domingo, 20 de dezembro de 2009

O DEUS OBSCUNDITUS OU A TOTALIDADE NÃO REVELADA

CAPÍTULO X:


O DEUS OBSCUNDITUS OU A TOTALIDADE NÃO REVELADA

Nas conclusões finais da sua hermenêutica psicológica do dogma trinitário JUNG interpreta o símbolo da trindade divina como o indício de um processo secular de tomada de consciência ou, mais precisamente, a constelação de um arquétipo que se manifesta em três etapas que podem ser consideradas como um amadurecimento inconsciente em curso na psique coletiva.

Segundo ele,

“as três pessoas divinas são personificações das três fases de um acontecimento psíquico regular e instintivo, que tem uma tendência a expressar-se sempre sob a forma de mitologemas e através de costumes rituais , como p. ex. nas iniciações de puberdade e da vida masculina, nas ocasiões de nascimento, de casamento, de doença e de morte”



Em linhas gerais, portanto, a trindade é a manifestação gradual de um arquétipo cuja a imagem, durante o primeiro milênio cristão, foi traduzido antropomorficamente mediante a figura do Pai, do Filho, vida e pessoas diversas (Espirito Santo). Em termos psicológicos, podemos defini-la como uma presença psíquica extra consciente, isto é, uma presença coletiva sustentada por um poderoso consenso ou fascinosum que inrompeu na consciência humana em dado momento histórico. Um de seus paralelos pagãos é a trindade composta por Krisnha, Visnhu e Shiva, que também personificam três faces de uma só substância, ou a tríade dos grandes deuses mesotopâmicos constituída por An (céu), En- Lil (deus da atmosfera) e En Ki (senhor da terra).

No caso específico da trindade cristã, o processo trinitário intra-divino é antes de tudo a representação ideal e abstrata de um relacionamento Pai e Filho onde o primeiro se transforma no segundo na experiência de uma dissociação ontológica. O momento do Pai é o da indiferenciação primordial, da unidade de todas as coisas. O momento do filho, por sua vez, é o momento do antagonismo e da reflexão expressa não só pela autonomia em relação a figura do Pai, como também pela obscura relação com um adversário, o Diabo, que, de muitos modos, é similar e complementar a ele. O Espirito Santo, o terceiro termo, aparece neste contexto como um elemento de conciliação e superação da dualidade Pai e Filho, oferecendo ao drama uma possibilidade imprecisa de desdobramento. Cabe observar que o Espirito Santo é também, simultaneamente, quem gera o Filho no lugar do Pai e posteriormente o substitui entre os homens como parácrito universal. O Espirito Santo compreende portanto a plenitude do drama trinitário e corresponde a um estado mais consciente da humanidade em relação a divindade cristã ou, em termos psicológicos, ao Self.

Mas o que, afinal, essa imagem trinitária, e especialmente a figura de Cristo, significa do ponto de vista da totalidade psíquica? A teologia não apresenta respostas satisfatórias para tão pertinente interrogação, do mesmo modo que não resolve o problema do mal e outras questões correlatas de singular importância psicológica. Por outro lado, qualquer resposta unívoca, pretenda-se religiosa ou científica, seria evidentemente limitada dada a complexidade deste tema antes de tudo de natureza simbólica.

Não é difícil identificar similaridades entre Cristo, Mitra, Hércules Dionísio, Orfeu, Horus, Buda, dentre outros, a partir do modelo arquétipico da criança divina e do mito do herói civilizador. Caso se considere o peso da herança do monoteísmo e escatologia judaica sobre o desenvolvimento do Cristianismo, pode-se dizer que as contradições da imagem de Javé, principalmente seu lado tenebroso e digno de temor, conduziram, através de uma releitura do messianismo hebraico, a uma transformação da imagem divina expressa pela fragmentação do deus uno em três pessoas distintas condicionadas ao binário masculino Pai/Filho.

Ambos os esboços genealógicos não oferecem caminhos muito promissores para uma explicação satisfatória do Cristianismo enquanto fenômeno psico-histórico. O significado mais profundo do mito cristão permaneceu nestes dois mil anos profundamente obscuro. No EVANGELHO APÓCRIFO DE MARIA MADALENA, por exemplo, encontramos referências bastante curiosas à Cristo. O conhecimento do que está oculto na divindade (a gnose de Cristo) é colocado por Madalena nos seguintes termos:

“Eu, disse ela, tive uma visão do senhor e contei a ele. ‘Mestre, apareceste-me hoje numa visão’ Ele respondeu e me disse: ‘Bem aventurado sejas, por não teres fraquejado ao me ver. Pois onde está a mente há um tesouro.’ Eu lhe disse:’ Mestre, aquele que tem uma visão vê com a alma ou com o espirito? O salvador respondeu e disse: ‘Não vê nem com a alma nem com o espirito, mas com a consciência que está em ambos – assim é que tem a visão (...)



Na presente definição de gnose a mente e a consciência aparecem em posição privilegiada frente à alma e o espirito enquanto receptáculo da “revelação” da divindade. Além disso, insinua-se no texto, uma paradoxal valorização metafísica da natureza física. O fragmentário evangelho apócrifo inicia-se , afinal, com a seguinte descrição da natureza fundada na imagem do uno :

“O salvador disse: “Todas as espécies, todas as formações , todas as criaturas, estão umas nas outras, em dependência mútua, e se separarão novamente em sua própria origem, Pois a essência da matéria somente se separará de novo em sua própria origem. Pois a essência da matéria somente se separará de novo em sua própria essência .”



Esta unidade inalienável da matéria que se manifesta em todas as coisas é ao mesmo tempo questionada pelo seu aspecto sensual, que funciona como uma espécie de negação ou segundo termo de si mesma, pois,

“A matéria produziu uma paixão, que se originou de algo contrário a natureza. A partir daí todo o corpo se desequilibrará.”



