domingo, 30 de novembro de 2008

LOVE


“Tudo me gira em torno.
A expectativa me faz sentir
Vertigens.
O deleite imaginário é de tal modo
Doce
Que me encanta os sentidos”

Shakespeare. Tróilo e Cressida.
III : ii


O amor se faz em sangue
E carne
No buscar ingrato do desejo
Pelo outro de si mesmo.

É um jogo estranho
Entre presença,
Ausência
E eternidade
Em aprendizados de alteridades.

O amor é um encontro
De duas bélicas vontades
Na intensidade da vida
E encanto de naturezas.

ACROSS THE RAIN

As inércias de um dia chuvoso
Decoram os pensamentos,
Inspiram magias.

Deixo-me estático
Entre ruínas de memória
E rascunhos de futuros abandonados
Vislumbrando horizontes perdidos.

Deito-me sobre a chuva
E esqueço-me em sua música
Como quem sabe
Todo futuro da humanidade.

I felt weak.
I could no longer stand.
It’s late.
I am tired...

I fell...

PRAZER E CONTEMPORÂNEIDADE: O IMPERATIVO DO TEMPO PRESENTE


Independente do seu status social, no mundo contemporâneo cada indivíduo está em maior ou menor medida predisposto a buscar aquele estranho estágio de realização pueril de pequenos prazeres que, na falta de palavra melhor, chamaria de “boa ou doce vida”.
A economia dos prazeres diários tornou-se realmente um dos mais significativos aspectos do comportamento humano a ponto de moldar a face de qualquer centro urbano, mesmo que de médio porte.
Através de restaurantes, lojas de departamento, motéis, locadoras de vídeo, cinemas, etc. desenha-se uma verdadeira geografia dos pequenos prazeres das quais absolutamente não se pode escapar. Até mesmo os ambientes domésticos e públicos são cuidadosamente moldados para ser “confortáveis”, produzir “relaxamento”, funcionalidade , ou em outras palavras, despertar prazer.
A onipresença e onipotência do prazer é algo de que absolutamente não se pode duvidar na medida em que já nos tornamos conscientes de que o desejo é a premissa elementar de nossa condição humana.
Em outras palavras, ser é desejar, é existir através dos múltiplos objetos de um querer permanente e sem limites que jamais será plenamente satisfeito.

A desconstrução das antigas metafísicas que sustentavam uma imagem de mundo fundada em referencias de ordem, morais universais e teleologias totalitárias de significados , pressupôs a ascensão do imanente, do “concreto imediato” e do efêmero ao centro de nossas consciências de mundo e realidade. Agora vivemos radicalmente em função do presente e seu sensualismo mas do que dos sonhos infantis de eternidades.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

KLAXONS: MYTHS OF THE NEAR FUTURE


http://www.myspace.com/klaxons


Lançado em Janeiro de 2007 'Myths Of The Near Future', primeiro álbum do Klaxons, uma das melhores bandas inglesas surgidas nos últimos tempos, já pode ser considerado um verdadeiro clássico do rock.
O trio londrino, formado por Jamie, James e Simon em 2005 e cuja carreira despontou com o single Gravity's Rainbow", revelando uma musicalidade profundamente original e uma imagética neo psicodélica. Nada surpreendente para uma banda que definitivamente reinventou a musica eletrônica e o velho rock’roll no Reino Unido.
O significado do nome da banda é bastante curioso. A palavra Klaxons significa “Buzina de automóvel” .Vale lembrar que a primeira revista modernista a ser publicada no Brasil adotou tal nome e as seguintes palavras do editorial do seu primeiro número, com as devidas adaptações, serviria muito bem para inspirar apresentações dessa fascinante banda britânica meta psicodelica:

"Klaxon sabe que a vida existe. E, aconselhado por Pascal, visa o presente. Klaxon não se preocupará de ser novo, mas de ser atual. Essa é a grande lei da novidade.(...)Klaxon sabe que o progresso existe. Por isso, sem renegar o passado, caminha para adiante, sempre, sempre. (...) Klaxon não é futurista.Klaxon é Klaxista.(...)Klaxon cogita principalmente de arte. Mas quer representar a época de 1920 em diante. Por isso é polimorfo, onipresente, inquieto, cômico, irritante, contraditório, invejado, insultado, feliz."

DELICADA QUIMERA


Todo tempo é futuro
Entre lutos e urros
No crepúsculo
De passados mudos
E ilusões de pensamento.

È ao por do sol
Que os amanhãs se reinventam
Para nutrir a noite
Embalando alvoradas incertas
Dentro de um tempo entre aberto.

Mudanças são
Como crianças inquietas
Vestidas de esperança
Sobre um céu desperto.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

LITERATURA INGLESA XXXIX


“Os conceitos da vida e do mundo que chamamos "filosóficos" são produto de dois fatores: um, constituído de fatores religiosos e éticos herdados; o outro, pela espécie de investigação que podemos denominar "científica", empregando a palavra em seu sentido mais amplo. Os filósofos, individualmente, têm diferido amplamente quanto às proporções em que esses dois fatores entraram em seu sistema, mas é a presença de ambos que, em certo grau, caracteriza a filosofia.”


Bertrand Russel- A Filosofia entre a religião e a Ciência in História da Filosofia Ocidental


Nascido no País de Gales, o filósofo Bertand Russel (1872-1970) merece sem sombra de duvidas um lugar privilegiado em qualquer panorama da literatura de língua inglesa. Não por acaso recebeu o Nobel de literatura em 1950. Embora consagrado no campo da filosofia pelos seus estudos sobre lógica e matemática, ao lado do amigo Aldous Huxley, Russel foi antes de tudo um grande ensaísta e humanista, um típico intelectual do século XX, ou seja, um escritor profundamente atento aos problemas e desafios do seu tempo e embalado por uma demasiada confiança na racionalidade humana. Fato comprovado por sua militância anti-nuclear em tempos de guerra fria inspirada por sua vivencia da barbárie de duas guerras mundiais.
Pretendo aqui apenas comentar um de seus ensaios ainda hoje mais populares: What I Believe.

Alan Ryan, professor de ciências políticas e diretor do New College da Universidade de Oxford, nos oferece na apresentação que faz a obra a seguinte e esclarecedora contextualização:

“ No que acredito foi inicialmente publicado em uma série de livros muito curtos- os editores os chamavam de “panfletos”- intitulados “Today and Tomorrow” ( Hoje e Amanhã). Eram livrinhos sobre assuntos os mais variados: “o futuro das mulheres, guerra, população, ciência, máquinas, moral, teatro, poesia, arte, musica,sexo, etc.” Dora Russel escreveu Hypatia para defender a libertação das mulheres, e Russell escreveu dois panfletos para série, dos quais No que acredito foi o segundo. Dedalus, de J.B.S. Haldane, havia oferecido uma visão otimista do que a ciência faria pela humanidade no futuro; Hussell replicou com Icarus, para mostrar que o filho de Dédalo, aprendeu a voar, mas não a voar de um modo inteligente. Já que a ciência enquanto fruto da inquirição racional do mundo poderia apenas nos dizer como atingir nossos objetivos, era de se esperar que o mais impressionante resultado do avanço científico seria transformar a guerra em um massacre de proporções globais. Se evitássemos tal destino, nós nos veríamos ou entediados à morte- na medida em que a burocracia em larga escala tomou as rédeas do mundo- ou seriamos transformados nas dóceis criaturas imaginadas no Admirável Mundo Novo de Huxley- livro provavelmente inspirado pelo Icarus de Russel-, geneticamente programadas para desempenhar nossos papéis sociais e alimentadas com drogas que conseguiriam realizar qualquer coisa que a eugenia já não o tivesse.”


( Bertrand Hussell. No que acredito/ tradução de André de Godoy Vieira. Porto Alegre: L&PM Editores, 2007, p. 17-18 )


A critica a religião levada a cabo por Hussel em “No que Acredito” fundamenta-se em uma defesa otimista da racionalidade e do desenvolvimento cientifico, adota uma retórica oposta a do seu Icarus, que chama atenção para as possibilidades sombrias desse mesmo desenvolvimento cientifico. Logo a contraposição entre fé e ciência que aqui aparece como premissa desse ensaio, e também é evidente em outros momentos da vasta obra do autor, como por exemplo, em “A conquista da Felicidade” ou “Ensaios Ceticos”, presupõe algo mais do que um mero antagonismo ou dualismo. Na verdade o que está em jogo é um redimensionamento dos sistemas de crenças humanas a partir de uma constatação do quanto o significado da existência e do próprio mundo, para o bem e para o mal, é uma construção humana. È nesse sentido que em dado momento da obra aqui discutida ele afirma:

“....No mundo dos valores, a natureza em si é neutra- nem boa nem ruim, merecedora nem de admiração nem de censura. Somos nós quem criamos valor, e são nossos desejos que o conferem. Desse império somos reis e de nossa realeza nos tornamos indignos se à natureza nos curvamos. Estabelecer uma vida plena cabe portanto a nós, e não natureza- nem mesmo à natureza personificada como Deus.”

