quinta-feira, 17 de julho de 2008

MIDNIGHT



Reinvento no fechar dos olhos
A criança que fui um dia
Apagando em mim
Todo o peso futuro,
Toda duvida presente
E cicatrizes passada.


Escapo ao espaço
E ao tempo...
Em algum lugar distante,
Destes que apenas sabemos
Em sombras de imaginações,
Aguarda-me um desejo,
Uma ilimitada vontade
De cruzar espaços,
Revolver a vida
Até respirar
Todo perfume azul do céu,

todo vento enterrado

No fundo d’ alma.

domingo, 13 de julho de 2008

MORTE BARDICA

Quando eu morrer
Quero minhas cinzas
Guardadas
Por um antigo carvalho
Em alguma floresta bretã,
Quero esquecer-me
Em meio ao verde
E ao sabor do vento
Em um ultimo jesto
De acaso e silêncio.

13 DE JULHO: DIA MUNDIAL DO ROCK


O rock and roll é veneno posto no som”

Pablo Casais, violoncelista

“O melhor rock and roll armazena uma alta doze de energia-uma certa raiva-tanto no estúdio quanto ao vivo. É isso, o rock and roll só é rock and roll se não for seguro.”

Mick Jagger, citado na Rolling Stone, 1988

Hoje é dia mundial do Rock... Dia de lembrar que, mais do que um estilo musical, o rock and roll tornou-se ao longo de sua evolução e história uma matriz cultural, um fenômeno sócio-comportamental sem precedentes. Definitivamente podemos defini-lo como uma das mais radicais expressões da liberdade, da individualidade e espontaneidade humana contra o convencional de todos os dias.
Rock and roll é, em poucas palavras, mais do que musica, é um ritmo de existência em cores vivas e psicodélicas.

sábado, 12 de julho de 2008

MONTY PHYTON: THE MEANING OF LIVE



A linguagem que define o humor do sexteto britânico Monty Phyton é construída por um amalgama de humor negro, sátira social, besteirol, niilismo e colagens surrealistas ou psicodélicas que resultam em seu singular e corrosivo no sense.
Tendo a considerar seu trabalho uma das mais significativas e relevantes amostras da sem sensibilidade cultural de fins dos anos 60 e inicio dos anos 70 do ultimo século.
Mas falando especificamente sobre um de seus longas para o cinema, ou mais especificamente, sobre The Meaning of Live ( O sentido da Vida), cabe dizer, antes de mais nada, que o considero um dos mais cínicos e sarcásticos registros sobre as dinâmicas da existência humana.
Mediante uma surreal coletânea de enquetes sobre temas como nascimento, trabalho, casamento, envelhecimento morte e religião, somos levados pela fragmentária narrativa cinematográfica a conclusão obvia do quanto é ridículo buscar na vida algum sentido e que, no final das contas, a grande piada é a necessidade humana de atribuir significados a coisas que absolutamente não possuem em si mesmas significado algum.
The Meaning of Life nos oferece um riso muito especial, o riso da caveira contra todas as nossas pueris certezas e crenças sobre a vida.

GIVE ME THE MOON AT MYFEET


O que chamam felicidade
Não é mais que vertigem,
Embriaguez e grito,
Um doce delírio
Ou saber o mundo
Dentro de si
Como um sol.


O que chamam de felicidade
É o acontecer mágico
Da natureza
Sem regras ou limites.


É um jeito estranho
De enlouquecer
E explodir de prazer
Em todas as cores da imaginação
E odores do pensamento.


É algo que raramente não existe...

INDIVIDUO

No reflexo de um rosto
Vejo apenas
Caos e luz
Em perturbadora simetria.

Entre os homens
Afinal
Não há sociedade
Nem utopias,
Apenas um jogo
De palavras ocas
E dissimulados delírios.

Serei eu
O único da minha espécie?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A MERE OBSTACLE


Nubla-se o mundo
Em um gole de pensamento.
Embriago-me...
Brincando de sol
Nos abismos da noite,
Buscando quietudes
Em jardins de espinhos.
On he Góes...
A mere obstacle.
Carrego-me nas costas
Em busca
De mim mesmo.
Now it is autumm...

LIFE

Vivo das migalhas
Do meu poderia ser,
Dos fantasmas
Do meu querer.
Vivo da morte
De antigos sonhos
E desafios de um tempo presente
Que nunca busquei.
Vivo da minha sorte
E do absoluto
De mil desejos
Em ilusões de sortes,
Magias, mancias e vaidades.

LITERATURA INGLESA XXXII



A Bussola de Ouro (1995), primeiro livro da triologia Fronteiras do Universo, escrita pelo britânico Phillip Pullman ( 1946-...), embora voltada para um publico infanto juvenil, nos surpreende com um narrativa rica e complexa.
Em linhas gerais podemos tomar a obra como um questionamento ou desconstrução do cristianismo enquanto religião institucionalizada e totalitária e, ao mesmo tempo, um refinado exercício imaginativo.
Naturalmente, o livro é mais interessante que sua recente adaptação cinematográfica e, em uma leitura mais profunda, é possível intuir algo menos imediato do que a critica ao cristianismo. Talvez o grande tema do livro seja na verdade uma critica ao fundamentalismo religioso de um modo geral, questão que nos assombra nesse inicio de milênio.
A leitura da Bússola de Ouro é insuficiente para avaliar o trabalho deste singular escritor que é Pillip Pullman, que já publicou, além da citada triologia , diversos contos e peças teatrais, tendo recebido por sua obra infanto juvenil o prémio Whitbread de livro do ano, o mais prestigioso da Inglaterra, assim como o prêmio Astrid Lindren Memorial Award de Literatura Infantil. O fato é que a repercussão de sua obra me chamou atenção para as novas formas assumidas pela narrativa literária destinada ao público infanto juvenil, sua aproximação cada vez maior da formula clássica do romance e o conseqüente alargamento do leque de seus leitores. Poderíamos ainda acrescentar como exemplo desta tendência o ciclo Harry Potter ou o Aragon de Cristopher Paolini.

DAY...


Durante anos
Aguardei o momento
De um dia novo,
Único e singular
Que revelasse a essência
Do meu amanhã.
Como se a vida
Pudesse ser compreendida
Em função de metas
E destinos
E tudo não fosse
Um nada
Dentro do tempo
E do vento.

terça-feira, 8 de julho de 2008

THE BEATLES: THE BIOGRAPBY BY BOB SPITZ


The Beatles: The Biograpby de Bob Spitz, até onde sei, é atualmente a mais importante referência biografia para uma compreensão sóbria da vida e obra da maior banda de rock de todos os tempos. Não seria descabido afirmar tratar-se de sua biografia definitiva dado o raro e singular rigor empregado pelo autor em sua pesquisa. Afinal, os Beatles não são um universo fácil de reflexão quando consideramos o terreno mofetiço e ilusório representado pelo abundante conjunto de fontes disponíveis sobre sua carreira e biografias.
Escrever sobre os Beatles pode ser, não duvide, uma boa experiência para historiadores profissionais... Um exercício de desconstrução, desmistificações e incertezas sem paralelos...
Em suas NOTAS SOBRE AS FONTES, o autor nos ajuda a entender melhor o porque:

