segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

REAL WORD



Algumas palavras



Dançam em algazarra,


Totalmente embriagadas,


No escuro palco


De um intraduzível pensamento.



Sei que nada


O fará legível


E, estas palavras,


Serão apagadas pelo silêncio


Do sono que a madrugada acorda.


Nunca dirão ao mundo


O estranho significado que guardam


Como o segredo e delírio


De alguma fantasia de viva verdade...

WORD IS FREEDOM

domingo, 24 de janeiro de 2010

SOBRE A FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA



Normalmente os manuais e compêndios de filosofia guardam um curioso e desafiador silêncio com relação à filosofia contemporânea ou, o que poderíamos denominar, em termos heterodoxos, como “filosofia do tempo presente”...

Ainda se sustenta uma imagem conservadora de filosofia que a vincula ao cânon dos grandes filósofos da Antiguidade, Idade Media e primórdios da modernidade, como Decartes e seus pares.
Mas ao longo do século XX, pensadores como Heidigger , Witgenstein, Bertrand Russel, Sartre, Jean Baudrillard, Donald Davidson, dentre muitos outros, de diferentes e diversas maneiras, procuraram dar respostas aquele difuso sentimento epocal de que nossas representações e codificações de mundo já não significam grande coisa e não fornecem subsidios relevantes a sustentação simbolica de nossa realidade vivida.
Pela primeira vez a filosofia recvonheceu o caos como imagem e possibilidade possivel do real humanamente construido e tentou estabelecer novas bases para o conhecimento e o saber aproximando-se, em algumas vertentes  da cultura laica do saber cientifico. Premissa clara, especialmete, no campo da filosofia da linguagem e da filosofia analitica .
Afinal, o que significa filosofia hoje?...

O LIMITE DA PALAVRA...

Palavra alguma me define



Entre os cotidianos discursos


Do pensamento...






Tudo que digo


Me escapa, ou distorce,


No irracional exercício


De existir imerso


Em caos e mundo...






O presente


É o único futuro


Que conheço,


Preenchendo


Com significados


Os vazios que me definem


No absoluto nada do mundo


Em imaginações de amanhãs...

sábado, 23 de janeiro de 2010

CANT'T BUY MY LOVE by JONATHAN GOULD II



Talvez a musica que lhe empresta o titulo revele o mais profundo significado do livro de Jonathan Gould sobre os Beatles lhe afastando da leitura simplista da beatlemania ... transformando a banda em arquétipo do mais profundo e contestador significado concreto da formula “amor” que a banda realizou em nossos imaginários ...