A alegoria da ascensão da alma ao reino eterno que constitui o tema central do evangelho surge neste contexto como um retorno a unidade primordial da natureza e uma superação da paixão anti-natural gerada pela matéria. A seguinte fala atribuída a alma é, neste sentido, bastante sugestiva:

“Não fui reconhecida, mas reconheci que o todo está se desfazendo, tanto as coisas terrenas como celestiais.”



A intervenção de Cristo, de algum modo não muito claro, é associada a uma compensação deste impulso de desintegração da unidade natural. Tal tese aparece de forma mais clara nos ATOS DE JOÃO onde a quaternidade da cruz (matéria) em que Cristo é crucificado ganha uma conotação simbólica que supera a interpretação da crucificação como fato histórico e concreto:

“A cruz da unidade de todas as coisas não é a cruz de madeira e nas palavras de Jesus: ‘Fui tomado pelo que não sou, não sendo o que eu parecia ser para muitas pessoas. Ao contrário; o que dirão de mim é vil e indigno de mim’.”



O oblívio (inconsciência) do significado de Cristo é uma tese recorrente aos textos gnósticos. No caso dos ATOS DE JOÃO a recusa da crucificação associa-se a imagem de um cristo transcendente e imaterial que não se confunde com Jesus. Esta espiritualização absoluta da divindade que desce a realidade inferior da matéria expressa a idéia de um princípio estranho ao mundo que apontando para além dele revela sua própria natureza sem , entretanto, revelar a si mesmo completamente. Recorrendo novamente ao texto:

“O que és, vês porque te mostrei, mas só eu sei o que sou e ninguém mais.”



Enquanto logos, Cristo é uma substância obscura que comunica o arquétipo da coniunctio ou casamento entre psique e matéria. Esta idéia norteia tanto os ATOS DE JOÃO quanto o EVANGELHO DE MARIA MADALENA. Mas, como já afirmei no capítulo precedente, Cristo representa apenas metade do arquétipo da totalidade, sendo a outra metade representada pelo diabo. Tal como Cristo, ele desce ao mundo inferior da matéria e dos homens. Não o faz, entretanto, diferenciando-se da imagem do Pai mediante a incarnação por intermédio de uma virgem, mas confundindo-se totalmente com o mundo material, o que o distancia da sua natureza divina ou espiritual. Neste sentido, o diabo está mais próximo do homem do que cristo e, ao mesmo tempo, mais distante dele, pois identifica-se de modo inflacionado com Deus ao ponto de aspirar substitui-lo. Pode-se dizer que, de modo bastante contraditório, o diabo é o princípio espiritual que conspira contra a trindade idealizada. Podemos tomá-lo como a “vontade de poder” que permanece reprimida na personalidade de Cristo e o conduz a crucificação, assim como, também, uma projeção do lado tenebroso da divindade judaica. Por outro lado, é imprescindível devidamente considerar as nuanças e contradições da personagem em questão. A figura do adversário de Cristo é também, em muitos sentidos, uma projeção da sombra psicológica do próprio Cristianismo. Todos os conteúdos pagãos e outros padrões culturais de origem pré-cristã incompatíveis com o status quo da Igreja contribuíram para construção da figura do Diabo. O “senhor do mal”, enquanto imagem arquetipica da sombra, personifica todas aquelas tendências reprimidas, recusadas e esquecidas pelo cânone cristão. Uma das suas expressões mais pertinentes é a do princípio da quaternidade em detrimento da trindade como símbolo por excelência do self.

Não posso, evidentemente, esgotar aqui todos os significados e conteúdos atribuídos ao Diabo no folclore, na literatura e na teologia. O que não me impede absolutamente de procurar chamar atenção para a possibilidade de interpretá-lo como um símbolo da transformação que corresponde ao mesmo conteúdo inconsciente traduzido por Cristo enquanto mediador entre a dimensão do humano e do divino.

Em seu ensaio MEFISTÓFELES E O ANDRÓGENO OU O MISTÉRIO DA TOTALIDADE, ELIADE aborda com muita perspicácia o tema da associação e estranha amizade entre Deus e o Diabo presente em vários mitos cosmogônicos. Vale a pena aqui reproduzir um dos exemplos por ele citados:

“...O que nos interessa aqui são unicamente as variantes centro-asiáticas e do sudeste europeu que põem em evidência ou a consangüinidade de Deus- Diabo, ou o fato de Deus e o Diabo serem coeternos, ou finalmente, a importância de Deus para criar ou terminar o Mundo sem a ajuda do Diabo.

Assim, por exemplo, um mito russo proclama que nem Deus nem o Diabo foram criados , mas que existiam juntos desde o começo do Tempo. Ao contrário , segundo os mitos encontrados entre altaicos meridionais, entre os abakankatzines e os mordovinos , o Diabo foi criado por Deus. Mas é a forma como se dá a sua criação que é reveladora: pois, de algum modo, Deus produz o Diabo a partir da sua própria substância. Eis o que contam os mordovinos : Deus estava só sobre um rochedo “Se eu tivesse um irmão, faria o mundo!”, diz ele, e escarra sobre as Águas. Desse escarro nasce uma montanha. Deus a fende com sua espada e da montanha sai o diabo (Satã). Assim que aparece, o Diabo propõe a Deus que sejam irmãos e criem juntos o mundo. “Não seremos irmãos”, responde-lhe Deus, “mas companheiros”. E juntos, procederam à criação do mundo.”



