domingo, 8 de junho de 2008

ROCK AND ROLL, UMA HISTóRIA SOCIAL BY PAUL FRIEDLANDER



ROCK AND ROLL, UMA HISTÓRIA SOCIAL de Paul Friedlander, é definitivamente uma referência impar para os interessados na história e significado cultural do Rock no século XX e, de muitas formas, enquanto fenômeno sociológico e comportamental ainda contemporâneo. Professor da Universidade de Oregon de História do Rock e membro da Associação Internacional para o estudo da musica popular, o autor nos oferece um quadro realmente completo da evolução e impacto sócio cultural desta significativa vertente da musica popular contemporânea mediante uma cuidadosa analise de seus diversos estilos e variações simbólicas/identidárias.
Cabe frisar que Friedlander adota como referência o conceito de pop rock no estudo do tema. Opção terminológica que justifica da seguinte maneira:


“ Cada livro sobre rock vem com sua própria definição do termo. Alguns autores utilizam “rock and roll” para denotar a musica dos anos 50 e “rock” para representar todos os estilos subseqüentes. Nós utilizamos uma abordagem ligeiramente diferente. A musica compreendida neste livro é o “pop/rock”. Isto reflete uma natureza dupla: raízes musicais e líricas derivadas da era clássica do rock (rock) e seu status como uma mercadoria produzida sobre pressão para se ajustar a industria do disco (pop).
Os numerosos estilos criados durante os primeiros trinta anos do pop/rock receberam nomes específicos segundo suas raízes, características musicais, conteúdo das letras e a relação com o meio político e cultural que os circundavam. Assim, a musica de Chuck Berry, Elvis e outros artistas dos primórdios denomina-se de “rock clássico”, enquanto seus descendentes da Bay Área do final dos anos 60 são chamados de artistas de rock de “San Francisco”.


(Paul Friedlander. Rock and Roll: Uma História Social. Tradução de A. Costa. 4º ed, RJ: Record, 2006, p.12)


Um aspecto interessante de sua pesquisa é a proposta de uma experiência mais profunda deste gênero musical a partir de um método que, indo além da vivência direta e espontaria do ouvinte/ consumidor conduz a uma perspectiva analítica e a um nível diferente de audição. Nas palavras do autor:

“... Outro tratamento que se pode dar a esta musica é seguir uma abordagem conhecida como “analítica”. Para isto é necessário ouvir uma peça musical com o objetivo de coletar uma grande gama de informações sobre ela. O ouvinte, então, passa a ter condições de realizar julgamentos próprios sobre a natureza da musica, sua qualidade em relação a outras musicas e seu contexto social. Usando o exemplo anterior, o ouvinte pode imaginar por que esta versão de Respect é tão poderosa, escutando para ver quais instrumentos estão sendo tocados e que marcações são enfatizadas. Ele também pode refletir sobre a experiência gospel de Aretha para explicar a potência da sua voz. E pode pesquisar a história pessoal da artista ou seu atual estilo de vida para descobrir um fato-como um marido desrespeitoso- que explique a urgente necessidade de respeito que o artista pode estar sentindo.
Descobrir, organizar e raciocinar sobre o significado de uma extensa gama de informações relevantes enriquece nosso entendimento da obra musical.”


(Paul Friedlander. Rock and Roll: Uma História Social. Tradução de A. Costa. 4º ed, RJ: Record, 2006, p.13)


Tudo isso nos conduz aquilo que o autor chama de “janela do Rock”, em outras palavras, um modo de entender musica a partir da perspectiva analítica aqui sumariamente apresentada.
Em linhas gerais, portanto, o “usuário de rock” encontra nesta singular obra sugestões úteis para um aprofundamento de sua experiência sonora/existencial. Isto é, transcendendo o nível direto e emocional orientado pela mera intuição, o ouvinte e “participante” da magia do rock pode construir uma compreensão maior de suas opções mediante a reunião de um numero significativo de informações sobre uma determinada banda ou cantor a ponto de melhor avaliar sua simpatia e envolvimento pessoal com determinado estilo ou banda.
Se o rock and roll é mais do que um gênero musical e uma industria, se constitui um verdadeiro ethos social, a pesquisa de Friedlander certamente muito nos acrescenta a compreensão de sua contemporaneidade, significado cultural e vivências anônimas.

FÉ E FALÁCIA



Levo o passado
Nos olhos
Buscando desesperadamente
Apenas futuros.
Sei que é preciso
Saber caminhos
Mais do que
A própria vida,
Esquecer a fome
De céu e infinitos,
Seguir adiante
Nos atos
Como se cada dia
De fato me levasse
A algum lugar mágico
Dentro do tempo.

sábado, 7 de junho de 2008

MONTY PYTHON’S FLYING CIRCUS



Basta rever alguns episódios da série Flying Circus exibida pela BBC em fins dos anos 60 e inicio dos anos 70 para saber o quanto o a obra de Graham Chapman, John Cleese, Terry Guilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palim, permanece atual e provocante. Afinal, o que faz o humor do Monty Python ser profundamente singular e fascinante é o dizer através de muito sarcasmo uma realidade elementar e banal cuja validade se aplica a qualquer época ou período da História humana: a sociedade e a vida não passam no fundo de um grande e inútil circo.
Esta talvez seja a essência da “filosofia do Riso” inventada por estes mestres britânicos da comédia que como ninguém mais conseguiu transformar o horror cotidiano de nossos desertos vividos em fino humor.
Clássicos como The Spanish inquisition e The Ministry of Silly Walks são profundamente contemporâneos, revelam o quanto o velho circo voador, com o fascínio e estranheza de um disco voador, ainda pode assaltar nossos horizontes lembrando-nos do ridículo e absurdo que adornam a elementar inutilidade da vida e de nossas tão valiosas e despropositadas ambições cotidianos.
Acreditar em alguma coisa? Bom, apenas que a única saída diante de tudo é rir, enquanto isso ainda for possível... Es o sentido da vida...

INCERTO TEMPO INTIMO

Tenho saudades
De mim mesmo
E dos meus passados perdidos.
Todo tempo presente
É insuficiente
Para o exercício perfeito da vida.
Apenas
Entre passados e futuros
Posso dizer-me nos dias,
No jogo de perdas,
Ganhos e vazios
Que chamamos existência.
Na micro física da imanência
Vislumbro o materialismo
Da mais concreta eternidade
Saboreando silêncios e hiatos
No intimo e vivido
Sabor e saber dos meus tempos.

A ETERNIDADE DA FINITUDE



Não sou do tipo que acredita em metafísicas, no engodo da eternidade das almas. Para mim, a única eternidade possível é a dos ecos dos nossos atos no tempo.
A realização do eterno é, assim, portanto, paradoxalmente uma construção e uma conquista edificada por tudo aquilo que materializamos no mais concreto do tempo.
Escrever livros, compor musicas ou versos, ter filhos, construir um grande império financeiro ou uma pequena casa... não há limites para possibilidades de perpetuação de cada individualidade humana através da realização de uma marca única no infinito universo de experiências de sua existência concreta.
Talvez isso seja no fundo um desafio, pois somos educados para a obscuridade de cumprir mecânicas rotinas na performance das personas quase impessoais que vestimos para adaptação ao existir social.
Infelizmente, grande parte da nossa curta existência é dedicada ao esforço ingrato de imediata sobrevivência ... Mas na soma dos anos revela-se um padrão singular de experiências e realizações que nos diz quem somos e fomos e o tamanho do eco dos nossos atos.
Bom, tudo isso me passou a pouco pela cabeça através da releitura gratuita de um pequeno poema de D H Lawrense...


THINGS MEN HAVE MADE


Things men have made with wakened hands, and put soft life
Into
Are awake throught years with transferred touch, and go on
Glowing
For long years.
And for this reason, some old things are lovery
Warm still with the life of forgotten men who made them.


COISAS QUE OS HOMENS MOLDARAM


As coisas que os homens fazem com as suas mãos despertas,
Passando-lhes uma tenra vida,
Ficam despertas através dos tempos, com aquele contato transmitido,
E continuam a fulgir
Por longos anos.
E é por isso que algumas coisas antigas são tão belas-
Cálidas ainda da vida dos homens esquecidos que as fizeram.
( tradução de Aila de Oliveira Gomes)

sexta-feira, 6 de junho de 2008

FACT

Todo fato
É um hiato
Entre a verdade
E a vontade,
Uma quase certeza
Ou absurdo raso
De intuições e acasos.

Todo fato
É uma leitura
Algo obscura
Do ato do pensamento.

O mundo não diz
Realidades
Nos porões do verbo

It’s done...

quinta-feira, 5 de junho de 2008

BIO-POLITICAS, CONTEMPORÂNEIDADE E FANTASMAGONIAS


Um dos mais decisivos aspectos da contemporaneidade é aquilo que, muito impropriamente, podemos chamar de suas fantasmagorias, o universo de medos e incertezas coletivas que aos poucos vão condicionando ou inibindo a ação e opções dos indivíduos. Um dos seus exemplos é o medo, real e imaginário, de um terrorismo global, tanto quanto, em outra dimensão e recuando um pouco até os anos 80 do último século, o profundo impacto comportamental representado pelo medo da AIDS, então recém descoberta, bem como o anti tabagismo contemporâneo, a obsessão por uma vida saudável como estratégia de saúde e prolongamento da própria existência muito significativamente ancorada, quase sempre, em um delirante determinismo e utopismo genético.
Creio que tais fantasmagonias devem ser lidas em profunda associação com o conceito de Michel Foucault de bio-poder. Vale esclarecer que tal conceito foi originalmente utilizado por ele na analise do complexo conjunto de poderes e saberes configurados pela medicina no Ocidente e que, a partir do séc. XVIII e XIX, inspiraram políticas, técnicas e práticas de regulamentação e disciplinação da vida de indivíduos e populações cuja analise é vital para uma real compreensão da dinâmica do estado e cultura moderna e “pós-moderna” ou “contemporânea”.
Deixando falar o próprio Foucault:

“ Concretamente, este poder sobre a vida desenvolveu-se a partir do século XVII, em duas formas principais; que não são antitéticas e constituem, ao contrário, dois pólos de desenvolvimento interligados por todo um feixe intermediário de relações. Um dos pólos, o primeiro a ser formado, ao que parece, centrou-se no corpo como máquina: no seu adestramento, na ampliação de suas aptidões, na exortação de suas forças, no crescimento paralelo de sua utilidade e docilidade, na sua integração em sistemas de controle eficazes e econômicos- tudo isto assegurado por procedimentos de poder que caracterizam disciplinas : anátomo-politica do corpo humano. O segundo, que se formou um pouco mais tarde, por volta da metade do século XVIII, centrou-se no corpo-espécie, no corpo transpassado pela mecânica do ser vivo e como suporte de processos biológicos: a proliferação, os nascimentos e mortalidade, o nível de saúde, a duração da vida, a longevitude, com todas as condições que podem fazê-los variar; tais processos são assumidos mediante toda uma série de intervenções e controles reguladores: uma bio-politica da população. As disciplinas do corpo e as regulações da população constituem os dois pólos em torno dos quais se desenvolveu a organização do poder sobre a vida. A instalação- durante a época clássica, desta grande tecnologia de duas faces- anatômica e biológica, individualizante e especificante, voltada para os desempenhos do corpo e encarando os processos da vida- caracteriza um poder cuja função mais elevada já não é mais matar, mas investir sobre a vida, de cima para baixo.
A velha potência da morte em que se simbolizava o poder soberano é agora, cuidadosamente, recoberta pela administração dos corpos e pela gestão calculista da vida. Desenvolvimento rápido, no decorrer da época clássica, das disciplinas diversas- escolas, colégios, casernas, ateliês; aparecimento também, no terreno das práticas políticas e observações econômicas, dos problemas de natalidade, longevitude, saúde pública, habitação e migração; explosão, portanto de técnicas diversas e numerosas para obterem a sujeição dos corpos e o controle das populações.”