( Bertrand Hussell. No que acredito/ tradução de André de Godoy Vieira. Porto Alegre: L&PM Editores, 2007, p. 41 )

A crença de Russell nas potencialidades humanas e no predomínio de uma orientação racional da existência individual e coletiva revela sua grande e generosa aposta, enquanto pensador e intelectual engajado, em um potencial progresso da vida e da sociedade. Considerando, entretanto, os desafios que se apresentam ao destino humano nesse inicio de milênio, é significativo especular quanto à atualidade do pensamento de Russell no que diz respeito ao seu apego a uma positividade da razão e da racionalidade, mesmo que em sua filosofia a razão subordina-se ao desejo como essência da condição humana. Afinal, até que ponto a transfiguração da razão, o deslocamento de todos os valores e referências construídas pelo espírito moderno, não nos lança hoje a incerta aventura de deslocar o humano do centro do seu próprio mundo, a uma superação positiva de todo o humanismo?

NOW II

O desbotado instante
Desse agora
É menos que nada,
Não possui passado
Ou presente,
Nem vale a pena
A memória.

Lá fora as horas avançam,
Fatos decoram um dia chuvoso
Enquanto segue indiferente o mundo.

Mas pálido e estático
Em qualquer canto de alma
Um sonho dorme e sonha
O abstrato instante
Desse agora...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

OF A' THE AIRTS THE WIND CAN BLAW...



Direção alguma é segura
No seguir da vida,
Nenhuma certeza é mais confiável
Que um golpe de acaso
Entre os fatos cotidianos.

Todo destino é
meu eu revelado
Entre as ruínas do desconhecido,
Não importa o caminho...

Apenas sigo por ai
Sem direção precisa...
Of a’ the airts the wind can blaw...

Sei a liberdade dos espaços
Abertos em labirintos,
Sei o espelho vazio
Diante do meu próprio rosto.

Of a’ the airts the wind can blaw...

THE FRATELLIS


Fundada em 2005, a banda escocesa The Fratellis, composta pelo trio Jon Fratelli (guitarra/vocais), Barry Fratelli (baixo) e Mince Fratelli (bateria, backing vocals), mesmo tendo lançado até o momento apenas dois albuns Costello Music e Here We Stand , figura no cenário do rock britânico contemporâneo como uma das mais promissoras e criativas bandas surgidas nos últimos anos.
Sua musicalidade transmite descontração e lirismo claramente influenciado por certa leitura dos Beatles, embora possua também uma batida inconfundivelmente pós punk. Em linhas gerais, a leveza de suas melodias e letras despretensiosas nos oferecerem o melhor do velho rock ‘n roll em uma boa roupagem contemporânea. Os mais moralistas podem considerar, obviamente, a temática de suas letras picantes, geralmente eróticas, “depravadas”ou “vazias”. O que, do ponto de vista do Rock, enquanto estilo cultural e movimento social, não tem a minima importância. Eu, particularmente, tomo a tematica de suas letras como irreverente expressão de descreta rebeldia e uma divertida apologia da vida em toda sua intensidade sensualista e concreta.
Dado meu especial carinho por essa banda britânica, sou suspeito para afiançar seu valor e importância. Mas é possível ouvi-la em sua pagina no My space ( http://www.myspace.com/) e melhor conhecê-la através de seu site ( http://www.thefratellis.com/)

CRÔNICA RELÂMPAGO XLI


Estou decididamente entre aqueles que pensam que a conquista da panacéia de um mundo de algum modo melhor ou perfeito seria um verdadeiro desastre, a doentia materialização de qualquer versão de felicidade coletiva arbitrariamente concebida por alguns e imposta a todos em ilusões de universalismos.
Afinal, existem potencialmente tantos mundos perfeitos quanto pessoas no mundo e nenhuma utopia poderia ser uma representação unânime de uma realidade ideal.
A verdade é que não concebo outra dinâmica para o existir coletivo do homem que não passe pela imperfeição e o conflito, onde não existam injustiças, crimes, dramas pessoais, desassossegos de toda natureza e incertezas quanto ao dia seguinte. De outra forma não seriamos humanos, pois se existe algo que possamos definir como humanidade, uma de suas premissas é certamente não se definir pelo primado de virtudes idealizadas ou imperativos categóricos. Não existe, em outros termos, um “bem” ou um “mal” pré determinados entre os quais apenas temos de escolher.
Aliais, fazer escolhas é diferente de dar respostas; essencialmente o que fazemos o tempo todo é formular respostas aos conflitos e problemas cotidianamente vividos a partir dos parcos recursos da consciência, respostas estas que não são pré determinadas, são construções, elaborações que se fazem em nós no calor das emoções, acontecimentos e atos. Quanto mais e melhor somos capazes de lidar com nos mesmos e com os outros, com as desarmonias e conflitos inerentes a existência, menos somos vitimas da ditadura de nossas certezas e sonhos infantis de realidades perfeitas...

PHOTOGRAPHY

Algumas fotografias
São mais que o revelar-se
De um momento capturado,
Dizem mais que a imagem estática,
Prisioneira de eternidades,.
Guardam algo vivo
No dizer de cores,
Rostos e paisagens.

Algumas fotografias
São essencialmente
O próprio tempo presente,
A janela de um AGORA
Do qual nos perdemos
Nas ilusões do tempo.

domingo, 16 de novembro de 2008

C. G. JUNG E A VIDA APÓS A MORTE


A obra epistolar de C. G. Jung não é de forma alguma menos interessante do que seus trabalhos científicos. Pelo contrário, nos permite melhor compreende-los, o que torna justificável a reprodução aqui de uma de suas missivas que aborda especificamente a posição do autor em relação a um tema espinhoso como a vida após a morte... Não temos aqui a posição de um místico, mas do adepto de uma imagem de ciência que transcende o mito da própria ciência através do racional, questionando toda noção de verdade...

“A uma destinatária não identificada
Luxemburgo
30.05.1960


Minha idade avançada e a necessidade de repouso me fazem evitar as muitas visitas e por isso devo limitar-me o quanto possível a respostas por cartas.
Quanto a sua pergunta sobre a vida após depois da morte, posso responder-lhe tão bem por escrito como oralmente. Na verdade, esta pergunta ultrapassa a capacidade da mente humana, que nada sabe dizer que vá alem da mesma. Além disso, qualquer afirmação cientifica é apenas provável. Só é possível formular a pergunta assim: existe alguma probabilidade de a vida continuar após a morte? É fato que- como todos os nossos conceitos- também o tempo e espaço não são axiomas, mas basicamente verdades estatísticas. Evidencia-se assim também que a psique não esta sujeita até certo ponto a estas categorias. Ela é capaz de, por exemplo, de percepções telepáticas e precognitivas. E enquanto isso, ela esta num continuum, fora do espaço e do tempo. Pode-se esperar então que ocorram fenômenos post-mortem que devem ser considerados autênticos. A relativa raridade desses fenômenos sugere em todo caso que as formas de existência dentro e fora do tempo estão de tal forma separadas, que a ultrapassagem desses limites apresenta as maiores dificuldades. Mas isto não impede que paralelamente à existência dentro do tempo corra uma fora do tempo, isto é, que existamos simultaneamente mos dois mundos, tendo as vezes algum pressentimento disso. Mas o que está fora do tempo não pode mudar mais, segundo nossa concepção. Isto tem relativa eternidade.
Talvez a senhora conheça ,meu ensaio “Seele und Tod” no volume Winklichkeit der Seele. Para fundamentação cientifica chamo sua atenção para meu escrito “Sincronicidade: Um principio das conexões acausais” em OC, vol.VIII, p. 437.
Estas são as minhas idéias principais que, oralmente, tembém não exporia de outra maneira.
Com elevada consideração
Sinceramente seu
( C. G. Jung). “

( Cartas de C.G. Jung: Volume III, 1956-1961/ editado por Aniela Jaffé em colaboração com Gerhard Adler; [tradução de Edgar Orth].- Petrópolis: Vozes, 2003, p. 256-257)

O MAIS BANAL E TRANSFORMADOR DA VIDA


Amo o contraste
Entre o azul profundo do céu
E a rua em frenético movimento
De pessoas e coisas
Banhadas por um sol brando
De tarde em morte e serenidade.

Amo o vento macio,
Frio e leve,
Que embala as pequenas sensações
Dos mais simples atos
Dos fatos ordinários de simplesmente viver.