“Um dos empecilhos para a preparação de uma biografia definitiva dos Beatles é a impressionante falta de material de pesquisa confiável. A maior parte dos quinhentos volumes que formam o seu cânone carece de citações corretas, e, mesmo naqueles casos extraordinários em que as fontes são identificadas, a exatidão permanece duvidosa. Ou as lembranças eram vagas, as narrativas recicladas e os fatos não verificados ou as circunstâncias eram fabricadas ou obscuras- algumas vezes por testemunhas preconceituosas, outras vezes para proteger inocentes. Para o bem e para o mal, informações falsas sempre foram um elemento chave da lenda dos Beatles.
O âmbito dessas informações falsas deve bastante à frase de Napoleão que afirmava que “ a história é um conjunto de mentiras com as quais todos concordam.” Isso se tornou bem claro para mim logo no inicio das pesquisas para este livro. Durante uma entrevista com Paul McCartney, ele explicou como, à quase quarenta anos, os Beatles concordaram em ter uma “versão dos fatos” que lhes serviria de história, e eles se mantiveram fies a ela- além de enchê-la de detalhes- desde então. Paul me contou que “cerca de 65 por cento” da biografia oficial do grupo, intitulada The Beatles- escrita em 1967 pelo jornalista Hunter Davies-, é correta. ( referindo-se ao livro durante uma grande entrevista em 1970 com Jann Wenner, John Lennon disse: Era tudo conversa mole[...] minha tia [ Mimi] eliminou todos os detalhes verdadeiros da minha infância e sobre minha mãe. [...] Eu queria que o livro publicado fosse verdadeiro, mas todos nos tínhamos esposas e não queríamos magoar os sentimentos delas”.) Além do mais, todas essas histórias foram contadas e recontadas tantas vezes que nem mesmo Paul McCartney tem certeza de onde começa e onde termina a verdade- um dos motivos, sem dúvida, para que se refiram ao belo Antologia como “Mitologia”. Em todo caso, a “biografia oficial dos Beatles” não só esta lotada por testemunhos criados e adoráveis contos de fadas, mas também de incorreções: nomes escritos de forma errada, datas incertas, locais confusos- e grande vácuos.
Mesmo assim, confiei no livro de Davies como subsídio a minha própria pesquisa. As histórias verbalizadas nele pelos quatro Beatles-seus comentários informais, assim como suas versões imprevisíveis de eventos a tempos esquecidos- são, entretanto, intensas e fornecem os últimos relatos vividos ( e fascinantes) de certas travessuras. Apesar de eu ter incorporado algumas citações daquele livro nesta biografia, estejam certos de que elas foram analisadas detalhadamente para que houvesse certeza de estarem corretas, ou então escolhidas por conterem reflexões pessoais que são incontestáveis pela honestidade. Por último, seja dito que, quando tratamos de muitos dos participantes deste livro- os pais de George Harrison; a tia de John, Mimi, e seu pai Freddie; a mãe de Ringo; Millie Best; e outros personagens secundários-, o livro de Davies permanece como o único testemunho válido dessas pessoas nessa história marcante.”
( Bob Spitz. The Beatles: a biografia./ Vários tradutores. SP: Larousse do Brasil, 2007, p. 853-854.)

PREGUIÇA

Toco com os olhos
O mundo
No aprendizado
Do ilegível
Mastigando o imediato
Da vida.

Tento inutilmente
Saber o sabor
Da sombra da realidade.

Mas inerte sobre as horas
Aguardo o fim do dia
Na preguiça de existir
Com os sentidos entorpecidos
De tanto mundo...

RASCUNHO DE LEITURA: LED ZEPPELIN E OS ANOS 70


Paul Friedlander, em ROCH AND ROLL: UMA HISTÓRIA SOCIAL, obra já citada nesse blog, nos oferece inúmeros momentos de inspiradores insight sobre o significado simbólico/concreto da experiência deste tão singular e explosivo estilo musical que foi capaz de fomentar uma “cultura e identidade de juventude atemporal” e sustentar a maior e mais profunda “revolução” comportamental já ocorrida em toda a história da humanidade; processo que, diga-se de passagem, permanece ainda em curso e carente de uma reflexão sobre suas mais profundas implicações em nossos corações e mentes.
Neste momento parece-me interessante focar o pensar em sua leitura da transição do rock dos anos 60 para os anos 70 através de um de seus maiores emblemas: a banda Led Zeppelin:

“ O inicio da década de 1970 tornou-se uma época de contradições. Por um lado, houve a institucionalização da moda da contracultura, da aparência, da experiência com drogas e da linguagem. Por outro, havia esforços do governo e do showbusiness para reverter a recente abertura e expressividade política e cultural da época. Em meio a essa confusão, o bombástico hard rock explodiu na esteira da música popular. O Led Zeppelin estava na frente, seguido por uma legião de discípulos fieis. Juntos, eles formavam a terceira explosão do rock, que chamou a atenção dos adolescentes daquele tempo- solidificando uma vertente iniciada pelo por Who, Cream e Hendrix. “Sexo, drogas e rock’ n’ roll!”. Tornou-se o lema e a busca pelo prazer e dinheiro, o objetivo final. Neste momento o art- rock ( rock com pretensões artísticas) e vocalistas-letristas de pop-rock que se juntaram ao heavy metal ( como o rock mais pesado passou a ser chamado) e aos dinossauros do rock, em quanto os anos 70m seguiam em frente.”

(Paul Friedlander. Rock and Roll: Uma História Social. Tradução de A. Costa. 4º ed, RJ: Record, 2006, p.330)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

DIA A DIA

Tudo o que busco
É o acontecer intenso
Do mero exercício da vida,
O espreguiçar sereno do dia
No banal e estranho movimento
De ser perene e incerto
Como o vento.
Pois meu tempo não cabe
Na ordem do calendário,
É como um mágico vento
A habitar mil caminhos.

Sou no brilho vivo
Das múltiplas liberdades
Que definem o gosto
de estar
No aqui e agora
Da existência
Sem grandes questões
E mistérios,
Como um esboço
Do meu próprio rosto.

A BUSSOLA DOURADA E O IMAGINARIO CONTEMPORÂNEO


O cinema, enquanto personificação do imaginário coletivo é uma rica fonte de reflexão em torno das inconscientes tendências das imaginações e realidades construídas em nosso cotidiano fazer do ordinário dos fatos e ritmos da vida.
Assim sendo, considero instigante e provocador aqui tecer um breve e superficial comentário sobre dois filmes, aparentemente ingênuos e simplistas.
Refiro-me as Crônicas de Narnya e a Bússola de Ouro que, de modos distintos, parecem atualizar a velha linguagem dos contos de fada em um simbolismo contemporâneo e surpreendentemente imaginativo.
Em ambos os casos, crianças são as protagonistas centrais da narrativa, cujo principal argumento é seu envolvimento com “outros mundos”, com um universo mágico pouco acessível à realidade dos adultos e definida por uma natureza encantada.
Se no imaginário ocidental, na construção de uma vivência e imagem da criança/infância, de muitos modos predominou a imagem da criança divina aprisionada pela mitologia cristã, atualmente vemos emergir representações variantes da infância associadas a um resgate e valorização do universo do fantástico e do “desconhecido” como componentes da própria maturidade psiquica.
Desta forma, as criticas e sanções da igreja de Roma contra o filme A Bússola Dourada lançado no ultimo natal, são compreensíveis, embora não justificáveis dentro da dinâmica de um mundo cada vez mais plural e interrogativo quanto à afirmação universal de qualquer verdade religiosa ou laica.
A bússola de Ouro, é um exercício único de imaginação... Afinal, a partir da realidade de um mundo imaginário onde qualquer versão xamânica de natureza humana nunca se perdeu e as almas humanas são personificadas por “daimons”, por formas animais que nos acompanham, dialogam e protegem, o desconhecido de uma pluralidade de outros mundos e realidades possíveis surge como um desafio aos conservadores guardiões da ordem estabelecida e suas verdades.
Tal fantasia, essencialmente inspirada em uma imagem pagã de natureza, conduz a muitas interrogações... Mas prefiro esperar a previsível continuação desta fascinante aventura cinematográfica para aprofundar minha leitura.

domingo, 6 de julho de 2008

LITERATURA INGLESA XXXI



"Vivemos em um mundo louco onde os contrários se convertem continuamente entre si, os pacifistas se descobrem adorando Hitler, os socialistas tornam-se nacionalistas, os patriotas colaboracionistas, os budistas oram pela vitória do exército japonês, e a Bolsa sobe se os russos preparam a ofensiva".