Neste curioso testemunho folclórico a coincidentia oppositorum entre Deus e o Diabo, entre o superior e o inferior divino, estabelece uma interdependência entre o bem e o mal que insinua uma clara complementabilidade entre os opostos. Podemos atribuí-la a uma disposição latente a totalidade psíquica para superação da dualidade sujeito e objeto condicionante da consciência diferenciada. Esta mesma disposição, na opinião de ELIADE, parece inspirar de modo diferente a maioria dos textos gnósticos . Em suas próprias palavras:

“...certos textos apócrifos (Atos de Pedro, Atos de Felipe, Evangelho de Tomás, etc.) utilizam imagens paradoxais para descrever o Reino ou a subversão cósmica realizada pela vinda do Salvador. “ Fazer o fora como o dentro” ,“Fazer o alto como o baixo”, “ fazer últimos os primeiros”, “fazer direita a esquerda”, etc. são todas fórmulas paradoxais para exprimir a inversão total dos valores e das orientações operada pelo Cristo. É notável que essas imagens sejam utilizadas paralelamente às da androginia do homem e do retorno ao estado infantil. Cada uma dessas imagens realça que o Universo “profano” foi misteriosamente substituído por um Outro Mundo”



Além da “amizade” entre Deus e o Diabo, a unidade dos opostos no imaginário cristão regride a formas pagãs como a da androginia. Esta imago, tão recorrente no simbolismo alquímico, também encontrá-se significativamente presente nos textos gnósticos. Um exemplo disto é a seguinte passagem do EVANGELHO SEGUNDO TOMÉ O DÍTIMO:

“ Jesus viu criancinhas que estavam sendo amamentadas . Disse aos seus discípulos : “Essas criancinhas que estão sendo amamentadas são semelhantes àqueles que entrarão no reino”. Disseram-lhe: Poderemos então, como crianças, entrar no reino?” Jesus disse-lhes: “Quando fizerdes de dois um e quando fizerdes o interno tal qual o externo e o externo tal qual o interno, e o de cima tal qual o de baixo, e quando tornardes o homem e a mulher em um só, de tal forma que o homem não seja homem e a mulher não seja mulher, quando dispuserdes olhos no lugar dos olhos e a mão no lugar da mão, e o pé no lugar do pé, uma imagem no lugar de uma imagem, aí, então estarás no Reino.”



A unidade dos opostos, o retorno a um estado de inocência ou perfeição original, eqüivale aqui ao reino dos céus e a androginia como ímago da Concidentia oppositorum. O próprio Cristo personifica esta unidade e promete aos que o escutam e o seguem a possibilidade de se tornarem semelhantes a ele, pois:

“Quando fizerdes um de dois, tornar-vos-eis Filhos do Homem; e se disserdes: ‘Montanha, move-te’, ela se moverá.”



A referência a androginia associa-se no texto em questão a imago da câmara nupcial símbolo da recuperação da unidade perdida :

“Disse Jesus: ‘ Muitos estão à porta, mas somente os solitários entrarão na câmara nupcial.’ ”



O mesmo tema encontra-se presente no EVANGELHO DE FELIPE:



“Se a mulher não se houvesse separado do homem não teria morrido com ele. Sua separação tornou-se o começo da morte. Por isso veio Cristo , para anular a separação que existia desde o princípio, para unir a ambos e para dar a vida àqueles que haviam morrido na separação e uni-los de novo. (...)

“Digamos – se é permitido – um segredo: o Pai do Todo se uniu com a virgem que havia descido e um fogo o iluminou naquele dia. Ele deu a conhecer a grande câmara nupcial, e por isso seu corpo- que teve origem naquele dia- saiu da câmara nupcial como quem tivesse sido engendrado pelo esposo e a esposa. E também, graças a estes, encaminhou Jesus o Todo a ela, sendo preciso que todos e cada um dos seus discípulos entrem em seu lugar de repouso.



Ou ainda:

“...A união é constituída neste mundo por homem e mulher, a sede da força e da debilidade ; no outro mundo a forma de união é muito diferente.”



A câmara nupcial representa a coicidentia oppositorum, a revelação de um mistério ou manifestação de um princípio transcendente, trans-humano, na realidade deste mundo. Em termos modernos poder-se-ia falar de uma interpenetração da consciência pelo inconsciente e vice-versa, cujo conteúdo central é a divinização da matéria ou sacralização do profano. Trata-se de uma reflexão cara ao universo mental estruturante do Cristianismo primitivo cuja similaridade com certas formulações da alquimia medieval não é nada desprezível. Seria precipitado toma-las como elaborações ingênuas e fantasiosas. O assombroso e inédito avanço do conhecimento técnico científico dos últimos séculos pelo mundo cristão e o poder quase divino adquirido pelo homem para transformar a si mesmo e a natureza dão o que pensar. Impossível não associar de alguma forma o “milagre” do desenvolvimento técnico científico com o tema da incarnação da divindade, ou seja, com o mito do homem deus que personifica uma união ou interpenetração entre a dimensão do humano e do divino através da matéria.

A gradual irrupção do mundo no seio da experiência arquétipa cristã conduziu, a partir do segundo milênio da era cristã, a um aberto reconhecimento do seu oposto que desembocou nas ciências naturais modernas, ou seja, no "quatérnio" dos estados de agregação alquímica e a reafirmação no plano deste mundo da quartenidade como principio ordenador e arquétipo imprescindível as impressões sensoriais que a psique recebe dos objetos em movimento. Em outras palavras, a quartenidade gradualmente procedeu o princípio trinitário enquanto imagem central da cultura conduzindo o homem ocidental da Idade Média a uma nova imagem de mundo e realidade que, passando pelo Renascimento, culminaria no Iluminismo e no materialismo moderno.