Amos sem sentimento
O ócio profundo
Que foge ao tempo
E se perde
No acontecer breve
De um pequeno e superficial momento
Sem grandes acontecimentos.

sábado, 15 de novembro de 2008

CONHECIMENTO CIENTIFICO E SUBJETIVIDADE

A especificidade do discurso científico é definida tanto a partir de critérios como coerência, consistência, originalidade e objetivação, quanto pelo paradigma da alteridade. O estatuto de verdade, ou a construção do consenso científico, pressupõe persuasão e legitimação coletiva. Neste sentido, sua premissa básica é a universalidade.
Todavia seria um grave equívoco reduzir o discurso científico a mera combinação de critérios internos e externos pois tanto no que diz respeito a sua estrutura e a sua finalidade, o que predomina é o esforço subjetivo de um pesquisador individual que procura traduzir sua experiência singular em termos objetivos ou socialmente estabelecidos por convenção. Não se trata de assimilar e utilizar uma “técnica” pré-determinada e por si mesma inequívoca. Diante da pluralidade do saber científico nas ciências sociais, no que diz respeito a metodologia e referencias ideologicas, nada mais natural do que reconhece-lo como um complexo jogo de opções e escolhas que pré condicionam o olhar de qualquer pesquisador.
Não seria incorreto afirmar que o estudo dos métodos de pesquisa no campo da epstemologia conduz paradoxalmente tanto a uma afirmação quanto um questionamento do estatuto do conhecimento formal. Cabe lembrar que a partir das primeiras décadas do século XX as chamadas ciências humanas, ou como se prefere hoje, ciências sociais, no que diz respeito ao método e aos critérios de verdade, começaram a distanciar-se abertamente dos modelos tomados de empréstimo das ciências naturais.
Desta forma, gradativamente surgiram inúmeras possibilidades novas de legitimação e representação do discurso científico. Basta pensar na contribuição de tendências do pensamento científico como as representadas pela fenomenologia, a hermeneutica ou a semiótica e, no que diz respeito mais especificamente as ciências históricas, a profunda redefinição do conceito de fontes e documentos iniciada pela chamada Escola dos Analles.
Como bem observa LUCIEN GOLDMAN,
“As ciências históricas e humanas não são pois, de uma parte, como nas ciências físico químicas, o estudo de um conjunto de fatos exteriores aos homens, o estudo de um mundo sobre o qual recai sua ação. São ao contrário a análise dessa própria ação., de sua estrutura, das aspirações que a animam e das alterações que sofre.”[1]

Desta subjetividade elementar que define o objeto das ciências humanas, ou seja, o próprio universo humano em suas tantas manifestações simbólicas como a cultura, a sociedade, a religião, a arte, o direito, etc. deduz-se a inadequação da lógica formal como fundamento metodológico da construção do conhecimento científico.
Recorrendo novamente a GOLDMAN é justo lembrar que,
“O processo do conhecimento científico é ele próprio um fato humano, histórico e social; isso implica, a identidade parcial entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Eis porque o problema da objetividade se coloca diferentemente nas ciências humanas e na física ou na química.”[2]

Em outras palavras, entre a pesquisa no campo da química ou da fisiologia e a pesquisa no campo das ciências sociais há uma diferença de natureza que demonstra claramente os limites do método empírico dedutivo e a chamada lógica formal, ainda hoje, apesar de muitas resistências, adotada no campo das ciências sociais de forma indiscriminada e mecânica. Neste ponto GALVANO DELLA VOLPE nos permite ir um pouco mais longe através de sua crítica ao positivismo lógico. Segundo ele,
“ A principal dificuldade em fazer-se uma idéia adequada e fornecer um juizo crítico completo da lógica formal moderna ou lógica formalizada (=formalista), propugnada pelo positivismo lógico, reside na sua natureza una-dúplice de teoria do pensamento e teoria da linguagem: pelo que, quando se encarou a primeira teoria e se demonstrou a sua capacidade para valer como lógica tout court ou lógica filosófica ( como se vê ad oculos no problema por resolver da lei científica), resta enfrentar a Segunda enquanto semiótica (Carnap) demasiado abstrata ou parcial, que, na sua peculiar obsessão pela linguagem “correta” ou linguagem da “verdade”, dogmatiza uma linguagem meramente técnica(de tipo matemático), falhando como semiótica(ou semântica) geral, verdadeiramente filosófica.” [3]

O equacionamento da linguagem técnica e a interpretação, problemática que nos é aqui muito bem apresentada pelo autor, é um dilema que vivenciamos inevitavelmente quando nos lançamos a árdua tarefa de formular um projeto científico e desenvolver uma pesquisa. Não existem no que diz respeito a isso respostas prontas ou acabadas. Como o próprio conhecimento científico esta é uma questão em eterna construção e reconstrução. Só podemos, de acordo com nossas opções subjetivas, lhes proporcionar as respostas que o nosso presente e nossa referências permitem.

[1] GOLDMAN, Lucien. Ciências humanas e Filosofia. SP: Difusão Européia do Livro, 1967; p.27.
[2] Ibidem
[3] DELLA VOLPE, Galvano. A lógica como ciência histórica. Lisboa: Edições 70; s/d; p.242 et seq.

PÓS IDENTIDADE

A vida corre sem pressa
Pelo abstrato do tempo
Dizendo-se em dias e noites.

Segue aleatoriamente
Pelo acumulo dos fatos
Enquanto persigo
A mim mesmo
No não ser dos pensamentos,
No não saber dos sentimentos
Que escapam ao tumulto
Das emoções mais cruas..

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

HANNAH ARENDT: ENTRE A DECADÊNCIA DO ESPAÇO PÚBLICO E INDIVIDUOS EM TEMPOS SOMBRIOS


Considero a coletânea de ensaios HOMENS E TEMPOS SOMBRIOS de Hannah Arendt um de seus livros mais curiosos por nos proporcionar uma valiosa reflexão sobre o lugar do individuo no contexto de decadência do espaço público que, dentre muitas outras coisas, caracteriza nossa contemporaneidade.
A própria autora, no prefacio que faz a obra, elucida o significado dos tempos sombrios a que se refere e que, evidentemente, associa-se a experiência dramática das duas Guerras Mundiais e do totalitarismo
.
“ ... Fui buscar a expressão ao famoso poema de Brecht “Aos que virão a nascer” , que fala da desordem e da fome, dos massacres e dos assassinos, da revolta contra a injustiça e do desespero “ quando só havia injustiça e não revolta”, do ódio legitimo que no entanto nos desfigura, da cólera justificada que nos enrouquece a voz Tudo isso era bem real, uma vez que se passava em público; não era nem segredo nem mistério. E todavia, nem por sombras estava ao alcance de todos os olhos, era difícil ter-se consciência da situação; pois até ao último momento, em que a catástrofe arrastou tudo e todos, ela foi sempre camuflada, não por realidades mas pelos muito eficientes discursos e pelo palavreado de quase todos os representantes oficiais que, ininterruptamente e com as mais engenhosas variantes, iam arranjando explicações para todos os fatos desagradáveis e para todas as preocupações justificadas. Quando pensamos nos tempos sombrios e nas pessoas que neles viveram e se movimentaram, temos que levar em linha de conta esta camuflagem, emanada do “poder estabelecido”- ou do “sistema”, como então se dizia- e por ele difundida. Se a função do domínio público é iluminar a vida dos homens, proporcionando um espaço de aparências onde eles podem mostrar, em palavras e actos, para o melhor e o pior, quem são e o que sabem fazer, então as trevas chegam quando esta luz se apagada pelas “faltas de credibilidade” e pelo “governo invisível”, pelo discurso que não revela aquilo que é, preferindo escondê-lo debaixo do tapete, pelas exortações, morais e outras,k que a pretexto de defender velhas verdades degradam toda a verdade, convertendo-a em uma trivialidade sem sentido.”

( Hannah Arendt. Homens em tempos sombrios. Tradução de Ana Luisa Faria. Lisboa: Relógio D’agua, 1991, p.8 )

Esta é a temática que entrelaça os 11 ensaios da coletânea sobre a biografia de indivíduos que viveram nesses tempos sombrios de séc. XX, com exceção de Lessing, e que são tão diferentes um do outro e, em alguns casos, realmente antagônicos. Afinal Arendt toma por objeto a vida de homens com,o Ângelo Guiseppe Roncalli, Isak Dinesen, Randall Jarrell, Karl Jaspers, Hermann Broch, Walter Benjamin, Bertolt Brechtn e Rosa Luxemburgo.

Uma passagem do ensaio sobre Lissing, que abre o livro, me parece particularmente interessante para apresentar as idéias que perpassam esta coletânea tão original:

“Nada em nosso tempo é mais duvidoso, penso eu, do que a nossa atitude para com o mundo, nada menos garantido do que o acordo, que uma distinção nos impõe e que a sua existência afirma, com aquilo que se manifesta em público. No nosso século até mesmo o gênio só se conseguiu desenvolver em conflito com o mundo e o domínio público, embora naturalmente encontre, como sempre fez, a sua forma própria de acordo com o seu público. Mas o mundo não é a mesma coisa que as pessoas que o habitam. O mundo está entre as pessoas, e este espaço-entre é hoje- muito mais do que os homens, ou mesmo o homem, ao contrário do que muitas vezes se pensa- o objeto das maiores preocupações e o domínio das convulsões mais evidentes em quase todos os paises do globo. Mesmo onde o mundo ainda se encontra numa relativa ordem, ou é mantido numa relativa ordem, o domínio público perdeu a capacidade de iluminação que originalmente fazia parte de sua natureza própria. São cada vez mais os habitantes dos paises do mundo ocidental, que desde o declínio do mundo antigo considerou a liberdade em relação à política como uma das suas liberdades fundamentais, a exercer esta liberdade, retirando-se do mundo e das suas obrigações para com ele. Este alheamento do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; até pode permitir-lhe cultivar grandes talentos, elevando-o ao grau de gênio, e por esse desvio o tornando uma vez mais útil ao mundo. Mas com cada um desses alheamentos verifica-se uma perda quase palpável para o mundo; o que se perde é o espaço- entre particular e geralmente insubstituível que deveria ter-se criado entre esse individuo e seus semelhantes.”

( Hannah Arendt. Homens em tempos sombrios. Tradução de Ana Luisa Faria. Lisboa: Relógio D’agua, 1991, p. 12-13 )

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

LIFE II

Vivo apenas
Do dia, da noite e do acaso
Nos labirintos da embriagues
De um céu negro e distante.

Vivo na violência do vento,
No corpo das tempestades
Que procuram madrugadas
Nos intervalos da vida.

