbury, na Inglaterra, onde ensinou língua inglesa a partir de 1945. O fato é que O Senhor das Moscas pode ser interpretado como uma critica a teoria do "bom selvagem" formulada por rousseau. Trata-se de um dos livros mais fascinantes que já li ...


" -És um menino tonto! -diz o Deus das Moscas. -Um menino tonto e ignorante!
Simão move a língua inchada, mas não profere palavra.
-Não estás de acordo? -pergunta o Deus das Moscas. Não és um menino
pateta?
Simão replica-lhe na mesma voz silenciosa.
-Ora bem -continua o Deus das Moscas. É melhor saíres daqui
para ires brincar com os outros. Pensam que tu és maluco. Tu não
queres que Rafael pense que és maluco, pois não? Gostas muito do Rafael,
não é verdade? E do Bucha e do Jack?
A cabeça de Simão levanta-se ligeiramente. Os seus olhos não podem
desfitar o Deus das Moscas, ali cravado naquele espaço diante de si.
-Que fazes tu aqui sozinho? Não tens medo de mim? Simão estremece.
-Não há ninguém que te ajude. Só eu. E eu sou a Fera. A boca de Simão
esforça-se, exprime palavras audíveis:
-Cabeça de porco num pau!
-Imagina tu! Pensar que a Fera era alguma coisa que se poderia caçar
e matar! -exclama a cabeça. Durante uns segundos, a mata e todos os
outros recantos indefinidamente entrevistos
ecoam com a paródia do riso. - Tu sabias, não é verdade? Eu sou
parte de ti próprio. Aproxima-te, aproxima-te ainda mais! Sou eu

o motivo por que não se pode ir mais além? Porque é que as coisas são
o que são?
O riso torna a arrepiá-lo.
-Ora vamos! -volve o Deus das Moscas. -Vais ter com os outros e esqueçamos
tudo isto.
A cabeça de Simão vacila. Os seus olhos estão semicerrados como se imitasse
aquela coisa obscena espetada num pau. Pressente que se avizinha
um dos seus momentos. O Deus das Moscas expande-se como um balão.
-É uma parvoíce. Sabes perfeitamente bem que só nos encontraremos lá
em baixo, de maneira que não tentes fugir!
O corpo de Simão arqueia-se, rígido. O Deus das Moscas fala-lhe com a
voz de um professor.
-Esta brincadeira já durou mais do que devia. Meu pobre menino desencaminhado,
tu pensas que sabes mais do que eu?
Uma pausa.
-Aviso-te. Vou zangar-me. Vês? Não precisam de ti. Entendes? Vamos
ter uma grande reinação nesta ilha. Entendes? Vamos
ter uma grande reinação nesta ilha! De modo que não tentes fazer de
esperto comigo, meu pobre menino desencaminhado, ou então...
Simão dá-se conta de que olha para uma bocarra imensa. Lá dentro há
negrume, um negrume que se expande.
-Ou então -prossegue o Deus das Moscas -acabamos contigo. Vês? O
Jack, o Maurício, o Roberto, o BilI, o Bucha e o Rafael. Vês?
Simão era tragado pela bocarra. Cai e perde os sentidos.
Uma visão da morte."

NAUFRAGO

Naufrago de mim mesmo
Abandonei-me
Em ilhas imaginárias
Perdidas no fundo d’alma.

Esqueci rosto
E palavra
Despido de sonho
E vontade.

Cai em minha sombra
Como quem cai em abismos
Mutilado pelos silêncios
Do meu passado entreaberto.

Vislumbro esquecimentos
Em minhas ausências
Degredando futuros
E sonhos selvagens de felicidade.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

MONTY PHYTON: FLYING CIRCUS



IT’s...
No episódio 2 ( Sex and Violence) da primeira temporada de FLAING CIRCUS do Monty Phyton encontramos uma série de sketchs singularmente divertidas e acidas sobre alguns dilemas contemporâneos. Penso particularmente no esquete The Epiloque: A question of Belief ( O Epílogo: Uma questão de crença), simulação de um programa de debates onde na noite em questão, os debatedores representados por um lado pelo Monsenhor Edward Gav, emissário pastoral visitante da Universidade de Teologia Somerset, autor do best seller “Meu Deus” e, por outro lado, pelo Dr. Tom Jack, humanista, jornalista, palestrante e autor de livros como “Ola Marinheiro”, decidem substituir os incansáveis e infrutíferos debates sobre a existência ou não de Deus por uma boa briga em um ringue em uma disputa de três assaltos...
Algumas esquetes depois, em outra simulação de um programa sobre atualidades, The World around us (O mundo a nossa volta) nos confrontamos com o delicado problema da descriminação e preconceito contra os “homens- ratos”, ou seja o caso de homens que pensam que são ratos e adotam um comportamento desviante fantasiando-se como tal e adquirindo hábitos d e ratos.
Mas em que pese todo o preconceito e falta de informação existente sobre o delicado tema, após depoimentos de homens ratos e opiniões de especialistas, somos induzidos a crer que, como demonstram os exemplos históricos de Cezar e Napoleão, os “homens-ratos” podem ocupar um lugar útil na sociedade.
... Já no final do episódio, retomando o esquete The Epilogue, cabe informar o resultado do combate pela existência ou não de Deus: Deus existe por duas quedas contra um nocaute... Resultado que, pessoalmente, considero terrivelmente injusto... Até hoje aguardo pelo sketch de uma revanche que certamente provaria que Deus não existe!