É realmente espantoso como o Cristianismo desembocou no seu oposto, o que não torna tão descabido relacionar o mito do herói cristão com a prefiguração de um milenar processo em curso no inconsciente que produz uma espécie de entrechoque com a consciência e um crescente estado de inquietação e comoção. Considero totalmente impossível encontrar uma imagem coerente e sistemática do herói redentor tanto nos evangelhos canônicos quanto apócrifos. Ouso mesmo afirmar que é impossível chegar a qualquer conclusão segura sobre o significado do mito cristão. Arrisco-me apenas a afirmar que, de algum modo ele parece ser em parte uma variação simbólica do padrão arquétipo do deus da vegetação que ressurge dos mortos. Por outro lado, de um modo obscuro, ele corresponde à imagem fugidia de um conteúdo novo “pescado” no inconsciente pela consciência diferenciada que, entretanto, não consegue “digeri-lo” ou integra-lo satisfatoriamente.

Uma imagem arquetípica nasce de uma matriz psíquica incognoscível que se expressa em vários símbolos, nomes e roupagens, como se deambulasse em torno de um centro do qual se aproxima e se afasta simultaneamente de modo tanto numinoso quanto ilusório. O símbolo do peixe, enquanto alegoria de Cristo, expressa, como já vimos, precisamente esta ambigüidade do arquétipo. JUNG o interpreta do seguinte modo:

“...o símbolo do peixe constitui uma representação espontânea da figura do Cristo do Evangelho e também um sintoma que mostra de que modo e com que significado ele foi assumido pelo inconsciente. Sob este aspecto, a alegoria patrística da captura do Leviatã ( a cruz entendida como anzol e o Cristo preso a ela como isca) é sumamente característica : Capturou-se um conteúdo (peixe), do fundo do inconsciente (mar), que ficou preso à figura de Cristo. Daí provém, provavelmente, a expressão característica de Agostinho: “de profundo levatus” (tirado das profundezas), que se aplica ao peixe. E também a Cristo? A figura do peixe surge das profundezas do inconsciente , ao encontro de Cristo, e quando Cristo era invocado como Ichthys (peixe),tal designação dizia respeito àquilo que fora arrancado das profundezas do inconsciente. O símbolo do peixe representa, portanto, uma ponte entre a figura histórica de Cristo e a natureza psíquica do homem na qual repousa o arquétipo do Redentor. Por esta via, Cristo se converteu na experiência interna, no “Cristo em nós”.



Este conteúdo capturado do fundo do inconsciente, sua tomada de consciência pelo homem, é um secular empreendimento que substancia toda evolução da cultura ocidental e cujos futuros desdobramentos ainda não são passíveis de qualquer previsão. Trata-se de um processo em curso nas profundezas do inconsciente que tem por palco o mais íntimo de cada indivíduo.

Não deve parecer tão descabido o interessante paralelo traçado por JUNG entre a imagem de Cristo e o símbolo astrológico de Peixes coincidindo assim o Eon de Peixes com o Eon Cristão. Através dele JUNG realmente resgatou uma das mais curiosas coincidências simbólicas da Antiguidade Tardia. A era astrológica de peixes inicia-se com a conjunção em . Todavia, como alerta o próprio JUNG, este paralelismo, perfeitamente possível e esclarecedor, não pode ser provado inequivocadamente em termos históricos tradicionais. É mais conveniente sustenta-lo como uma espécie de paralelo sincrônico delimitado por dada constelação arquetípica. Segundo o próprio autor:

“Embora seja impossível provar qualquer relação entre a figura de Cristo e o início da era astrológica de Peixes, contudo a sincronicidade do simbolismo do peixe do Salvador com o símbolo astrológico é bastante significativa para deixarmos de lhe dar o devido relevo.”



Um pouco mais adiante ele acrescenta:

“... O peixe pertence, por sua natureza, a estação chuvosa do inverno , assim como o Aquário e o Capricórnio (aigókerös). Como imagem do zodiáco, portanto, não merece maior atenção. A coisa só se torna um pouco estranha , quando a precessão dos equinócios desloca o ponto vernal para este sígno, dando início assim a uma nova era na qual a palavra “peixe” se transforma em designação do Deus feito homem, o qual, como já referi, foi imolado como carneiro e nasceu como peixe; pescadores são seus discípulos e aos quais Ele quer converter em pescadores de homens; alimenta milhares de pessoas com peixes milagrosamente multiplicados; é comido; Ele próprio, como peixe, como “sanctior cibus”, e seus seguidores são pequenos peixes, os “pisciculi”. De qualquer modo, podemos imaginar que, em face do conhecimento bastante difundido da astrologia, pelo menos alguma coisa de tal simbolismo, em determinados círculos gnósticos-cristãos , provem desta fonte. Mas parece que esta hipótese não pode pretender validade para as descrições dos evangelhos sinóticos, em especial.”



Como é fácil deduzir deste fragmento, os símbolos e mitologemas do peixe foram na época do Cristianismo primitivo possivelmente associados por algumas tendências gnósticas a imagem de Cristo como salvador e inaugurador de um novo éon. A constituição de uma cristologia, portanto, incorporou, mesmo que parcialmente, em seu universo conceitual alguns conteúdos pagãos de origem astrológica produzindo uma síntese bastante interessante. Nos evangelhos canônicos, talvez a partir de uma fonte diferente, a mesma associação entre Cristo e peixe encontra-se presente.

È suficiente lembrar que os peixes do zodíaco são filhos do lendário mestre babilônico da sabedoria Oanes que muito se aproxima de um deus peixe civilizador que surge das ondas ao amanhecer para instruir a humanidade. É a tal divindade que pertencem as águas anímicas habitadas por seres semi-divinos como os dois peixes do zodíaco. O fato deles serem representados em oposição um ao outro pode ser considerada uma alusão a unidade de conceitos complementares que não podem ser representados um sem o outro o que remete automaticamente ao problema da totalidade e da coicidentia oppositorum..