(Michel Foucault. História da Sexualidade I : A vontade de saber/ tradução de Maria Theresa da Costa Albuquerque e J A Ghilhon de Albuquerque. RJ: Graal, 1977, p.131)


Considerando as profundas mudanças ou revoluções comportamentais do século XX, especialmente a impulsionada por dois de seus mais expressivos e significativos momentos culturais: os anos 20 e 60, (que diga-se de passagem, ainda carecem de analise em termos de significações e desmembramentos),cabe dizer que, sob muitos aspectos, os novecentos, propiciaram uma afirmação do indivíduo sobre as dinâmicas de controle social então consolidadas pelas racionalidades modernas . Mas é justamente este significativo avanço que é hoje em dia ameaçado pelas novas linguagens e estratégias bio-politicas que nascem com nosso novo milênio... Este, porém é um assunto para futuras e hipotéticas postagens...

MORNING GLORY

Que diferença existe
Entre tudo
Que me escapa,
Que me lança
Ao obscuro turvo
De vontades,
Até o limite de não saber
Lugar algum
E muito menos
Sensatamente de mim?

Depois e longe
Igualmente existem
No vazio tempo
Do sem rosto
De um presente
em Futuros ausentes.

CRONICA RELÂMPAGO XXVIII

Quando procuro contrapor a imagem simbólica e virtual que possuo do ano de 1968 com as desbotadas paisagens do obscuro e insignificante ano de 2008, assombra-me uma indeterminada e imperfeita nostalgia de passados não vividos e sonhos de futuros e fluidas identidades ou cenários, tanto quanto um sentimento de insuficiência dos tempos múltiplos do meu presente.
Afinal, tão tenso e insuportável quanto poder acreditar que pode-se mudar o mundo, é a situação de viver sobre a opressão de um mundo onde a única mudança possível é a certeza dificil do dia seguinte, o não ser de qualquer novidade alem do cardápio de possíveis e previsíveis rotinas de vida inútil ou catástrofe de castelos de areia dos lúdicos voluntarismos da imaginação.
Mas que diabos é, afinal, utilidade, plena realização e intensidade de vida? Estes quase conceitos se desfazem em qualquer pensamento, pois não se explicam ou se sabem em nenhuma palavra escrita ou falada.
Viver é um mistério nas inúmeras direções latentes de nos mesmos. Viver não tem regra ou receita... Não se descobre em segredos ou magias, nem se enquadrando em ideais absurdos de castrações culturais/coletivas, retos caminhos de ilusões impessoais, religiões laicas ou sagradas lhe negam na gaiola do absoluto impositivo de verdades absolutas.
Viver é um mistério sem metro onde nos descobrimos apenas em grito... Em afirmação da mera perenidade de tudo que existe e é neste existir que não compreendemos.

terça-feira, 3 de junho de 2008

OS MALEFICIOS DO ANTI TABAGISMO


Até os anos 80 do último século, a prática tabagista gozou de certo prestigio no imaginário coletivo, foi um símbolo de gramour, refinamento e estética. A partir da chamada “década perdida” e o advento da “geração saúde”, entretanto, isso começou a mudar, o status social deu gradativamente lugar ao estigma mediante uma massiva e apelativa propaganda anti-tabagista centrada nos malefícios do hábito de fumar.
Neste inicio de século, tal propaganda começou a fomentar, a nível global, políticas de saúde pública e uma legislação anti tabaco de caráter profundamente coercitivo que já atinge lugares de franca tradição liberal como os Estados Unidos, o Reino Unido e a França.
Mas diante de tal sombrio conjunto de leis, cujo objetivo último é a inibição e coerção daqueles indivíduos que teimosamente, apesar da cruzada anti-tabagista imperante, insistem na manutenção do seu hábito, é pertinente questionar até que ponto estamos falando apenas de políticas públicas de saúde.
Colocando em segundo plano os efeitos do tabaco sobre o organismo humano, o que me parece alarmante é o fato de ganhar legitimação legislações consagradas a impor controle social sob o direito de escolha e a liberdade dos indivíduos como se disso realmente dependesse o futuro de toda a civilização supostamente saudável.
Há por traz desse tenebroso fato uma tendência perigosa para desconstrução ou questionamento dos valores libertários estabelecidos pelos modernismos e pela contemporaneidade, ao longo do séc. XX, inicialmente através das vanguardas literárias, politicas e estéticas, por exemplo, passando pelo psicodelismo, o feminismo e o poder jovem dos anos 60, até chegar a nova liberdade sexual, identidária e étnica hoje em gestação .
Tudo que afirmo aqui é que, por traz das bem intencionados discursos de nossas autoridades de saúde, dos populares aconselhamentos sobre a necessidade de uma boa dieta alimentar, fazer exercícios físicos e tudo o mais ligado a caricatas versões de “vida saudável”, ganha terreno no mundo ocidental um novo “realismo”, uma volta as “convenções” e uma pseudo estética do belo humano que apenas revela um ideal de controle social ao qual, as cada vez mais frágeis estruturas de poder definidas pelos nossos carcumidos “estados nações”, mostram-se perigosamente permeáveis, diante de um mundo cada vez mais plural, global, diverso e complexo que lhes “foge ao controle”.
Hoje em dia, portanto, quando a própria idéia de que vivemos em uma sociedade é relativizada através da imagem de que existimos como indivíduos imersos em múltiplas sociabilidades (pessoais, impessoais, concretas e simbolicas) formando uma complexa rede de relacionamentos diretos e indiretos, aqueles que ainda deliram o ideal de uma boa sociedade, inventam suas caças a bruxas.
Evidentemente, estou aqui falando sobre tabagismo, quando poderia estar falando sobre muitas outras coisas... Mas a própria critica ao tabagismo constitui hoje uma perigosa metáfora. E, o fato é que metáforas, como já notou a feminista americana Susan Sontag, são bastante perigosas, quando consideramos as políticas de saúde ou controle público de nossas sociabilidades e rituais diários de vida e morte. A mais comum dentre elas é significativamente a da guerra, e sabemos pela História o quanto imagens e sentimentos de guerras santas e cruzadas revelam o que há de pior na condição humana...

“... A metáfora mais generalizada sobrevive nas campanhas de saúde pública, que rotineiramente apresentam a doença como algo que invade a sociedade, e as tentativas de reduzir a mortalidade causada por uma determinada doença são chamadas de lutas e guerras. As metáforas militares ganharam destaque no início do século, nas campanhas de esclarecimento a respeito da sífilis realizadas durante a Primeira Guerra Mundial, e nas campanhas contra a tuberculose do pós-guerra. Um exemplo, extraído da campanha italiana contra a tuberculose nos anos 20, é o cartaz intitulado Guerre alle Mosche ( Guerra às moscas ), que mostra os efeitos letais das doenças transmitidas pela mosca. Os insetos aparecem como aviões inimigos soltando bombas de morte sobre uma população inocente. As bombas trazem inscrições. Uma delas é rotulada Microbi, micróbios; a outra, Germi della tisi, germes da tuberculose; a outra, simplesmente Malattia, doença. Um esqueleto de capa e capuz negrosd aparece no primeiro avião, como passageiro ou piloto. Em outro cartaz, “ Com estas armas conquistaremos a tuberculose”, a figura da morte aparece presa à parede por espadas desembainhadas, cada uma das quais tem uma inscrição referente a uma medida contra a doença. Numa das lâminas lê-se “limpeza”, na outra “sol”, nas outras “ar”, “repouso”, “boa alimentação”, “higiene”. (Evidentemente, nenhuma dessas armas era realmente importante. O que conquista- ou seja, cura- a tuberciulose são os antibióticos, que só foram descobertos cerca de vinte anos depois, na década de 1940.)”

(Susan Sontag. AIDS e suas metáforas/ tradução de Paulo Henrique Britto. SP: Companhia das Letras, 1989, p. 14 e 15)

BRAZIL

Não acredito
No dizer confuso das ruas,
Nas pessoas que decoram
Esses urbanos desertos
Decorando jornais vazios
E TVs toscas.

Não acredito
Em quem vomita
Em português
Virtudes insanas
De céu e de mar
Em vultos e custos
De pouco ser.

Não acredito
Em meu acaso cotidiano,
Na modernidade do atraso
Ou em metaforicas selvas ,
Carnavais e caos.

Brazil
É para mim
Apenas uma ilha imaginária
Em mapas antigos,
Uma lembrança folclórica
E céltica.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

FLORES

Cada flor
É apenas uma flor
No silêncio de cada jardim.
Nenhuma depende da outra
Para florescer,
Escrever-se na vida
Em cores, formas
E sintonias
No vago lapso
Do seu aparecer
E perecer.
Indiferente e única,
Cada flor
É apenas uma flor
Na abstração do jardim.

sábado, 31 de maio de 2008

MAGIC NIGHT

Talvez seja possivel
caminhar descuidado
sobre o chão do céu,
criar estrelas
a cada passo,
Sem saber
O mistério do mundo,
Ficar perdido
no mais profundo
do in finito que somos
até descobrir
O ponto mágico
da maior intensidade
da noite aberta
no incerto da vida.
Talvez seja possivel,
por um único instante,
plenamente viver
Além do platônico mito
da caverna em espelho.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

DESALENTO

O orvalho de outono
Me dize a essência
De todo esquecimento.

O amanhã que eu esperava
desapareceu
No cristalino vazio
D um sonho abortado.

Tudo é preguiça
Na quietude que cobre
O corpo da cidade
Com as cores mornas
De um abstrato abandono.