ENIGMA PESSOAL



Nenhum instante
Ou retalho de tempo sentido
Define-me nos dias
Ou na alma.


Significados me fogem
Quando tento
Inutilmente agarrá-los
Em sombras de memórias
E certezas de rosto.


Sou a soma
De perdas e conquistas
No provisório balanço
De mim mesmo.


Entre transformações e buscas
Abandono-me ao vento
Que me desfaz e refaz
No movimento da vida.

PENSAMENTO E CONTEMPORÂNEIDADE


“Sem os punhos de ferro da modernidade,
a pós-modernidade precisa de nervos de
aço”
.
BAUMAN, Zygmunt: Modernidade e Ambivalência

O exercício de pensar na contemporaneidade pressupõe toda economia simbólica como um jogo de linguagem deslocado de qualquer objeto de eleição, de qualquer correspondência viva entre as palavras e as coisas.
A consciência tornou-se, em muitos sentidos, o único sujeito e objeto possível do pensamento que, cada vez mais, volta-se para e contra si mesmo no produzir irrestrito do conhecimento.
Já não é mais possível apropriar-se do mundo pelo pensar, reduzi-lo a uma espécie de ciframento, codificação ou desvelamento de uma realidade passível de revelação. Pois tudo que vemos hoje é uma espiral de conceitos, métodos, ideações e arbitrarias eleições cognitivas que se mesclam em um amalgama de informações inconclusas, historicamente determinadas, em sua inevitável perenidade ou provisório e relativo valor.
Aqueles que ainda se entregam à chamada “vida do espírito” encontram-se diante do desafio de reconhecer o esforço de pensar, antes de tudo, como uma atividade lúdica não mais destinada a fomentar valores morais, princípios e certezas de mundos imaginados como realidades.
O conhecimento hoje em dia, parafraseando Jean Francois Lyotard em A Condição Pos Moderna, é basicamente performance... Acrescentaria ainda: ele é incredubilidade e descrença na fundamentação ultima de todo discurso, isto é, o sentimento de verdade.

A ESSÊNCIA DO FUTURO



Muito do que sou hoje
É puro futuro
Do qual ainda
Não sou capaz.


O porvir, afinal,
É o vazio que da forma
Ao tempo,
Uma insaciável ausência
Que nos faz
Desesperadamente
Viver...


Sem querer,
Entretanto,
Vislumbro apenas passados
Em meus horizontes
E sigo no tempo
Como um sereno vento.

domingo, 3 de agosto de 2008

MONTY PHYTON: FLYNG CIRCUS


IT’S...

O personagem maltrapilho. Cabeludo e barbudo das aberturas dos episódios da série Flyng Circus do Monty Phyton, exibida pela BBC entre os anos de 1969 e 1973 é um naufrago que nos sugere o naufrágio de nosso próprio mundo... Leitura possível para uma apropriação do humor singular e único do Monty Phyton em linguagem filosófica/satirica. Podemos, inclusive considerar esse mágico sexteto britânico, sem embargos, como os melhores continuadores da “literatura de costumes” tão em voga entre os escritores vitorianos...
Sim... somos náufragos de nos mesmos e rir disso é uma vitória do pensamento.

LOVE...

I get my love back
At evening.

O mundo explode
Lá fora em brilho fosco de noite
Nessa cidade que nos ignora
Como ignoramos um ao outro.

Free...

Fidelity?
Loyalty?
Attachment?

Oh, these are
Abstractions
Sobre um céu nublado
E lindo.

SHIP

Entre o céu e a terra
Correm diversos ventos,
Que percorrem nossos momentos
Como um verso exilado
Em busca da forma
De um pensamento.


Sinto-me o mero e provisório
Produto
De algum destes ventos
Que sopram
Sem direção ou rumo.