Can't buy me love, love


Can't buy me love


I'll buy you a diamond ring my friend


If it makes you feel all right


I'll get you anything my friend


If it makes you feel all right


'Cause I don't care too much for money


For money can't buy me love


I'll give you all I've got to give


If you say you love me too


I may not have a lot to give


but what I've got I'll give to you


For I don't care too much for money


Money can't buy me love


Can't buy me love


Everybody tells me so


Can't buy me love


No, no, no, no


Say you don't need no diamond ring


And I'll be satisfied


Tell me that you want those kind of things


that money just can't buy


For I don't care too much for money


For money can't buy me love


Can't buy me love


Everybody tells me so


Can't buy me love


No, no, no, no


Say you don't need no diamond ring


And I'll be satisfied


Tell me that you want those kind of things


that money just can't buy


For I don't care too much for money


For money can't buy me love


Ooh, can't buy me love, love


Can't buy me love, no




TRADUÇÃO


Não pode comprar o meu amor, amor


Não pode comprar o meu amor






eu lhe comprarei um anel de diamantes, Minha amiga


Se isso fizer você se sentir bem


Eu lhe darei tudo, minha amiga


Se isso fizer você se sentir bem


Pois eu não me importo muito com dinheiro


Porque dinheiro não pode comprar meu amor






Eu lhe darei tudo o que eu tenho para dar


Se você me disser que me ama também


Eu posso não ter muito para dar


mas o que eu tenho eu darei para você


Pois eu não me importo muito com dinheiro


Porque dinheiro não pode comprar meu amor






Não pode comprar meu amor


Todo mundo me diz isso


Não pode comprar meu amor


Não, não, não, não






Diga que você não precisa de anéis de diamantes


E eu ficarei satisfeito


Me diga que você quer aquelas coisas


que o dinheiro não pode comprar


Pois eu não me importo muito com dinheiro


Porque dinheiro não pode comprar meu amor






Não pode comprar meu amor


Todo mundo me diz isso


Não pode comprar meu amor


Não, não, não, não






Diga que você não precisa de anéis de diamantes


E eu ficarei satisfeito


Me diga que você quer aquelas coisas


que o dinheiro não pode comprar


Pois eu não me importo muito com dinheiro


Porque dinheiro não pode comprar meu amor


Ooh, não pode comprar meu amor, amor


Não pode comprar meu amor, não


CANT'T BUY MY LOVE by JONATHAN GOULD


A obra Cant’ Buy me Love : Os Beatles, a Grã Bretanha e os Estados Unidos, by Jonathan Gould, é um interessante esforço de compreensão do contexto histórico que permitiu a gênese e o se fazer dos Beatles como a mais singular e impactante banda de rock dos anos 60; fenômeno sócio cultural que formatou direta e indiretamente uma geração e mudou a linguagem da musica popular angro saxã de uma forma ainda hoje sem paralelos.





Apesar da narrativa mais descritiva do que propriamente analítica, este trabalho tem o mérito de entrelaçar biografia, critica musical e história cultural no mosaico vivo de uma leitura profunda da obra dos fabulours four que os torna uma imagem viva que, transcendendo seu próprio tempo, alcança o futuro de nós mesmos em múltiplas releituras e mágico encanto de atualizações e transformações...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O EGO SEGUNDO C.G. JUNG



Uma das premissas que considero mais interessantes para uma psicologia pós junguiana é aquela sugerida pela formulação de Jung sobre a natureza do ego. Para ele, como se sabe, o ego era um complexo dentre muitos outros, mas articulado a uma diversidade de processos psíquicos que o tornam centro do fenômeno da consciência. Ao mesmo tempo sua autonomia em relação as dinâmicas da psique objetiva e, até mesmo sua substancialidade, são fenômenos profundamente relativos...



“... A consciência do eu é um complexo que não abrange o ser humano em sua globalidade: ela esqueceu infinitamente mais do que sabe. Ouviu e viu uma infinidade de coisas das quais nunca tomou consciência. Há pensamentos que se desenvolvem à margem da consciência, plenamente configurados e complexos, e a consciência os ignora totalmente. O eu sequer tem uma pálida idéia da função reguladora e incrivelmente importante dos processos orgânicos internos a serviço da qual está o sistema nervoso simpático. O que o eu compreende talvez seja a menor parte daquilo que uma consciência completa deveria compreender.


O eu, portanto, só pode ser um complexo parcelar. Talvez seja ele aquele complexo singular e único cuja coesão interior significa a consciência. Mas qualquer coesão das partes psíquicas não é em si mesma a consciência? Não se vê claramente a razão pela qual a coesão de uma certa parte de funções sensoriais e de uma certa parte do material de nossa memória deve formar a consciência, enquanto a coesão de outras partes da psique não a forma. O complexo da função de vista, da audição, etc., apresenta uma forte e bem organizada unidade interior. Não há razão para supor quer esta unidade não possa ser também uma consciência. Como bem nos mostra o caso da surda-muda e cega Hellen Keller, bastam o sentido do tato e a sensação corporal para tornar possível a consciência e faze-la funcionar, embora se trate de uma consciência limitada a estes dois sentidos. Por isto eu acho que a consciência do eu é uma síntese de várias “consciências sensoriais”, na qual a autonomia de cada consciência individual fundiu-se na unidade do eu dominante.


Como a consciência do eu não abrange todas as atividades e fenômenos psíquicos, isto é, não conserva todas as imagens nela registradas, e como a vontade, apesar de todo o seu esforço, não consegue penetrar em certas regiões fechadas da psique, surge-nos naturalmente a questão se não existiria uma coesão de todas as atividades psíquicas semelhante à consciência do eu, uma espécie de consciência superior e mais ampla na qual o nosso eu seria um conteúdo objetivo, como, por exemplo, o ato de ver, em minha consciência, fundido, como esta, com outras atividades inconscientes em uma unidade superior. A consciência de nosso eu poderia certamente estar encerrada numa consciência completa, como um circulo menor encerrado em um maior.”


( C G JUNG. Espírito e Vida, in OBRAS COMPLETAS DE C.G. JUNG. Volume VIII/2 “A Natureza da Psique/ tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha. Petrópolis: Editora Vozes, 3° ed, p. 266 )

O VAZIO DO OUTRO...



Nada encontro



Nos olhos do outro


Além do múltiplo


Acontecer de si


Na caótica diversidade


Do existir humano...






Somos todos


A soma dos muitos


Dentro de nós


Na indeterminada


E cega busca


De um rosto


Que nos ensine


O elementar da vida


Enquanto desaprendemos


Quem somos...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

MUSIC AND REAL...

Sigo no sentido do vento



O mágico acontecer


De uma melodia


Que me ensina


O falso da alma


Do meu acontecer


Em mundo...