O mistério da totalidade e da união dos opostos, expressa pela imagem gnóstica da câmara nupcial, enquanto locus da conquista da integridade do fenômeno humano, da união do céu e da terra, da psique e da matéria ,ou ainda, do consciente e do inconsciente, constitui, ao meu ver, a questão central do mito cristão que, nesta perspectiva converte-se em uma variante do hiero gamos primitivo, vinculado aos rituais e mitos da fertilidade que, em última instância, remontam a pré história da consciência humana. A etimologia da palavra sexo, aliais, é bastante sugestiva. Sexus deriva de sectio que significa corte, separação e, neste sentido, traduz perfeitamente a idéia de uma unidade perdida ou ruptura de uma totalidade primordial a ser recuperada.

Não deve causar espanto o fato de, assim como o peixe, a serpente constituir um dos símbolos mais primitivos atribuídos a Cristo.

Como bem observa JUNG:

“A serpente constitui um equivalente do peixe. Do mesmo modo que o ‘consensus’ (concordância) do povo interpretou a figura anunciada do Redentor no sentido do peixe, assim também a identificou com a serpente: como peixe, porque emergiu de profundezas desconhecidas; como serpente, porque proveio misteriosamente da obscuridade. O peixe e a serpente são, com efeito, símbolos populares, empregados para designar movimentos ou experiências psíquicas que emergem, de forma surpreendente, assustadora ou salvadora, do fundo do inconsciente. É por isto que aparecem expressos, com tanta freqüências, no tema dos animais auxiliadores. A comparação de Cristo com a serpente é mais autêntica do que a comparação com o peixe, embora menos popular nos círculos do Cristianismo primevo.”



O Cristianismo possui raízes nos mais profundos e autênticos instintos e, de forma alguma, transcende o fundo mais obscuro, desconcertante ou natural da totalidade da existência. As associações entre a figura de Cristo com o peixe, a serpente ou ainda o cervo, tão presente na iconografia antiga e medieval, são de máxima relevância para uma avaliação ou apreensão dos seus significados e conteúdos psicológicos. O motivo mitológico da morte e do renascimento iniciático adquiri em sua variante cristã um conteúdo novo e misterioso cuja história e a evolução tendem a ir muito além do próprio Cristianismo tal como hoje o concebemos.

FRAGMENTO FILOSOFICO SOBRE A EXPERIENCIA COTIDIANA

Cotidianamente vivemos, em grande medida, inconscientes de nossas mais intimas contradições, limitações, dúvidas, ansiedades, medos, desejos e fantasias.

Apenas seguimos em frente em nosso concreto acontecer em caótico tempo e espaço.
Normalmente, todas as circunstancias da vida apenas nos ensinam o quanto não nos damos conta de nós mesmos, embriagados por palavras, conceitos e crenças de uso diário no permanente acontecer do vazio que tudo define entre o se fazer em  linguagem e a experiência do símbolo....



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

LOVE IS REAL




O amor

Torna-se real
Em misto
De acasos e sortes
Que nos fazem imprudentes
No acontecer vazio dos fatos
E atos em multidão...


O amor é uma viva ilusão
Que nos acorda para fantasia da vida
No limiar do desejo
Perdido em meio aos impulsos
E necessidades que nos transformam
Na linguagem muda de nossos
Corpos...
O amor é uma mera alegoria
De juventude.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O satírico William Makepeace Thackeray



Nascido na índia, o satírico novelista William Makepeace Thackeray ( 1811-1863) é lembrado pela adaptação para o cinema de seu romance de época ( sec.XVIII) : As Aventuras de Barry Lyndon por Stanley Kubrick em 1975.

Durante a década de 1840 obteve significativo sucesso com dois livros de viagens: The Paris Sketch Book e O irlandes Sketch Book ( justamente o adaptado por Kubrick). Embora não muito lido hoje em dia, durante a era vitoriana, seu nome era comparado ao de Dickens. Sua reputação aumentou consideravelmente depois de 1850 com Pendennis romance parcialmente autobiográfico.
Em 1851 realizou uma série de palestras, sobre humoristas Inglêses do século XVIII, que repetiu em uma turnê pelos Estados Unidos em 1852-53. Em 1852, apareceu seu romance da vida do século 18, Henry Esmond.
Trata-se de um autor digno de ser redescoberto e relido...
Também lhe é atribuida pela tradição a invenção do termo "capitalismo".  

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

COTIDIANA ESPERANÇA



Ainda aguardo o dia seguinte...



O acontecer mais profundo


Do ato de viver


Nos particulares mundos


Contidos em cada segundo.






Ainda aguardo as cores


De um amanhã vivo


Que elucide


Toda a minha existência


Ensinando-me a vida


Como transformação permanente


Ou acontecer constante


De futuros


Que me realizam e transcendem...

NOTA SOBRE O BOM SENSO



O bom senso é o precário equilíbrio entre a realidade e nossa imagem pessoal de mundo. Ele é a “nossa consciência dos outros” no acontecer das coisas ou, simplesmente, aquela imprecisa fronteira que existe entre o pensamento e o fato no complexo universo oculto por traz das ações que definem o destino e caráter de cada indivíduo...


MEDOS



Meus medos são tantos



Que não cabem no peito,


Cobrem o mundo inteiro


De duvidas e incertezas


No silencioso drama


De percorrer atônico


Os dias


Em busca, simplesmente,


De mim mesmo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

NOTA SOBRE O TEMPO QUE PASSA



Daqui a cem anos não estarei aqui ou em parte alguma. O mundo em que vivi NÃO MAIS EXISTIRÁ e tudo que eu possa ter feito ou sentido não passará de um eco mudo de abstrato passado.