Sei que sou o esforço
E esboço
De algum futuro informe
Que nunca busqueiComo nau em mar profundo

quarta-feira, 30 de julho de 2008

ROLLING STONES: O CORPO COMO MUSICA EM MOVIMENTO



Nunca tive o trabalho de mapear todas as bandas que fizeram parte da chamada “invasão britânica” dos Estados Unidos liderada pelos Beatles depois da turnê de 1964. Mas é fato que se tratou de um movimento plural, diverso, ao ponto de uma das maiores forças da invasão britânica, os Rolling Stones, representarem em sua essência um profundo sincretismo entre a linguagem impar do rock britânico e a musica popular norte americana.
Se os Beatles são os herdeiros e mais originais continuadores da primeira geração do rock, a ponto de estabelecer uma ruptura de conseqüências impares, os Stones são seus leitores mais originais. Sua musicalidade nos atinge o corpo, os sentidos, e passa longe do pensamento e das angustias existenciais. É apenas puro e bruto roch’n roll... musica para dançar no mais cru primitivismo que o rock pode representar do ponto de vista da cultura clássica ou inspirada pela tradição da “boa sociedade”.
Não é nada fácil definir o som dos Stones... Talvez eles representem o pensamento do não pensamento... uma linguagem musical inspiradora de vertigens e sensações de corpo de alma. Algo só compreensível quando somos embalados por clássicos como Satisfaction, Sympathy for the divel, I’m free ou No expectations até o esgotar de todas as nossas ansiedades e energias em qualquer forma de melancolia como em paint it black, as tears go by e lady jane.


Segundo Paul Friedlander foi em 1968 que os Stones atingiram sua maturidade assegurando um lugar certo para Mick, Keith e Brian na história mágica do rock...


...Na primavera de 1968, porem, nem gravações no estúdio londrino Olympic, eles produziram uma musica que reverberou por todo o mundo da música. Era uma inovação, o som era encrespado e as idéias musicais eram mais sofisticadas. A temática das letras tinha expandido o anterior foco em envolvimentos românticos/sexuais para incluir temas como preocupação política e social. Mesmo assim, a cozinha ritma a inda vibrava, Jagger continuava a rosnar e uivar, e perigo e tabu ainda se escondiam por entre as letras. Os Rolling Stones amadurecidos não eram não eram nada submissos. Eles produziram um quarteto de discos clássicos- Beggars Banquet, Let It Bleed, Sticky Fingers e Exile on Main Street- que garantiriam que os Stones seriam considerados eternamente um dos maiores grupos de rock and roll.”
Pode-se apontar o produtor Jimmy Miller como o responsável pelo amadurecimento musical e por uma nova sofisticação nos arranjos e no som. Miller, um per cussionista americanom já tinha produzido álbuns para Spook Tooth e o Traffic quando foi convidado para assistir as gravações dos Stones. A relação profissional foi estabelecida ne Miller continuou como produtor da banda nos cinco discos seguintes, sendo que os quatro primeiros são o ponto alto da carreira da banda. Um dos aspectos mais marcantes deste período ( graças, talvez, a genialidade de Miller no estúdio) é a linha de instrumentos de percussão no inicio de sucessos como Sympathy for the Devil e Gimme Shelter.”


( Paul Frederich. Rock and Roll: Uma história social/ tradução de A. Costa-4º ed. RJ: Record, 2006, p.164 )

CRÔNICA RELÂMPAGO XXXII


Sei que sou feito por tudo aquilo que passou; pelo que perdi, sonhei e conquistei neste decepcionante resultado informe de copia carbono de sonhos desfeitos... que é simplesmente meu eu...
Mas se o que nos tornamos na vida é conseqüência dos limites, desafios e escolhas que fazemos, não há satisfatória conceituação que desvele O SUPLEMO IMPRECISO DE NÓS MESMOS, esta fantasmagórica metáfora que expressa o mais irracional e intenso fundo de nossas almas, aquilo que nos leva a uma insaciável sensação de desconforto e insatisfação permanente.
A vida é essencialmente um estado constante de inquietação...

OS FANTASMAS DO TEMPO

Preencher de vida
O tempo de cada dia
É a única tarefa
Que nos ocupa.

Vivemos para
E através do tempo...

Arrumamos a vida
Em calendários e relógios
Desarrumando o lúdico
Dos desejos brutos.

Tudo para cumprir o oficio
De inventar sociedades.
Mas devaneios de infância
Espreitam a madrugada.