Vivo da violência
De um encanto de existências
Cravadas no peito
Da própria e cotidiana
mera realidade.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

SOBRE A UTOPIA de T. MORE


Publicado originalmente em 1516, justamente um ano antes da eclosão da reforma luterana, A Utopia de More permanece ainda hoje um texto um tanto quanto enigmático. Responsável pela invenção da palavra Utopia, não raramente é vitima de leituras anacrônicas e “ideolocizantes” sobre seu significado enquanto “critica social e política” à Inglaterra dos Tudors através da idéia de uma sociedade ideal comunista.
A Utopia de More insere-se, entretanto, no panorama humanista e renascentista, constitui um esforço de conciliação entre a cultura clássica e medieval mediante a um reequacionamento entre o paganismo pagão da antiguidade com o cristianismo medieval, o que se expressa, por exemplo, na valorização do epicurismo presente na obra, mesmo que contraditoriamente diluído por certo estoicismo.
A republica de Utopia expressa o desejo do autor por uma reforma da vida social e política da Europa do séc XVI como uma resposta a então evidente crise da cristandade ocidental.
Para o historiador Carlo Ginzburg, em uma leitura realmente original construída através de sua micro- história, conforme sugerem alguns indícios pouco observados na obra, a Utopia de More insere-se em uma tradição literária satírica que remonta a Luciano de Samósata.
Em suas próprias palavras:

“Greenblatt decerto tem razão em sustentar que a maioria dos interpretes deixou escapar “ a sensação de perspectivas incompatíveis” que tem tamanha importância no livro de More. Mas esse elemento formal, por importante que seja, pode ser identificado como o núcleo do livro?
A abordagem que proponho ultrapassa esse dilema, uma vez que leva em conta as “perspectivas incompatíveis” que Greenblatt ressalta, como também o “complexo enquadramento” que os interpretes debateram longamente. No centro deste último debate está a tese de Hexter sobre o “parágrafo fora do lugar”, segundo a qual o parágrafo do livro primeiro da Utopia que promete uma descrição da ilha seria uma espécie de “remedo”, indício mal escondido de uma fase anterior do projeto de More, visto que a descrição só comparece no livro segundo. No entanto, quando se lê a Utopia no contexto da tradição luciânica, tão dada a contradições lógicas e textuais, a tese de Hexter parece muito frágil. “Mas contarei as minhas aventuras no outro continente no próximo livro”, lê-se no fim do segundo e último livro de Uma história verdadeira, de Luciano. “A maior mentira de todas”, comentou secamente um escriba grego, à margem da cópia.
Outro estudioso, G. M. Logan, declarou que a influência de um escritor satírico como Luciano seria incompatível com as passagens “absolutamente sérias da descrição de Utopia”. O livro de More, adverte Logan, “apesar de ser escrito de forma arguta e indireta, é uma contribuição séria à filosofia política. Mas os elementos sérios e cômicos da Utopia serão tão opostos assim? Ao rejeitar esse dilema, Thompson perguntou-se: “ Não poderíamos ficar com as duas alternativas?Cero, mas como? O que está em pauta é a relação entre as duas faces do livro. “Apesar de ser escrito de forma arguta e indireta”, escreveu Logan; eu não diria “apesar”, e sim “por ser escrito”. Como se sabe, More começou a escrever pelo que viria a ser o livro segundo, isto é, a descrição de Utopia; em seguida, acrescentouo livro primeiro, a descrição da Inglaterra. Tenho a impressão de que, neste caso, post hoc e popter hoc coincidem. Os paradoxos de Luciano devem ter descortinado a More um campo de possibilidades que modificou o seu projeto original. Hipóteses extravagantes e puramente imaginárias levaram-no a contemplar a realidade de um ponto de vista insólito, a fazer perguntas obliquas à realidade. O que aconteceria se ( como imaginou Luciano) as várias filosofias fossem a leilão? O que aconteceria se a propriedade privada fosse abolida? Antigos rituais de inversão como as saturnais levaram More a imaginar uma sociedade fictícia, na qual ouro e a prata eram usados para fabricar penicos e os embaixadores estrangeiros carregados de correntes de ouro, por engano, eram tidos por escravos. Os mesmos rituais de inversão, ajudaram-no a entrever pela primeira vez uma realidade paradoxalmente às avessas: uma ilha em que as cabras devoravam os homens.”

Carlo Ginzburg.O Velho e o Novo Mundo vistos de Utopia, in Nenhuma ilha é uma ilha. Quatro Visões da literatura Inglesa/ tradução de Samuel Titan Jr. SP: Companhia das letras, 2004, p. 41-42

LITERATURA INGLESA XXXVIII


Alfred Edward Mason (1865-1948) no cenário da literatura britânica, é um nome relativamente pouco conhecido, embora tenha escrito cerca de trinta peças literárias. A mais conhecido dentre elas é o romance The Four Feathers ( As Quatro Penas Brancas) originalmente publicado em 1902 e, diga-se de passagem, imortalizado por cinco versões cinematográficas, dentre as quais a mais popular e bem sucedida foi a de 1939 dirigida por Zaitan Korda.

Este belo romance nos oferece um significativo panorama da paisagem cultural correspondente ao mundo da antiga aristocracia britânica e seu ethos militarista, rigidamente hierárquico e vinculado à afirmação do império colonial britânico.
Ao longo da narrativa articulam-se em torno da questão da honra uma serie de conflitos de valores que basicamente contrapõem o individuo aos crivos impostos pelo meio sócio-cultural. Associado ao tema da honra encontra-se, por exemplo, a questão da relação entre gêneros, com destaque para a problemática do amor entre homem e mulher e o próprio lugar da mulher na sociedade.

Resumindo o enredo, a personagem central, o jovem Harry Fevershun, ao deixar o regimento a que servia as vésperas de sua partida para atuar em um conflito no Sudão, é acusado por seus principais amigos de infâmia e covardia, recebendo no dia de seu noivado três penas brancas simbolizando sua desonra. A estas junta-se uma quarta oferecida por sua própria noiva. Com a desconstrução da sua opção por uma vida domestica e calma, Harry lança-se em segredo a uma perigosa e árdua aventura pela Irlanda, Sudão e Egito, para provar seu valor e recuperar sua honra.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

ENCANTO DE ACASOS

Eu amo o acaso,
Estrelas e fatos
No perde-se de um céu aberto
Em liberdade de atos
E loucuras de imaginações.

Eu amo o infinito e a particularidade desse ato,
Meu ser gente em pluralidades de tempos,
Existências e imaginações.

Eu amo o caótico acontecer
Da liberdade
Em todas as coisas do mundo
Sob um infinito aberto em vida, luz
E azul profundo
Ao sabor do vento.

CRÔNICA RELÂMPAGO XL

Em um determinada e incerta ocasião, ouvi da boca de um velinho uma melancólica argumentação sobre o fato de já ter perdido muitas coisas na vida, a confissão de que já tinha cometido muitos erros e não se importava de viver de ilusões, sonhos e crenças religiosas ou políticas, justamente por não ter mais em que pessoalmente realmente acreditar.
Respondi na ocasião que o que de fato faz diferença em nossas vidas é o modo como enfrentamos a realidade de todos os dias, como confrontamos nossos medos, desejos, frustrações e limites.
Hoje sei que as coisas não são tão simples assim, embora não decline de minha opinião de ocasião. Apenas acho que quanto mais certezas afirmamos para nós e para os outros, mais nos desfazemos em enganos. No presente caso, é fato que, em alguma medida, qualquer um se sente inseguro ou insatisfeito com a própria existência. Na melhor das hipóteses, angustia-se com o natural fato de que um dia ira desaparecer da face da terra como tudo aquilo relacionado a ele ou a seus entes queridos.
Mas é possível ir além desse sentimento. Há algo mais... Algo que diz respeito aquilo que poderíamos provisoriamente definir como “a estética da vida”, a construção subjetiva de significados através de nossa auto expressão mediante empreendimentos pessoais de coisas inúteis e sem importância para o mundo e os outros, mas que de alguma maneira realizam o que somos na medida em que a construímos em árduo processo de auto-expressão irracional e sentido. Pode- se compor uma musica, pintar um quadro, escrever um livro ou simplesmente... viver intensamente a própria vida até o limite de todo acontecimento convencional. O importante é dedicar-se de corpo e alma a alguma coisa que seja pessoalmente significativa, que faça tudo valer a pena.

A PRIMEIRA GRANDE GUERRA MUNDIAL: 90 ANOS DEPOIS...


11 de novembro de 2008 marca 90 anos do fim da Primeira Grande Guerra Mundial. Mas cabe dizer que em agosto de 1914 muitos europeus marcharam para os campos de batalha entre jubilosas manifestações e festas entoando ridículos cantos patrióticos.
As multidões nacionalistas que então agrediam, discriminavam e desconfiavam dos poucos pacifistas da época, não tinham a menor idéia de que nos anos que se seguiriam o ocidente seria palco de horrores nunca antes concebidos. A ciência da guerra unia-se triunfante as políticas nacionais sob o signo do sacrifício, da “Sagração da Primavera”.. .
Noventa anos depois é insólito constatarmos impotentes e perplexos o quanto a guerra e a violência tornaram-se atividades capazes de comprometer o futuro da própria espécie humana pela mera e subjetiva decisão política de Estados... De que outro modo podemos, por exemplo, pensar a ocupação norte americana do bizarro Iraque e as pretenções a conquista da bomba atômica no Irã, na India, Paquistão, etc. sob o fantasma de uma nova "querra fria" multilateral e escalada armamentista?