Daqui a cem anos, todas as ambições, vontades, desejos, defeitos e qualidades que agora me afetam e agitam, não farão a menor diferença...
Mas eu se quer me importarei com isso em absoluto silêncio e inexistência...





terça-feira, 8 de dezembro de 2009

LEMBRANÇAS DE JOHN LENNON IN 2009...



Neste oito de dezembro de 2009, completam-se 29 anos do insano assassinato de John Lennon... Curioso como o tempo passa depressa....

Mas, parafraseando John, em diferentes momentos, diria que o fato é que ainda hoje acredito que os Beatles são mais populares que Jesus Cristo ( pelo menos para mim) e que deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor... Que sexo e nudez é melhor que violência, corrupção, hipocrisia, etc...
E, acima de tudo, tento fazer e viver meu próprio sonho contra o mundo espalhado em fragmentos e inspirações psicodélicas de meta cotidiano no mais profundo do pensamento ...
Sei que nestes quase trinta anos o mundo mudou bastante, mas as pessoas continuam as mesmas em seus limites, dores, burrices ou, simplesmente, na miopia social que nos torna convencionais peças da hipocrisia coletiva que define a existência contra o melhor de nossas singularidades ou individualidades...





NOTA SOBRE O TEMPO BIOGRÁFICO

Às vezes fico pensando no tempo que seria suficiente para a realização de minha mínima biografia... Abarcaria ele, certamente, pelo menos dois séculos no casar do passar do mundo e de mim mesmo nas possibilidades concretas que transcendem o momento....



Mas, concretamente, vivemos de fronteiras que separam o querer, o pensar e o viver imediato... Jamais nos tornamos na vida simplesmente nós mesmos...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

DOROTHY WORDSWORTH: UMA DISCRETA VOZ FEMININA...



No cenário da poesia inglesa Dorothy Wordsworth ( 1771-1885), irmã do famoso poeta romântico William Wordsworth, pode ser considerada uma espécie de patinho feio da literatura britânica. Afinal, nunca foi ou quiz fama e, de acordo com o biógrafo Richard Cavendish, não passou de "uma névoa em aprofundamento da senilidade". Nunca quiz ser uma literata e, justamente por isso, nos expõem involuntariamente, com máxima precisão, a marginalidade da mulher e do feminino na literatura da época. Sua obra nos chegou, inclusive à sombra da literatura do irmão que lhe consagrou o poema Abbey Tintern:



"Tintern Abbey"


FIVE years have past; five summers, with the length


Of five long winters! and again I hear


These waters, rolling from their mountain-springs


With a soft inland murmur. -- Once again


Do I behold these steep and lofty cliffs,


That on a wild secluded scene impress


Thoughts of more deep seclusion; and connect


The landscape with the quiet of the sky.


The day is come when I again repose


Here, under this dark sycamore, and view


These plots of cottage-ground, these orchard-tufts,


Which at this season, with their unripe fruits,


Are clad in one green hue, and lose themselves


'Mid groves and copses. Once again I see


These hedge-rows, hardly hedge-rows, little lines


Of sportive wood run wild: these pastoral farms,


Green to the very door; and wreaths of smoke


Sent up, in silence, from among the trees!


With some uncertain notice, as might seem


Of vagrant dwellers in the houseless woods,


Or of some Hermit's cave, where by his fire


The Hermit sits alone.


These beauteous forms,


Through a long absence, have not been to me


As is a landscape to a blind man's eye:


But oft, in lonely rooms, and 'mid the din


Of towns and cities, I have owed to them


In hours of weariness, sensations sweet,


Felt in the blood, and felt along the heart;


And passing even into my purer mind,


With tranquil restoration: -- feelings too


Of unremembered pleasure: such, perhaps,


As have no slight or trivial influence


On that best portion of a good man's life,


His little, nameless, unremembered, acts


Of kindness and of love. Nor less, I trust,


To them I may have owed another gift,


Of aspect more sublime; that blessed mood,


In which the burthen of the mystery,


In which the heavy and the weary weight


Of all this unintelligible world,


Is lightened: -- that serene and blessed mood,


In which the affections gently lead us on, --


Until, the breath of this corporeal frame


And even the motion of our human blood


Almost suspended, we are laid asleep


In body, and become a living soul:


While with an eye made quiet by the power


Of harmony, and the deep power of joy,


We see into the life of things.


If this


Be but a vain belief, yet, oh! how oft --


In darkness and amid the many shapes


Of joyless daylight; when the fretful stir


Unprofitable, and the fever of the world,


Have hung upon the beatings of my heart --


How oft, in spirit, have I turned to thee,


O sylvan Wye! thou wanderer thro' the woods,


How often has my spirit turned to thee!


And now, with gleams of half-extinguished thought,


With many recognitions dim and faint,


And somewhat of a sad perplexity,


The picture of the mind revives again:


While here I stand, not only with the sense


Of present pleasure, but with pleasing thoughts


That in this moment there is life and food


For future years. And so I dare to hope,


Though changed, no doubt, from what I was when first


I came among these hills; when like a roe


I bounded o'er the mountains, by the sides


Of the deep rivers, and the lonely streams,


Wherever nature led: more like a man


Flying from something that he dreads, than one


Who sought the thing he loved. For nature then


(The coarser pleasures of my boyish days,


And their glad animal movements all gone by)