Em face de lua e encanto,
Em embriagados vazios,
Algum eu rebelde me invade
sonhando infinitos
e outras realidades.

domingo, 27 de julho de 2008

C G JUNG E O TEMPO PRESENTE: CIVILIZAÇÃO EM TRANSIÇÃO



Em um breve ensaio sobre a situação da mulher na Europa, originalmente publicado na Alemanha em 1929, C. G.Jung tece certas considerações interessantes sobre o significado do tempo presente que ainda hoje se aplica aquilo que muito imprecisamente podemos conceituar como contemporaneidade, ou seja, o profundo e inédito “vazio” cultural ou desconstrução da tradição que define a dinâmica cultural de nossos dias. Assim sendo, vale a pena aqui reproduzir a seguinte passagem como mais um elemento, ou fragmento, sobre a a nova fenomenologia do contemporâneo já muitas vezes abordada neste espaço:


“... O que chamamos presente não passa de uma fina camada superficial que se cria nos grandes centros da humanidade. É muito fina, como na antiga Rússia, e assim é irrelevante ( como os acontecimentos mostraram). Mas quando atinge uma certa espessura e força, já podemos falar de cultura e progresso, surgindo então problemas característicos de uma época. É neste sentido que a Europa tem um presente, e há mulheres que vivem nele e estão sujeitas aos seus problemas. E só dessas mulheres podemos dizer alguma coisa. Aquelas que se sentem satisfeitas com os caminhos e possibilidades que a Idade Media lhes oferece não tem qualquer necessidade do presente e suas experiências. Mas o homem que é do presente- seja qual for a razão- já não pode retornar ao passado, sem sofrer uma irreparável perda. Não raro esse retorno se torna impossível, mesmo que se esteja disposto a sacrifícios. O homem do presente deve trabalhar para o futuro e deixar a outros a tarefa de conservar o passado. Por isso, alem de construtor, é também um destruidor. Ele e seu mundo tornaram-se ambíguos e questionáveis. Os caminhos que o passado lhe indica e as respostas que dá aos seus problemas são insuficientes às suas necessidades presentes. Os confortáveis caminhos do passado já foram obstruídos e novas trilhas foram abertas, com novos perigos, totalmente desconhecidos do passado. Segundo o provérbio, nada se aprende da história; também quanto aos problemas do tempo atual, via de regra nada dirá. O novo caminho deve ser traçado em terreno virgem, sem qualquer pressuposto e, infelizmente, muitas vezes sem dó nem piedade.”


(C G JUNG. A Mulher na Europa, in Obras Completas Volume X/3- Civilização em Transição. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 112)


É interessante como Jung , em sua inegável sensibilidade pensa sua história contemporânea como uma ruptura radical com a tradição e para o significativo detalhe de que a maior parte das pessoas no mundo vivem de modo a-histórico, não alcançam qualquer interpretação ou preocupação realmente significativa com as questões e dilemas definidoras do tempo presente. A historicidade enquanto uma modalidade de sentimento ou percepção das coisas é praticamente um privilégio reservado a uma parcela pequena da população mundial contraposta a grande massa ainda mergulhada de alguma forma em um mundo fantasmagórico definido pela tradição. Recorrendo a uma segunda passagem do mesmo ensaio:


“... Trata-se, afinal, de saber se queremos ser a-históricos e, assim, fazer a história ou não. Ninguém pode fazer história se não quiser arriscar a própria pele, levando até ao fim a experiência de sua própria vida, e deixar bem claro que sua vida não é uma continuação do passado, mas um novo começo. Continuar é uma tarefa que até os animais são capazes de fazer, mas começar, inovar é a única prerrogativa do homem que o coloca acima dos animais.”

( Idem p. 114)


Evidentemente seria uma lamentável miopia tomar essas palavras de Jung, arrancadas de seu contexto, em alguma espécie de discurso revolucionário estilo sécs. XIX e XX. O que aqui me parece ser problematizada é a tendência que temos na definição de nossas próprias vidas para seguir o confortável rumo dos valores impostos por esta ou aquela tradição cultural desconsiderando o inédito, o potencial criativo e inventivo que potencialmente existe em cada individualidade humana.
Nossa contemporaneidade é em certo sentido a percepção abstrata desta possibilidade inedita que afirmou-se para o homem ocidental através das revoluções comportamentais e verdadeira reviravolta de valores e certezas que teve lugar no último século. Somos hoje todos um pouco vazios de cultura/tradição, verdadeiros bárbaros contemporâneos entre os destroços do mundo da tradição.

IRON BUTTERFRY: IN A GADDA DA VIDA: 40 anos depois...



