quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

DESCONTRUINDO A REALIDADE

A exteriorização é o que define melhor o fenômeno da consciência. Isso faz dela um algo que nos possui e não propriamente um atributo de nossa subjetividade ou algo que possuímos.

Mas considera-la, assim, como este algo projetado nas coisas, implica em um deslocamento do “eu” do centro de nossa experiência, pois ele mesmo acaba por ser reduzido também a condição de uma projeção da consciência que, por definição, é sempre consciência de algo externo a ela própria, algo que paradoxalmente torna-se “real” através dela, o que significa que somos em todos os sentidos “consciência”, sendo impossível inferir a existência de uma objetividade das coisas, uma realidade objetiva fora dela.

A diferença entre o aqui proposto e o solipsismo de Max Stiner é que a abstração de um eu pensante ou consciente de si mesmo no aqui e agora do tempo presente também é questionada. Há de se duvidar da ilusória e frágil unidade e organicidade deste eu, principalmente quando percebemos o quanto o comportamento humano está mais condicionado a reações instintivas e impulsivas do que a orientação racional de um eu consciente. Isso sem dizer que o que entendemos ou percebemos como eu é na verdade uma abstração de sermos um corpo cuja materialidade e dinâmica também controlamos bem menos do que gostaríamos.

Esta objetivação da consciência as custas de um esvaziamento da subjetividade não conduz a um ceticismo absoluto e imobilizador. Apenas nos inspira prudência diante de qualquer convicção “forte” de realidade e identidade.

Na pior das hipóteses ela pode apenas alimentar uma postura hedonista diante da existência que, particularmente, considero bastante saudável.

O fato é que podemos viver sem precisar pensar um mundo de “realidade/verdade” onde a substancialidade das coisas condiciona nossas codificações Do real através de débeis convicções ontológicas.

Constatado o paradoxo de que o sentido das coisas é que elas não fazem sentido nenhum , nada nos impede de continuar “imaginando” a realidade, inventando significados e sofrendo nossos eus como se de tão “irreais” eles realmente existissem...














VAZIO

Tenho vivido o vazio



De tudo aquilo


Que entre nós


Nunca aconteceu,


Sofrido os desvios do destino


E descaminhos da sorte


Até o limite de surpreender


Nosso passado triste


As margens de um por do sol.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

FÉRIAS

Quero viver o dia



livre


De pensar nas coisas todas


Que agora me afligem o futuro.






Quero estar sem limites


Nas horas,


Até o ponto


De não precisar lembrar


De nada que se perde


Neste momento


Lá fora.






Quero, simplesmente,


Estar aqui e agora
...

O SILÊNCIO DA LINGUAGEM

A experiência da palavra



Não pode conter,


Me conter,


Calar com um significado frouxo


Tudo aquilo


Que fatalmente


Não consigo ou conseguirei dizer,


Que acontece desarticuladamente


Através de mim


Sem se fazer na razão e nas coisas.

AFORISMAS SOBRE O MEDO, A INDIFERENÇA E O DEVIR

A contemporaneidade é por excelência a época do devir onde as representações do passado já não são mais uma referência de identidade. Elas se converteram em um reservatório de imagens e referências virtuais onde o agora vivido descobre suas metamorfoses no contínuo de um presente que se estende em todas as direções.

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A indiferença , o desinteresse pelo correr aleatório das coisas, é um modo de, deslocados do acontecer do mundo, nos concentramos em nossa individualidade, explorar a superfície infinita de nossos pensamentos .

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De todas as experiências instintivas humanas o medo é aquela que mais diretamente se relaciona com a imaginação. Afinal, não precisamos estar diante de uma ameaça real para sofrermos medo. Ele nos invade de modo arrebatador e irracional, não raramente personificando-se em coisas e situações que objetivamente não o justificam...

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Já não são nossas certezas que dão o tom de nossa experiência de existência, mas nossas incertezas e o sentimento de banalidade que agora parece definir todas as coisas humanas.

O CORRER DO TEMPO

Cada passo meu é um risco,



Um riso,


Um avançar sem rumo


Por um caminho


Que quase existe


Nas infinitas possibilidades


Do mundo


Onde meu amanhã


Cala de repente


Ao surpreender-se ontem...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

NOTA SOBRE A CONSCIÊNCIA HUMANA

O horizonte da consciência humana define-se por uma elementar imprecisão e ambivalência. Poder-se-ia dizer que, apesar de nossa capacidade de codificar o real como um processo contínuo e coerente, de produzir e viver a realidade como uma totalidade teleológica e orgânica, no fundo, a consciência de nossa existência personifica tal “ordenamento das coisas” apenas parcialmente.

Em certa medida, o caos e o ilegível fazem parte da consciência e condicionam muitas de nossas reações, formulações, atos e hábitos cotidianos, manifestando-se através de inseguranças, medos, frustrações, desejos e afetos.

Não se deve, portanto, subestimar o quanto o domínio da afetividade molda o estar-ciente- do mundo e a autoconsciência. Redundante afirmar o irracional que influencia à consciencia depois de mais de um século de psicologia profunda.

O que me parece novidade é o modo como os condicionantes irracionais de nossa consciência das coisas adquirem hoje uma dimensão nova na medida em que a relativa desconstrução da tradicional objetividade do mundo dá lugar a uma espécie de virtualização do real que nos desconstrói como sujeito e reinventa a objetividade de um mundo que nos escapa na exata medida em que nos apropriamos dele como concreta abstração de coisas cotidianas.

A consciência das coisas hoje pressupõe a incorporação dos artefatos, da técnica, à própria consciência de um modo que extrapola a antiga relação do homem com seus utensílios e instrumentos a ponto da própria condição humana já não ser uma referência suficiente para determinar o lugar da consciência.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

PIADA EXISTENCIAL

O extraterritorial da gramatica é o que nos inventa, o que nos permite saber o mundo na ilusão de uma realidade que de tão absurda torna-se fato.

De que outra forma poderia aqui eu definir a mente que se cria através de mim em cada pensamento e palavra?

Somos todos brinquedos de nossos próprios pensamentos...

A JANELA DO TEMPO

As janelas abertas do tempo



Miram sempre paisagens ausentes


Onde a imaginação


Nos busca os olhos


Até o limite de todas as coisas.


Tudo que somos


E não somos


Revela-se no mirar


Daquelas janelas


Que por dentro de nós


Abrem as portas do nada...





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

DESENCONTRO

Apanhe o vento e siga em frente



Não pense em qualquer coisa


Apenas siga


Até que a vida diga o contrário


Deixando, então, apenas o vento


Nas Infinitas distâncias


Que diariamente inventamos


Para escapar um ao outro


Sem qualquer motivo.