Sei que tudo é mera ilusão


E busca


Do inatingível


De mim mesmo...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O PENSAMENTO COMO ELEMENTAR FANTASIA...



O que nos faz humanos não é o que sentimos, mas o que pensamos...



&


Pensar é um modo de se afastar das coisas apenas para recuperá-las como “realidade vivida”.


&


A palavra é o corpo do pensamento. Mas, em nosso cotidiano, quase não dizemos nada através delas..


&


O saber cientifico é a didática do pensamento traduzida em reflexão e ambigüidade da consciência...


&


Um abismo separa o ato de acreditar do cético desafio de pensar...


&


Toda criação do pensamento é uma fecunda realização de imaginação criadora...


&


A idéia de natureza foi para a modernidade a mais importante fantasia do pensamento...





segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

MY LIFE...



Já aprendi que a vida



Não leva além


Do efêmero e incerto momento


De estar vivo;


De lidar com o medo,


O tempo,


O riso e a lágrima


Dentro do limitado


E passageiro nada


De uma existência...

DONT’T BE CRUEL...

memory of future...

Memórias



São como sonhos


Que nos observam


De longe


Quando nos perdemos


Dentro de nós mesmos


Resgatando qualquer sentimento


De paz e felicidade


Que nunca tivemos


Mas se realiza como fato perdido


Na efêmera ilusão de um devaneio...


Assim nascem nossas pueris ilusões


De futuros possíveis


E quase perfeitos....



sábado, 16 de janeiro de 2010

APOLOGIA AO CELEBRO HUMANO...



O celebro é o grande objeto que nos faz sujeitos; a quintessência da humanidade; o passado e o futuro de todas as possibilidades humanas. Ou, ainda, simplesmente, a elementar essência da própria condição humana.



Ele é nossa única “realidade”... o começo, o meio e o fim de todas as coisas...

IMPERATIVO DO ACASO...



Apenas



O acaso e o caos


Condicionam


O acontecer das coisas.


Nada de humano


Define a natureza.


E mesmo assim


Nos iludimos


Com nossos supostos propósitos


E objetivos


Como se qualquer coisa


Dita ou sentida


Pudesse transcender


O amargo gosto de nada


Que todo possível inspira

no além da deusa fortuna...

ANATOMIA DO ACASO COMO TEMPORALIDADE VIVIDA



O dia dito no calendário não é idêntico aquele que vivemos sem direção precisa através do calendário, dos relógios e rotinas. Na verdade, não temos se quer consciência de tudo aquilo que ocorre no intervalo de 24 horas dentro e fora de nós afetando e condicionando tudo o que somos.



O segredo da liberdade é que ela é o surpreendente produto da soma de ilimitados determinismos que nos ultrapassam e realizam na exata medida em que os ignoramos e nos ignoram...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

FREE AND FOOL...



Faz muito tempo



Desisti de ser


O que as pessoas


Esperavam de mim...


Mas ainda não me tornei


Eu mesmo,


Perdido em impasses


Entre desejos, fantasias,


Sonhos, medos, ansiedades


E miragens de futuros...


Tudo que por agora


Me define


É um apagado esforço


No interior do vento


Que corre no acontecer


De um pássaro ainda em esboço...

free and fool
NOW... 


PROVERBIOS INGLESES PARA USO DIÁRIO...



"O glutão cava seu túmulo com seus dentes."



"O gato tem nove vidas: três por jogar, três por vaguear, três por ficar."


"Se os sábios não se enganassem, a vida seria difícil para os tolos."


"Os pequenos barcos não devem afastar-se da margem."


"A riqueza pode vir até nós, mas a sabedoria, temos de procurá-la."


"Coma, beba e fique feliz pois amanha morreremos."


"Muito para o leste, já é oeste."

Origem: Wikiquote, a coletânea de citações livre.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

HOUSE AND FILOSOFHY



Pode-se dizer que House é um tardio e rebelde discípulo de Shopenhauer. Mas a verdade é que ele nos oferece uma nova “filosofia do sofrimento” que se distancia de qualquer influencia romântica ou ascética. House é como uma espécie de Shopenhauer pós moderno que nos faz pensar sobre a complexidade da racionalidade contemporânea e a individuação como o mais viável de todos os princípios de vida. Isso é o mesmo que dizer que superar nossas representações de mundo é uma delicada opus niilista e uma reinvenção do saber cientifico...

SCHOPENHAUER: ENTRE A VONTADE E O NADA


Vinculada ao idealismo transcendental de inspiração kantiana, que pressupõe a realidade fenomenológica como uma representação subjetiva, a filosofia de Arthur Shopenhauer é, como se sabe, uma filosofia da vontade, vista como esencia da subjetividade e do eu.