Um dos mais contundentes registros da efervescência cultural de fins dos anos 60, a banda Iron Butterfry, de certa forma, sintetiza a proposta do Acid Rock, da contra cultura personificada pelo movimento Hippie.
Gravado em 1968, o LP “In-A-Gadda-Da-Vida”, do qual a música homônima, diga-se de passagem, com 17:05 minutos de duração, tornou-se a época um hino para os jovens americanos e seus sonhos de liberdade é um retrato musical singular dos anos 60.
Talvez os longos e destorcidos solos de guitarra, acompanhados por um baixo marcante, bateria frenética e um teclado alucinante e inconfundivelmente psicodélico, tudo isso ao sabor de letras inspiradas na filosofia do love and piece, nos pareçam hoje demasiadamente datados e distantes.
Isso não impede, entretanto, que In-A-Gadda-Da-Vida irradie um certo encanto atemporal, um apelo à evasão e transcendência das nossas desbotadas paisagens cotidianas que de muitas formas nos é contemporânea.
Quem já ouviu In-A-Gadda-Da-Vida pela manhã antes de mergulhar em rotinas e pueris papeis pessoais sabe o gosto de imprecisos e doces infinitos de pensamento que esta musica nos proporciona com sua atmosfera mágica e radicalmente psicodélica.
Tudo o mais e acid...

LIMITES



Sei que sou apenas isso...
Um indefinido rosto
Perdido
No fundo de multidões.


Mas busco a liberdade dos pássaros
Que rasgam o azul do céu
Sem o peso de qualquer sentimento,
De qualquer certeza.


Restrito aos meus limites
Mergulho em infinitos sonhados
Me faço no sem sentido
De cada ato abstrato
De mero pensamento.


Escapo ao mundo
No buscar a mim mesmo
Desfeito no tempo
Da minha própria vida.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

WORD

A palavra me rouba
O aprendizado do silêncio.

Em cacos vislumbro meu rosto
Opaco na variação de emoções
E humores.

Visto um verso
Para despir sentimentos,
Buscar o invisível e incompreensível
Segredo do acontecer da existência
Sob os desígnios do acaso.

Mas tudo que vejo e faço
Transfigura-se no raso
De um imperfeito discurso.

TIME

A soma das horas
Da minha vida
Jamais definirão
O que fui e sou
Entre o céu, a terra
E o devir.

Quantos de mim mesmo,
Afinal,
Posso sonhar, ser
E saber
Na matéria bruta dos fatos?

Nenhum retrato diz meu rosto
Nos dias,
Nenhum pensamento esclarece
O movimento da carne d’alma
Dentro do tempo.

Tudo que sei é que passo
Em atos de liberdade
No finito de cada passo.

terça-feira, 22 de julho de 2008

O CANTO DE MARLENE DIETRICH


Ouvia agora a pouco uma coletânea de Marlene Dietrich. Dei-me conta, na aventura da musica decorando a noite, do quanto, mesmo como cantora ou one woman show, ela representa o mais enigmático, ambíguo e misterioso símbolo feminino de sexualidade já construído pela mítica e irracional linguagem do cinema da primeira metade do século XX.
Interpretando peças musicais, Marlene é uma realmente singular... uma musa profunda e expressiva que parece, com a ambigüidade de uma esfinge desafiar-nos com a sóbria interpretação quase masculina de canções tão preciosas como Lili Marlene, Simphonie, Black Market ou You Go To My Head.
Segundo Charles Higman, autor de uma biografia sobre Marlene, citando seu regente dos anos 50, William Blezard, ela desenvolveu e popularizou o sprechstimme, a arte de falar como se estivesse cantando na inventividade única de seu canto.
As Performances de Dietrich são como um seqüestro de vida de alguma elegante plenitude de mundo que nos revela o máximo limite e apoteose da experiência humana.

LIVROS, LEITURAS E FRAGMENTO


Não conheço maneira mais apropriada para se ler um livro do que cortar-lhe a abstrata carne rasgando-lhe em fragmentos que, de algum modo subjetivo, nos revelam o cerne de seu corpo, de sua aparentemente homogênea narrativa.
Não se pode negar que a experiência da leitura faz-se normalmente pelo impacto de alguns parágrafos ou frases que nos seduzem, dar-se através de retalhos, de retratos em closes, ou ainda, através da surpresa reveladora de determinadas passagens onde nos reconhecemos provisoriamente.
Por tudo isso, escolher citações em um livro é um modo de dizer o que realmente nos interessa singularmente neles, aquilo de que nos apropriamos na aventura da leitura.

ILUSSIONS



Preciso vestir-me de luto
Para cantar e beber a alegria
De viver desfeito e mendigo
Em meus cinco sentidos.
O corpo faz dançar pensamentos,
Vontades explodem
Em mil direções e delírios.
Tudo existe
Em alucinante ritmo
De sentir em cores
Todo abismo que me faz
De algum modo emoção selvagem.
Mas me esqueço,
Apesar de tudo,
Na paisagem da mesa feita e previsível
De um jantar em família.
Leões e tigres
Esperam, porem, no quintal noturno
A soturna hora de um sonho
Que nunca chega a provar
O gosto de realidades.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