To me was all in all. -- I cannot paint


What then I was. The sounding cataract


Haunted me like a passion: the tall rock,


The mountain, and the deep and gloomy wood,


Their colours and their forms, were then to me


An appetite; a feeling and a love,


That had no need of a remoter charm,


By thought supplied, nor any interest


Unborrowed from the eye. -- That time is past,


And all its aching joys are now no more,


And all its dizzy raptures. Not for this


Faint I, nor mourn nor murmur, other gifts


Have followed; for such loss, I would believe,


Abundant recompence. For I have learned


To look on nature, not as in the hour


Of thoughtless youth; but hearing oftentimes


The still, sad music of humanity,


Nor harsh nor grating, though of ample power


To chasten and subdue. And I have felt


A presence that disturbs me with the joy

Of elevated thoughts; a sense sublime


Of something far more deeply interfused,


Whose dwelling is the light of setting suns,


And the round ocean and the living air,


And the blue sky, and in the mind of man;


A motion and a spirit, that impels


All thinking things, all objects of all thought,


And rolls through all things. Therefore am I still


A lover of the meadows and the woods,


And mountains; and of all that we behold


From this green earth; of all the mighty world


Of eye, and ear, -- both what they half create,


And what perceive; well pleased to recognise


In nature and the language of the sense,


The anchor of my purest thoughts, the nurse,


The guide, the guardian of my heart, and soul


Of all my moral being.


Nor perchance,


If I were not thus taught, should I the more


Suffer my genial spirits to decay:


For thou art with me here upon the banks


Of this fair river; thou my dearest Friend,


My dear, dear Friend; and in thy voice I catch


The language of my former heart, and read


My former pleasures in the shooting lights


Of thy wild eyes. Oh! yet a little while


May I behold in thee what I was once,


My dear, dear Sister! and this prayer I make,


Knowing that Nature never did betray


The heart that loved her; 'tis her privilege,


Through all the years of this our life, to lead


From joy to joy: for she can so inform


The mind that is within us, so impress


With quietness and beauty, and so feed


With lofty thoughts, that neither evil tongues,


Rash judgments, nor the sneers of selfish men,


Nor greetings where no kindness is, nor all


The dreary intercourse of daily life,


Shall e'er prevail against us, or disturb


Our cheerful faith, that all which we behold


Is full of blessings. Therefore let the moon


Shine on thee in thy solitary walk;


And let the misty mountain-winds be free


To blow against thee: and, in after years,


When these wild ecstasies shall be matured


Into a sober pleasure; when thy mind


Shall be a mansion for all lovely forms,


Thy memory be as a dwelling-place


For all sweet sounds and harmonies; oh! then,


If solitude, or fear, or pain, or grief,


Should be thy portion, with what healing thoughts


Of tender joy wilt thou remember me,


And these my exhortations! Nor, perchance --


If I should be where I no more can hear


Thy voice, nor catch from thy wild eyes these gleams


Of past existence -- wilt thou then forget


That on the banks of this delightful stream


We stood together; and that I, so long


A worshipper of Nature, hither came


Unwearied in that service: rather say


With warmer love -- oh! with far deeper zeal


Of holier love. Nor wilt thou then forget,


That after many wanderings, many years


Of absence, these steep woods and lofty cliffs,


And this green pastoral landscape, were to me


More dear, both for themselves and for thy sake!


By William Wordsworth (1770-1850).


[Composed A Few Miles Above Tintern Abbey,


On Revisiting The Banks Of The Wye


During A Tour. July 13, 1798.]

Tradução:




Cinco anos à passaram, cinco Verões

e cinco Invernos longos! E outra vez

ouço estas águas que dos montes rolam

com tão doce murmúrio. Tomo a ver

estas altas escarpas majestosas

que no isolado matagal imprimem

ideias de mais funda solidão.

E à paz do céu eu ligo esta paisagem.

O dia me voltou em que repouso

uma vez mais à sombra do sicômoro,

e vejo desenhados os cultivos,

e os tufos do pomar que ainda imaturo

nesta estação do ano é verde, e não

se distingue dos bosques, nem perturba

o verde da paisagem. Ainda outra vez

contemplo as sebes, indistintas já,

porque cresceram bravas; e as herdades

verdes até ao limiar das portas;

e entre o arvoredo os ascendentes fumos!

Alguns são tão incertos, como se

fossem de vagabundos pelos bosques

ou de caverna de eremita aonde

junto do fogo el' esteja.

Esta beleza,

na longa ausência, nunca foi pra mim

como paisagem na Visão de um cego:

mas, amiúde, em quartos solitários

ou nas cidades agitadas, eu,

em horas de amargura, lhes devi

no sangue e no meu peito sensações

que entram às vezes no mais puro de alma

num repousar tranquilo. E sentimentos

de prazer não-lembrado, quais, talvez,

poder não pouco é que hão-de ter naquela

parte melhor da vida do homem justo:

breves, sem nome, não-lembrados actos

de bondade ou de amor.. Nem menos, creio,

ainda lhes devo mais sublime dádiva,

um estado de alma em bem-aventurança

em que a pesada carga do mistério,

em que a opressão, que nos esmaga e gasta,

do não-inteligível deste mundo,

se toma leve: esse sereno estado

em que Os afectos nos conduzem suaves-

até que, o respirar em nosso corpo

e o movimento de correr o sangue

quase que suspendidos, dorme o corpo

e se transforma em palpitar de uma alma:

enquanto um olhar, aquietado pelo

fundo poder de alegres harmonias,

nos mostra a vida interior das coisas.

Se uma vã crença isto só for.. mas quanto -

em trevas ou por entre as várias formas

de um triste dia, quando o anseio inútil

e a febre deste mundo mais pesaram

no coração que bate, oh, quantas vezes

em espírito, voltei às tuas margens,

silvestre rio!, que vagueias por

bosques tão verdes - quanto a ti voltei!