Trata-se aqui de uma vontade universal e abstrata diante da qual o finito e limitado individuo humano mergulha nas “dores do mundo”. Há no pensamento de Shopenhauer um vinculo profundo entre vontade e sofrimento que lhe fez por merecer a alcunha de filosofo do pessimismo. Entretanto, não é propriamente o sofrimento que este autor nos ensina, mas a objetivização da vontade e a onipotência dos instintos como caminho para o essencial da experiência humana: O NADA que transcende a ingenuidade do mero “querer viver”...

domingo, 10 de janeiro de 2010

ESPECULAÇÕES SOBRE O TEMPO



A relação entre o presente e o passado constitui um estranho e cotidiano paradoxo. Afinal, a experiência do tempo presente pressupõe o passado imediato como uma tênue e incerta fronteira entre o agora e o antes. É impossível separar o acontecer de um do acontecer do outro. Entretanto, o presente permanece irracionalmente como o singular momento do sempre igual do novo em concreto e indeterminado devir...



Somente no presente a vontade manifesta-se como uma relação concreta com os objetos e coisas, nos fazendo sujeito e objetos de nós mesmos imersos em matéria, espaço e tempo...


Mas o próprio tempo é relativo... incerto e fugidio...

SOBRE A IGNORÂNCIA...

O que nos torna quem somos não é propriamente o caótico e pequeno universo de nossas convicções pessoais, memórias ou imagens subjetivas de mundo. Mas justamente tudo aquilo que ignoramos e desconsideramos em nossas opções e se faz parte do fundamental vazio de nossos sonhos e pesadelos de identidades e verdades eletivas.



Em poucas palavras, tudo o que pensamos ou concebemos sustenta-se sobre uma elementar e estrutural ignorância...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

EROS IN MY LIVE



Eu amo teu vulto


 Desfilando

 Na imaginação de minhas almas.

  
Amo a vontade

 Que escreve teu nome

 Em meu pensamento

 No grito anônimo

 Do insano querer do amor.

  
Amo o contraditório desejo

 Que te faz tempo e espaço

 De mim mesmo...

 

 Amo sem querer amar,

 Até me perder no fato injusto

 De te querer

 Em patético desespero

 E ilusão de mim mesmo...

 

 

 

ALONE...



A solidão tem a forma

Dos nossos sonhos
E buscas.
Não se justifica,
Nem se impõe.
Apenas acontece
No viver das coisas
Ao sabor do vento,


Ou sob o encanto
De uma musica anônima e anímica.
A solidão
É um modo
Para dizer
A nós mesmos
Quem somos
No profundo da finitude
E individuação.

I ME MINE...



segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O SONO DA VIDA

A vida dorme

Na hora que passa
Em passados de noites
E esperanças.


Sou menos de um terço
De mim mesmo,
Vazio de mundo e certeza
Adivinhando mudo
A esperteza de sortes
E acasos....



MESMICES DE ANO NOVO



Novidade alguma

Da significado aos clichês
De novo ano
No eterno retorno
De mim mesmo no tempo vivido...

O novo é o sempre igual
De qualquer versão mais complexa
Da soma louca das coisas que me definem.
Nada faz sentido
No ocorrer do tempo
Que intimamente me definha
Nas ilusões de mundo...

domingo, 3 de janeiro de 2010

TEMPORALIDADE E DEVIR...

A vida dorme nas horas

Que passam,
Quase não se percebe
Em seu acontecer vazio
E breve...


Apenas o tempo
Me ensina as coisas
No pragmático imediato
Das cotidianas imanências...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

REPENSANDO O NATAL

Celebração de origem pagã vinculada ao hemisfério norte, incorporada pelo cristianismo durante a Idade Media em franco exemplo de sincretismo religioso, o natal vem hoje em dia cada vez mais se desprendendo de suas formatações tradicionais/religiosas e transformando-se em um apêndice do reveillon enquanto rito de passagem e reminiscência de uma experiência da temporalidade cíclica de viés mitológico.