G. ORWELL, Horizonte, set.1943

Dentre os intelectuais de esquerda do séc XX, George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, (1903-1950) encontra-se entre aqueles que pertencem ao seleto e singular grupo capaz de paradoxalmente despertar sinceras simpatias tanto em partidários da extrema esquerda quanto da extrema direita.
Isso acontece em função da plural repercussão de suas obras mais conhecidas: A Revolução dos Bichos, publicada muito significativamente em 1945 e Nineteen-Eighty-Four (1984), publicado em 1949.
Critico do socialismo real da antiga URSS, tanto quanto do capitalismo e, particularmente, do império britânico, Orwell foi, em radical sentido, um dissidente, um herege político, ou simplesmente, um critico das utopias nos obscuros e maniqueístas anos de laica religiosidade política da guerra fria.
Pessoalmente, creio que uma lúcida avaliação de sua obra transcende em muito a leitura dos dois livros aqui citados, pressupondo pelo menos algum conhecimento de textos como Dias Na Birmânia e A Flor Da Inglaterra...
Nada disso muda o fato de que sua obra, permanecerá em grande parte fatalmente associada a idéia de “distopia”, ou seja, a recusa das utópicas representações perfeitas de mundo inspiradas em algum ideal totalitário de perfeição ou satisfatória funcionalidade da sociedade.
Orwell foi antes de tudo um escritor outsiders em obscuros tempos de ideologias e medos... Um individuo, acima de todo caos da existência e hostilidades da vida em sociedade...

CONTEMPORÂNEIDADE E INDIVIDUALIDADE


A contemporaneidade confunde-se em parte com um trabalho de desconstrução de todas as certezas que nos foram legadas pela tradição ocidental. Religiosidade, verdade, sociedade, ciência ou moral são palavras, por exemplo, que já não guardam significados claros e muito menos confiáveis no exercício do pensamento e construção do mundo através da linguagem e dos atos.
Em outros termos, as formas de coletivização e subjetivização dos indivíduos pressupõe cada vez menos o ajustamento a uma “ordem social” totalizante. De muitas maneiras, os desvios tornaram-se a regra e o mundo já não passa de um lugar incerto e potencialmente perigoso onde a única possibilidade de vida autêntica encontra-se no individuo solitário fechado no esforço, na arte, de construção do seu próprio mundo pessoal e animico.

SENHA


Não sei
o ponto certo
De interseção
Entre o eu e o mundo,
Desconheço a senha
Das minhas realidades
Guardadas
Na fantasia de todo pensamento.

Existo em acaso
Tempo e espaço,
Fluido como a água
Em psicodélicos insights
E vislumbres de céus abertos.

No lento dissolver
De mim mesmo
No acontecer frenético
Do mundo
Tento apenas
Desvelar minha senha.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

ENCONTRO URBANO


Guardei seu rosto
No anonimato
Daquele momento
Em que em silêncio
Nos desencontramos
Na via pública.

Nunca saberei seu nome,
Nunca a verei novamente,
Nada tenho a lhe dizer.

Apenas guardei seu rosto
Quase como um testemunho
De tudo aquilo que jamais vivi
Ou perfeita ilusão de sonhos
Jamais sonhados por mim.

FREE AS A BIRD


Liberdade é para mim
O perene exercício
De me desconstruir no mundo
No vago intuir
De tudo aquilo que sou.

Pois nada me prende a nada,
Tudo é fronteira,
Passagem,
No aventurar-me no tempo
Entre as ambigüidades do acaso
E as frágeis realidades
De cada mínimo dia.

Fly as a bird,
Across the time…

Tudo passa na mimese do vento
Que aleatoriamente me sopra
Vida a fora,
Noite a dentro.

terça-feira, 1 de julho de 2008

DIVERSIDADE CULTURAL, HISTORIOGRAFIA E CONTEMPORÂNEIDADE


A coletânea de ensaios do historiador britânico Peter Burke, VARIANTES DE HISTÓRIA CULTURAL, originalmente publicada no Reino Unido e nos Estados Unidos em 1997, é uma referência indispensável não somente para historiadores, mas também para todos aqueles que, de algum modo, refletem sobre as transformações contemporâneas dos usos e significados da cultura.
Especial atenção merece o ensaio Unidade e variedade na História Cultural que, mais do que realizar um balanço historiográfico, analisa as tendências e perspectivas atuais do fenômeno cultural.
A pluralidade, sincretismos e hibridismos culturais atualmente em pauta diante das múltiplas dinâmicas introduzidas pelo fenômeno das globalizações contemporâneas de modo geral lançaram novas luzes sobre a construção da modernidade e sua correspondente e complexa “economia mundo”. Afinal, a experiência da modernidade foi, entre outras coisas, uma experiência de fronteiras, tensões e trocas culturais sem procedentes no mundo ocidental.
Deixando falar o autor:


“... Para retornar a linguagem “tradicional”, os indivíduos talvez tenham acesso a mais de uma tradição e optem por uma em vez de outra segundo a situação, ou se apropriem de elementos de duas para fazer alguma coisa por conta própria. Do ponto de vista “êmico”, o que o historiador precisa examinar é a lógica subjacente a essas apropriações e combinações, os motivos locais dessas opções. Por isso alguns historiadores tem estudado as respostas de indivíduos aos encontros entre culturas, em especial aqueles que mudaram de comportamento- quer os chamados “convertidos”, da perspectiva de sua nova cultura, ou “renegados”, do ponto de vista da antiga. A questão é estudar esses indivíduos- cristãos que viraram mulçumanos no Império Otomano, ou ingleses que viraram índios na América do Norte- como casos extremos e especialmente visíveis de resposta a situação do encontro e concentrar-se nas maneiras como eles reconstituíram suas identidades. As complexidades da situação são bem exemplificadas pelo estudo de um grupo de negros brasileiros, descendentes de escravos, que retornaram a África Ocidental porque a consideravam sua pátria, e descobriram que os habitantes locais os consideravam americanos.”

(Peter Burke. Unidade e Variedade na História Cultural. in Variedades de história cultural./ Tradução de Aldo Porto. RJ, Civilização Brasileira, 2000, p. 264)


No que diz respeito a nossa contemporaneidade cultural Burke acrescenta:

“ .... Retomemos a situação de hoje. Alguns observadores ficam impressionados com a homogeneização da cultura mundial, o “efeito coca-cola”, embora muitas vezes não levem em conta a criatividade da recepção e transposição dos sentidos discutidas antes neste capitulo. Outros vêem mixagem ou ouvem pidgin em toda parte. Alguns acreditam poder discernir uma nova ordem, a “creolização do mundo”. Um dos grandes estudantes da cultura em nosso século Michail Bakhtin, costumava enfatizar o que chamava de “heteroglossario”, em outras palavras, a variedade e conflito de línguas e pontos de vista dos quais, segundo sugeriu, se desenvolveram nossas formas de linguagem e novas formas de literatura ( em particular o Romance).
Retornamos ao problema fundamental de unidade e variedade, não apenas na história cultural, mas na própria cultura. É necessário evitar duas supersimplificações opostas: a visão de cultura homogênea, cega às diferenças e conflitos, e a visão de cultura essencialmente fragmentada, o que deixa de levar em conta os meios pelos quais todos criamos nossas misturas, sincretismos e sínteses individuais ou de grupo. A interação de subculturas as vezes produz uma unidade de opostos aparentes. Feche os olhos e ouça por um momento um sul-africano falando. Não é fácil dizer se o locutor é negro ou branco. Não vale a pena perguntar se as culturas negra e branca na África do Sul compartilham outras características, apesar de seus contrastes, conflitos, graças a séculos de interação?
Para alguém de fora, historiador ou antropólogo, a resposta é sem a menor duvida “sim”. As semelhanças parecem exceder em peso as diferenças. Para os de dentro, contudo, as diferenças talvez sejam mais importantes que as semelhanças. É provável que essa questão sobre diferenças em perspectiva seja válida para muitos encontros culturais . Portanto, deduz-se que uma história cultural centrada em encontros não deve ser escrita segundo um ponto de vista apenas. Nas palavras de Mikhail Bakhtin, essa história tem de ser “polifônica”. Em outras palavras, tem que conter em si mesma várias línguas e pontos de vista, incluindo os vitoriosos e os vencidos, homens e mulheres, os de dentro e os de fora, de contemporâneos e historiadores.”