ENTRE OS DEUSES E OS HOMENS:O SIGNIFICADO DOS DAIMONS SEGUNDO MARIE LOUISE VON FRANZ



Uma das mais pertinentes reminiscências pagãs presentes no imaginário estabelecido pela mitologia cristã é a imagem do gênio pessoal, de um campo intermediário entre a realidade dos deuses e dos homens. Para a maioria das pessoas sua familialidade enquanto experiência psicológica, dar-se através da ingênua fantasia do anjo da guarda.
Buscando pensar o sentido mais profundo desta imagem arquetipica valho-me aqui de um fragmento de Marie Louise von Franz extraído de uma das palestras que compõem o livro Reflexões da alma: Projeção e Recolhimento Interior na Psicologia de C.G. Jung. Remeto-me assim ao arcaico conceito de daiomai e daimon onde encontramos uma simetria significativa com o conceito de complexos autônomos formulado por Jung e de vital importância para a compreensão de suas formulações. Interessante observar que a obra aqui em questão de Marie Louise von Franz é, antes de tudo, um estudo sobre o fenômeno da transferência e sua retirada, fenômeno que parece caracterizar o desenvolvimento da consciência humana através de mitos e símbolos ao longo de séculos.


“No contexto estrito da alma humana, muitos demônios cananeus e judaicos antigos tornaram-se “espíritos sopro”, que penetrando nos homens podiam produzir sensações, impulsos misteriosos, reações repentinas, etc., mas também uma postura ou uma orientação moral; no Velho Testamento fala-se de um espírito dos desejos ou do ciúme, mas também de um espírito da compreensão e do entendimento. Mesmo funções, como o olfato, a linguagem, o sono, a sexualidade, tem o seu “espírito”.
Na Grécia pré-helenica, os demônios formavam também um coletivo anônimo. A palavra daimon vem de daiomai, que significa algo como “repartir” e designava originalmente uma intervenção divina perceptível por momentos e da qual se ignorava o Deus que a teria praticado, por exemplo, afugentar os cavalos, falhar no trabalho, doenças, loucura, pavor de certos lugares na natureza virgem. Mesmo certas atividades enquanto tais são algo parecido a um daimon. Por volta de 700 a.C., na época de Hesíodo, surge pela primeira vez a concepção, bastante difundida no século III, de um daimon escoltando constantemente o indivíduo. No século IV; ele causa a infelicidade ou no infortúnio do indivíduo. No século IV começou-se a fazer oferendas a um daimon bom (aghathos) enquanto espírito domestico.
Platão utiliza a palavra de maneira ambígua, quase sempre como sinônimo de theos( Deus), agregando-lhe as vezes a nuance de um ser bem “próximo ao homem”. Assim, Diotima, como sabemos, afirma em O Banquete, que Eros era um grande daimon, “pois tudo o que é demoníaco- (pan to daimonion) está entre Deus e o mortal”, e à pergunta de Sócrates a respeito de qual era sua função, ela responde: “ a de interpretar e transmitir aos deuses o que é dos homens, e aos homens o que vem dos deuses: àqueles, orações e oferendas e a estes, ordens e recompensas pelas oferendas. No meio, portanto, está a conexão,de modo que o todo (topan) esta ligado em si mesmo. E também todas as profecias e esconjuros e toda a adivinhação e magia perpassam o demônio, pois Deus não se dirige aos homens, visto que todo o contato ou relação entre deuses e homens se dá através dele, tanto na vigília, quanto no sono... Existem muitos destes demônios e espíritos das mais variadas espécies, e Eros também é um deles.
No Estoicismo e no Platonismo, a sutil distinção entre deuses e homens tornou-se mais nítida: os deuses são poderes universais imensos, superiores, distantes dos homens e consideravelmente longe dos sofrimentos e das paixões humanas.Os daimons, ao contrário, povoam o reino intermediário entre o Olimpo e os homens, sobretudo a esfera do ar e o mundo sublunar, e reúnem-se ali com os espíritos da natureza,das fontes, plantas e animais. Esta concepção do final do Platonismo foi formulada por Apuleio de Madaura da seguinte maneira: os poetas teriam erroniamente atribuído aos deuses o que valia para os demônios: “Eles elevam e favorecem os homens, outros eles oprimem e humilham. Eles sentem portanto compaixão, indignação, felicidade e medo e todos os sentimentos da natureza humana...todas as tempestades distantes da tranqüilidade dos deuses do Céu. É que todos os deuses permanecem sempre no mesmo estado espiritual... pois nada é mais perfeito do que um Deus... Mas todas estas disposições, ao contrário, ajustam-se à natureza inferior dos demônios que tem em comum com os de cima a imortalidade e com os de baixo, as paixões... por isso denominei-os “passivos” por estarem submetidos às mesmas desordens anímicas que nós”. Num certo sentido, o espírito do homem, o seu “genius” e o seu “espírito bom” ( como o Daimonion de Sócatres) são também “daimons”, assim como os outros espíritos habitantes do ar. Depois da morte, eles se tornam Lêmures ou Lares ( deuses domésticos)ou, se eram maus, larvas (Spuks ruins).
(...)
No final da Antiguidade, a distinção entre deuses, longe dos sofrimentos terrenos, e demônios, sujeitos a todas as paixões humanas, me parece muito importante: os daimons estão mais próximos do homem do ponto de vista subjetivo-psicológico, do que os deuses. Cícero designava-os até como “mentes” ou “animi”, isto é, “almas”. Outros autores denominam-nos “potestates”, isto é, poderes. Encontramos esta designação de “alma” em muitos autores, mesmo os antigos, especialmente no Estoicismo, em Poseidônios, Fílon, Plutarco, Clemente de Alexandria e outros. A luz da psicologia junguiana, a antiga distinção entre deuses e homens significa o seguinte: os deuses representam antes as estruturas básicas arquetípicas da psique afastadas da consciência, e os demônios, ao contrário, configuram os mesmos arquétipos, só que de uma forma mais próxima da cosnciência e da vivência subjetivo-interior do homem. É como se um aspecto parcial dos arquétipos começasse a se aproximar do indivíduo, a se afeiçoar a ele, tornando-se uma “alma agregada”.”
(Marie Louise von Franz. Reflexões da Alma. Projeção e recolhimento Interior na Psicologia de C G Jung./ tradução de Erlon Jose Paschoal. SP: Cultrix/Pensamento, s/d, p.122-124)