INDIVIDUALISMO, ALTERIDADE E POS MODERNIDADE

A aceitação do heterogêneo e do marginal, o reconhecimento e integração da diversidade, do hibrido e a conseqüente rejeição das totalidades e totalitarismos morais, dos meta discursos identidários, constituem um dos aspectos mais decisivos do tempo presente, diga-se de passagem, formatado por uma pauta que podemos tomar como “pós- moderna”.
O conseqüente relativismo axiológico, a perda de um parâmetro universal que estabeleça princípios comuns as performances das sociabilidades e intercâmbios humanos, a eleição da alteridade como referencial e premissa de uma Ética contemporânea, simboliza a recusa e contra-posição ao “neo conservadorismo” dos defensores do retorno a uma moral e valores tradicionais como desesperada busca de segurança e certeza frente uma realidade cada vez mais ilegível.
O mundo em que vivemos já não é mais o mesmo que o dos nossos pais ou avós, se quer podemos chamá-lo de “nosso” sem ariscar a autenticidade de uma pluralidade de possibilidades de mundos dentro de mundos. Afinal, a grande a maravilhosa mudança é que não é mais a sociedade que molda e condiciona o individuo, mas o individuo que molda e relativamente transcende a própria idéia de sociedade...

domingo, 9 de novembro de 2008

POEMA SENSUALISTA

O tempo não passa
De uma convincente ilusão
Na opaca fantasia
Do corpo e da alma
Entre as coisas...

Pois todos os acontecimentos
De uma vida inteira,
Não cabem em um único segundo
De pura eternidade.

Mas quantas eternidades valem
Um mero segundo de absoluto prazer?

Viver é mais importante que eternidades
Quando um único segundo
Dentro da gente
Nunca tem fim...

sábado, 8 de novembro de 2008

VIOLÊNCIA E CONTEMPORÂNEIDADE


Um dos mais curiosos fenômenos que caracterizam a contemporaneidade é o da liberdade da violência enquanto linguagem e modo de expressão de indivíduos, nações e bizarras organizações terroristas. Atualmente, a violência já não é um fenômeno instintivo condicionado a ritualista simbólica, como foi durante as guerras religiosas da Europa no inicio da modernidade, e muito menos uma prática de Estados através da guerra limitada por um rígido código ético como no séc. XIX.
A violência do nosso tempo tornou-se impessoal e incondicionada refletindo assim uma imagem de realidade onde a vida individual revela-se de muitas e ingratas formas um valor relativo frente aos interesses e práticas coletivos.
Quando grupos, sociedades, códigos morais falam mais forte do que o reconhecimento da diversidade e do outro, o uso ilimitado da força é um recurso legitimo tanto para um psicopata quanto um chefe de Estado.
Tudo isso significa que nossas representações da morte estão se modificando ou, para ser mais preciso, se laicizando de um modo que não considerávamos possível.
O celebre historiador britânico Eric Hobsbawn nos ajuda a pensar este espinhoso tema no fragmento abaixo:

“Gostaria de ilustrar a amplitude do abismo entre o período anterior a 1914 e o nosso. Não me apoiarei no fato de que nós, que passamos por desumanidade maior, tendemos hoje a ficar menos chocados com as moderadas injustiças que envergonharam o século XIX. Um erro isolado da justiça na França ( o caso Dreyfus), por exemplo, ou vinte manifestantes presos por uma noite pelo exercito alemão em uma cidade da Alsácia ( o incidente de Zabern em 1913). O que desejo lembrar a vocês são normas de conduta. Clausewitz, escrevendo após as Guerras Napoleônicas, pressupunha que as forças armadas dos Estados civilizados não executariam seus prisioneiros de guerra ou não devastariam países. As guerras mais recentes em que a Grã-Bretânha se envolveu, ou seja, a Guerra das Malvinas e a Guerra do Golfo, sugerem que isso não é mais pressuposto. Além disso, para citar a 11º edição da Enciclopédia Britânica, “a guerra civilizada, dizem-nos os manuais, confina-se, na medida do possível, à incapacitação das forças armadas do inimigo; caso contrário, a guerra continuaria até que uma das partes fosse exterminada. ‘É por um bom motivo”’- e aqui a Britânica cita Vattel, um advogado internacional do nobre Iluminismo do século XVIII- “‘que essa prática passou a ser um costume nas nações da Europa’”. Não é mais um costume das nações da Europa ou de nenhum outro lugar. Antes de 1914, a concepção de que a guerra devia se dar contra combatentes e não contra não-combatentes era uma concepção comum a rebeldes e revolucionários. O programa do Narodnaya Volya, o grupo russo que assassinou o czar Alexandre II, afirmava explicitamente que “indivíduos e grupos alheios a sua luta contra o governo seriam tratados como neutros, sendo suas pessoas e propriedades invioláveis”. Aproximadamente na mesma época, Frederick Engels condenava os fenianos irlandeses ( com quem estavam todas as suas simpatias) por colocarem uma bomba em Westminster Hall, arriscando assim as vidas de inocentes ali presentes. Como um velho revolucionário com experiência em conflito armado, ele achava que a guerra deveria ser movida contra combatentes e não contra civis. Hoje, esse limite não é mais reconhecido por revolucionários e terroristas, como também não o é pelos governos que promovem guerras.
Sugiro então uma breve cronologia dessa escorregada pelo declive de barbarização. São quatro os seus estágios principais: a primeira Guerra Mundial, o período da crise mundial desde o colapso de 1917-20 até o de 1944-7, as quatro décadas da era da Guerra Fria e, por ultimo, o colapso geral da civilização conforme conhecemos sobre sobre extensas áreas do mundo a partir dos anos 80. Há uma óbvia continuidade entre os três primeiros estágios. Em cada uma das lições anteriores de desumanidade do homem para com o homem foram aprendidas e se tornaram a base de novos avanços de barbárie. A mesma conexão linear não existe entre o terceiro e quarto estágios. O colapso dos anos 80 e 90 não se deu graças as ações de agentes humanos de decisão que poderiam ser reconhecidas como bárbaras, como o os projetos de Hitler e o terror de Stalin, lunáticas, como os argumentos justificando a corrida rumo a guerra nuclear, ou ambas, como a Revolução Cultural de Mão. O colapso ocorreu porque os agentes de decisão não sabem mais o que fazer quanto a um mundo qu escapa ao seu ou ao nosso controle, e porque a transformação explosiva da sociedade e da economia a partir de 1950 produziu um colapso e ruptura sem precedentes nas regras que governam o comportamento em sociedades humanas. O terceiro e quarto estágios, portanto, superpõe-se e interagem. Hoje as sociedades humanas estão falindo, mas sob condições em que o padrão de conduta pública permanecem ao nível a que foram reduzidos nos períodos anteriores de barbarização. Até agora não deram nenhum indício significativo de estarem novamente se elevando.”

(Eric Hobsbawn. Sobre História/ tradução de Cid Knipel. Companhia das letras, 1998, p. 270)

MATURIDADE E AFIRMAÇÂO DO INDIVIDUO NO TEMPO DE UM PONTO DE VISTA TOTALMENTE SUBJETIVO

Subjetivamente, considero a maturidade, enquanto meta ideal do desenvolvimento da personalidade humana, como um estado de consciência onde já não somos movidos por grandes paixões, em que não cultivamos grandes fantasias de futuro e ambições maiores do que a permitida pela realidade etérea de todos os dias.
A maturidade é, em suma, um modo de olhar o mundo vivenciar os fatos cotidianos, que pressupõe certo despreendimento e relativa indiferença a todas as coisas.
A maturidade é essencialmente aristocrática... um modo peculiar e impreciso, através do qual aprendemos a lidar com a fatalidade do acaso de nossas diversas e múltiplas individualidades e finitudes...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

PRESENT...

Ignoro o anonimato do outro,
O universal filosófico,
As paixões de momento,
Em nome de um segredo em movimento,
Da minha individualidade
Em metafísicas laicas em sonhos de liberdade.


O presente
É um eterno estar por vir,
Um constante avançar de futuros
Que se perdem,
Que nascem
Ou não percebemos
Em apoteoses de ansiedades e desejos.

No acontecer do rosto
Nos transformamos neles
Apesar de presos ao tudo igual diário.


Mas a vida é imprevisível
Em cada lance de dados do acaso
E diárias cotas de fantasia.

FREE...

Sou, de algum modo,
Meu próprio lugar no mundo.
Ignoro as caladas paisagens
Da cidade em volta,
Os noticiários nacionais e internacionais
Que pouco me dizem aos sentidos d’alma.

Ignoro o anonimato do outro,
O universal filosófico,
As paixões de momento,
Em nome de um segredo em movimento...
minha individualidade
Ou laica metafísica
De sonhos de liberdade.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

HALLOWEEN E SAMHAIN


O “Halloween” associas-se na tradição celta irlandesa ao fim do verão, ao dialogo entre o mundo dos vivos e dos mortos, imagem distante da carnavalesca versão popularizada nos Estados Unidos e cada vez mais difundida globalmente.
Podemos tomar a data, apropriada pela cristandade medieval através de sua degeneração em dia de todos os santos ou finados (2 de novembro), como um momento, alem do cristianismo e suas representações negativas “da carne”, para pensar a morte e a temporalidade, nossa finitude e buscas de significados para a própria vida. Logo, ela nos conduz a memória de nossos entes queridos e mortos tanto quanto ao nosso próprio desaparecimento futuro e certo. Daí sua associação ao medo e ao terror no imaginário contemporâneo que, na verdade, não passa de um reducionismo e caricatura.
Mas há ainda na data vivida os ecos do antigo festival de Samhain ( fim do verão), celebrado entre 30 de outubro e 2 de novembro pelos antigos celtas.
Seja de que forma for, que cada um viva neste 31 de outubro sua hallow evening,..