( Idem, p.266-267)

THE TYGER BY WILLIAM BLAKE




O Tigre é certamente o mais conhecido dentre os poemas de Songs of Experience (1794) de William Blake.
Reproduzo aqui duas diferentes versões dos seus versos para o português a titulo de gratuito prazer... Afinal, certos poemas parecem nos atingir como um raio vestindo elegantemente o pensamento como um sofisticado traje de alma... considero este, definitivamente, um bom exemplo disso...

THE TYGER

Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?



In what distant deeps or skies


Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?


What the hand dare seize the fire?



And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
When thy heart began to beat,
What dread hand forged thy dread feet?



What the hammer? What the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil?
What dread grasp
Dared its deadly terrors clasp?



When the stars threw down their spears
And watered heaven with their tears,
Did He smile his work to see?
Did He who made the lamb make thee?



Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?


William Blake

Tradução de Vasco Graça Moura, publicada em Laooconte, rimas várias, andamentos graves (Lisboa: Quetzal Editores, 2005).

O TIGRE


tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?

de que abismo ou céu distante
vem tal fogo coruscante?
que asas ousa nesse jogo?
e que mão se atreve ao fogo?

que ombro & arte te armarão
fibra a fibra o coração?
e ao bater ele no que és,
que mão terrível? que pés?

e que martelo? que torno?
e o teu cérebro em que forno?
que bigorna?
que tenaz
pro terror mortal que traz?

quando os astros lançam dardos
e seu choro os céus põem pardos,
vendo a obra ele sorri?
fez o anho e fez-te a ti?

tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?

O TIGRE

Tradução: José Paulo Paes

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas de noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas atreveu ao vôo?
Que mão ousou pegar o fogo?

Que arte & braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo,
Que mão & que pés horrendos?

Que cadeia? que martelo,
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? que tenaz
Pegou-te os horrores mortais?

Quando os astros alancearam
O céu e em pranto o banharam,
Sorriu ele ao ver seu feito?
Fez-te quem fez o Cordeiro?

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal ousaria
Traçar-te a horrível simetria?

ROTINA


Não sei se queria da vida
Uma outra face de existência
Ou apenas descobrir em meu rosto
As possibilidades perdidas
De algum eu esquecido.
Melhor ocupar-me somente
Do previsível,
Do labor de semana
Que se impõe como fatalidade
No acontecer de um quase destino.
Pois minhas noites estão guardadas
Em algum canto sujo de tempo
Aguardando um dia perdido
Do calendário.

SEGUNDA FEIRA

Provo o sereno afago
De um sol morno e radiante
A banhar as pequenas rotinas
E cansaços de uma comum
Segunda feira.
Nada me diz meus futuros adiados
Ou passados perdidos
No desencontro dos atos vazios
De mero cotidiano.
Mas há preguiças em meus pensamentos
E uma vontade discreta
De saber urgentemente
Sobre qualquer outro dia...

sábado, 28 de junho de 2008

LEGADOS E PERMANENÇAS DO IMAGINARIO CELTICO



Em seu competente estudo sobre o druidismo e a cultura celta, W. Rutherford apresenta uma peculiaridade digna de nota: busca identificar as permanências e legados desta cultura no imaginário moderno, nos oferecendo elementos interessantes para a reflexão em torno de sua expressiva marca sobre o imaginário e a cultura ocidental. É neste sentido que julgo pertinente a reprodução aqui de um significativo fragmento de sua obra:

"Em determinado nível, as lendas devem ser tomadas como a sobrevivência de um aspecto do druidismo. Os druidas eram os guardiões da mitologia. As velhas divindades pagãs estão presentes até em versões tão modernas como a de Malory. O que é surpreendente é a facilidade com a qual elas conseguem subsistir com o cristianismo, mesmo da forma como era aceito e praticado no final da Idade Média. A resposta, na verdade, é que o cristianismo céltico era um tipo muito especial, pelo menos aproximado ao tipo original.
Sem duvida alguma, a Igreja céltica era muito diferente das demais. Talvez por ser mais fundamentalista e austero, sempre mais perto do povo e de suas necessidades, o clero se constituía de homens estudiosos e caridosos. E mesmo aqui, em uma religião tradicionalmente antifeminista; havia maior igualdade para as mulheres do que em outras partes. Uma carta ainda existente, datada do séc. VI, e que foi mandada a dois sacerdotes bretões chamados Locvocat e Catihern, adverte-os no sentido de pararem de celebrar a missa com a ajuda de mulheres. Essas mulheres sacerdotisas, chamadas conhospitae, serviam o vinho enquanto os homens sacerdotes distribuíam o pão da eucaristia. Só quando o cristianismo se tornou uma religião estatal, sob o comando de Constantino, passando a ser forçada ao resto do mundo ocidental com essa forma por Carlos Magno, foi que a figura do sacerdote sofreu completa modificação, tornando-se um servidor do estado secular- a propósito, uma situação desconhecida dos celtas, mesmo nos tempos pagãos. No que dizia respeito ao povo, esta imagem trouxe consigo aquele pluralismo por meio do qual os membros do corpo eclesiástico chegaram a possuir títulos de nobreza e até propriedades feudais.
É interessante observar que os celtas estiveram entre aqueles que primeiro aceitaram a Reforma, e foi no País de Gales, na Escócia, na Irlanda do Norte, na Ilha de Man e nas Ilhas do Canal que ela foi mais profunda.
Teria isso acontecido, pelo menos em parte, por causa de algum efeito residual das idéias druidicas sobre os celtas? Não existem duvidas de que as seitas protestantes mais fundamentalistas poderiam ser descritas como cultos de possessão e, de fato, sentir-se-iam orgulhosas por esta descrição. Nas cartas que mandou depois de uma visita à Ilha de Man, John Wesley é pródigo em elogios pelo zelo religioso de seu povo. Em Jersey, onde os sacerdotes huguenotes já eram nomeados para a reitoria de St. Helier desde meados do século XV e continuariam a exercer este cargo mesmo durante a Contra Reforma Mariana, ele encontrou tantos seguidores que logo teve de nomear um sacerdote que falava francês para pastorear o seu rebanho. Este aspecto xamanista deve ter sido notado de maneira especial nos primeiros tempos quando, proibidos de usar edifícios permanentes, eles realizaram suas reuniões a céu aberto, geralmente em lugares remotos onde estavam livres de perseguição.
E, por acaso não existe uma nota fatalista no druidismo, que poderíamos até chamar de calvinista? Ela por certo esta presente nas lendas de Cão Chulainn. John Steinbeck, que morreu no momento em que trabalhava em uma versão da Morte d’ Arthur para os leitores modernos, observa algo parecido ao espírito grego nas páginas desse livro. Quando Arthur sugere a Merlin que o conhecimento do futuro deve permitir ao homem tomar medidas evasivas, o velho mago usa seu próprio caso como exemplo. Apesar de saber muito bem a maneira como vai encontrar sua morte, também sabe que, quando o momento chegar, ele não terá condição de resistir a ela- como fica provado depois.
Se olharmos para o advento do protestantismo, vendo-o como uma das grandes linhas divisórias nas lutas pela liberdade, travadas pelo espírito humano, teremos que reconhecer que pelo menos algumas de suas raízes foram implantadas pelo druidismo. Colocando isso sobre o prato da balança, ao lado dos efeitos que a mitologia, conforme expresssa nas lendas de Arthur, exerce sobre a nossa civilização, teremos de reconhecer a enorme divida que temos para com o passado celta.
É claro que esses efeitos persistem. Uma prova disso está não apenas em sua permanente popularidade- é difícil passar um ano sem que eles reapareçam, de uma forma ou de outra, e nem sempre em “histórias infantis”- mas também na relevância dada a eles pelas sucessivas gerações, cuja maneira de vida é tão diferente daquela que impera nos tempos em que elas vêm a existência. Basta que lembremos-nos de que a Morte d’Arthur foi um dos primeiros livros saídos dos prelos de Caxton.
Quando procurava por um nome para aquela experiência pela qual, segundo seu modo de ver, cada criança do sexo masculino passava, Freud se lembrou do drama Édipo, de Sófocles. Hoje, todos reconhecemos que o profundo efeito exercido em nós pela obra resulta, em grande parte, de sua capacidade de tocar forças que se encontram no fundo de nosso inconsciente. Não podemos evitar a impressão de que existe algo parecido nas lendas arturianas, e de resto em todos os mitos célticos, apesar das distorções com as quais chegaram até nós.
É como se os druidas tocassem determinadas cordas na mente humana, cuja ressonância persiste. Nada exemplifica isso melhor do que as inúmeras histórias nas quais a potência sexual de um homem idoso é ameaçada quando um rapaz começa a cortejar sua filha ou enteada. Como é sabido, os pais de filhas nestas condições, em geral, enfrentam crises psicológicas em momentos assim.
Outro interessante insight céltico é dado por Eliade, em sua obra Imagens e Símbolos. O rei- Pescador cai doente e, à maneira típica dos celtas, sua enfermidade afeta todo o ambiente. As torres desmoronam, os jardins secam, os animais deixam de reproduzir, as águas das fontes deixa de correr e os frutos desaparecem das árvores. Todos os meios conhecidos são usados na tentativa de cura-lo. Mas tudo malogra, até que um jovem cavaleiro chamado Percival ( provavelmente o Peredur das antigas lendas do Pais de Gales) surge de repente entre os cortesões. Ele faz uma pergunta: “Onde esta a taça?” E a pergunta já é o bastante: o rei se levanta de sua cama, permitindo o reavivamento de todo o mundo que o circunda.
Segundo Eliade, “o mundo perece por causa da... indiferença metafísica”. A simples colocação da pergunta é o bastante para mostrar que a indiferença desapareceu.
E esta mesma noção é profundamente inerente às idéias druidicas. Conforme César nos diz, eles gostavam de se entregar à especulação metafísica. Assim, nós encontramos os cavaleiros de Arthur em aventuras nas quais correm perigo de morte, em expedições cujos objetivos declarados são sempre muito diferentes dos verdadeiros. Podemos fazer a pergunta, como é destino dos homens- onde esta a Taça. Mas a resposta ainda não é conhecida. Ou, quando menos, cada ser humano tem a escolha que lhe permite ignorá-la, colocando-se como um moribundo, a exemplo do Rei-Pescador, ou então sair à procura de sua resposta ou, mais provavelmente, apenas de alguma pista a respeito.”