Já não é cedo
Ou tarde...
Apenas não há tempo
No absoluto da madrugada.
Mas gosto do abraço do frio.




quinta-feira, 29 de maio de 2008

CONTEMPORANEIDADE E SAUDE PÚBLICA: RELENDO SUSAN SONTAG


“... Afirma-se que o que esta em jogo é a sobrevivência da nação, da sociedade civilizada, do próprio mundo- tradicionais justificativas para a repressão.”
Susan Sontag

Um dos aspectos mais decisivos e cruciais da contemporaneidade é o confronto entre as novas questões e fatos proporcionados pelo avanço e redimensionamento dos saberes das antigas ciências naturais-através das pesquisas de ponta como as realizadas com células tronco e em torno da clonagem humana- e o caduco universo de valores da chamada moral tradicional de inspiração judaico-cristã.
Fazem também parte deste confronto, de modo exatamente inverso, as resistências à descriminalização do aborto, assim como as conservadoras e apocalipticas representações sociais de epidemias como a da AIDS ou o alarde em torno das conseqüências do tabagismo, visto que tais males, no imaginário coletivo, colocam igualmente em cheque uma dada idéia totalitária ou totalizadora de sociedade e de natureza humana, inspirada pelos citados valores tradicionais, claramente avessos a diversificação e pluralidade ilimitada de morais e opções que caracterizam o contemporâneo e sua implosão do universal, do social.
Falando especificamente sobre a AIDS, como uma alegoria para ilustrar o que se passa com relação as novas linguagens das políticas de saúde pública, cabe dizer que existe certa distância entre as “imaginações” inspiradas pela epidemia e a “realidade” da própria epidemia. Tal tese talvez fique mais clara através do seguinte fragmento de Susan Sontag sobre “as metáforas” da AIDS por ela denunciada em fins dos anos 80:

“ ... Pois alem da epidemia real, com o inexorável acumulo de vitimas fatais ( estatísticas são divulgadas a cada semana, a cada mês, por organizações de saúde nacionais e internacionais), há um desastre qualitativamente diferente, muito maior, que acreditamos e não acreditamos que venha a acontecer. Nada se altera quando as estimativas mais apavorantes são temporariamente revistas e atenuadas, o que acontece com regularidade com as estatísticas especulativas divulgadas por burocratas da área de saúde e jornalistas. Tal como as previsões demográficas, provavelmente tão precisas, o teor geral da noticia é normalmente pessimista.
A proliferação de relatórios ou projeções de eventualidades apocalípticas, irreais ( ou seja, inconcebíveis), tende a gerar uma variedade de reações que constituem maneiras de negar a realidade. Assim, na maioria das abordagens da questão da guerra nuclear, ser racional ( assim se auto qualificam os peritos) significa não reconhecer a realidade humana, enquanto levam em conta emocionalmente até mesmo uma parte mínima do que esta em jogo para a humanidade (que é o fazem aqueles que se consideram ameaçados) significa insistir na exigência irrealista de que toda essa situação perigosa seja rapidamente desfeita. Essa divisão da atitude pública, em uma visão inumana e outra demasiadamente humana, é muito menos radical no caso da AIDS. Os peritos denunciam a esteriotipagem do aidético e do continente onde, segundo se imagina, ela teve origem, enfatizando que a AIDS afeta populações muito mais amplas do que os grupos de risco iniciais e ameaça o mundo inteiro, não apenas na África. Embora a AIDS, como era de se esperar, venha se tornando uma das doenças mais carregadas de significado, como a lepra e a sífilis, há sem dúvida limites ao impulso de estigmatizar suas vidas. O fato de a doença ser um veículo perfeito para os temores mais genéricos existentes a respeito do futuro, tem, até certo ponto, o efeito de tornar irrelevantes as tentativas previsíveis de associar a doença a um grupo divergente ou a um continente negro.
Assim como a questão da poluição industrial e a do novo sistema de mercados financeiros globais, a crise da AIDS aponta para o fato de que vivemos num mundo em que nada de importante é regional, local, limitado; em que tudo que pode circular acaba circulando, e todo problema é- ou esta fadado a tornar-se mundial. Circulam bens ( inclusive imagens, sons e documentos, que circulam mais depressa, eletronicamente.) O lixo circula: os rejeitos industriais tóxicos de St. Etienne, Hanover, Mestre e Bistrol estão sendo despejados em cidadezinhas da costa da África ocidental. As pessoas circulam em números sem precedentes. E as doenças também. Desde as incontáveis viagens de avião dos ricos, a negócios ou a passeio, até as migrações de pobres das aldeias para as cidades, e, legalmente ou não, de um pais para outro- toda esta mobilidade, esse inter-relacionamento físico ( com a conseqüente dissolução de velhos tabus, sociais e sexuais) é tão vital para o pleno funcionamento da economia capitalista avançada, ou mundial, quanto o é a facilidade de transmissão de bens, imagens e recursos financeiros. No entanto, agora, esse maior inter-relacionamento espacial, característico do mundo moderno, não apenas pessoal mas também social, estrutural, tornou-se veiculo de uma doença às vezes considerada uma ameaça à própria espécie humana; e o medo da AIDS faz parte de toda a atenção dada a outros desastres, subprodutos de uma sociedade avançada, particularmente aqueles que constituem exemplos de degradação do meio ambiente em escala mundial. A AIDS é um dos arautos distópicos da aldeia global, aquele futuro que já chegou e ao mesmo tempo está sempre por vir, e que ninguém sabe como recusar.”
(Susan Sontag. AIDS e suas metáforas/ tradução de Paulo Henriques Brito. SP: Companhia das Letras, 1989, p. 108 e 109)

Sontag vai ainda mais longe em suas reflexões sobre a epidemia da AIDS formulando uma critica as políticas de saúde públicas que me parece adequada para fundamentação do autoritarismo inerente ao controle de epidemias e doenças que, enquanto fenômenos e realidades sócio culturais, atualmente fomentam injustificáveis leituras de mundo mediante uma concepção “fundamentalista” da saúde e da afirmação de um dado “tipo ideal” de individuo saudável. Exemplo claro disso é a ofensiva antitabagista claramente coercitiva. Talvez seja o momento de melhor pensar as conseqüências da AIDS e suas metáforas, a reorientação perversamente autoritárias das políticas de saúde hoje em curso em todo o mundo ocidental. Recorrendo novamente a autora:

“ A idéia de medicina “total” é tão indesejável quanto a da guerra “total”. E a crise criada pela AIDS também nada tem de “total”. Não estamos sendo invadidos. O corpo não é um campo de batalha. Os doentes não são baixas inevitáveis, nem tampouco são inimigos. Nós- a medicina, a sociedade- não estamos autorizados a combater por todo e qualquer meio... Em relação a essa metáfora, a metáfora militar, eu diria, perafraseando Lucrecio: que guardem os guerreiros.”
(Idem, p. 111)



quarta-feira, 28 de maio de 2008

FLOWER


Um retrato sonoro
De um colorido sonho
Em que nunca estive
Percorre as ruas desertas
Da imaginação...
And a flower it takes a summer.

Em meu corpo e sombra
Adivinham-se primaveris desejos,
Sobras de antigos futuros despedaçados,
Enquanto jardins
Descobrem um céu de espelho
E vestem o vento com adocicados perfumes
De esquecidas naturezas.
And a flower it takes a summer.

Neste instante sonoro
De descuido de pensamento
Desapareço do dia
E ocupo-me soturno
do segredo de uma flor
suspensa em infinito e cores.

terça-feira, 27 de maio de 2008

UM CHA MUITO LOUCO...



As vezes me perco nas páginas de Alice no Pais das Maravilhas de Lewis Carroll buscando qualquer imaginação imprecisa do acontecer e existir das coisas dentro e fora de mim.

Para o momento passeio pelo capitulo VII: UM CHA MUITO LOUCO, e sua singular representação do tempo na transfiguração simbolica de imagens e palavras...
Entre a Lebre de Março, o Leirão e o Chapeleiro Louco... passado, presente e futuro se tornam outra coisa.... e reapreendo o próprio tempo cantando canções perdidas...