Em outras palavras, o natal vem se secularizando nos últimos anos, perdendo sua roupagem religiosa/mitológica para converte-se em uma experiência cada vez mais concreta e menos ritualistica.
Avesso a data, a excitação e caoticidade que definem este período final do ano nos grandes centros urbanos, vejo com bons olhos esta tendência a uma reinvenção espontânea da experiência natalina e, para minha surpresa, de alguma forma, percebo que não estou sozinho em tal perspectiva reformista.
Prova disso é o pequeno ensaio do historiador Boris Fausto publicado no caderno MAIS da Folha de São Paulo no último domingo ( 20/12) intitulado muito sugestivamente “Natal fora de tempo”, em referência ao seu reformismo natalino.
Parafraseando o autor, o natal se caracteriza, como outras comemorações, por um traço negativo, em grau mais elevado do que as outras: a celebração obrigatória e com data marcada. Considerando a tendência cada vez maior para metamorfoses do rito natalino, talvez um dia seja possível escalonar o natal ao longo do ano autorizando cada indivíduo à escolher seu mês favorito de natal diluindo os indesejáveis tumultos de fim de ano.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

ALAN LIGHTMAN E O FISICO COMO ROMANCISTA


Hoje em dia, um cada vez maior numero de cientistas escrevem para o grande público. O que é um fenômeno realmente interessante, considerando a complexidade de muitos temas divulgados diante de nosso conservador senso comum.

Um bom exemplo disso é a coletânea O FUTURO DO ESPAÇO TEMPO inspirada pela celebração denominada Kripfest, no Caltech, ocorrida em junho de 2000 em comemoração dos sessenta anos do físico Kip Thorne.

A lista de palestrantes do evento contou com nomes de peso como o do britânico Stephen Hawking e do cientista de vanguarda Alan Lightman, autor de obras de divulgação como SONHOS DE EINSTEIN .

Fugindo de temas espinhosos como viagens no tempo e buracos negros, que perpassam os textos da coletânea, quero aqui comentar justamente sobre a contribuição deste último autor citado através de seu ensaio O FISICO COMO ROMANCISTA. Neste, Lightman busca estabelecer as diferenças e afinidades entre as linguagens artística e cientifica de forma realmente interessante e provocativa.

Segundo ele, físicos e romancistas são igualmente movidos por uma compulsão irracional e inspirados pela estética.
Partindo desta premissa, o autor assim nos configura o processo criativo tanto nas artes quanto nas ciências:

“ Uma experiência que os físicos e os romancistas possuem em compartilham, uma experiência verdadeiramente extraordinária, é o momento de criação.
Todos sabemos que uma grande parte das atividades dos cientistas e dos artistas não é especialmente criativa: desenvolver os detalhes de um calculo, verificar a lubrificação do selo de uma bomba de vácuo, pesquisar o ambiente para um romance, aplicar o tom de fundo de uma pintura. Mas, há outros períodos, que podem durar apenas alguns segundos, ou algumas horas, em que ocorre algo diferente, quando o cientista ou o artista ficam possuídos pela inspiração e acho que a experiência, neste caso, é bem similar.”
(...)
Que belo e estranho paradoxo da criatividade, esse que nos faz mergulhar profundamente dentro de nós mesmos para criar algo, recorrendo as coisas mais pessoais e intimas, e ao mesmo tempo separar-nos completamente de nós próprios no processo. Quando estou escrevendo, esqueço onde estou e quem sou. Torno-me puramente espiritual; misturo-me com os outros espeiritos que crio. Na minha percepção, esses são os momentos em que um ser humano mais se aproxima da eternidade. São os meus momentos de maior felicidade.”

(Alan Lightman. O físico como romancista. In O Futuro do Espaço Tempo/ Stephen W. Hawking... ( et al.): introdução Richard Price/tradução Jose Viegas Filho-SP: Companhia das Letras, p. 197- 198)



Difícil não perceber aqui o quanto, do ponto de vista daquilo que, na falta de melhor e mais digna palavra, chamamos de “espiritual”, domínio próprio das lógicas discursivas de inspiração religiosa, realiza-se plenamente como algo inerente a condição humana sem o peso de discursos e premissas metafísicas ou teológicas...


A verdade é que tanto físicos e artistas devem muito a imaginação criadora em sua inventiva busca de “verdades”.


Mas, como também nos alerta este fantástico ensaio, cientistas e artistas se distanciam na construção pessoal de suas linguagens próprias: O cientista, por regra geral, procura nomear, conceitualizar, as coisas na mesma medida em que, um literato, por exemplo, busca evitá-lo.

Fato que não impede que ambos, já muitos distantes de qualquer dogmatismo ou noção tradicional de verdade de inspiração metafísica, se aproximem novamente diante da irracionalidade radical que sustenta nossa experiência de mundo na construção de iuma nova experiência de racionalidade:



Como fui treinado nas ciências e nas varias maneiras de dar nome às coisas, enfrentei, na qualidade de escritor ficcionista, uma luta constante. O grande duelo da minha vida literária, e da minha vida como um todo, deu-se na tensão entre o racional e o intuitivo, o lógico e o ilógico, o certo e o incerto, o linear e o não linear, o deliberado e o espontâneo, o previsível e o imprevisível.