(Ward Rutherford. Os Druidas. Tradução de Jose Antônio Ceschin. SP: Editora Mercuryo, 1994, p.180-182)

WAKING



No primeiro momento do despertar
Não lembro quem sou
Nem sei da vida que levo.
Mínima amnésia
Que quase passa despercebida
No espaço de um instante.
Pois logo visto meu rosto,
Acorda a consciência...
Deixando-me apenas
O abstrato e saudoso gosto
Do vazio do sono
E dos hábitos de sonhos
E outros mundos jamais pensados.

...AND A FLOWER IT TAKES A SUMMER

Invade-me a vontade inútil
De perpetuar o agradável
De um mero instante,
Como se toda a vida
Ganhasse pleno sentido
Na migalha
De uma gota de tempo.
Futuro algum faz sentido
Quando nos guardamos
No aconchego de algum agora,
Quando vislumbramos
A vida inteira plena e estática
Na alma de um perene momento
Em que o mundo quase não existe
Lá fora.
Somos contra o saber do tempo
Como flores
Que ignoram o jardim.

REENCONTRO INTIMO

Em alguma parte do horizonte
Espero encontrar a sombra
Dos meus eus perdidos,
Recuperar sonhos, gostos
E ilusões
Que sustentavam a emoção
De um sorriso.
Sei que em algum lugar de mim,
Fantasmagoricamente futuro,
Aguardam-me com um abraço
Meus rostos passados,
Todas as perdas sofridas
Ao longo da vida.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

TEOGONIA II



De um modo geral, na mitologia das origens surgida na Grécia arcaica, Eros apresenta-se como o grande principio motor e ordenador do cosmos, uma força que impele e que move. Na Teogonia de Hesíodo, podemos observa-lo como um impulso vital, uma espécie de “principio de ligação” capaz de imobilizar e despir de sua divindade o próprio Zeus levando-o a assumir a forma de animais como o cisne ( para seduzir Leda) ou de um touro ( rapto de Europa).
Segundo Diotima de Mantineia no Banquete de Platão, Eros não é propriamente um deus, mas um poderoso daimon, um gênio mediador entre a realidade dos deuses e dos mortais.
Essa imagem arcaica de Eros me parece ter inspirado Jung na definição do binário Anima/Animus, uma vez que é justamente como “principio de ligação” que o feminino é definido por ele enquanto grandeza psíquica. Em contrapartida, o principio masculino, identificado a Logos, parece remeter ao advento da Filosofia e a transcendência do mito.

DRUIDA


À sombra do velho carvalho
Aprendo as palavras do vento,
Descubro o profundo do verde
Que se espalha
Em todas as ditreções
Do dizer da terra.
Leio o céu de hoje
E do ontem
Vagando nas brumas
De algum perdido futuro.
Sou apenas um grão de pólen
Percorrendo vazios
E existências
Na suave canção eterna
Da natureza mãe.
No mais profundo dos ermos
Vislumbro mil liberdades.

TEOGONIA I



Originalmente composta na Grécia dos secs. VIII ou VII a C., a Teogonia de Hesíodo nos conduz a experiência viva da cultura arcaica grega, ou seja, anterior ao advento da polis, do alfabeto e da difusão da moeda. Produto, portanto, de uma tradição oral, os cantos de Hesíodo revelam todo o poder e riqueza simbólica da palavra ainda livre das amarras de um código lingüístico abstrato-conceitual. Predomina neste precioso texto a imagética, o mito e o símbolo personificados pela palavra cantada, receptáculo por excelência da anto-poetica do sagrado.
O nascimento dos deuses e do mundo dar-se a partir da coincidentia oppositorum, da integração dos opostos e do constante jogo dos contrários articulados por uma quaternidade primária em profunda enandiotromia: Eros, Khaos, Terra e Tártaro.
Tal quaternidade é o principio de toda descendência sagrada, do jogo mágico de uniões ( Eros) e dissociações ( Khaos) através do qual nascem as sucessivas gerações de deuses e o próprio cosmos.

domingo, 22 de junho de 2008

NEMETON


Para o homem ocidental deste inicio de milênio, condicionado aos padrões de uma cultura urbana e industrial, a imagem arcaica representada pela antiga cultura celta, que tantas marcas deixou no imaginário europeu ocidental, pode despertar um certo sentimento de evasão e encanto por sua enganosa simplicidade e surpreendente complexidade de significados e conteúdos.
Um dos exemplos disso, certamente não o mais significativo, é a geografia do sagrado personificada em bosques e florestas que traduziam a experiência de uma natureza encantada, de uma materialidade mágica povoada de “poderes” e grandezas” passiveis de interações com a dimensão propriamente humana da existência.
A imagem do “bosque encantado” como personificação do sagrado involuntariamente se contrapõe as diversas imagens de templos e monumentos erguidos pelas mais diversas civilizações urbanas, onde a experiência do irracional é domesticada por abstrações racionais e anti-naturais do sagrado...
Recorro aqui a um antigo trabalho do pesquisador britânico T. G. E. Powell para fornecer um resumido quadro sobre o tema do nemeton:

“... Passemos agora aos recintos de árvores sagradas, imagens e outros objetos de veneração. Com excepção de santuários, como o de Roquepertuse e Entremont, situados numa área particularmente aberta às aquisições de tipo mais refinado, os lugares santos dos Celtas, anteriores ou exteriores ao Império Romano, parecem ter sido do tipo mais singelo.
Uma forma muito generalizada parece ter sido a do bosque sagrado, ou extensão de terreno em que cresciam tufos de árvores. Parece ser esta a implicação geral do vocábulo nemeton, que está amplamente distribuído em topônimos por todas as terras onde passaram os celtas. Alguns exemplos são Drunemeton, o santuário e centro de reunião dos Gálatas da Ásia Menor, Nemetobriga, na Galiza espanhola, Nemetodurum, de que derivou o nome moderno de Nanterre. Na Grã Bretanha havia um lugar Veneraton, e no sul da Escócia um Medionemeton. Na Ilanda, fidnemed queria dizer um bosque sagrado, mas uma glosa latina para nemed dá sacellum, que indica um pequeno santuário ou recinto. Determinado glosário do século VIII contem uma palavra plural ( nimidas) evidentemente derivada de nemeton, e define-a em termos dos lugares sagrados dos bosques, e o cartulário do século XI da abadia de Quimperlé faz referência a um bosque chamado Nemet, mostrando assim a continuidade da tradição celta na Bretanha. Há, igualmente, as referências de autores clássicos aos bosques em que os druidas executavam os seus ritos e sacrifícios, mas a palavra cética em questão não é referida nessas passagens.
(...)
Parece, na verdade, que nemeton pode ter chegado a ter vastíssimas aplicações, e duas categorias há de locais, alem dos bosques, que assim podem ter sido designados. Na primeira contam-se aqueles em que tinham lugar as concentrações anuais do tuath, ou tribo. O centro de Drunemeton, na Gália, e as varias sedes reais da Irlanda, Emain Macha, Tara, Cruachain e outras são possíveis exemplos. Estes ajuntamentos populacionais não poderiam realizar-se convenientemente numa mata, porque corridas, jogos e reuniões públicas de vários gêneros constituíam elementos essenciais desses festivais. Na Irlanda verifica-se que os lugares tradicionais são de fato mais notáveis pelos seus monumentos funerários do que pelos sinais de habitação ou defesa, e na literatura são as elevações funerárias que são recordadas e apresentadas como razão de celebração naquele local.
Na segunda, porem, nemeton parece ter- se aplicado a santuários menores, ou locais, a julgar pela equiparação do termo sacellum, e a uma inscrição dos tempos romanos em Vaiso, Vaucluse, para comemorar o estabelecimento de um nemeton em honra de Belesama. Deve referir-se, certamente, a qualquer espécie de estrutura.”

(T G E Powel. Os Celtas. Portugal: Editora Verbo, 196 ( Coleção Historia Mundi , p. 144 et seq.),

CRÔNICA RELÂMPAGO XXX

Algumas vezes, fazer a coisa certa, realizar em atos nossas mais positivas auto imagens, constitui um erro no aprendizado e experiência do mundo. Nem sempre seguir uma cartilha pessoal de existência é a melhor resposta a dadas situações vividas.
As vezes é imprescindível saber fugir ao próprio rosto e preceitos...desafiar-se e descobrir possibilidades até então não vislumbradas de estratégias de existência.
Na vida, muitas vezes, o mais decisivo é o improviso, o salto no escuro representado pela superação de padrões comportamentais insuficientes para dar conta de situações cuja dinâmica nos obrigam a qualquer novidade.
Isso acontece mais comumente na vida de qualquer pessoa do que se imagina. Mas quase sempre optamos pelo caminho fácil ou cômodo dos continuísmos. Tal atitude conservadora é em grande medida o que nos determina a singularidade do nosso destino e os limites de nossas individualidades.

AUTO CONTEMPLAÇÂO

Procuro viver
Sem saber
o tênue limite
Que diferencia
A dor e o sonho.

Tento ser menos
Do que realmente sou,
Desconstruindo meu suposto eu
Na ignorância de rotas perfeições.


Quero saber apenas
Meu mínimo absoluto
Em um canto de tempo
Onde contemplo
A vida espalhada ao acaso
Entre a bagunça dos fatos.

DIA NUBRADO

Uma paz antiga
Decora-me os atos,
Embriaga o tempo
Que se deixa lento
No fazer das coisas
Entre mansidões
E penumbras.

Há algo
De sonho e infância
No rosto de um dia
Sem sol com sabor de chuva.

Algo que escapa
A palavra
No intenso sentimento
De mim mesmo
Dentro das horas
E do frio.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

ENCONTRO E ACASO

Quase não lembro seu rosto,
o contorno do seu corpo
diante de mim
como esfinge.

Nos vimos tão pouco
no viver de nossas personas
em ato e fato
das prisões cotidianas
entre labor e obrigações.


Muito pouco...

Mas na formalidade da ocasião,
do frio do dia,
um sonho acordou de repente
e sem pedir
pelo resto de toda a minha vida.

Assim aprendi seu nome,
sua poesia,
seu calor,
sentimento e sentido
dentro de mim.

LUDICO E SOCIEDADE

Vejo sem usar os olhos
mil coisas de pensamento
e imagens de mundo.

Vejo acasos de sombras nas pessoas,
o fundo escuro dos fatos em caos,
a duvida essencial
contra a qual nos insurgimos
buscando o falso de algum sentido.

Vejo o passado e o futuro
na face do meu presente.

Só não vejo a mim mesmo
brincando em meus entimentos.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

SHAKESPEARE AND LOVE



O amor apresenta-se na obra de Shakespeare de modo tão complexo e surpreendentemente familiar que ainda em nossos dias são publicadas coletâneas de citações do velho bardo sobre o tema. Um bom exemplo é o “livro presente” Helen Exley intitulado Shakespeare e o Amor, originalmente publicado no reino Unido em 1999 pela Exley Ptd.
Na obra de Shakespeare, vale dizer, o amor surge como um jogo de linguagem e um desregramento dos atos e pensamentos. Ele é como um raio fulminante a transfigurar a razão e os sentimentos.


“ O amor não é mais do que uma loucura
podendo eu asseverar-vos que merece
quarto escuro e chibatadas, da mesma forma
que os dementes”
(Como Gostais, III : ii)


Sarcasmos como esse misturam-se em sua obra a representação do amor como expressão do maravilhoso, das extravagâncias e obsessões ocasionadas por suas fantasias e atmosfera feerica.
Por outro lado, sujeito ao capricho das dificuldades, sejam aquelas impostas pela família, a sociedade ou pelo próprio destino, a maior fonte de incerteza do amor esconde-se em sua própria natureza. Pois o amor em Shakespeare é também inconstância e incerteza; é como o olhar que corre...

“ O amor é pleno de contradições;
menino caprichoso, trapalhão,
Ele nasce no olhar e, como o olhar,
Cheio de formas soltas, usos, hábitos,
Muda de tema com o olhar que corre,
Variando de objeto como o que v~e.
( Trabalhos de Amor Perdido, V ii, 700-5)


Nada disso, entretanto, apaga a poesia dos amantes, a iniciação e sabedoria personificada pela experiência amorosa, pela contemplação mágica dos olhos da amada .

“ Isso aprendi dos olhos femininos:
Deles tirou sua chama Prometeu;
Eles são livro, arte, academia,
Em que o mundo se mostra e
Se alimenta."
( Trabalhos de Amor Perdido, IV, iii, 350-4)


Em Shakespeare encontramos o amor codificado em uma linguagem que, embora ainda não corresponda a formula moderna do amor romântico, também não se enquadra inteiramente na codificação do amor cortês, embora dela esteja de alguma maneira mais próxima...

SKEPSIS ( INDAGAÇÃO) II


Toda reflexão autêntica, pressupõe uma suspensão do juízo e tem como meta uma serenidade do pensamento. Algo que apenas podemos conceber quando transcendemos as armadilhas das certezas e significados fechados em conceitos, quando a idéia de verdade dissolve-se em um fluir de possibilidades e diversidade de sentidos.
Desta forma, toda reflexão autêntica é inconclusiva, provisória e fragmentada e se define como um ato de imaginação.
A realidade não passa, afinal, de um sonho aberto em mundo e matéria...

terça-feira, 17 de junho de 2008

SKÊPSIS ( INDAGAÇÃO) I

"O verdadeiro cético não é aquele que duvida de propósito deliberado e que reflete sobre sua dúvida; nem mesmo aquele que não crê em nada e afirma que nada é verdadeiro, outro significado da palavra que deu lugar a muitos equívocos. É aquele que de propósito deliberado e por razões gerais duvida de tudo, exceto dos fenômenos, e permanece em dúvida.” (Victor Brochard).