"Havia uma mesa arrumada embaixo de uma árvore, em frente à casa, e a Lebre de Março e o Chapeleiro estavam tomando chá; um Leirão estava sentado entre os dois, dormindo profundamente, e os outros dois o usavam como almofada, descansando sobre ele e conversando sobre sua cabeça. “Muito desconfortável para o Leirão”, pensou Alice, “mas já que ele está dormindo, acho que não se importa.” A mesa era bem grande, mas os três amontoavam-se num canto. “Não tem lugar! Não tem lugar!”, eles gritaram ao ver Alice chegando. “Tem muito lugar!”, disse Alice com indignação, e sentou-se em uma grande poltrona numa das cabeceiras da mesa. “Tome um pouco de vinho”, a Lebre de Março ofereceu em um tom encorajador. Alice olhou ao redor por sobre a mesa e não havia nada senão chá. “Eu não vejo nenhum vinho”, ela observou. “Não tem nenhum mesmo”, retrucou a Lebre de Março. “Então não é muito educado de sua parte oferecer”, respondeu Alice com raiva. “E não é muito educado de sua parte sentar-se sem ser convidada”, disse a Lebre de Março. “Eu não sabia que era sua mesa”, insistiu Alice, “ela está arrumada para muito mais que três convidados.” “Seu cabelo está precisando ser cortado”, disse o Chapeleiro. Ele estivera olhando para Alice por algum tempo com grande curiosidade e esta fora sua primeira intervenção. “Você deveria aprender a não fazer esse tipo de comentário pessoal”, Alice retrucou com severidade. “Isso é muito grosseiro.” O Chapeleiro arregalou os olhos ao ouvir isso, mas, tudo que ele disse foi: “Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?” “Legal, vamos ter diversão agora!”, pensou Alice. “Fico feliz que ele tenha começado a propor charadas — acho que posso adivinhar essa”, ela completou em voz alta. “Você acha que pode encontrar a resposta dessa?” perguntou a Lebre de Março. “Exatamente”, respondeu Alice. “Então você pode dizer o que acha”, a Lebre de Março continuou. “E vou”, Alice replicou rapidamente, “pelo menos — pelo menos, eu acho o que digo — o que é a mesma coisa, você sabe.” “Não é a mesma coisa nem um pouco!”, disse o Chapeleiro. “Senão você também poderia dizer”, completou a Lebre de Março, “que ‘Eu gosto daquilo que tenho’ é a mesma coisa que ‘Eu tenho aquilo que gosto.’” “Seria o mesmo que dizer”, interrompeu o Leirão, que parecia estar falando enquanto dormia, “que ‘Eu respiro enquanto durmo’ é a mesma coisa que ‘Eu durmo enquanto respiro!’” “Isso é a mesma coisa para você”, disse o Chapeleiro, e nesse ponto a conversa parou e a reunião ficou em silêncio por um minuto. Enquanto isso Alice tentava lembrar tudo que ela sabia sobre corvos e escrivaninhas, que não era muito. O Chapeleiro foi o primeiro a quebrar o silêncio. “Que dia do mês é hoje?”, perguntou, virando-se para Alice: ele tinha tirado seu relógio do bolso e olhava para ele ansiosamente, chacoalhando-o de vez em quando e levantando-o no ar. Alice pensou um pouco e então falou: “É dia quatro.” “Dois dias errado”, suspirou o Chapeleiro. “Eu falei pra você que a manteiga não ia adiantar nada”, ele completou, olhando raivosamente para a Lebre de Março. “Era a melhor manteiga”, a Lebre de Março replicou mansamente. “Sim, mas algumas migalhas devem ter caído”, o Chapeleiro rosnou. “Você não deveria ter passado com uma faca de pão.” A Lebre de Março apanhou o relógio e olhou para ele melancolicamente; então afundou-o na sua xícara de chá, e olhou novamente para ele: mas parecia que não encontrava nada melhor para dizer que o que já dissera: “Era a melhor manteiga, você sabe.” Alice estivera olhando por cima dos ombros com curiosidade. “Que relógio engraçado!”, ela observou. “Ele diz o dia do mês e não diz a hora!” “Porque deveria?”, resmungou o Chapeleiro. “Por acaso o seu relógio diz o ano que é?” “É claro que não”, Alice replicou rapidamente, “mas é porque o ano permanece por muito tempo o mesmo.” “Este é exatamente o caso do meu”, disse o Chapeleiro. Alice sentiu-se terrivelmente perturbada. O comentário do Chapeleiro parecia para a menina completamente sem sentido, e ainda assim era inglês. “Eu não estou entendendo nada”, ela disse, o mais educadamente que pôde. “O Leirão está dormindo novamente”, disse o Chapeleiro, e despejou um pouco de chá quente sobre seu nariz. O Leirão balançou a cabeça impacientemente e disse, sem abrir os olhos: “É claro, é claro, é justamente o que eu ia dizer.” “Você já adivinhou a charada?”, perguntou o Chapeleiro, virando-se novamente para Alice. “Não, eu desisto”, Alice respondeu. “Qual é a solução?” “Eu não tenho a mínima idéia”, disse o Chapeleiro. “Nem eu”, disse a Lebre de Março. Alice suspirou enfastiadamente. “Eu acho que você deveria fazer coisa melhor com seu tempo”, ela disse, “ao invés de gastá-lo com charadas que não têm resposta.” “Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço”, o Chapeleiro falou, “não falaria em gastá-lo como se fosse uma coisa. Ele é uma pessoa.” “Eu não sei o que você está dizendo”, disse Alice. “Claro que não!”, o Chapeleiro disse, sacudindo a cabeça desdenhosamente. “É muito provável que você nunca tenha falado com o Tempo!” “Talvez não”, Alice replicou cautelosamente, “mas eu sei que tenho que marcar o tempo quando aprendo música.” “Ah! Isso explica”, concluiu o Chapeleiro. “Ele não vai ficar marcando compasso para você. Agora, se você ficar numa boa com ele, poderá fazer o que quiser com o relógio. Por exemplo, suponha que são nove horas da manhã, bem a hora de começar a fazer as lições de casa, você apenas tem que insinuar no ouvido do Tempo e o ponteiro dá uma virada num piscar de olhos! Uma e meia, hora do almoço!” (“Eu queria que fosse”, a Lebre de Março disse para si mesma num sussurro.) “Isso seria ótimo, com certeza”, disse Alice pensativamente; “mas então...eu poderia ainda não estar com fome, você sabe.” “A princípio não, talvez”, retomou o Chapeleiro, “mas você poderia ficar na uma e meia da tarde tanto tempo quanto você quisesse.” “É assim que você faz?”, perguntou Alice. O Chapeleiro balançou a cabeça com ar de lamento. “Eu não”, ele replicou. “Eu e o Tempo tivemos uma disputa março passado...um pouco antes dela enlouquecer, você sabe...” (apontando a Lebre de Março com a colher de chá) “...foi no grande concerto dado pela Rainha de Copas e eu tinha que cantar
Pisca, pisca, pequeno morcego!Como eu queria saber onde você está!
“Você conhece a canção, por acaso?” “Já ouvi alguma coisa parecida”, disse Alice. “Ela continua, você sabe”, o Chapeleiro prosseguiu, “dessa maneira:
Muito acima do mundo você voa,Parece uma bandeja de chá no céu,Pisca, pisca...”
Nesse instante o Leirão estremeceu e começou a cantar dormindo “Pisca, pisca, pisca, pisca...” e continuou repetindo tantas vezes a palavras que tiveram que lhe dar um beliscão para que ele parasse. “Bem eu mal tinha acabado de cantar o primeiro verso”, disse o Chapeleiro, “quando a Rainha berrou ‘Ele está matando o tempo! Cortem-lhe a cabeça!’” “Que selvageria”, exclamou Alice. “E desde então”, o Chapeleiro continuou num tom de lamento, “ele não faz nada do que eu peço! É sempre seis da tarde agora!” Uma idéia brilhante veio à mente de Alice. “Esta é a razão de tantas coisas para o chá colocadas na mesa?” ela perguntou. “É, é isso”, respondeu o Chapeleiro com um suspiro, “é sempre hora do chá, e nós não temos tempo de lavar as coisas entre um chá e outro.” “Então vocês ficam rodando em volta da mesa, não é?”, disse Alice. “Exatamente”, disse o Chapeleiro, “à medida que as coisas vão ficando sujas.” “Mas o que acontece quando vocês chegam ao início outra vez?”, Alice aventurou-se a perguntar. “Eu proponho que mudemos de assunto”, a Lebre de Março interrompeu, bocejando. “Estou ficando cansada disso. Eu voto para que a jovem senhorita conte-nos uma história.” “Eu temo que não conheço nenhuma”, disse Alice, um pouco alarmada com a proposta. “Então o Leirão contará!”, os outros dois gritaram.“Acorde, Leirão!” E beliscaram-no dos dois lados. O Leirão abriu os olhos lentamente. “Eu não estava dormindo”, ele falou numa voz rouca, fraquinha, “eu ouvi cada palavra que meus amigos falavam.” “Conte-nos uma história!”, disse a Lebre de Março. “Sim, por favor!”, implorou Alice. “E seja rápido”, completou o Chapeleiro, “ou você poderá dormir novamente antes de acabar.” “Era uma vez três irmãzinhas”, ele começou apressadamente, “e seus nomes eram Elsie, Lacie e Tillie, e elas viviam no fundo de um poço...” “E o que elas comiam?”, perguntou Alice, que sempre se interessava pelas questões sobre comida e bebida. “Elas comiam melado”, respondeu o Leirão, depois de pensar por um minuto ou dois. “Elas não poderiam viver só de melado, você sabe”, Alice observou gentilmente. “Elas ficariam doentes.” “E ficaram”, disse o Leirão, “muito doentes.” Alice tentou um pouquinho imaginar quão extraordinário seria este modo de vida, mas ficou muito confusa e assim, continuou: “Mas porque elas viviam no fundo de um poço?” “Tome mais um pouco de chá”, ofereceu a Lebre de Março para Alice, com um ar sério. “Mas eu ainda não tomei nada”, replicou Alice em um tom ofendido, “portanto eu não posso tomar mais.” “Você quer dizer que não pode tomar menos”, disse o Chapeleiro, “é mais fácil tomar mais do que nada.” “Ninguém perguntou sua opinião”, disse Alice. “Quem está fazendo observações pessoais agora?”, o Chapeleiro perguntou triunfalmente. Alice não tinha o que responder no momento, daí, aproveitou para tomar um pouco de chá com torradas. Virou-se então para o Leirão e repetiu sua pergunta: “Porque elas viviam no fundo de um poço?” Mais uma vez o Leirão demorou um minuto ou dois para responder e então disse: “Era um poço de melado.” “Isso não existe!”, Alice estava ficando muito brava, mas o Chapeleiro e a Lebre de Março começaram a fazer psiu e o Leirão com um ar amuado observou: “Se você não consegue se comportar civilizadamente, é melhor que acabe a história por conta própria.” “Não, por favor, continue!”, disse Alice humildemente. “Eu não vou mais interromper. É muito provável que existe mesmo um poço assim.” “Um, certamente!”, retomou o Leirão indignadamente. Entretanto, ele continuou. “Bem, daí as três irmãzinhas...elas estavam aprendendo a extrair, sabe...” “O que elas extraíam?”, perguntou Alice, já esquecendo da promessa. “Melado”, respondeu o Leirão, sem levar em conta a quebra da promessa, dessa vez. “Eu quero uma xícara limpa”, interrompeu o Chapeleiro, “vamos mudar de lugar.” Ele avançou um lugar enquanto falava, e o Leirão o seguiu, a Lebre de Março ficou no seu lugar e Alice com má vontade ficou com o lugar da Lebre de Março. O Chapeleiro foi o único que ficou com a xícara limpa e Alice ficou em um lugar bem pior do que estava antes, pois a Lebre de Março tinha acabado de derramar leite no prato. Alice não queria ofender o Leirão novamente, por isso começou a falar com cautela: “Mas eu não entendi. De onde elas extraíam o melado?” “Você pode extrair água de um poço de água”, disse o Chapeleiro, “portanto eu acho que pode extrair melado de um poço de melado, não é, imbecil?” “Mas elas estavam dentro do poço”, Alice disse para o Leirão, como se não tivesse ouvido o último comentário. “É claro que estavam”, respondeu o Leirão, “bem no fundo”. Esta resposta confundiu de tal forma a pobre Alice, que ela deixou o Leirão prosseguir por algum tempo sem interrompê-lo. “Elas estavam aprendendo a extrair”, continuou o Leirão, bocejando e esfregando os olhos, pois estava ficando com muito sono, “e elas extraíam todo tipo de coisas...tudo o que começava com M...” “Por que com M?”, disse Alice. “Por que não?” respondeu a Lebre de Março. Alice ficou em silêncio. O Leirão aproveitou para fechar os olhos e já estava começando a cochilar, mas, ao ser beliscado pelo Chapeleiro, acordou novamente com um gritinho e continuou, “...que começava com M, como mouse-traps (ratoeira) e moon (lua) e memory (memória, lembranças) e muchness (advérbio de intensidade)... você sabe, quando você diz que as coisas são um monte de muitão... você já pensou nisso como um extração de muitão?” “Realmente, agora que você me pergunta”, disse Alice, bem confusa, “eu acho que não...” “Então você não deveria falar nada”, disse o Chapeleiro. Esse tipo de grosseria era mais do que Alice conseguia suportar: ela levantou-se muito brava e foi saindo. O Leirão caiu no sono imediatamente e nenhum dos outros dois deu a mínima para sua saída, embora ela tenha olhado para trás uma ou duas vezes, meio que querendo que eles a chamassem. A última vez que Alice os avistou eles estavam tentando enfiar o Leirão dentro do bule de chá. “Eu não volto lá de jeito nenhum!”, disse Alice, enquanto abria caminho em direção à floresta. “Foi o mais estúpido chá do qual participei em toda minha vida!” Ao dizer isso ela percebeu que uma das árvores tinha uma porta que dava para seu interior. “Que curioso!”, ela pensou. “Mas tudo está tão curioso hoje. Eu acho que posso muito bem entrar nessa árvore.” E entrou. Uma vez mais ela encontrou-se naquela sala comprida e com a pequena mesa de vidro. “Desta vez já sei como fazer”, ela disse para si mesma, e começou por apanhar a pequena chave dourada, depois abriu a porta que dava para o jardim. Só então ela começou a mordiscar o cogumelo (que ela mantivera em seu bolso) até que estivesse com mais ou menos 30 centímetros de altura: daí ela atravessou a pequena passagem e então... ela estava em um lindo jardim entre canteiros de flores resplandecentes e fontes de água fresca.

(Tradução de Cleria Regina Ramos)

INSOLITO AMANHECER


O dia deixou de ser
Apenas
Um retalho de tempo
Jogado sobre o fluir
Das horas.

Tornou-se
Qualquer outra coisa
Incerta
No perceber da alma
Em sonho…

Já não sei
Em que margem do rio
Contemplo-me
Sob um céu amarrotado.

Acordei
Demasiadamente futuro
Para sobreviver
A mim mesmo.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

1968


A sociedade
Observa-me ao longe,
Como um adversário.

Dentro de mim
Psicodelismos e delírios
Acordam as cores do mundo.

Sei a liberdade passeando nas ruas
E vestindo a alma
Em artificiais paraísos
De avesso de tudo.

Um freeway
Se faz presente e futuro
De um passado morto
Pelas aventuras mágicas
Da vida.