Vivo essa tensão sob a forma de uma constante torção do estômago, quando estou consciente do meu corpo, e sempre como uma comoção mental. Aprendi a viver com este desconforto. Ele pode até mesmo ser uma fonte de força. Com o tempo, passei a crer que tanto a certeza quanto a incerteza são necessárias no mundo. Talvez esta seja uma idéia obvia para a maioria das pessoas, mas ela não é facilmente reconhecível para alguem que foi treinado nas ciências.”



( Idem, p.189-190)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

CRIANÇA DO SOL



Tenho saudades do azul
Do céu da infância;
Das horas de pouca realidade
Em que existia no prazer das coisas.

 
Tenho saudades dos eus
e imaginações
que em segredo habitavam a casa e o quintal.

 
Para se estar vivo é necessário um existir criança.




CELTIC POEM



Nada é digno de ser dito

Dentro do tempo
Que cria
A indeterminação
E finitude de todas as coisas
Como um caprichoso deus dos acasos...

Sei que lá fora,
As horas correm
Em busca do onipresente nada
Livres do peso
De qualquer significação,
Sentimento ou sentido.

Por isso,
Procuro apenas
Surpreender-me outro,
Alguém livre de si mesmo,
Na absurda canção
Cantada em um sorriso cético
E céltico....

“I am mysey but vile link
Amidlife’s weary chain”

domingo, 20 de dezembro de 2009

CITAÇÃO ALEATÓRIA SOBRE A IMAGINAÇÃO CRIADORA INSPIRADA EM BACHELARD



“ O encadeamento das imagens e suas relações mútuas foram evidentemente apresentados como gratuitos e incoerentes. Ao contrário, para Barchelard, as imagens obedecem a uma lógica, ou mais exatamente a uma dialética e a uma rítmica, que não tem nada a invejar às do conceito. O imaginário é dotado de uma autonomia, de uma consistência, que permite retirar propriedades gerais e coerentes de um mundo e de determinar leis de uma física onírica, as imagens estando submetidas a um verdadeiro “determinismo”. Em um sentido, o real está bem mais submetido à contingência do que o irreal. Se Bachelard opta por um idealismo da imagem contra um realismo que conduziria a fazer das imagem um duplo empobrecido do percebido, ele aplica paradoxalmente um realismo ao mundo da imagem, que comporta então uma dimensão transcendental em relação ao sujeito. A imaginação, mesmo nos liberando do real, não procede anarquicamente, porque ela obedece a processos regrados, que Barchelard expôs de maneira empirica e disseminada, sem nunca retomá-las em uma verdadeira ciência do imaginário. Podemos tirar, portanto, de um lado, leis sintáxicas e, de outro, princípios semânticos.”



( Danielle Perin Rocha Pitta. Iniciação a teoria do imaginário em Gilbert Durand. RJ: Atrantica Editora, 2005 ( coleção filosofia), p. 51. )







O MITO DE MERLIN SEGUNDO ROBERT DE BORON

Quero aqui recorrer a um curioso mito medieval que personifica de modo ímpar a coincindentia oppositorum. Refiro-me a figura enigmática de Merlim. Em todas as épocas os poetas e os artistas expressaram de modo privilegiado as questões decisivas da vida coletiva. Muitas vezes denunciando, mesmo que involuntariamente, suas contradições mais veladas e as principais transformações em curso no Inconsciente Coletivo. A literatura européia do século XII não é exceção. Assim como a alquimia e os movimentos heréticos surgidos na mesma época em toda a Europa, a literatura inspirada pela chamada “matéria da Bretânea”, através da figura de José de Arimatéia, dá continuidade ao desenvolvimento do mito constelado, esboça uma reinterpretação do messianismo cristão que aponta para seu desdobramento.

A personagem de Merlim fez sua primeira aparição na literatura ocidental através da obra do clérigo galês GEOFFREY DE MONMOUTH (1100-1155). Por volta de 1135 surgem as PROPHETIA MERLINI, posteriormente incorporadas a HISTÓRIA REGUM BRITANNIAE (1136). Em 1148 aparece a VIDA MERLINI cuja a autoria, embora discutível, também é atribuída a GEOFREY. Foi por intermédio de sua obra que Arthur, até então um folclórico chefe guerreiro que se destacara no combate aos invasores saxões durante o século VI, converteu-se em um poderoso monarca comparável a personalidades como Alexandre, o Grande, e Carlos Magno. Uma das fontes das quais GEOFREY se valeu para a composição de sua obra foi certamente a HISTÓRIA BRITTONUM de NENNIUS DE MÉRCIA, mas muito pouco se pode falar sobre as referências literárias e folclóricas que inspiraram o autor. Curiosamente, a preocupação relativa e poética com dados históricos ou seculares de suas obras contradiz uma característica dos continuadores da dita “matéria da Bretânha”, ou seja, a intemporalidade dos personagens e seu universo vívido. Essa peculiaridade lhe distancia das canções de gesta ou de outras composições medievais como a anônima CANÇÃO DOS NIBELUNGEN ou a CANÇÃO DE ROLAND.