THE MYSTERY OF UNIVERSE

O mundo convida-me
Ao espanto...

Talvez tudo que existe
não passe do sonho
de um pensamento
dentro de mim diurno;

Os pés provam
Um abismo aberto
Em explosão de fatos
E estilhaços de significados.


How Strange...
The mystery of universe.

Sou tudo o que posso
Em finitude e mundo
no pueril de cada certeza
espalhada pelo caminho.

CRONICA RELÂMPAGO XXXI


Uma das coisas que mais me chamam atenção na condição humana é a capacidade de cada individuo para justificar seus atos mais tresloucados. Geralmente temos respostas e justificativas para os nossos maiores erros.
Não creio que interiorizamos a sociedade dentro de nós como uma instância impessoal de repressão em constante conflito com nossas mais profundas vocações pessoais. Creio, ao contrario, que em nossa cristalina, porem finita e limitada, consciência das coisas raramente nos abrimos para experiência da duvida radical, para descentralização “positiva” de nosso próprio rosto nessa infinidade de coisas concretas e abstratas estabelecida pela pluralidade viva que é o mundo.
Em cada cotidiana e extraordinária situação que a existência nos impõe, somos desafiados a fazer escolhas, a lidar com o absoluto outro de nós mesmos no interagir com o mundo ou a convencional realidade coletiva.
Na ausência de qualquer segurança, nos apegamos instintivamente aquilo que no plano do imediato melhor nos define, nossa própria consciência das coisas. Não consideramos, entretanto, suas imprecisões ou seu caráter fluido e instável. Afinal, o que nos parece certo hoje pode não nos parecer daqui a um ano e podemos perder boas experiências potenciais por não enxergarmos a complexidade de um determinado momento avaliando optando pelo mínimo que percebemos.
Voltando ao inicio desta divagação, é realmente curiosa nossa infantil necessidade de viver significados, inventar significantes, em um delirante jogo de verdades que, hipoteticamente, realiza apenas a miopia de nossas certezas de momento. Sejam elas admitidas ou não como tais...

META ALMA GEMEA



Pelo segredo do teu rosto
Deixaria escapar a alma
Em coloridas imagens
De espelhos e pensamentos.

Afogar-me-ia em teu corpo
Até esquecer meus lamentos
E metas

Buscaria algum outro de mim
Em teu retrato
Recriando o tempo
No gentil da primavera.

Pelo segredo do teu rosto
Talvez eu me perdesse
Entre enganos e sentimentos
das mais sagradas falhas certezas.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

MONARQIA BRITÂNICA E MULTICULTURALISMO



Uma das grandes peculiaridades da Grã Bretanha nesse inicio de século em um mundo cada vez mais globalizado, é a presença expressiva de várias comunidades imigrantes, seja de origem africana, caribenha ou asiática, a ponto de torná-la, muito provavelmente, o maior centro multicultural da Europa.
Mesmo após os atentados de julho de 2005 em Londres, a tolerância britânica com as diversas culturas que hoje transformam suas paisagens vividas, permanece muito maior do que a observada em outros centros culturais europeus como Paris e Berlim.
Pessoalmente acredito que tal integração de outras culturas a sua identidade territorial sem significativa resistência xenofóbica explica-se pela segurança identidária e cultural proporcionada pela instituição da monarquia enquanto símbolo e sustentáculo da soberania.
Embora assentada sobre valores em alguma medida arcaicos, como a teoria do direito divino, não há como negar certa contemporaneidade da Realeza enquanto personificação do self e da totalidade na cultura britânica.
Apesar das restrições da família real, é inegável o fato que a conversão de Lady Di em uma espécie de santa laica venerada por milhões de súditos provou a vitalidade da monarquia de um modo novo e contemporâneo. O fato é que em uma sociedade cada vez mais complexa e plural a monarquia tende a tornar-se um símbolo de integridade e alteridade.

