terça-feira, 1 de abril de 2025

DEPENDEMOS DE DINHEIRO

Dependemos de dinheiro 
 para atender as nossas necessidades,
 para satisfazer algumas vontades,
 ignorando a vida, o mundo,
 e a própria realidade. 

 Somos escravos do utilitarismo e do pragmatismo que nos consome, 
do Estado, do Mercado e do Trabalho 
que nos reduz a números. 

 Perdemos nossa dignidade,
 nossa potência de existir,
 persistir contra o tempo. 

Dependemos de dinheiro. 
Por isso, agora, 
todo mundo tem preço.

segunda-feira, 31 de março de 2025

DO CANSAÇO AO SILÊNCIO

Há um silêncio crescendo
dentro de todos os discursos.
Um silêncio que nasce 
do desgaste de todos os enunciados,
da indiferença e do descaso que nos inspira  os ingênuos defensores de qualquer verdade.

Estamos cansados do certo, do errado,
do simples e do complicado,
do caos, da ordem e do inexplicável.
Estamos cansados da permanente iminência de algum desastre.
Enfim, estamos cansados e queremos um pouco de paz e silêncio.

FALSA NOVIDADE

Aguardo uma falsa novidade, 
alguma gratuita e rasa alegria 
que me inspire a seguir em frente, 
a não desistir dos meus erros, 
ou abandonar minhas ruínas 

 Basta qualquer novidade,
 destas que enfeitam o tédio, 
que reforçam rotinas,
 inspirando a gente a continuar vivendo
 quanto o futuro é impossível 
e todos os caminhos levam a um deserto.

Aguardo uma falsa novidade que me mantenha na inércia de seguir adiante
quando em tudo falta sentido,
quando não há mais vontade
ou qualquer ilusão de liberdade.


quinta-feira, 27 de março de 2025

DESERÇÃO

Tenho buscado 
uma versão mais simples de mim mesmo,
 tentado não responder as exigências do mundo
 ou corresponder as expectativas dos outros. 

Mas, enquanto  imagino alternativas e futuros,
 o tempo muda tudo e, de repente, 
não sei mais o que buscar, 
o que querer ou pensar.
Parece que só  me resta sucumbir ao absurdo
e seguir surdo e mudo na contramão de tudo.


segunda-feira, 24 de março de 2025

A CONSCIÊNCIA DA ANGUSTIA


Sei a angustia de ser,
 de querer, pensar, 
fazer, acreditar e viver.

 Sei a angustia de estar 
dentro e fora do mundo, 
de me perder na existência
 e ardentemente desejar o nada
por pretender tudo
transcendendo, assim,
 a banalidade da imanência
através de um profundo
sentimento de impotência.

sábado, 22 de março de 2025

A VIDA ACIMA DE TUDO

É preciso que a vida
importe mais do que o poder,
do que os números da economia,
 bandeiras, guerras e ideologias.

Falo da vida em sua materialidade anarquica,
sem definições, princípios ou normas.
A vida acima do deuses, do Estado, 
da Razão e dos fatos .
A vida além do bem e do mal.

Apenas a vida, e nada mais que a vida,
que perpassa todos nós como enígma.

A VIDA COMO INCERTEZA

A vida é um Estado permanente de incerteza,
um estar sempre em mudança,
uma busca , uma angústia,
que nos devora através do mundo.

A vida é um inconformismo,
uma falta, uma esperança.
Ela é um esforço belicioso,
um combate com o tempo,
que estamos fadados a perder.

sexta-feira, 21 de março de 2025

A PIOR PARTE DE MIM

A pior parte de mim
é aquela que quer sobreviver
a qualquer custo.
Aquela que é capaz de tudo,
que se humilha, se submete,
se cala e se conformar,
por muito pouco,
a nossa inaceitável realidade.

A pior parte de mim
é aquela que tem medo,
que aceita ser uma escrava,
que não tem raiva,
que não se revolta,
nem tenta mudar
 ou quebrar o mundo.

A pior parte de mim
é aquela que se curvar a Deus e ao Estado,
que mansamente obedece
e se defende de tudo fazendo uma prece.

ELOGIO A DÚVIDA MAIS RADICAL

Só a dúvida nos  liberta
da prisão de uma convicção,
de uma verdade, de uma vontade,
que nos adoece,
que nos reduz a escravos 
de uma certeza absoluta.

Só  a dúvida nos liberta da fé,
da lealdade aos pastores,
da submissão aos rebanhos,
do fanatismo,
da magia da propaganda
e de toda superstição.

É preciso , sempre,
duvidar de tudo,
relativizar certezas
e estar sempre disposto
a abraçar o absurdo.

quinta-feira, 20 de março de 2025

CONTRA FILOSOFIA


Despido de convicções e verdades,
me faço corpo em movimento,
 transição e silêncio.

 Busco  alguma forma nova de expressão,
além da palavra e do gesto,
um ato inédito de transgressão,
que rasgue  as amarras da  simples Razão 
destruindo toda relação de poder,
destituindo toda forma de dominação, colonização e opressão.

Despido de tudo que é branco
e fede a Estado e Europa,
quero respirar liberdade,
provar  naturezas selvagens,
inventar o abismo de um novo mundo.

Quero inventar vertigens, simulacros,
contra a ilusão de progresso e civilizações.
Quero ressuscitar todos os deuses pagãos,
descobrir no céu novas constelações.