Uma colagem de idéias e fragmentos de imagens e pensamentos é o que chamo de reflexão contemporânea. Trata-se de um exercício de fantasia e linguagem que já não mais se orienta por qualquer referencial de verdade, pela "certeza do significado" ou sua correspondência direta a um objeto.
O ato de pensar tornou-se performance , uma teleológica construção subjetiva e aberta mediante a qual inventamos e reinventamos o mundo.Algo alem disso? Tudo depende do temperamento de cada pessoa. Já não perseguimos fantasmagóricas sombras de universais... Somos todos filhos de Pirro.

The Word’s Morning

Compartilho a manhã
Com os anônimos rostos
Da multidão
Em fluxo.

Vivo entre os outros
A banalidade de ritos
Que definem uma nova manhã
No acordar do dia.

Mas sei apenas de mim mesmo
Nos cotidianos atos de existência.

Save me from that...


A previsibilidade das horas seguintes
Domesticam o inesperado.
Nada sei de mim
Nos atos vagos em cenário de labor.

Save me from that...

Um arcaico vento do norte
Visita meu rosto
Acordando lembranças
De coisas jamais vividas.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

NADA

Neste instante
Coisa alguma me importa.
Apenas a inércia
De estar em lugar algum
Trancado em mil silêncios.

O mundo lá fora
É como um distante sonho triste,
Algo que me escapa inteiramente
No exercício
Do meu viver provisório.

Neste instante,
Reúno todos os meus nadas,
Dou-me as costas
E rasgo todos os pensamentos.

domingo, 15 de junho de 2008

MORTE E CULTURA



“A morte é a sanção de tudo o que o narrador pode contar. É da morte que ele deriva sua autoridade.”


( Walter Benjamim in O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov in Magia e Tecnica, Arte e Politica: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura
Obras Escolhidas. Vol I / Tradução de Sergio Paulo Rouanet. SP: Brasiliense, 4º ed.; p.208 )


Falar sobre a morte é antes de tudo um modo de falar sobre o sentido instintivo e humano de toda narrativa possivel, de nosso modo de construir o real como linguagem e fato vivido.
Mas a morte também é um fenômeno limite, algo que desafia nossas melhores certezas e imaginações de mundo nas convenções cotidianas do exercício de viver, já que toda vida guarda o germe do seu desfalecer e apagar-se na “irrelevância” do fazer-se de todas as coisas vividas em prol de sentidos e significados. De certa maneira, vivemos para morrer e ver morrer...
O que me parece, entretanto, significativo, é que em nosso tempo, mesmo esta obscura dimensão do existir humano já tenha se tornado monopólio de especialistas, uma questão de saúde pública...
Neste sentido, reproduzo aqui um fragmento do historiador francês Philippe Áries, em seu clássico História da Morte no Ocidente, que enfoca a experiência tradicional “do se morrer” no Ocidente como um ponto de reflexão sobre aquilo que, pelo menos na antiga Grécia, nos diferenciava dos deuses, ou seja, a mortalidade. Hoje em dia, possuímos, afinal, rituais de sepultamento e luto, mas a morte tornou-se “selvagem” e estranha, um domínio da medicina e dos hospitais:


Time for Dyng ( fragmento)


"No ritmo em que vão as coisas, certamente tudo se passa como se esquecêssemos como se morria há apenas trinta anos. Em nossos países de civilização ocidental isso se passava de maneira muito simples. Em primeiro lugar, o sentimento (mais que pressentimento) de que tinha chegado a hora: “ Um rico lavrador, sentindo a morte próxima...” Ou um velho: “ Enfim, sentindo-se perto do termino dos seus dias...” Um sentimento que nunca enganava: cada individuo era, ele próprio, o primeiro a ser avisado de sua morte. É o primeiro ato de um ritual familiar. O segundo era preenchido pela cerimônia pública das despedidas, à qual o moribundo devia presidir: “Fez com que seus filhos viessem e lhes falou sem testemunhas...”ou, ao contrário, diante de testemunhas; o essencial era que dissesse alguma coisa, que fizesse seu testamento, que reparasse seus erros, que pedisse perdão, que exprimisse suas últimas vontades e, que se despedisse. “ Aperta a mão de todos, e finalmente morre.” É tudo. Assim as coisas se passavam normalmente. Convinha que o moribundo morresse sem pressa mas também sem lentidão, para que a cena das despedidas não fosse nem escamoteada nem prlongada. A Fisiologia e a Medicina respeitavam, na maioria das vezes, a duração media exigida pelo costume. Este, portanto, só era contrariado em casos excepcionais, como a morte súbita e “improvisada” ( a subitânea et improvisa morte, libera nos, Domine); a trapaça do moribundo que se recusava a reconhecer os signos sempre claros
Do fim (pratica denunciada e ridicularizada pelos moralistas e satíricos); uma irregularidade da natureza, quando o moribundo não acabava de morrer.
Hoje nos damos conta de que esses casos, outrora raros e aberrantes, tornaram-se modelos. Deve-se morrer como antigamente não se devia. Mas quem decide sobre o costume? Primeiramente, os donos do novo domínio da morte e das suas móveis fronteiras- a equipe do hospital, médicos e enfermeiras, sempre certos da cumplicidade da família e da sociedade.
(...)
A morte recuou e deixou a casa pelo hospital; esta ausente do mundo familiar de cada dia. O homem de hoje, por não vê-la com muita freqüência e muito de perto, a esqueceu; ela se tornou selvagem e, apesar do aparato cientifico que a reveste, pertuba mais o hospital, lugar da razão e da técnica, que o quarto da casa, lugar dos hábitos da vida cotidiana.”


(Philippe Áries. História da Morte no Ocidente/ Tradução de Priscila Viana de Siqueira. RJ: Ediouro, 2003, p. 290 et seq)

FREEDOM

No saber dos limites
De mim e do mundo,
Descubro infinitos
No impreciso sopro
De um vento sem nome.
Gente e lugar algum
Me aguarda em retorno.
O horizonte distante
É todo o meu passado
E futuro.
Tudo que sei
É o céu aberto
Como caminho,
Angustia
E susto
De descobrir-me
Perigosamente livre.

1968: 40 ANOS DEPOIS IV








O que faz dos anos 60 uma década singular, dentre outras coisas, é a afirmação da juventude enquanto símbolo e movimento social contra o “sistema” e a própria sociedade. Em outras palavras, a partir de então “ser jovem” ganhou um significado inédito, passou a representar a possibilidade de uma leitura singular de vida, da existência e do mundo, do ponto de vista da independência e da ruptura pessoal com os lugares comuns dos valores sociais e morais consensualmente estabelecidos e institucionalizados.
Em breves palavras, somos um pouco em tudo, ainda, herdeiros do On the Road de Jack Keurouac (1957), da Arte Pop produzida por Artistas como Andy Warhol, Roy Lichetenstein e Robert Indiana, pela musica dos Beatles, do The Who, Roling Stones, da nouvelle vague do cinema francês Jean-Luc Godard ( Acossados), da magia hippie da portuária cidade de São Francisco, que pregava a paz e o amor e o poder da flor(flower power), tanto quanto do movimento dos negros americanos (black power), dos gays (gay power) e de liberação da mulher (women's lib), que mobilizaram jovens em diversas partes do mundo em torno da busca de um novo imaginário, de uma afirmação do plural e da diversidade contra o monoteísmo moral, religioso e político que, em nossos tempos contemporâneos, ainda se mostra um adversário nada desprezível.
Evidentemente, não nos nutrimos do mesmo sentimento utópico que fez explodir o já idoso “anos 60”. Mas de muitas maneiras, reciclamos posturas, bandeiras e buscas, na intensa angustia de afirmar nossas duvidas, fracassos, gritos e, acima de tudo, instintivo e caro compromisso com a liberdade acima de qualquer outro principio e valor que nos seja imposto por qualquer fantasioso “pacto social”.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

SUBJETIVIDADE

Vivo em um minúsculo
Pedaço perdido de mundo,
Em um inventado espaço
De perenes realidades
Em movimento.