CITY...

Futuros dançam em um céu azul
Contemplando terras desconhecidas
E almas desfalecidas
Em desejo aberto
Ao novo dos dias.

A cidade é um labirinto
De desejos,
Um impasse de vidas
Em busca...
Busca de que?

O cotidiano do caos de luzes,
Movimentos e cores vivas
Conduz a estética das ruas,
Ao movimento de coisas e pessoas
Sem qualquer real direção
Ou significado...

Sigo em silêncio
Em algum vento
Perfumes de outros mundos
Ignorando os mudos sinais das ruas.

CRÔNICA RELÂMPAGO XXXIX


Nossas expectativas de acontecimento futuro e domínio dos fatos hoje em dia foi reduzida aos sonhos de consumo. Comprar um novo aparelho de celular, uma TV, um computador de ultima geração ou um carro novo, é agora nosso modo de administrar minimamente o cotidiano.
O prazer de comprar vai alem do instinto de posse e do status social, é um modo de organizar a própria vida por aquilo que podemos ter contra a incômoda e indeterminada ansiedade de “um algo mais” que nos escapa e já não pode ser plenamente sanado por qualquer experiência religiosa. Afinal, a idéia de totalidade já não complementa o dia a dia de nossa finitude.
As cotidianas tarefas cotidianas do estar entre os outros em contextos diversos e maçantes de mecânicas obrigações tem como contra partida uma administração das exigências da vontade, não mais como capacidade de intervir no mundo ou como desejo mas como estranheza do próprio mundo e sentimento de inadaptação ontológica que nos leva a ansiedade de querer algo mais do que o admitido pelo nosso precário sentimento de realidade. É em função desse querer difuso que construímos nossas biografias.

O SENTIDO DA BRISA

Colhi da brisa
Alguns sentidos
E significados
Do nada fazer.

Basta-me
Neste instante
Não pensar em nada
E deixar-me vagar
Nas horas
Do sem tempo dos devaneios
E pequenos prazeres.

O sentimento da brisa
Que me afaga o rosto
É todo o significado
De que preciso
Nessa preguiça de agora
E esquecimento das horas tortas
Do mundo lá fora.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

SIMBOLO, REALIDADE E COINCIDÊNCIA DOS OPOSTOS


O que mais define o símbolo em sua apropriação contemporânea como meta- significado em imagens, e meta linguagem, é a capacidade de dizer os opostos na transcendência de qualquer possibilidade de dualismo Nessa particularidade o pensar em símbolos se distancia nitidamente da lógica que define o mito cristão e seu peculiar simbolismo.
Nesse sentido julgo muito interessante reproduzir aqui um fragmento de Mircea Eliade:

“Tentamos explicar a origem dos “símbolos” através da impressão sensível, exercida diretamente sobre o córtex cerebral, pelos grandes ritmos cósmicos ( o curso do sol, por exemplo). Não nos cabe discutir essa hipótese. Mas o problema da própria “origem” parece-nos ser um problema mal colocado ( ver “Simbolismo e História”). O símbolo não pode ser o reflexo dos ritmos cósmicos enquanto fenômenos culturais, porque um símbolo sempre revela alguma coisa a mais, além do aspecto da vida cósmica que deve representar. Os simbolismos e os mitos solares, por exemplo, revelam-nos também um lado “noturno”, “mau” e “fúnebre” do sol, o que não é evidente à primeira vista no fenômeno solar como tal. Este lado de um certo modo negativo, não percebido no Sol enquanto fenômeno cósmico, é constitutivo do simbolismo solar; o que prova que, desde o começo, o símbolo aparece como uma criação da psique. Isto se torna ainda mais evidente quando lembramos que a função de um símbolo é justamente revelar a uma realidade total, inacessível aos outros meios de conhecimento: a coincidência dos opostos, por exemplo, tão abundantemente e simplesmente expressada pelos símbolos, não é visível em nenhum lugar do Cosmos e não é acessível à experiência imediata do homem, nem ao pensamento discursivo. Entretanto, evitemos acreditar que o simbolismo se refere apenas às realidades “espirituais”. Para o pensamento arcaico, uma tal separação entre o “espiritual” e o “material” não tem sentido: os dois planos são complementares. Pelo fato de supostamente encontrar-se no Centro do Mundo, uma habitação não deixa de ser um instrumento que responde às necessidades precisas e è condicionada pelo clima, pela estrutura econômica da sociedade e pela tradição arquitetural. Ainda recentemente, a velha discussão entre os “simbolistas” e “realistas” manifestou-se novamente a propósito da arquitetura religiosa do antigo Egito. As duas posições são apenas em aparência irreconciliáveis: no horizonte da mentalidade arcaica, levar em conta as “realidades imediatas” não significa de modo algum ignorar ou menosprezar suas implicações simbólicas, e vive-versa. Não se deve crer que a implicação simbólica anule o valor concreto e especifico de um objeto ou de uma operação: quando a enxergada e denominada phalos ( como acontece em certas línguas austro-asiáticas), e a semeadura é assimilada ao ato sexual ( como aconteceu em quase todos os lugares do mundo), isto não significa que o agricultor “primitivo” ignora a função específica de seu trabalho e valor concreto, imediato, de seu instrumento. O simbolismo acrescenta um novo valor ao objeto ou a uma ação, sem por isso prejudicar seus valores próprios e imediatos. Apli8cado a um objeto ou a uma ação, o simbolismo se torna “abertos”. O pensamento simbólico faz “explodir” a realidade imediata, mas sem diminui-la ou desvaloriza-la; na sua perspectiva, o universo não é fechado, nenhum objeto é isolado em sua própria existencialidade: tudo permanece junto, através de um sistema preciso de correspondências e assimilações. O homem das sociedades arcaicas tomou consciência de si mesmo em um “mundo aberto” e rico de significados. Resta saber se essas “aberturas” são meios de fuga ou se, ao contrário, constituem a única possibilidade de alcançar a verdadeira realidade do mundo.”

(Mercea Eliade. Capitulo V: Simbolismo e História in Imagens e Símbolos: Ensaios sobre o Simbolismo Mágico-Religioso./ tradução de Sônia Cristina Tamer. SP: Martins Fontes, 1996, p. 177-8)

TIME ONE

Procuro saber
o mais particular acontecer
de um segundo
que se perde de mim
e do pensamento,

Procuro saber
O particular sentimento
Instantâneo do AGORA
Em estado bruto,
Como se não existisse
Em mim um rosto
A dizer tempos,
Permanências e buscas.

Apenas o agora
Sujo, trivial
E passageiro
Que fica ou se refaz
No seu igual em
momento seguinte.

NOW

Não sei dizer
Para que parte da vida
Agora acordo.

Sei apenas
Meus passados quebrados
Sobre o chão do tempo
E alguns rotos futuros
Guardados em rasgados bolsos.

Viverei apenas
Mais um dia,
Mudo e discreto,
Na caótica paisagem
Do século.

sábado, 25 de outubro de 2008

ALQUIMIA, SECULARIZAÇÃO E MODERNIDADE




Parafraseando CLAUDE KAPPER em MONSTROS, DEMÔNIOS E ENCANTAMENTOS NO FIM DA IDADE MÉDIA , pode-se dizer que o imaginário medieval é extremamente “estruturalista”, nele a forma é o significante, todo o universo se ordena numa geometria simbólica e segundo uma escala de valores que atribui um lugar a cada elemento, tanto espiritual quanto material. Impõe-se assim o postulado, segundo o qual, a natureza, enquanto parte da criação, é perfeita e, por definição, imperturbável. A alquimia pressupõe uma recusa não muito consciente desta harmonia e perfeição da obra divina. Mais do que isso, ela pressupõe a intervenção humana como fator decisivo para o destino do próprio cosmos. MIRCEA ELIADE tem, portanto, plena razão ao vislumbrar certa continuidade entre a sacralidade da matéria que define a simbólica alquímica e a secularização da matéria através do mito do saber científico que define a época moderna.
Assim como JUNG atribui a alquimia uma antecipação de certas descobertas da psicologia profunda, ELIADE percebe na alquimia certas disposições mentais e referenciais simbólicos que configurariam, em sua versão secularizada, o imaginário moderno. A opus alchemicum, ao admitir a possibilidade de que a ação e o trabalho humano pode intervir no vir-a-ser da natureza, aperfeiçoa-la, transforma-la e, assim, permitir o controle do próprio tempo, esboça uma “filosofia do progresso” realmente surpreendente no contexto do imaginário pré- moderno.

MONTY PHYTHON: MINISTRY OF SILLY WALKS II




Estilos de caminhada devem merecer subsídios governamentais?

Afinal não é dizendo como andas que te direi que és?

Quem aqui ousaria dizer que uma boa e original caminhada não é indispensável a qualidade de vida de cada indivíduo e, portanto, uma questão pública?

COMO VOCÊ CAMINHA ? ....

(Esse ministério existe em algum lugar bem pertinho de você... Tudo é uma questão de idiotice...)