Sou meu eu
E meu próprio outro
Em permanente intercâmbio
Com um intimo infinito
em universos de jardins alados.

domingo, 25 de maio de 2008

1968: 40 anos depois III

Creio que, embora possamos agrupar sob o rótulo e imagem comum de “movimento juvenil”, as posturas individuais e coletivas de contestação que fizeram dos anos 60 e, especialmente de 1968, um dos mais ricos e interessantes momentos do século XX, seria reducionista identificá-las primordialmente com a dinâmica tradicional dos movimentos sociais e políticos de contestação como sugere especialmente o movimento estudantil do periodo.
Essencialmente 1968 foi o resultado de inúmeras micro-transformações cotidianas e simbólicas que então ocorriam na sociedade ocidental e em sua cultura urbana/industrial.
Em outras palavras, as estruturas sócio culturais e políticas que emergiram do Pós Guerra mostravam-se naquele momento, mais do que nunca, agudamente em franco descompasso com as metamorfoses das sensibilidades então contemporâneas moldadas por um novo padrão de consumo e necessidades.
Mas cabe considerar que a luta política e o engajamento social não foram às únicas respostas a este descompasso. Em grande parte a cultura contestatória de 1968 e dos anos 60, foi também, considerando à contra cultura e o psicodelismo, um movimento de evasão, um sentimento de não pertencimento ao “sistema” que levaria a uma maior valorização da individualidade e da subjetividade humana frente aos imperativos da sociedade. A rebeldia on the roads, o Sex, Drugs & Rock’n Roll, estabeleceram um novo padrão de comportamento que, ainda nos dias de hoje, embora diluído, exibe sua vitalidade e poder contestatório como referencial ou “tipo ideal” privilegiado para afirmação das liberdades individuais e do questionamento dos valores tradicionais. Somos em grande medida herdeiros das profundas transformações comportamentais e valorativas que, se não transformarão o mundo, inauguraram novas sensibilidades e leituras da realidade orientadas por um ideário libertário mais comprometido com a autonomia do indivíduo.

1968: 40 ANOS DEPOIS II


O ano de 1968 é considerado um dos principais marcos da história do século XX. Podemos tomá-lo como o momento que melhor sintetizou toda a efervescência cultural e política que marca profundamente os míticos anos 60.
Afinal, 1968 foi o ano das barricadas de Paris, da Primavera de Praga, da intensificação do movimento pacifista contra a guerra do Vietnã, do lançamento de Srgt. Peper’s dos Beatles, etc.
Mas, quarenta anos depois, ainda estamos longe de uma avaliação satisfatória dos movimentos libertários e contestatórios de juventude que em linhas gerais, em suas diversas tendências, colocaram, então, em xeque a cultura estabelecida ao ponto de, em alguns casos, conduzir a um questionamento profundo da própria idéia de sociedade, levando-se em conta certas leituras da chamada contra-cultura.
Afinal, o que foi exatamente 1968? Marcelo Ridenti, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, em um pequeno ensaio sobre o assunto, nos oferece o seguinte panorama:

“ Foram características dos movimentos libertários de 1968 no mundo todo: inserção numa conjuntura internacional de prosperidade econômica; crise do sistema escolar; ascensão da ética da revolta e da revolução; busca de alargamento dos sistemas de participação política, cada vez mais desacreditados; simpatia pelas propostas revolucionárias alternativas ao marxismo soviético; recusa de guerras coloniais ou imperialistas, negação da sociedade de consumo; aproximação entre arte e política; uso de recursos de desobediência civil; ânsia de libertação pessoal das estruturas do sistema ( capitalista ou comunista); mudanças comportamentais; vinculação estreita entre lutas sociais amplas e interesses imediatos das pessoas; aparecimento de aspectos precursores do pacifismo, da ecologia, da antipsiquiatria, do feminismo, do movimento de homossexuais, de minorias étnicas e outros que viriam a desenvolver-se nos anos seguintes.
Já se disse, com propriedade: o ano de 1968 não deve ser mitificado, mas sua importância tão pouco ser minimizada. As contestações de 1968 marcaram a História contemporânea. A profundidade e extensão dessas marcas são até hoje objeto de muita discussão.Talvez o fascínio de 1968 venha de sua ambigüidade na promessa de construir formas de futuro renovadas, quer de um novo tipo de capitalismo, quer de socialismo. No entanto, o peso do passado viria a provar-se muito maior do que os militantes de 1968 supunham- tão grande que muitos militantes da época viriam a passar para o campo conservador vitorioso, chegando até mesmo a ocupar cargos como os de primeiros-ministros e presidentes da República de governos que adotam medidas neoliberais em todo o mundo hoje. Em que medida as promessas libertárias de 1968 foram, não foram, estão sendo ou ainda poderão ser cumpridas? As interrogações sobre 1968 permanecem abertas.

(Marcelo Ridenti. 1968: Rebeliões e utopias. In O Séc. XX/ v.3 O tempo das Duvidas: do declínio das utopias às globalizações. Organização: Daniel Aarão Reis Filho. Jorge Ferreira, Celeste Zenha. RJ: Civilização Brasileira, 2000; p. 156, 157)

FANTASMAGONIA

Na frágil porta,
semi aberta da existência,
Batem, afinal,
Suspiros
De vidas perdidas,
Quase esquecidas,
Que escapam a vaga sombra
Dos tempos passados
E se apresentam
Ao incerto e provisório
Do nosso presente...

A história é uma fantasia
Do tempo
Que nos veste
Em eterno carnaval de cores
E brilho fosco.

É festa e embriaguez discreta
Na qual nossos desejos e sonhos
Acabam sempre desfalecidos
No colo de antigas angustias e ventos.

sábado, 24 de maio de 2008

1968: 40 ANOS DEPOIS I



“Em 1968, os Beatles estavam na Índia. A América estava embrulhada em um cobertor de fúria. A guerra do Vietnã estava metendo o país em uma depressão profunda. As cidades estavam em chamas, os cassetetes estavam descendo. Os caras do sindicato da construção civil surravam garotos com bastões de beisebol. Um misterioso homem da medicina do México, o fictício Don Juan, era o novo modismo de consciência, havia trazido um novo nível de percepção ou força vital e o brandia como um machete. Os testes de ácido estavam a todo vapor. A nova visão de mundo estava mudando a sociedade, e tudo estava se movendo rápido – em ritmo acelerado. Estroboscópios, luz negra – maluquetes, a onda do futuro. Estudantes tentando apoderar-se das universidades nacionais, ativistas anti-guerra forçando barganhas amargas. Maoístas, marxistas, castristas – garotos de esquerda que leram os manuais de instruções de Che Guevara estavam lá fora para derrubar a economia. Kerouac havia se aposentado, a grande imprensa estava incitando coisas, atiçando as chamas da histeria. Se você visse as notícias, pensaria que a nação inteira estava em fogo. As coisas que costumavam ser no tradicional preto e branco agora explodiam em cores plenas, luminosas.”


Crônicas – Volume 1, de Bob Dylan.

PASSEIO ETÍLICO

Sombras passam
Pela rua
No anonimato
De cada pessoa.

Sou prisioneiro feliz
De mim mesmo
Na companhia das estrelas
Cujo brilho cria caminhos
No escuro céu e na alma.

Errante e noturno
Desmancho espaços
Na aventura de cada copo
De cerveja barata.

Avanço pelo mágico sentido
Revelado em embriaguez
Ou presença
De um deus antigo.

Cada corpo de palavra
Apaga o tempo,
Lugares e pessoas,
Até fazer de cada passo
Uma aventura de sonho
E sereno delírio

D H LAWRENCE: POESIA



D H Lawrence é mais conhecido pela sua obra em prosa, como bem exemplifica a popularidade, que goza até os dias de hoje, seu polêmico romance O Amante de Lady Chatterley . Mas não conheceríamos profundamente seu gênio criativo sem um contato, mesmo que superficial, com sua obra poética que, contrariando o desdenho do próprio autor por ela, constitui uma das mais belas páginas da moderna literatura britânica.
Se seus poemas de mocidade ainda encontram-se relativamente presos a métrica e a tradição formal, a fase iniciada pela coletânea Birds, Beasts and Flowers (1923), quando o autor já havia trocado a Inglaterra pelo Novo México, representa a sua maturidade como poeta através de uma linguagem ao mesmo tempo coloquial e profunda, flexível e fluida, alicerçada no verso livre, no ritmo e musicalidade das palavras, de uma forma absolutamente peculiar.
Quanto às imagens da poesia de Lawrence, ela transita desoncertadamente pela experiência do imediato e banal da existência humana e os mais profundos e metafísicos abismos da contemplação do mundo e da natureza física. Também não se deve ignorar a constante referência a morte, muito embora, mesmo ao abordá-la, o poeta revela intensamente seu interesse pela vida e sua celebração em um perfeito paradoxo onde finitude e eternidade entrelaçam-se em sua religiosidade.


PHOENIX


Are you willing to be sponged out, erased,cancelled,
made nothing?
Are you willing to be made nothing?
Dipped into oblivion?


If not, you will never really change.


The phoenix renews her youth
Only when she is burnt, burnt alive, burnt down
To hot and flocculent ash.


Then the small stirring of a new small bub in the nest
With strands of down like floating ash
Shows that she is renewing her youth like the eagle
Imortal bird.


Tradução de Aila de Oliveira Gomes:


A FENIX


Você está querendo ser extinto, apagado, excluído,
Feito nada?
Você esta querendo ser feito nada?
Mergulhado em oblivio?


Se não quer, você nunca mudará de verdade?


A fênix renova sua juventude
Somente quando é queimada viva, queimada até ser
Feita


Em flóculos de cálida cinza.

Então o leve agitar-se , no ninho, de um mínimo rebento
Recoberto de fina penugem, como cinza flutuando,
Revela que a fênix começa a renovar a sua juventude, como
A águia-
Pássaro imortal.


COMING AWAKE


When I woke, the lake-lights were quivering on the wall,
The sunshine swam in a shoal across and across,
And a hairy, big bee hung over the prímulas
In the window, his body black fur, and the sound of him cross.


There was something I ought to remember; and yet
I did not remember. Why should I ? The running lights
And the airy prímulas, oblivious
Of the impeding bee- they were fair enough sights.


Tradução de Aila de Oliveira Gomes:


DESPERTANDO


Quando acordei as luzes do lago tremiam na parede,
A luz do sol, num cardume, nadava de lado a lado,
E uma abelha graúda se pendurava em umas prímulas
Na janela, o corpo negro, peludo, e um zumbido zangado.


Eu tinha de lembrar-me de uma coisa, eu tinha, contudo
Não lembrava; mas para que? As luzes que deslizavam
E as prímulas aéreas, deslumbradas
Da ameaça da abelha, eram belezas que me bastavam.