A HISTÓRIA REGUM BRITANNIAE é pouco depois do seu aparecimento na Inglaterra traduzida para o francês pelo normando WACE DE JERSEY sob o título de ROMANCE DE BRUTUS. A tradução apresenta alguns elementos inexistentes no original como, por exemplo, a primeira menção a mesa redonda de Arthur. Ao longo dos séculos XII e XIII, a partir da Inglaterra e especialmente da França, cria-se e divulga-se pelas cortes da Europa toda uma literatura que transforma e aperfeiçoa a crônica, recriando as lendas folclóricas da antiga Bretânha perpetuadas pela tradição oral.

O mais significativo literato que, depois de GEOFREY DE MONMOUTH, ocupou-se da chamada “matéria da Bretânea” foi o francês CRISTIEN DE TROYES em cuja a obra, porém, a figura de Merlim aparece de modo velado na imagem de misteriosos eremitas que surgem significativamente no caminho dos cavaleiros de Arthur durante suas andanças e aventuras. A associação definitiva entre Merlim, a Távola Redonda e a lenda do Graal, pelo que se sabe até o momento, foi estabelecida por um outro francês chamado ROBERT DE BORON. Sua obra, ao contrário da de CRISTIEN, é de cunho claramente teológico, justapõe a imagem do profeta de origem misteriosa a imagem do santo Graal criando entre elas uma unidade enigmática. É justamente a partir do MERLIM de ROBERT DE BORON, escrito entre duas outras obras, JOSÉ DE ARIMATÉIA e PERCIVAL OU A QUESTÃO DO SANTO GRAAL , que pretendo tecer minhas considerações.

Em linhas gerais, estou inteiramente de acordo com a leitura de MARIE LOUISE VON FRANZ que vê na dualidade da origem de Merlim, filho do diabo e de uma virgem pura temente a Deus, a concidentia oppositorum que o faz portador do princípio da totalidade de modo muito similar ao mercúrio alquímico. Este fato torna-se mais compreensível quando associado ao drama do velho rei pescador. Na leitura da citada autora, o rei moribundo do Graal, representa a atitude cristã envelhecida. Sua ferida na coxa, na região genital, alude ao problema da natureza e da sexualidade não solucionado pelo cristianismo e ao estado de dissociação característico da consciência cristã frente a repressão dos conteúdos anímicos personificados pelo imaginário pagão. Merlim parece atuar no sentindo da superação da unilateralidade do ideal de espiritualide cristão mediante a imagem do Graal como personificação de uma nova totalidade que se insinua de modo contraditório e misterioso no imaginário medieval.

Na interpretação de EMMA JUNG , o obscuro profeta dos tempos de Arthur, é um ser luciferiano, semelhante a mefistófeles, um representante do “intelecto in statu nascendi”, uma personificação viva do logos e, simultaneamente, portador da numen naturae enquanto um deus de duas faces análogo a Hermes ou ao mercurius duplex da alquimia. O Merlim de ROBERT DE BORON realiza esta ambigüidade de modo realmente exemplar. Ele estabelece sobre o mito cristão uma interpretação distinta e complementar a dos evangelhos canônicos e da Igreja. Merlim usurpa assim, mesmo que veladamente, o lugar de cristo como mediador entre o homem e Deus. Coisa que ele mesmo confessa:

“...E farei tantas coisas e falarei tanto, que me tornarei o ser mais ouvido nesta terra, depois de Deus”



Além disso, como esclarece ao eremita Blaise, que “mete por escrito” a lenda do Graal:

“...Entretanto este livro não estará revestido de autoridade, porque o senhor não tem autoridade, visto que não pode ser um apóstolo. Os apóstolos não meteram em escrito senão o que viram e ouviram de Nosso Senhor, ao passo que o senhor, o faz é meter no livro o que viu e ouviu por meio de mim. E assim como eu sou obscuro para as pessoas a quem não quero esclarecer, assim seu livro será cheio de segredos e poucos haverá que os desvendarão.”