Inexistente lugar
De mim mesmo
Em consciência das coisas,

Vivo
Em buscas tolas de felicidades,
De caminhos e horizontes,
Que me conduzam simplesmente,
Mais profundamente,
A mim mesmo
Até o limite do rosto.

Apenas existo no que não existe
No delicado tecer das quatros paredes
E direções de mim mesmo.

Meu mundo
É a vastidão abstrata
Do meu obscuro eu.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

ILUSÕES E VERDADES

Não creio nos fatos.
Sei a ilusão das virtudes
E o quanto à existência
Não acontece nos atos.

Em desleituras de mundo
Vislumbro noites
De pensamento
E a infenuidade da verdade
Nos absurdos de toda fé.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

LITERATURA INGLESA XXX


Dentre o sem numero de pessoas que assistiram a versão épica cinematográfica do Senhor dos Anéis do diretor e roteirista neo zelandes Peter Jackson, um numero muito significativo não teve a prévia experiência direta desta, então adaptada para o cinema, maior obra do escritor britânico J.R.R. Tolkien ( ( 1892-1973). Não significa isso que sua obra não tenha sido lida e difundida antes de sua versão cinematografica. Afinal, Tolkien não foi absolutamente um "autor qualquer", podemos considera-lo o maior narrador de histórias do século XX, o construtor de uma mitologia contemporânea que nos ensina a contemporaneidade da linguagem e imaginação mítica, mesmo em tempos de "realismos".
Não por acaso Tolkien, que escrevera descontinuamente o Senhor dos Anéis como um desdobramento do Hobbit, entre os anos de 1936 e 1949, desaprovava as interpretações da obra como uma analogia simbólica ou alegórica da Segunda Guerra Mundial. Pessoalmente, acho que o livro nos fala de valores inspirados em uma representação do passado europeu arcaico/pagão. Indo mais fundo, ele é também uma critica ao poder, personificado pelo anel e sua potencial corrupção absoluta. No delicado e sutil jogo de interesses que define a existência coletiva quase nunca nos orientamos pela materialização do que temos de melhor em nossa humana condição...
No prefácio que acompanha a edição da obra de Tolkien em português, reproduzido lamentavelmente sem determinação cronológica e contextualização, o autor apresenta-se justamente como um singular e solitário contador de histórias, um narrador único e sem pares:

“O Senhor dos Anéis foi lido por muitas pessoas desde que finalmente foi lançado na forma impressa, e eu gostaria de dizer algumas coisas aqui, com referência às muitas suposições ou opiniões, que obtive ou li, a respeito dois motivos e significados da história. O motivo principal foi o desejo de um contador de histórias de tentar fazer de uma história realmente longa, que prendesse a atenção dos leitores, que os divertisse, que os deliciasse e às vezes, quem sabe, os excitasse ou emocionasse profundamente. Como parâmetro eu tinha apenas meus próprios sentimentos a respeito do que seria atraente ou comovente, e para muitos o parâmetro foi inevitavelmente uma falha constante. Algumas pessoas que leram o livro, ou que de qualquer forma fizeram uma critica dele, acharam-no enfadonho, absurdo ou desprezível; e eu não tenho razões para reclamar, uma vez que tenho opiniões similares a respeito do trabalho dessas pessoas, ou dos tipos de obras que elas evidentemente preferem. Mas, mesmo do ponto de vista de muitos que gostaram de minha história, há muita coisa que deixa a desejar. Talvez não seja possível numa história longa agradar a todos em todos os pontos, nem desagradar a todos nos mesmos pontos; pois, pelas cartas que recebi, percebo que as passagens ou capítulos que para alguns são uma lástima são especialmente aprovados por outros. O leitor mais critico de todos, eu mesmo, agora encontra muitos defeitos, menores e maiores, mas, infelizmente, não tendo a obrigação de criticar o livro ou escrevê-lo novamente, passará sobre eles em silêncio, com exceção de um defeito que foi notado por alguns: o livro é curto demais.”

( J RR Tolkien. Prefácio in O Senhor dos Anéis/ tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves, Almiro Pisetta; revisão de técnica e consultoria Ronald Eduard Kyrme; coordenação Luis Carlos Borges- SP: Martins Fontes, 2001; p. XIV)

Deixo aqui o pouco de um fragmento/momento poético do Senhor dos Aneis, personificado por uma canção citada em um devaneio do Hobbit Bilbo em dialogo com seu sobrinho Frodo, para dizer em detalhe a magia arcaica que encanta na obra de Tolkien:

Sentado ao pé do fogo eu penso
Em tudo o que já vi,
Flores do prado e borboletas,
Verões que já vivi;

As teias e as folhas amarelas
De outonos de outros dias,
Com névoa e sol pela manhã,
No rosto as auras frias.

Sentado ao pé do fogo eu penso
No mundo que há de ser
Com inverno sem primavera
Que um dia hei de ver.

Porque há tanta coisa ainda
Que nunca vi de frente:
Em cada bosque, em cada fonte
Há um verde diferente.

Sentado ao pé do fogo eu penso
Em gente que se desfez,
E em gente que vai ver o mundo
Que não verei de vez.

Mas enquanto sentado eu penso
Em tanta coisa morta,
Atento espero pés voltando
E vozes junto à porta.

( idem; p.290)

Mas cabe aqui ainda, antes de encerrar, uma última citação; um retalho rasgado, da obra do critico alemão Walter Benjamim sobre a decadência da narrativa que nos ajuda a melhor compreender a posição impar ocupada por Tolkien no cenário da literatura inglesa:

“O primeiro indicio da evolução que vai culminar na morte da narrativa é o surgimento do romance no inicio do período moderno. O que separa o romance da narrativa ( e da epopéia no sentido estrito) é que ele está essencialmente vinculado ao livro. A difusão da imprensa. A tradição oral, patrimônio da poesia épica, tem uma natureza fundamentalmente distinta da que caracteriza o romance. O que distingue o romance de todas as outras formas de prosa- contos de fada, lendas e mesmo novelas- é que ele nem procede da tradição oral nem a alimenta. Ele se destingue, especialmente, da narrativa. O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relata para os outros. E incorpora as coisas narradas a experiência dos seus ouvintes. O romancista segrega-se. A origem do romance é o individuo isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não recebe conselhos nem sabe dá-los.
(...)
Devemos imaginar a transformação das formas épicas segundo ritmos comparáveis aos que presidem aos que presidiram a formação da crosta terrestre no decorrer dos milênios. Poucas formas de comunicação humana evoluíram mais lentamente e se extinguiram e se extinguiram mais lentamente.”

(Walter Benjamim. O narrador. Considerações sobre a obra de Nicolai Leskov; in Magia, Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas. Vol. I, tradução de Paulo Rouanet. 4º ed, SP: Btrasiliense; p.201.)

FINITUDE

Entre o passado
E o futuro
Dormem noites
E adiamentos.

Amanhãs
Quase nunca chegam
Negando as cruas utopias
Dos nossos caros desejos.

Caprichoso é o vento
Do destino
A passear sem rumo
Entre os acasos
De céu e terra.

Linhagem alguma é livre
Dos segredos da deusa
Fortuna.

Tudo aquilo que existe
Guarda o selo de um fim.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

CRÔNICA RELAMPAGO XXIX


Uma manhã qualquer surpreende-me na gratuita perplexidade de estar vivo. Uma manhã limpa, inédita, com gosto e cheiro de gratuita novidade. Talvez o dia, entretanto, seja igual a qualquer outro, um mero recorte cronológico para o exercício de rotinas e personas. Como de costume, ao final de tudo, me deitarei vestido de noite sobre vazios e sombras na expectativa desbotada do amanhecer seguinte. Não importa... Basta-me agora comer a manhã com os olhos e buscar um abraço em suas paisagens cobertas de orvalho.
Alguns momentos da existência, afinal, não precisam ter realidade. É suficiente que existam etereos e incertos dentro da gente, que nos façam não pensar em nada, na embriagante sensação mágica da perenidade de um simples instante de devaneio, pensamentos e saudades sem nome.