UFOS E GRÃ BRETÂNHA



Recentemente o governo britânico começou a disponibilizar no seguinte site: ufos.nationalarchives.gov.uk informações curiosas sobre a ocorrência de aparições de UFOs na Grã Bretanha ao longo da segunda metade do último século. Por enquanto o arquivo de relatos e ocorrências compreende apenas o período de 1967 à 2002. 90% dos casos são descartados como equivocados e, quanto ao restante, há inúmeras duvidas até o presente quanto à inautênticidade. De um modo ou de outro, o acesso a tais arquivos nos permite alguma noção sobre a extensão e repercussão significativa dos boatos envolvendo OVNs na Grã Bretanha. Mais do que isso, nos permite traçar padrões e atribuir significações as representações coletivas e simbólicas expressas em tais relatos. Muito apropriadamente reproduzo aqui integralmente o prefácio elaborado por Jung para a primeira edição inglesa de seus ensaios sobre ÓVNs como uma pequena contribuição a fenomenologia destes boatos:


“ O boato mundial sobre os “discos voadores” coloca um problema que desafia o psicólogo por uma série de motivos. A primeira pergunta- e esta é obviamente a questão mais importante- é a seguinte: eles são reais ou simples produtos da fantasia? Esta questão não foi resolvida ainda, de forma alguma. Se não são reais, o que são, então? Se são fantasias, por que deveria existir, então, um boato desses?
Neste contexto, fiz uma descoberta muito interessante e inesperada. Em 1954, escrevi um artigo no jornal semanal suiço Die Weltwoche, em que me expressei de forma cética, apesar de mencionar, com o devido respeito, a opinião de um numero bastante grande de especialistas da Aeronáutica, que acreditam na realidade de ÓVNIS ( Objetos Voadores Não Identificados). Em 1958, esta entrevista foi descoberta, de repente, pela imprensa mundial, e a “novidade” espalhou-se com a rapidez de um raio, desde o Extremo Ocidente até o Extremo Oriente, mas- lamentavelmente- de forma dertupada. Fui citado como alguém que acreditava em ÓVNIS. Entreguei à United Press uma retificação, com a versão autêntica da minha opinião, mas, desta vez, a notícia ficou engavetada: ninguém, quanto eu sabia, tomou conhecimento disso, com exceção de um único jornal alemão.
A moral desta história é bastante interessante. Já que o comportamento da imprensa é uma espécie de teste de Gallup, em relação à opinião mundial, temos que concluir que notícias que afirmam a existência de OVINs são bem vindas, enquanto que o ceticismo parece ser indesejado. A opinião pública concorda que se acredite que os OVINs sejam, reais, enquanto a descrença deve ser desencorajada. Isto deixa a impressão de que, no mundo inteiro, há uma tendência em se acreditar nos OVINs, como também o desejo de que eles sejam reais, as duas coisas apoiadas por uma imprensa que, não demonstra nenhuma simpatia pelo fenômeno.
Apenas este fato curioso já merece, em si, o interesse do psicólogo. Por que deveria ser mais desejável que existam discos voadores do que o contrário? As páginas que se seguem são uma tentativa de responder a esta pergunta. Livrei o texto de notas complicadas de rodapé, com exceção de algumas poucas, que dão ao leitor interessado as indicações necessárias.”


Setembro de 1958


C. G. Jung


( C.G.Jung. Um Mito Moderno: Sobre coisas vistas no céu. Obras Completas, vol.X/4, Petrópolis: Vozes,1988, p.116 e 117 )

SEA

Nos segredos dos ermos recantos
De águas abertas
Passeiam pensamentos
Sem linguagem
Nos marinhos desertos
Da natureza;

Brumas antigas envolvem
Certezas,
Enquanto o mundo escapa
Na delicadeza mágica das águas
Mais fundas que o esquecido do tempo.

Tudo que existe
Guarda no abismo de si
Um pouco de oceano,
Do mar que se escreve
Na alma nua
à vagar pelo mundo
Em desejo aberto.

This sea will never die...
Pois eterno é o sentimento
E a busca
De si mesmo
Pelos caminhos azuis
De mares e liberdades
Despertas em ventos
E almas dispersas.
.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

C G JUNG E MITOLOGIA CONTEMPORÂNEA: O BOATO SOBRE OVNs


Em fins dos anos 50 do último século C. G. Jung produziu uma pesquisa pioneira sobre as sistemáticas aparições de OVNs que na época provocavam o imaginário coletivo mundial e povoavam não apenas a tela de cinema e romances, como também as páginas de periódicos e tablóides sérios de vários paises.
O interesse de Jung pelos boatos de discos voadores não pressupunha qualquer discussão sobre a veracidade de suas aparições ou a probabilidade da existência de vida extra terrestre, embora a existência da hipótese, por si só, já seja muito significativa e impactante sobre as nossas convenções e referências culturais. Sua pesquisa circunscreveu-se sobre o significado simbólico, ou psicológico, de sua ocorrência justamente em um mundo culturalmente dissociado e sob o fantasma de uma ecatombe nuclear, tal como apresentou-se no pós II grande guerra, ou, mais precisamente na perversa lógica dualista/ideológica representada pela cultura política inaugurada pela guerra fria.
Neste irracional e absurdo contexto planetário, os OVNs, não só pelo seu formado geralmente redondo ou fálico, parecem de fato associarem-se a uma projeção do self, ou da totalidade psíquica, e uma imagem compensatória para tensão estabelecida pela concreta ameaça de uma III guerra mundial, espectro sombrio que marcou decisivamente a segunda metade do séc. XX.
Mas não é exatamente isso que quero discutir aqui. O que me interessa é justamente o gigantesco “poder” deste boato na época a ponto de despertar algum nível de comoção ou perplexidade mesmo entre os mais céticos.
O que posso provisoriamente deduzir disso é que a ocorrência dos OVINs, enquanto objetos de projeções psíquicas, é um exemplo claro de mitologia moderna. Isso faz da linguagem e expressão mitológica, algo mais do que um fenômeno inerente a civilizações arcaicas, mas uma força viva no imaginário contemporâneo que, de outras maneiras, ainda constrói suas mitologias apesar de toda herança ilustrada. Nosso cérebro, afinal, não funciona de modo tão diferente daquele do homem arcaico, por mais que culturalmente tenhamos a pretensão de nos distanciarmos deles.
Mas, voltando a pesquisa de Jung, creio que o fragmento abaixo de um dos ensaios reunidos no volume X/4 ( Um mito Moderno: Sobre coisas vistas no céu) de suas obras completas, bem esclarece seu posicionamento sobre o assunto:

“As projeções têm um alcance que varia de acordo com a sua procedência: se apenas pessoais e íntimas, ou mais profundamente coletivas. Repressões e outros fatores inconscientes de caráter pessoal revelam-se no nosso meio mais próximo, no âmbito de nossa família e dos amigos. Os conteúdos coletivos, como por exemplo conflitos religiosos, filosóficos e políticos-sociais, selecionam os respectivos portadores de projeções, como os maçons, jesuítas, judeus, capitalistas, bolshevistas, imperialistas, etc. Na atual situação de ameaça no mundo, em que se começa a perceber que tudo pode estar em jogo,a fantasia produtora de projeções amplia seu espaço para além do âmbito das organizações e potências terrestres, para o céu, isto é, para o espaço cósmico dos astros, onde outrora os senhores do destino, os deuses, tinham sua sede nos planetas. Nosso mundo terrestre está dividido em duas partes e não pode ver de onde poderiam vir decisões e ajuda. Até mesmo pessoas que ainda há trinta anos jamais teriam pensado que um problema religioso poderia vir a se tornar um assunto sério, a atingi-los pessoalmente, começaram a levantar questões básicas. Nestas circunstâncias, não seria nenhum milagre que aquelas partes da população que nada questionam fossem assoladas por “aparições”, ou seja, por um mito propagado por toda a aparte, em que muitos seriamente acreditavam e que outros rejeitam como ridículo. Testemunhas oculares de notória honestidade e livres de qualquer suspeita anunciam os “sinais do céu” que viram “com seus próprios olhos”, e afirmam ter vivenciado fatos milagrosos que estão além da compreensão humana.”


(C.G Jung. Um Mito Moderno: Sobre coisas Vistas no Céu. Obras Completas. vol. X/4. Petropolis: Vozes, 1998, p.7)

OBLIVION

Ela percorre muda
Os antigos labirintos
De dias perdidos.
Não se esconde
Em um nome
E não revela origem.
Ela é apenas a senhora
Dos sonhos distantes,
Dos ocasos, noites
E mortes...
She is seeking her oblivion...

terça-feira, 20 de maio de 2008

SUSTO ONTOLOGICO

O dia termina lá fora
E algo impreciso
Tem inicio aqui dentro;

Um embaralhamento
Dos sentidos e afetos
Na imprecisão fria
De todos os sentimentos.

Talvez seja um medo
Ou um assombro
De saber o existir
E a perenidade de tudo
A sombra das eternidades.

SLEEPING

Apago um pouco o mundo
Bocejando o dia
No ato vago
De esquecer-me provisoriamente.

Vivo intensamente
O belo do outono
At peace,
In peace...
É quase inverno,
É quase silêncio,
E uma noite imensa
E fria
Desaba sobre tudo
Que sou e fui
impunimente.

domingo, 18 de maio de 2008

LITERATURA INGLESA XXIX


“We are the fools of time and terror


Lord Byron in Mnafred

Salman Rushdie (1947- ) é sem sombra de duvida um dos mais representativos autores contemporâneos da literatura inglesa. Nascido no seio de uma prospera família mulçumana em Bombaim, tornou-se súdito britânico após alguns anos de estudos na Inglaterra. Inicio a carreira de escritor em 1981 com a publicação do seu aclamado romance intitulado Os filhos da Meia Noite. Seu prestigio cresceu significativamente, entretanto, com a publicação de seu bombasticamente polêmico Versos Satânicos em 1988. Alem de reconhecimento e prêmios a obra lhe valeu uma sentença de morte promulgada pelo então aiatolá Khomeini, uma das mais bizarras personalidades publicas e globais do ultimo século. Cabe registrar, entretanto, que sua suposta ofensa ao islamismo é absolutamente fantasiosa e só se justifica pela miopia e irracionalidade do fundamentalismo islâmico.
O Ultimo suspiro do Mouro (1995), seu primeiro romance após a sentença de morte que lhe obriga até hoje a viver escondido e sobre proteção policial, nos apresenta um universo hibrido e plural onde a pluralidade e a diversidade apresenta-se como um traço essencial a nossas sensibilidades contemporâneas e uma alternativa fecunda aos fundamentalismos étnicos e políticos que ainda nos assombram no limiar deste novo milênio, apesar dos deslocamentos idenditários impostos pelo dinamismo vivo das gobalizações.
Surpreendentemente, a citada obra não possui qualquer referência direta ao absurdo episódio da condenação arbitraria do autor. Ela nos oferece apenas uma leitura saborosa, recheada de certo humor, perplexidade, crueldade, sofrimento, irracionalismos e todos os altos e baixos que compõe a aventura da vida humana sobre a terra.
Quanto ao apelo à pluralidade e ao hibridismo ou indeterminação identidária atualmente em pauta na experiência cultural ocidental, basta dizer que o herói narrador da narrativa é o filho de um judeu de ascendência espanhola e nome árabe com uma católica de ascendência portuguesa em uma India dividida pelo conflito entre hindus e mulçumanos.
Deixo aqui um significativo fragmento do comentado romance como uma insuficiente amostra do talento e da contemporaneidade da literatura de Rushdie que, através de seus romances, ainda é capaz de dizer o horror do mundo na peculiar lucidez de seu olhar literário.