Este caráter obscuro e ambíguo de Merlim marca toda a narrativa. Filho de um incubo e de uma virgem, anunciado por um concílio de demônios, instrumento da vingança dos mesmos contra os profetas que anunciaram a vinda de Cristo, Merlim descarta, entretanto, a possibilidade de uma regressão ao paganismo e realiza, por intermédio da obra do Graal, um caminho alternativo de redenção que tem como centro a Távola Redonda. O segredo do Graal, nesta versão associado as palavras trocadas entre Jesus e José de Arimatéia, em momento algum é revelado. Como podemos ler em a A LENDA DO GRAAL de EMMA JUNG e MARIE LOUISE VON FRANZ:

“Palavras secretas de algum tipo aparecem em todas as versões da lenda do Graal. A pergunta tão essencial que o buscador tem que fazer ao rei doente e cuja omissão acarreta o novo desaparecimento do Graal é uma outra forma de dizer a mesma coisa. “



O Graal representa, no texto de ROBERT DE BORON, um aspecto da trindade que penetra na matéria terrena estabelecendo uma ponte para a solução do problema dos opostos e do Mal. Neste sentido ele é, como o próprio Merlim, símbolo da coicidentia oppositorum, e, ao mesmo tempo, uma consciência exteriorizada e projetada, algo bastante semelhante ao que no primeiro milênio da era cristã era identificado com o Espirito Santo e a nova era que este inauguraria a partir do segundo milênio.

Além das palavras misteriosas trocadas entre Jesus e José, existem outras imagens obscuras na obra. Uma das mais decisivas é a do assento perpetuamente vazio à Távola Redonda. Associado ao lugar de Judas na santa ceia ele só pode ser ocupado pelo cavaleiro do Graal que, desta forma, muito se assemelha a um novo messias. Nesta imagem revela-se o mais decisivo conteúdo da versão cristianizada da lenda, ou seja, o significado escatológico do cálice sagrado enquanto portador da solução do drama divino cristão.

EMMA JUNG e MARIE LOUISE VON FRANZ oferecem uma fecunda interpretação da lenda que nos permite melhor entender sua tragicidade inegável: Como a sociedade medieval não era capaz de solucionar o problema da coicidentia oppositorum, a narrativa permaneceu inacabada e o Graal, assim como Merlim, desapareceu do mundo, em conseqüência, a Távola Redonda dissolveu-se de forma dramática. Cabe, entretanto, observar que Merlim é o próprio conteúdo do recipiente do Graal (que também é um túmulo!). Em linguagem psicológica, tratar-se-ia de uma personificação da busca pela realização do principium individuationis.

Quanto ao cavaleiro do Graal, se Deus se fez homem através de si mesmo por intermédio da mítica figura de Cristo, Percival é um novo portador da luz que deve tornar possível a transfiguração do universo pelo espirito humano. Em outras palavras, cabe-lhe realizar, através do espirito do homem, aquilo que deveria ser realizado por Cristo através do espirito de Deus. Ocupar o assento perigoso, o lugar de Judas, talvez corresponda justamente a expectativa de um novo messias, secular e humano, cuja a nova consciência redima a humanidade de todo sofrimento. Trata-se, desta forma, da gestão de uma nova imagem do homem coletivo, do Antrophos, que dê continuidade a “missão” do “filho do homem”.

Mas é curiosa a distância existente entre Percival, o buscador da totalidade e, portanto, herói cristão, e Merlim, o filho do diabo e portador da própria totalidade. Como ser de origem antagônica, dotado de talentos divinos e diabólicos, Merlim é na verdade o homem original a ser liberto, o arquétipo do Antrophos, enquanto Percival é aquele que busca encontrar sua “salvação” ou a superação do estado de dissociação. Ignorado em muitas versões da lenda Arthusiana, Merlim permanece ausente das peregrinações de Percival sendo curiosamente difícil deduzir qualquer relacionamento mais concreto entre estas duas personagens chaves da lenda.

A resposta ao problema do Graal parece ter sido esboçada pela literatura alquímica que, de muitas formas, representa a aurora das ciências modernas, do incomparável desenvolvimento técnico científico através do qual o homem contemporâneo substituiria a Deus no domínio da natureza e de suas energias.

O inacabamento do mito em nada prejudica a realização de Merlim enquanto profeta que parece, aliais, transcender a própria Távola Redonda. Recusando toda forma de poder e questão mundana, como sugere a versão mais popular da lenda, ele se entrega totalmente ao princípio de Eros através dos braços de Vivianne ou a dama do lago, personagem inspirada na deusa celta das águas, Muirgen. Seu destino ilustra de forma significativamente poética o humano desejo de completude e virtude acima das atrocidades, confusões e contradições do mundo. Por outro lado, mediante sua ambígua natureza que lhe permite o domínio tanto do passado quanto do futuro, Merlin, personifica o ideal do historiador que, na máxima de HEINE, é um profeta que olha para trás.