LITERATURA INGLESA XXXIII



Edgar Alan Poe (1809-1849) é considerado até os dias de hoje um dos maiores escritores dos Estados Unidos e um grande nome das letras inglesas. Embora tenha escrito inúmeros poemas e novelas, Poe é mais intensamente lembrado pelos seus contos góticos e policiais. Influenciou significativamente autores como Baudelaire e Maupassant mesmo não gozando em sua época de merecida reputação dado o escândalo provocado pela recepção de sua obra entre seus contemporâneos.
Não é absolutamente meu objetivo aqui rabiscar qualquer resenha do tipo vida e obra do autor, mas sim definir seu lugar em minha imagem pessoal da rica e fecunda paisagem da literatura inglesa.
Neste sentido, gostaria de chamar atenção para a magistral habilidade de Poe para proporcionar uma profundidade psicológica extrema a seus personagens em excitantes situações de mistério articuladas por um abstrato e mágico principal personagem: O Medo... Poe é por excelência um escritor do medo, de sua psicologia. Basta passear os olhos sobre contos como a Carta Roubada, O gato preto, Coração denunciador, A queda da casa de Usher, O poço e o pêndulo ou Berenice para se saber o quanto. Também figuram ao lado desta eterna temática do medo, a solidão e a morte.
Se o século XIX é o momento de consolidação de um dado modelo de racionalidade e modernidade de inspiração iluminista cristalizado pela sociedade industrial, Poe nos oferece de certa maneira, um vislumbre de sua sombra, as permanências dos aspectos irracionais e mais obscuros da condição humana, contrariando assim os otimismos e certezas de sua época.
Para ilustrar sua obra, ou enfeitar essa postagem, selecionei aqui apenas um fragmento daquele que é certamente seu poema mais conhecido: O Corvo, originalmente publicado em 1845, ocasião em que despertou grandes oposições no meio literário americano.


“Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary, Over many a quaint and curious volume of forgotten lore, While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping, As of some one gently rapping, rapping at my chamber door. "'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door- Only this, and nothing more."


Ah, distinctly I remember it was in the bleak December, And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor. Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Lenore- For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore-

Nameless here for evermore.”



“Numa sombria madrugada, enquanto eu meditava, fraco e cansado, sobre um estranho e curioso volume de folclore esquecido; enquanto cochilava, já quase dormindo, de repente ouvi um ruído. O som de alguém levemente batendo, batendo na porta do meu quarto. "Uma visita," disse a mim mesmo, "está batendo na porta do meu quarto -

É só isto e nada mais."


Ah, que eu bem disso me lembro, foi no triste mês de dezembro, e que cada distinta brasa ao morrer, lançava sua alma sobre o chão. Eu ansiava pela manhã. Buscava encontrar nos livros, em vão, o fim da minha dor - dor pela ausente Leonor - pela donzela radiante e rara que chamam os anjos de Leonor - cujo nome aqui não se ouvirá nunca mais.”

NEMETON: Um ano depois...



Na presente data o Nemeton completa um ano de existência. Tempo suficiente para um balanço provisório da experiência do seu fazer-se em palavra enquanto blog.
Creio que a melhor forma de defini-lo é como um eterno esboço de reflexão, um entrelaçar-se infinito de fragmentos cuja soma não se reduz a qualquer sentido ou significado. O Nemeton é apenas a construção abstrata de um não lugar de mim mesmo e, nesse sentido, é uma imagem virtual e desarticulada das minhas auto representações e invenções de mundo. Sinceramente, nunca pensei que tal exercício perpetuar-se-ia por um ano...

ONLY THIS...



Desvelar infinitos
No gratuito
De uma mesa de bar
É um exercício de esquecimento,
Um aprendizado
Do perene valor
De cada momento.


A vida não vai além
Do pouco acontecer
De todos os dias;

Não transcende a física
Dos nossos pequenos atos cotidianos.


Mas dentro de cada segundo,
Quantos infinitos?!
Há mais mundos fechados
No intervalo de uma garrafa
Entre amigos
Do que palavras trocadas
Entre deuses e homens.