“... Mas, pensando bem, não é necessário por a culpa em ancestrais e amantes. Minha carreira de espancador- minha fase martelo- foi fruto de um capricho da natureza, que me deu um punho direito tão poderoso, ainda que inútil para outros fins. Até então eu jamais matara ninguém; mas isso era mais uma questão de sorte, tendo em vista alguma surras violentíssimas e prolongadas que eu administrara. Se, no caso de Raman Keats, atribui-me as funções de juiz, júri e verdugo, o fiz em conformidade com minha própria natureza.
A civilização é um truque de prestidigitação que oculta de nós mesmos nossa verdadeira natureza. Minha mão, prezado leitor, não tinha dígitos capazes de executar um presto; mas ela entendia do assunto.
Assim, a sede de sangue estava no meu sangue, e nos meus ossos também. Uma tomada a decisão, jamais exitei; resolvi que me vingaria, ou então morreria tentando me vingar. Eu vinha pensando muito na morte. Agora encontrara uma maneira de dar sentido a uma morte inexpressiva. Dei-me conta, com uma espécie de surpresa abstrata, de que estava disposto a morrer, desde que o cadáver de Raman Keats estivesse junto ao meu. Ou seja: também eu me transformara num assassino fanático. ( Ou num vingador coberto de razão; escolha o que preferir.)
Violência é violência, assassinato é assassinato, um mal não justifica outro: eu tinha plena consciência dessas verdades. E também desta: quando descemos ao nível do adversário, perdemos nossa superioridade moral. Nos dias que se seguiram à destruição de Babri Masjid, “mulçumanos indignados”/ “assassinos fanáticos” ( mais uma vez, risque a opção que menos lhe agradar) destruíram templos hinduístas e mataram hindus, na Índia e no Paquistão também. Nesses surtos de violência coletiva chegamos a um ponto em que se torna irrelevante perguntar: “Quem foi que começou?” As conjugações múltiplas da morte se divorciam de qualquer possibilidade de justificação, muito menos de justiça. Hindus e mulçumanos irrompem a nossa voltam, de um lado e do outro, com facas e pistolas, matando, queimando, saqueando e brandindo os punhos erguidos em direção ao céu esfumaçado. Como seus atos, as causas que defendem se conspurcam; ambas perdem o direito de reivindicar qualquer virtude; uma se transforma no tormento da outra.
Não me eximo desta culpa. Fui um agente da violência por muito tempo, e na noite do dia em que Raman Keats insultou minha mãe na televisão dei fim a sua vida maldita por meio de um ato brutal. E, ao matá-lo, fiz com que minha própria existência fosse amaldiçoada.”


(SALMAN RUSHDIE. O ULTIMO SUSPIRO DO MOURO/ TRADUÇÃO DE PAULO HENRIQUE BRITTO. SP: COMPANHIA DAS LETRAS, 1996, P. 381 E 382)

LIVE

Há tantas formas de viver
Quanto pessoas
No mundo,
Tantos psicodélicos sentidos
Brincando o real de cada dia
Que é impossível pensar
Alem das melancolias.

Tudo no mundo
É uma questão
De saber o intimo infinito
Que nos leva
A ser em intensa singularidade.

Tudo é aposta em imaginações,
Acasos e ilusões de vida.

LIMITES ABERTOS

Não sei que finito
Se faz
No acaso mágico
Dos meus infinitos
Caminhos.

Preocupa-me
Apenas
O dia seguinte,
Incerto e planejado.

Depois disso
Vejo apenas
O limite
Entre a rotina
E o sonho.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

DESCONSTRUÇÃO

Certezas correm ébrias
Entre esquecimentos
E abismos
Buscando discursos híbridos
Entre babeis de fé.

Uma ilha em meu caminho
Traduz a vida
Em avessos de significados.
Pois todo dizer
Do mundo
É um apagado tentar
Desdizer algo
Em paisagens de caos.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

SINATRA: O MITO 10 ANOS DEPOIS...


Flank Albert Sinatra foi o cantor mais expressivo da América do pós guerra, a encarnação viva do american way of live, do self made man e, de algum modo, um ícone que nos permite ler as sensibilidades que definem em parte o séc. XX. Nos anos 50, era sua voz, the voice, que embalava os sonhos e emoçõesda ingênua rebeldia da chamada “juventude transviada” através de um misto de swing, sensualidade, romantismo, humor, melancolia e irreverência, em um momento em que a musica popular se consolidava, através da conversão em uma poderosa industria, em uma presença marcante e significativa no cotidiano dos indivíduos, seja como pano de fundo ou como trilha sonora de suas próprias vidas.
Embora avesso ao rock and roll, cabe registrar que foi justamente Sinatra que em 1960, no episódio final de seu programa de variedades para a TV americana, The Frank Sinatra Show, que recebeu o jovem Elvis Presley, então recém chegado aos Estados Unidos após a conclusão de seu serviço militar.
Também é digna de nota sua ótima versão de uma das mais belas cançãos dos Beatles, Something, by George Harrison e, por que não, as divertidas e heréticas versões de um de seus maiores sucessos, My Way, pelo Sex Pistols e, posteriormente Nina Hagen.
O que realmente importa é que dez anos após sua morte a memória e o gramour de Sinatra ainda seduz nossas imaginações e sensibilidades intensa e profundamente. The Voice ainda é um dos maiores símbolos da cultura ocidental.
Arnold Shaw na overture de sua biografia sobre o cantor, escrita em fins dos anos 60 e muito propriamente intitulada Sinatra: Romântico do séc. XX, assim define esse complexo e contraditório homem que se fez voz e mito:


“ O atrativo de Sinatra como um romântico do século XX provem de um grupo de contradições. Na hierarquia de nossos símbolos do sexo e deuses do amor, ele tem sido o amante torturado, tão vulnerável quanto triunfante, magoando e sendo magoado. Se continha muito de Balzac, cuja bengala trazia a inscrição: “Seja o que for que me atrapalhe, eu esmago”, também havia nele qualquer coisa de Kafka, que gravou em sua bengala: “Tudo aquilo que me atrapalha, me esmaga!” É essa contradição constante de violência e ternura que compôs a personalidade magnética e enigmática de Sinatra. E foi a projeção dessas polaridades em seu modo de cantar que contribuiu para torná-lo o cantor máximo dos nossos tempos.”

(Arnold Shaw. Sinatra: Romântico do Século XX. Tradução de Luiz Fernandes. RJ: Mundo Musical, 1969,p. 4)

O INVENTADO

Saudades tenho
Do que nunca vivi,
De lugares e pessoas
Jamais conhecidas,
Como se fosse
O trágico exilado
De alguma outra vida.

Há mais verdades
Em minhas fantasias
Do que realidades
No mundo...

Pois sei que sou
Uma sombra
De sonho impossível
A apagar-se em medíocre existência.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

UMA BREVE LEITURA DO LED ZEPPELIN


Originalmente formada em julho de 1968 pelo guitarrista Jimmy Page e pelo baixista Chris Dreja com o nome de "The New Yardbirds", teve inicio a fascinante tragetória de uma das maiores bandas de Rock and Roll dos anos 70: o Led Zeppelin.
O nome tem origem em um comentário de Keith Moon e John Entwistle do The Who durante uma entrevista sobre sobre um "supergrupo" contendo eles dois, Jimmy Page e Jeff Beck, que, na opinião dos entrevistados, viajava como uma balão de gas.
Lançado em outubro de 1968, com a formação definitiva da banda, ou seja, Jimmy Page, Jonh Paul Jones, Robert Plant e John "Bonzo" Bonhan, o primeiro disco do Led combinava o blues, rock e influências orientais com amplificações distorcidas, o que lhe fez por merecer, ao lado do Black Sabbath, a condição de uma das bandas precursoras do futuro heavy metal.
O segundo álbum, chamado simplesmente Led Zeppelin II, continuou e aprofundou o mesmo estilo, e incluía o singular sucesso "Whole Lotta Love".
As performances ao vivo do Led Zeppelin, muito frequentemente, alcançavam 2 horas ou mais de duração podendo chegar a 4 horas seguidas. Constituiam verdadeiras viagens e delirios musicais que a levaram ao titulo de melhor banda ao vivo dos anos 70.

Vale a pena ressaltar que a gravação do seu terceiro álbum, Led Zeppelin III, conduziu-a, significativamente, a experiência de retirar-se em "Bron-Yr-Aur", uma cabana isolada em Snowdonia/pais de Gales, em busca do resgate do imaginário celtico, o que propiciou ao album uma sonolidade acústico e folk realmente singular. Tal atmosfera mágica e insolita transformou-se em uma das marcas registradas da banda, assim como a sintese perfeita entre as várias tendências musicais que incorporava.
Certamente ainda tenho muito o que dizer sobre o Led Zeppelin por aqui...

MORNING GLORY

Enxergo o colorido
De um dia distante,
Perdido,
Quando tudo parece
Preso em um instante
No qual o mundo se faz
Roda gigante.

É como o depois
E o antes
De uma surpresa em fogos
De abstratos fatos,
Algo que surge como sonho
Quando estamos acordados
E fechados em alma
Como meros estranhos
Que adivinham o
Surpreendente do próprio rosto
Em abertura de céu.

É manhã...
Morning Glory....

INDIVIDUALIDADE E CONTEMPORANEIDADE

No múltiplo cenário de nossas contemporaneidades sentidas e vividas em indecisões de reflexões e pensamentos, uma das questões, ou tensões, mais intensas que se apresentam, é aquela existente entre os fundamentalismos identidarios, ou sectarismos étnicos, nacionais e religiosos, frente à novidade do múltiplo, do hibrido e do singular que emerge, com uma força cada vez maior, através das globalizações européias e norte americanas.
Estes primeiros instantes do novo milênio são definidos, entre muitas outras coisas, por uma desconstrução radical de tudo aquilo que ainda hoje representa, de alguma maneira, “a tradição” ou o funcional medíocre das imagens do socialmente estabelecido centrado em alguma arcaica representação de coletividade.
Quando vivemos profundamente a caoticidade do tempo presente, nos reaprendemos no aprendizado da aridez coletiva, nos refazemos como pequenos e mínimos fragmentos que em sua singularidade transformam cada ato de existência em uma afirmação única do que somos multiplicamente no movimento de pensamentos, sentimentos, intuições e sensações singulares em contraposição ao opaco dos lugares comuns do dia a dia, estes terríveis desertos íntimos que nos conduzem a realidade social.

terça-feira, 13 de maio de 2008

CRÔNICA RELÂMPAGO XXVII


Normalmente, em nossas orgulhosas afirmações vazias de igualdade, republicanismos e nacionalismos cotidiana e massificamente sustentados, não nos damos conta das permanências do antigo regime em nosso dia a dia.
Foucault, em sua Micro-física do poder, já nos chamava atenção para o fato, deste absurdo lógico chamado poder, ser essencialmente realizado através de modalidades de relações estabelecidas, antes de tudo, no campo do micro-universo de nossos relacionamentos pessoais e impessoais. Em poucas palavras, o poder não é uma “coisa-em–si” mas algo que se faz real em nossas modalidades diversas e espontâneas de sociabilidades.
Independente de alertas como o aqui citado, raramente nos damos conta do quanto nosso existir em sociedade e interagir com os outros pressupõe performances e códigos de valor/não valor que não estão condicionados a racionalidade objetiva dos jogos sociais de linguagem e trans-linguagem tão somente.
Artificialismos, artifícios e silêncios ainda definem nossos relacionamentos de todos os dias no âmbito profissional e pessoal, Somos, antes de tudo, o exercício de personas maior ou em maior realidade bem ou mal sucedidas em nossas diversas sociabilidades. Somos, porem, também, diferentemente dos nobres do antigo regime, obrigados a lidar mais profunda e livremente com nossas multiplicidades interiores, com nossos medos, conflitos e desafios, ao ponto de nos sentimos radicalmente como indivíduos; e algo a menos do que isso...

RAIN AND THE CITY

Acredito em tão pouco,
Mas em tão fundo de mim mesmo,
Que não tenho linguagem
Ou mensagem,
Para dizer
Porcamente ao mundo
O que acho que sou.

Sei menos
Que a certeza de uma gota de chuva
Ou do largo desafio de transpor
Uma poça d’agua
A meio ao caminho
Do todo que me impõe silenciosamente
Limites e vontades infinitas...

Sou pura chuva
A calar ruas e pessoas
No grande esforço
De ser
apenas uma gota
De mim mesmo
A sonhar reflexos
Em espelhos d’agua.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

MINIMA ANGUSTIA


Procuro suportar
O desencontro
Entre o tempo
E os fatos,
Sobreviver ao vazio
Que me faz um outro
De mim mesmo
No desafio e risco
De cada único instante.