MONTY PYTHON: MINISTRY OF SILLY WALKS


"And now, for Something Completely Different..."

Um dos esquetes mais conhecidos do Flying Circus do Monty Python, encontra-se em sua segunda temporada. Refiro-me, naturalmente, ao Ministry of Silly Walks ( Ministério das Caminhadas Idiotas), onde Jonh Cleese, como dedicado funcionário de tal absurdo ministério, tem uma de suas mais sarcásticas e criativas performances.
Em linhas gerais, pode-se dizer, tratar-se de uma critica, diga-se de passagem, ainda muito atual, a burocracia estatal e sua obscuridade. Poder-se-ia falar de uma alegoria para irracionalidade estrutural que fundamenta o funcionamento de qualquer maquina estatal e da qual, na função de contribuintes, somos todos em alguma medida vítimas.
Mas isso seria perder o fino e corrosivo humor deste saboroso esquete que nos faz rir do cotidiano circo/mundo no qual nos perdemos todos os dias, talvez levando certas “respeitáveis coisas” de governo e Estado mais a sério do que deveríamos... Afinal, como os governos “andam” por ai? ...
Tudo em politica é uma questão de ser idiota meu caro cidadão...

CRÔNICA RELÂMPAGO XXXVIII

Uma madrugada definida por horas de insônia pode ser um verdadeiro celeiro de pensamentos e experiências. Afinal, no silêncio demarcados pelas quatro paredes de um quarto ou de uma sala, pode surpreender-nos a abstrata presença de um dia que se recusa a terminar, permanece ali, ignorando os imperativos do relógio como se nos desafiando...
As horas de uma madrugada de insônia são horas em aberto, suspensas no caos dos fatos e preocupações inerentes ao nosso contextos biográficos e regidas pelo símbolo de uma grande interrogação sem nome.
Por outro lado, elas também são horas em que a temporalidade,que nos é inerente como mortais, apresenta-se como puro e gratuito lúdico no quase não acontecer de nos mesmos na ausência do sono.
Há definitivamente algo de enigmático e desafiador nas claras madrugadas de insônia; algo que foge ao controle e desafia nossas diurnas certezas de rosto no mundo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

SEINFELD E O DISCURSO SOBRE O NADA


Considerada uma das mais populares e inteligentes séries da Tv norte americana nos anos 90, SEINFELD ainda expressa com precisão nosso caótico imaginário contemporâneo. Afinal, trata-se de uma comédia sobre o nada e ao mesmo tempo sobre o confuso “tudo” de nossos risonhos cotidianos, certezas, incertezas buscas.
Seinfeld é a pedagogia perfeita do aprendizado do riso, do ridículo do dia a dia e alguma coisa além disso...
Por tudo isso, deixo aqui um fragmento do “Melhor Livro sobre o Nada” do comediante Jerry Senfeld:


SAIR E VOLTAR

“Você pode dividir toda a sua vida em duas categorias básicas. Ou você sai ou fica em casa. O resto todo é detalhe irrelevante. A vontade de sair e depois voltar é muito forte. Olha o que acontece com gente que não quer ficar em casa, mas tem que ficar. Ficam deprimidos . Ou então, alguém que saiu, está sem a chave e não pode voltar. Fica doido. Temos que sair. Temos que voltar. Quando você sai, tudo fica um pouco fora do controle e excitante. Algo pode acontecer. Você pode ver alguma coisa. Você pode achar alguma coisa. Você pode até ser parte de alguma coisa. Temos que sair! Quando estamos de volta em casa, ficamos como o maestro de uma orquestra: a gente sabe que onde está qualquer coisa e como fazer funcionar qualquer coisa. Podemos ir de uma parte da casa para outra. Sabemos exatamente onde estamos indo e o que vai acontecer quando a gente chegar ali. Somos um maestro vestido de cueca e meias. E é exatamente porque sabemos tudo que temos de sair.”


(Jerry Seinfeld. O Melhor Livro sobre o nada. RJ: Frente, 2000.)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

TRANS-INFÂNCIA

Devoro o passado
Digerindo o presente
Em fomes de futuros.

Mas tudo passa...
E minha alma não cabe
em qualquer lugar
de tempo.

Sou ainda uma criança
a sonhar seguranças
ao sabor do vento.

Mas tudo passa...
Como passam
todas as infâncias.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

BARUCH ESPINOSA E A RADICALIDADE DA RAZÃO


“Os supersticiosos, que sabem mais censurar os vícios que ensinar as virtudes e que não procuram conduzir os homens pela Razão mas contê-los pelo medo de tal maneira que evitem mais o mal que amem as virtudes, não pretendem outra coisas que tornar os outros tão infelizes como eles; e, por conseguinte, não é de admirar que eles sejam, a maior parte das vezes, insuportáveis e odiosos aos homens.”


Baruch Espinosa in Ética- Parte IV- Da servidão Humana ou Das forças das afecções
Excomungado em 1656 pela comunidade judaica de Amsterdan, Baruch Espinosa está entre as grandes referências filosóficas da modernidade.
Combatendo o “irracionalismo” e o “obscurantismo” de seus contemporâneos produziu obras originais como o Tratado da correção do Intelecto, o Tratado Teológico Político e uma Ética cujo conteúdo constitui um radical questionamento as representações do Estado e a Religião hegemônicas no século XVII.
Sua filosofia pode ser muito sumariamente definida como uma critica a escolástica então decadente, tanto quanto a filosofia de Decartes, assentada na formulação e aplicação de dois métodos: O histórico/critico, que destinou a uma leitura racional e secular da Bíblia, e o genético, segundo o qual, o conhecimento de determinada coisa é o conhecimento de suas causas, premissa por exemplo de seu Tratado da Correção do Intelecto.
Espinosa em seu racionalismo radical acreditava que a verdade é imanente ao próprio conhecimento, não condicionando-se a qualquer adequação entre a idéia e a coisa dado que uma coisa só pode ser conhecida através da causa que a produz e não pelos seus efeitos.
É esse primado do intelecto e da razão, a ênfase na “auto-produção” do real que desafia a tese em sua época em voga da criação das coisas por Deus que constitui um dos mais interessantes legados da sua filosofia.

Reproduzo em seguida uma pequena e significativa epistola do autor escrita erm Rijnsburg em março de 1663:

Ao jovem mui sábio Simon de Vries
“Caro amigo,

Tu me perguntas se precisamos da experiência para saber se a definição de um atributo é verdadeira. Respondo que nunca precisamos da experiência, a não ser para aquilo que não podemos concluir da definição da coisa. Como, por exemplo, a existência dos modos, pois esta não podemos concluir da definição da coisa.Mas nunca precisamos da experiência para aquelas coisas cuja existência não se distingue da essência e que, portanto, se conclui de sua definição. Mais ainda, nenhuma experiência pode ensinar-nos isto, pois a experiência nunca nos ensina a essência das coisas- o máximo que pode fazer é determinar nossa mente a pensar apenas acerca de certas essências das coisas. E assim como a existência dos atributos não difere de sua essência, nenhuma experiência poderá fazer com que a aprendamos.
Perguntas, ainda, se as coisas reais e suas afecções são verdades eternas. Digo que o são sob todos os aspectos. Se retrucares: por que, então, não as chamas de verdades eternas? Respondo: para distingui-las, como todos costumam fazê-lo, daquelas que não explicam coisas e afecções das coisas, como por exemplo, “nada vem do nada”. Tais proposições, e outras semelhantes, são chamadas verdades eternas num sentido absoluto, e com isto o que se quer dizer é que só tem morada no intelecto.”
Baruch de Espinosa

(Benedictus de Espinosa. Os Pensadores/ seleção de textos de Marilena de Souza Chauí; tradução de Marilena de Souza Chauí... (et al.). SP: Editora Abril Cultural, 1983, p. 372)

TEMPO PSICODELICO


Todos os dias somados
Explodem em um segundo
De presente
Revelando imaginações ébrias
Sem tempo e espaço.
Indiferente
Colho ânsias e desejos
Em um jardim pintado
Sobre um mar aberto
Em céu.

Pois entre o vagar de nuvens
Surpreendo-me deitado no vento
Em busca de mim mesmo
No difuso de todas as coisas.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

THE BEATLES, YELLOW SUBMARINE E O PSICODELISMO


1968 não foi apenas o ano de Stg. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, mas também do lançamento da animação em longa metragem Yellow Submarine com seus diálogos mordazes, referências artísticas e estéticas, brilhante trilha sonora e uma imagética, paisagem visual sem paralelos trans- lúcidos. O fato é que essas duas referências Beatles para uma não marco da história do século XX são muito significativas para exemplificar a singularidade daquela que foi até hoje a maior banda de rock de todos os tempos.
No que diz respeito à adoção de uma linguagem psicodélica de musica e arte, o fab four distancia-se muito de seus contemporâneos, desde Rolling Stones, The Who, Crean, Leon Butterfly, etc...
No caso dos Beatles, o psicodelismo era um estado de espírito, uma sensibilidade nova que transcendia os lugares comuns da rebeldia e identidade juvenil então em voga, afirmava-se tão somente como o lúdico exercício artístico e anímico de quatro jovens que faziam e vivam sua musica enquanto o mundo a sua volta simplesmente enlouquecia e inventava “o novo”...
Se os Beatles se tornaram a mais profunda expressão da transmutação de valores dos anos 60 do séc. XX; deve-se atribuir o fato a sua absoluta espontaneidade e naturalidade.
A originalidade e atemporalidade de seu psicodelismo reside justamente nessa espontaneidade descompromissada, em sua introspecção como banda, sem a qual o psicodélico jamais seria uma genuína forma de expressão radicalmente indivuada, uma estratégia de recosntrução da vida através da arte mediante o afrouxamento de um real convencionalmente estabelecido ou a apoteose do devaneio como modalidade lírica do pensamento dirigido e singular.
Em poucas palavras, os Beatles transmutaram o psicodelismo em SIMBOLO e MITO na mais profunda expressão de contemporaneidade... Fizeram dele muito mais do que um modismo de época.

