segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

BEATLES E A FILOSOFIA: LENNON E A LINGUAGEM


http://www.youtube.com/watch?v=BQcU5w915p8

Um dos momentos mais interessantes do documentário John Lennon: Imagine, produzido por David L Walper e Andrew é o trecho de um diálogo entre Lennon e um fã anônimo descoberto rondando os jardins de sua propriedade em Ascost, Inglaterra. Não há como precisar através do documentário a data do ocorrido. Apenas posso supor que esteja em algum ponto do inicio dos anos setenta. O que importa, porem, é que durante o curto dialogo reproduzido, Lennon procura desmistificar a importância de suas letras para o seu deslumbrado visitante com um argumento muito curioso. Segundo ele, referindo-se a uma canção especifica, apenas se divertia com as palavras e a letra absolutamente não faz sentido algum, o que permite que tudo se encaixe.
Esse aspecto de sua sensibilidade e criatividade, que pode parecer excêntrica em um primeiro momento, mas é mais comum do que se imagina entre os letristas e compositores do rock, foi surpreendentemente investigada com grande e surpreendente precisão em um dos ensaios reunidos na coletânea Beatles e a Filosofia, já comentada nesse blog. Refiro-me a E É CLARO QUE HENRY, O CAVALO, DANÇA A VALSA:OS JOGOS DE LINGUAGEM NAS LETRAS DE JOHN LENNON by Alexander R. Eodice. Reproduzo parcialmente em seguida um fragmento muito elucidativo e instigante deste ensaio cujo a parte tem o sujestivo sub titulo de: SÓ DO QUE VOCÊ PRECISA É LINGUAGEM.

“Lennon ama a linguagem e adora outra sensibilidade- uma abordagem puramente lingüística- quando escreve suas letras. Ela é o principio visível em seus escritos não musicais e cômicos, principalemte em In His Own Write e A Spaniard in the Works, prosa e poesia absurdas e escritas em um estilo semelhante a Lewis Carroll, Edward Lear, e até certo ponto, Joyce em Finnegans Wake. Na breve introdução ao livro, Paul McCartney escreve”alguns tolos se perguntarão por que partes do livro não fazem sentido; e outros procurarão por significados ocultos... Nada aqui precisa fazer sentido, e se for engraçado, já é suficiente”.
Algumas letras de Lennon são simples e jocosos usos da linguagem que, de um ponto de vista literal, podem ser considerados um total absurdo ou tolice, mas que, de outra perspectiva, exibem os amplos e variados usos que podem ser dados à própria linguagem. Isso em si mesmo é um tipo de “jogo de linguagem”, que segundo Wittgenstein tem um certo poder sobre nossa imaginação, “ e que é marcante o fato de que imagens e narrativas fictícias nos dão prazer, ocupam nossa mente”. Há vários modos pelos quais a linguagem é usada e um uso importante e geral é para o prazer do sentido do absurdo que a própria linguagem retrata. Entendendo isso, também é possível entender alqgo que a principio parecia ser um “absurdo disfarçado”, um “total absurdo”. O autor que nos permite mover do sentido aparente de sua linguagem para seu total absurdo também deve ser hábil nesse jogo. Lennon é de fato esse tipo de escritor, cuja habilidade especial surge de seu aguçado senso do sentido da linguagem, pois apenas alguém que possui esse senso poderia criar uma grande ilusão de sentido.”

Alexander R. Eodice. E é claro que Henry, O Cavalo, dança a valça: Os jogos de linguagem nas letras de John Lennon. In Os Beatles e a Filosofia/coletânea de Michael Baur e Steven Baur; tradução de Marcos Malvezzi-SP: Madras,2007, p. 224-225

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