Minhas opções
Perdem-se
Nos atos que espalho
Pela vida.

Pouco sei sobre o que sou
No rasto apagado
Dos meus passos a ermo.

Espero-me futuro
Em algum horizonte
Ao crepúsculo
Para redimir o passado
E saber, definitivamente,
Meu presente.

domingo, 11 de maio de 2008

THE WHO E A SENSIBILDADE NOVECENTISTA





No último século, na segunda metade dos anos 60, o The Who consolidou-se definitivamente no cenário do Rock como uma das mais populares e emblemáticas bandas britânicas. Consolidou na ocasião sua identidade através de uma musicalidade cada vez mais complexa, psicodélica e meta-psicodélica, assim como letras de significado profundo no discutir os dilemas e desafios da própria condição humana e sua inadaptação estrutural a si mesma... Transcendia, assim, a imagem de uma banda adolescente cunhada pelo clássico My Generation e pelo furor dionisíaco de suas performances ao vivo.
Sobre o lugar do The Who na história e experiência viva do Rock, o especialista em história do Rock, Paul Friedlander, assim resume a relevância da banda:




“Tendo ficado a sombra de outros grupos da invasão inglesa em meados dos anos 60, o Who começou a obter o reconhecimento que merecia na época de Woodstock. Musicalmente, e no seu estilo de se apresentar ao vivo, eles foram os pioneiros do hard rock. Devido a sua capacidade musical, talento e inclinações sociais, eles redefiníramos papeis e funções dos instrumentalistas, criando um rock mais ousado e sofisticado.A bateria se transformou em algo mais que um marcador de tempos, o baixo, mais que uma base rítmica e harmônica, e a guitarra se transformou tanto em solo quanto em rítmica.
Como compositor de rock, Townshend é um dos melhores. Ele compunha sozinho, não como parte de uma equipe como Lennon- McCartney ou Jagger-Richards. E ele compunha sobre o mais amplo espectro de temas, seja sobre o rock and roll puro e simples ou para fazer um comentário reflexivo, filosófico e sofisticado sobre a condição humana. E mais, tudo isto se realizava enquanto o público e os críticos se concentravam no alto volume, na alta energia e na destruição bombástica de seus shows ao vivo. Raramente uma banda combina com sucesso tantos elementos essenciais do rock com tantos componentes musicais e líricos complexos e sofisticados.”




( Paul Fridlander. Rock and Roll: Uma história social; tradução de A. Costa- 4º ed., RJ: Record, 2006, p. 190.)



Mas, definitivamente, a imagem mais viva que temos hoje do The Who é a da sua singular performance em palco, a força dionisíaca de sua musicalidade e identidade, a nos dizer o elementar e saudável desajustamento relativo que marca a construção de cada individualidade humana na cultura ocidental.
Recorrendo novamente a Fridlander:


“Imagine o cantor Roger Daltrey, feito uma maquina de moto-continuo, comandando o palco durante duas horas de agitação frenética. O guitarrista Pete Townshend mexe seu braço direito num movimento que lembra um gigantesco moinho de vento, golpeando sua guitarra para produzir barulho, tocando poderosos acordes que saturam a sala de espetáculo. Às vezes essas rajadas sonoras são acompanhadas por pulos ágeis quando Townshend saltita pelo palco. O baterista Keith Moon bate freneticamente em sua bateria, arremessando ocasionalmente uma de suas baquetas por cima da bateria e em direção ao público. Este furacão envolve o baixista John Entwistle, que fica de pé como se estivesse ancorado no palco, sem se mexer,exceto com os dedos que deslizam sobre as trastes do braço do seu baixo.
Este show hipotético chega ao clímax com a canção My Generation. Após um longo solo, Townshend ergue sua guitarra acima da cabeça e quebra-a em pedaços contra o palco, esmagando o esqueleto restante na grade de proteção e no seu amplificador. A microfonia angustiada que saltava das caixas de som soava como o momento de agonia do instrumento. Daltrey gira seu microfone pelo fio em um crescente arco até ele se chocar com o palco. O bumbo de Moon foi armado com uma pequena carga explosiva esfumaçante e estoura quando ele chuta a bateria que desmorona do pódio para o palco. Parado atrás do seu instrumento, Moon ri como um piromaniaco. Finalmente Entweistle pára de tocar seu baixo e o Who sai de cena, somente um dia como outro qualquer.”


( idem, p. 176)

CIGARRETTES & ALCCOHOL


Gosto do claro/escuro
Da aventura de sombra
Que faz cada noite.
É divertido perder-se
Em pessoas e bares
Em buscas de transcendências
E infinitos laicos.
Pois sei brincar com
O acaso da fumaça
Do meu cigarro
Entre goles de coloridos drinks
E surrealidades de momento.
Tudo no fundo
Se encanta,
Se encontra,
No acordar de imaginações profundas
em puro expontâneismo vazio
de inventivas realidades
ao sabor de íntimos ventos.

PARAISOS ARTIFICIAIS

Meus únicos possíveis paraísos
São os artificiais,
São os artifícios
Que nos ensinam
Em passeio d’alma
Que a vida é
Um delicado trabalho
De pensamento e forma.
No sabor do outono
Releio em jardins abertos
O aventurar de Alice no espelho
Adentrando o jogo de fantasias
Ao qual me leva cada devaneio.
Assim invento um dia
No além do calendário
Para refazer meus caminhos
E sonhar inatingíveis horizontes
No traçado mágico e onírico
Da embriagues de imaginações
E encantos.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

THE BEATLES: Legado...


Uma das mais ricas e precisas manifestações da atualidade da Beatlemania e pertinência de sua linguagem na contemporâneidade pode ser encontrada na apresentação brasileira para a tradução do livro, que já considero clássico; uma indispensável referencia para qualquer pessoa que tenha pelo menos alguma curiosidade pelas peripécias do fabuloso quarteto de liverpool: The Beatles: Uma biografia de Bob Spitz. Refiro-me obviamente a apresentação de Sergio Dias dos Mutantes.
Definitivamente os Beatles são uma das mais radicas personificações da imagem-força da liberdade no século XX, da estranha e exótica busca de identidade e expressão da infindável criatividade que, no mais singular da existência humana, faz de cada indivíduo uma realidade profunda...
O pequeno texto aqui referido se constrói a partir da imagem do caleidoscópio de number nine, musica singularmente psicodélica presente no fantástico Álbum Branco dos Beatles...
Deixo aqui alguns fragmentos do comentado texto para justificar o fato desta banda ser até hoje considerada a maior expressão do rock do seculo XX:

“... Assim como a (re)composição que tem o numero 9 no titulo, em cada música eles forneciam sempre, a cada pergunta e anseio que nós crianças tínhamos , a resposta imediata. A sabedoria o som certo e o sentimento que faltava para nos refletir no espelho do toca discos da vida, que rodava implacável enquanto os grãos os grãos de areia do tempo solidificavam nossa juventude e maneira de pensar...
Fomos sendo forjados, um a um,em uma única e consistente idéia : a de que ser livre era uma possibilidade e não mais precisávamos nos trancar como Eleanor e nos isolar internamente como um Fool on the Hill ou nos transformar em um simples Nowhere Man...
Agora era possível ser e se expressar livremente: muito- e dizer muito é pouco- dessa liberdade que foi conquistada graças a bravura e à tenacidade de um bandinho de gente do povo das docas de uma cidade incógnita como Liverpool.”


(Sergio Dias, Apresentação ( e eles precisam?) in Bob Spitz. The Beatles: Uma biografia SP: Larousse do Brasil, 2007, p. s/d.)

8 DE MAIO DE 1945: O DIA DA VITÓRIA.


O oito de maio é uma data profundamente simbólica para o mundo ocidental, uma lembrança do trágico vislumbre da tênue fronteira entre as imagens contrapostas de civilização e barbárie. Afinal, trata-se do Dia da vitória, data símbolo do fim da Segunda Grande Guerra.
Não me parece aqui cabível fazer uma critica moralista ao nazismo e uma apologia da liberdade para celebrar a vitória do ocidente contra o próprio ocidente... Longe de reproduzir clichês, prefiro chamar atenção para a dinâmica ainda hoje atual que faz do fenômeno do nazismo uma verdade viva em cada estado nacional ainda existente.
Se as origens do nacional socialismo podem ser buscadas, entre outras fontes, no complicado arranjo estabelecido pelo tratado de Versalhes; corroborando certa leitura de Jung, acredito que o mais importante é buscar uma interpretação deste singular fenômeno na própria peculiaridade da dinâmica humana, nos mais profundos abismos do imaginário ocidental, na “patologia da normalidade” com a qual nos defrontamos todos os dias e diante da qual não basta não sermos “alemãs” para escapar.
Segundo Jung:

“ Já bem antes de 1933 havia um cheiro impreciso de incêndio e um interesse apaixonado por descobrir o foco do incêndio e encontrar o incendiário. Quando espessas nuvens de fumaça cobriram a Alemanha e o incêndio do Reichstag deu o sinal, descobriu-se onde estava o incendiário, o mal em pessoa. Por mais terrível que essa descoberta possa ter sido, ela, no entanto, propiciou uma espécie de alívio. Pois agora já se sabia precisamente o lugar da injustiça e ao mesmo tempo que estávamos do outro lado, ou seja, entre as pessoas decentes cuja indignação moral deveria aumentar nem sempre na razão direta do crescimento da culpa do outro lado. Até os gritos clamando a execução em massa não mais ofendiam os ouvidos dos justos e se considerava uma justiça divina o incêndio das cidades alemães. O ódio encontrou assim motivos respeitáveis, ultrapassando o estado de indiossincrasia pessoal e secreta, tudo isso sem que o respeitável público percebesse a presença vizinha do mal..”
( C.G. Jung. Obras Completas Vol. X/2, Aspectos do Drama Contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 1990, 2º ed., p.21.)


"Atentem para a crueldade inaudita de nosso mundo dito civilizado; tudo provem do ser humano e de seu estado mental! Observem os meios diabólicos de destruição, descobertos por inofensivos gentlemen, po cidadões sensatos e respeitados que, em princípio, representam tudo que almejamos. No entanto, quando tudo voa pelos ares, provocando o inferno da destruição, ninguem se apresentará como responsável. Embora tudo provenha do homem, parece que as coisas acontecem por si sós. Todavia, como todos estão cegamente convencidos de que nada mais são do que o retrato de sua humilde consciência, que cumpre fielmente seus deveres e luta pelo pão de cada dia, ninguém percebe que essa massa racionalmente organizada, a que se dá o nome de Estado ou nação, é movida por um poder aparentemente impessoal e invisível mas terrível, que nada nem ninguem controla. Esse poder aterrador é, em geral, atribuido ao medo da nação vizinha que todos supõem possuida por um demônio ou força do mal. Como ninguem é capaz de reconhecer o grau de possessão demoniaca e de inconsciência em que vive, projeta-se o próprio estado interior para os seus semelhantes, legitimando, desta forma, o gás mais venenoso e os maiores canhões. O pior de tudo é que as pessoas têm toda razão. Pois todos os que estão à volta, e nós mesmos, somos dominados por uma angustia incontrolada e incontrolavel. Como se sabe, nos hospícios os pacientes amedrontados e ansiosos são bem mais perigosos do que os dominados pela ira ou pelo ódio."

( idem, p. 54)