SOBRE FELICIDADE...

Há coisas que permanecem Eternamente por fazer. Pois uma vida inteira não é suficiente Para realizá-las. Não falo de grandes sonhos ou projetos, mas do devaneio da mais perfeita existência, do mais simples sentir-se bem em atualizações de paraíso e infâncias. 
 
Trata-se aqui da felicidade impossível, da realização de todas as vontades na absoluta perfeição dos dias meta impossíveis que nos consomem no sem nome de desejos e fantasias. 
 
O que chamamos felicidade é apenas o que ficou por fazer, o que abandonamos, ou nos abandonou no precipício e sombra do doce pesadelo do mundo real... 
 
NADA É MAIS PERFEITO DO QUE A PRÓPRIA IMPERFEIÇÃO.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

LITERATUITA INGLESA XXXVII


Aldous Huxley (1894-1963), pelo seu profundo pessimismo e visionária leitura da realidade de seu próprio tempo, tornou-se mais do que um mero escritor de literatura, afirmou-se como brilhante ensaísta. Sua obra, apesar dos condicionamentos de seu próprio tempo, tende a ser uma referência indispensável ao pensamento critico de todas as épocas possíveis do futuro humano mais imediato pelça sua problematização do autoritarismo, da democracia e da própria natureza humana.
Afinal, Huxley foi, além do autor do tão famoso romance futurista "Brave New World" (Admirável Mundo Novo), que até os dias de hoje lhe garante a fama, o criador do conceito de agnosticismo. Muito significativamente teve como interlocutores e amigos nomes como o de Lytton Strachey e Bertrand Russel.
Em sua vasta obra destacam-se alem do já citado e consagrado romance, a coletânea de ensaios The Doors of Perception / Heaven and Hell (As Portas da Perceção / Céu e Inferno), os romances Ape and Essence (O Macaco e a Essência), Island e os derradeiros ensaios de The Human Situation (A Situação Humana).
Pode-se , de modo muito genérico, sustentar que, bom leitor do cerebre Charles Darwin, Huxley jamais foi condencendente ou ingênuo com relação a fenomenologia da vida e existência humana...
Dentre todas as coletâneas de ensaios por mim conhecidas, a que me parece mais provocativa e atual, são os reunidos em Do What you Will ( traduzido para o portugues como Satânicos e Visionários).
Creio que um fragmento desta obra é mais do que apropriado para aqui dizer seu autor, mesmo que seja impossivel traduzir em um fragmento de momento a riqueza de seus escritos:

O ENIGMA


“Na forma em que os homens o têm colocado, o enigma do universo exige uma resposta teológica. Sofrendo ou gozando, os homens querem saber por que gozam e com que finalidade sofrem. Vêem coisas boas e coisas más, coisas bonitas e coisas feias, e querem descobrir uma razão- uma razão definitiva e absoluta- porque essas coisas devam ser como são. É extremamente significativo, entretanto, que só com respeito a questões que lhes tocam de perto é que os homens buscam razões teológicas- e não apenas buscam como as encontram, e em que qualidade! Com relação a questões que não lhes tocam tão diretamente, questões que estão, por assim dizer, a certa distância psicológica deles próprios, mostram-se relativamente indiferentes. Não fazem esforço algum para lhes encontrar uma explicação teológica; percebem o absurdo e a inutilidade de sequer procurar uma explicação. Qual a razão final e teológica, por exemplo, de ser verde a grama e de serem amarelos os girassois? Tem-se apenas que levantar a questão para logo se perceber que é de todo irrespondível. Podemos falar sobre ondas luminosas, eletrons vibratórios, de moléculas de clorofila e coisas que tais. Mas qualquer explicação que possamos oferecer em termos dessas entidades não passará de uma explicação de como a grama é verde, e não porque ela é verde. Não existe “porque” algum- absolutamente nenhum, cuja descoberta possamos conceber. A grama é verde porque é assim que a vemos; em outras palavras, é verdade porque é verde. Ora, não há diferença em espécie entre um fato verde e um fato doloroso ou bonito, entre um fato que é da cor dos girassois e fatos que sejam bons ou infernais: uma categoria de fatos é psicologicamente mais remota que a outra, nada mais. As coisas são nobres ou angustiantes porque são assim. Qualquer tentativa de explicar porque elas são assim será inevitavelmente fadada ao fracasso, como a tentativa de explicar porque a grama é verde. No que tange a condição de ser verde e outros fenômenos psicologicamente distantes os homens tem reconhecido a inutilidade da tarefa e não cuidam de propor explicações teológicas. Mas ainda continuam a torturar o cérebro com os enigmas do universo moral e estético, prosseguindo na invenção de respostas e até mesmo acreditando nelas.”
(Aldous Leonard Huxley. Satânicos e visionários/tradução de J L Dantas. RJ: Ed. Americana, 1975, p. 153-154).

REVOLUTION 69

Me basta um sonho vivo
Em delirante realidade
Para explodir verdades
Em cores, gritos,
Raios
E ventos antigos.

Um estranho futuro
Chegaria, então, sorrateiro
De mãos dadas a passados
À muito esquecidos,
Trazendo a infância do infinito
Ao cotidiano tédio
De mais um dia
Entre pessoas, famílias,
Cidades, países e absurdos
Que não cabem
Na poesia de um céu estrelado
Ou no mundo de uma folha de papel.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

APRENDIZ DE SATURNO

Sofro o tempo que passa
Nos silêncios de cada momento.

Meus passados reinventam
O presente
No involuntário acontecer
De uma discreta biografia.

Não sou desses
Que viveram impérios
Amores sempiternos
Ou as aventuras de um Ulisses.

Tive apenas na vida,
Noites de luas, estrelas
E tédios
A espera de algum vento bravo,
De alguma manhã entre aberta,
Adivinhada em qualquer musica muda
No fundo de um céu profundo.

Em todos os tempos de mim
Nunca fui mais
Do que um aprendiz de futuros
A colher sonhos em madrugadas.

MEMÓRIA E DEVANEIO SEGUNDO BACHELARD


Em sua Poética do Devaneio, ao invocar as “cânticos de ilusões”, que nos conduzem a mais profunda experiência da relação existente entre imaginação e memória, Gaston Bachelard nos sugere uma reflexão sobre a experiência poética como uma espécie de “não lugar do tempo vivido”, como um "não factual da memória" que define nossas leituras e sentimentos biográficos tão profundamente quanto os acontecimentos concretos.
O que está em jogo aqui, não é a objetividade de qualquer lembrança possível de um dado momento ou situação vivida, mais a impessoalidade de certas lembranças, uma espécie de sentimento virtual de mundo que nos transcende em um irracional apreensão passional das coisas; como se fosse possível contemplar a aura mágica que envolve as configurações mais autênticas de nossas imagens de realidade .
Uma das principais funções da imaginação, afinal, é constantemente nos reapresentar o próprio mundo como significado vivido, como uma invenção ontológica... constantemente renovada, recriada...

Quando mais mergulhamos no passado, mais aparece como indissolúvel o misto psicológico memória-imaginação. Se quisermos participar do existencialismo do poético, devemos reforçar a união da imaginação com a memória. Para isso é necessário desembaraçar-nos da memória historiadora, que impõe os seus privilégios ideativos. Não é uma memória viva aquela que corre pela escala de datas sem demorar-se o suficiente nos sítios da lembrança. A memória-imaginação faz-nos viver situações não factuais, num existencialismo do poético que se livra dos acidentes. Melhor dizendo, vivemos um essencialismo poético. No devaneio que imagina-se lembrando-se, nosso passado redescobre a substância. Para lá do pitoresco , os vínculos da alma humana e do mundo são fortes. Vive então em nós não uma memória de história, mas uma memória de cosmos.”

(Gaston Bachelard. A poética do Devaneio/ tradução de Antônio de Pádua Danesi. SP: Martins Fontes, 1996, p.114)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

CRÔNICA RELÂMPAGO XXXVII

As mas importantes mudanças que ocorrem na vida de um individuo, ocorrem silenciosamente; desafiam o acontecer cotidiano. Só nos damos conta delas quando nada mais é possível fazer para mudá-las.
Tal peculiaridade deve-se ao fato de ocorrerem gradativa e eventualmente no correr dos dias, como um descreto ocorrer de sombra e acaso no mais fundo da espontaneidade dos atos elementares.
As mais importantes mudanças que sofremos não brilham no rubro acontecer do mundo em tempo presente; surgem sempre como passado, como fato consumado, que nos consome na surpresa de nos sabermos repentinamente outros...
O estranhamento e deslocamento do cotidiano no fazer-se dos ciclos, períodos e etapas do acontecer da vida, é aquilo que mais profundamente revela o dinamismo da condição humana entre pessoas e identidades coletivas...