E Ora, em relance de idear quase extinto,

num reconhecimento vago e frágil

e algo também de urna tristeza ambígua,

a paisagem do espírito renasce:

enquanto estou aqui, não só no senso

do presente prazer, mas na confiança

que neste instante o alimento e a vida

no futuro não faltam. O que ouso esperar

sem dúvida diverso do que eu era,

quando andei nestes montes qual cabrito

saltava nas encostas, Pelas margens

de fundos rios e torrentes frias,

por onde a Natureza me levasse:

mais como aquele que foge do que teme

que quem procura o que ama. A Natureza

(os mais rudes prazeres da juventude


e a alegria animal do movimento,


agora já perdidos) para mim

era tudo. Não posso descrever

o que por mim eu era. A catarata

de ecos me fascinava: e a escarpa abrupta,


as montanhas, e os bosques mais sombrios,

as suas cores e formas então eram

como um desejo: sentimento e amor

não precisando mais remoto encanto

que o pensamento empreste, ou outro interesse


mais que o do próprio olhar. Mas esse tempo

passado é já, com seu prazer que doía,

suas vertigens de êxtase. Não me cabe

chorar ou lamentar, pois outros gozos

vieram, para tal perda, quero crer,

compensação bastante. É que aprendi

a ver a Natureza, não qual via

com juvenil descuido; mas ouvindo

a triste música da humanidade,

nem áspera, nem dura, poderosa

para nos aquietar. Tenho sentido


uma presença a perturbar-me alegre

com mais altas ideias: um sublime


senso de algo mais fundamente infuso,


cuja morada é a luz dos sois poentes,

do oceano a curva, o ar que nos rodeia,

o céu azul, e o pensamento humano:

um movimento, um espírito, que impele

tudo o que pensa, tudo o que é pensado,


e rola em quanto existe. Sou, portanto,

o amante ainda de montanhas, prados,

e bosques, e de tudo quanto vemos

na verde terra, e também todo o mundo


que ver e ouvir em parte criam e é

o que apercebem: e de aceitar feliz,

na Natureza e na sensual linguagem,

urna âncora do puro pensamento,

guia do que o meu peito sente,

e a alma do meu inteiro ser moral.

domingo, 6 de dezembro de 2009

ESpeculções sobre o devir...

A realidade não passa de um relativo consenso que construimos e reconstruimos todos os dias contra a ditadura de inércias e tradições...


*

Viver é puro devir e incerteza, apesar de nossas ilusões de segurança...

*

A chuva é, ao mesmo tempo, um símbolo de melancolia, reflexão e de uma quebra ou, pelo menos, perturbação do cotidianamente vivido ou ruptura do real...

*

Nada é mais incerto que minhas certezas...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

"..."

Toda palavra é silêncio

Que nos faz crescer
Na decomposição de frases,
Sentidos e discursos
Que nos inventam em imaginações
De fatos.


Tudo é ingrata vontade
De invenções de um eu
Que nos desafia a ser
Contra o não sentido de tudo...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

IF...





Abandonei certezas e sentimentos

Pelo caminho
Em busca do meu mais intenso intimo...
Até agora nada encontrei.

Mas me perdi na sombra de mim mesmo
Descartando-me do superficial
E frívolo acontecer
Que rege
Cada novo dia...


De qualquer forma,
Ainda não me tornei
Quem sou...

SOBRE LUGARES E COISAS COTIDIANAS...


De certa maneira, pertencemos aos lugares e coisas que diariamente freqüentamos entre os outros no exercício de meras rotinas. Somos seus usuários na exata medida em que nos tornamos parte de suas paisagens, silêncios, usos e funções no caótico acontecer do existir urbano no qual cada vez mais nos perdemos de nós mesmos.

O mundo, afinal, é feito de lugares, não de pessoas...

LOOP...

Posso imaginar

Os passados que perdi
Buscando algum sonho
De futuro fútil,
Todos os sorrisos
Que deixei cair
Pelo caminho
E todas as pequenas alegrias
E rostos que não vivi.

A existência, afinal,
É seletiva
No gratuito de nossas escolhas.
O amanhã
Não passa
Da soma de nossos
Presentes entre gritos
E risos
Perdidos no vento...



SETES FRASES SOBRE A FENOMENOLOGIA DO TRÁGICO



Nada é mais difícil do que ler o acaso e sustentar opiniões frente ao inevitável.



*


È preciso decorar a paisagens de nossos abismos e vazios com um riso de destilada ironia e absoluto ceticismo.


*


Estou sempre a um passo de mim mesmo...


*


Quanto mais próximos do fim, mais sonhamos futuros e odiamos os limites do cotidianamente vivido.


*


O tempo nada nos ensina alem da consciência do ontológico vazio que nos torna humanos...


*


Pensar no passado é um modo estranho de não compreender o presente e adivinhar o futuro. É uma decepção biográfica da qual não nos recuperamos ...


*


Eu me espero no passo seguinte como um outro inventado pela imaginação dos fatos...



quinta-feira, 26 de novembro de 2009

GRATUIDADE E IMANÊNCIA

Procuro andar

Contra o vento
E na incerta direção
Do dia seguinte
Em vazios de pensamento.

Meu caminho
É um céu aberto
Que se escreve nos atos
De nítido e imperfeito cotidiano,
Onde, paradoxalmente,
Tudo é claro e feito
De mínimo e provisório
Significado.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CONSIDERAÇÕES SOBRE O INDIVIDUALISMO PÓS MODERNO: UMA REINVENÇÃO DA INTIMIDADE...




Considero a pluralidade e diversidade de indivíduos uma das mais relevantes premissas da condição humana. Pois é somente na presença um dos outros que se torna possível a cada indivíduo a experiência de um mundo propriamente humano, de um cosmos...


Afinal, a existência, configurada como imanência, é aparência ( aparição) ou manifestação daquilo que é comum a todos. Nisso reside o elo perdido de toda manifestar-se do social e coletivo.

Mas, a partir da época moderna, a pluralidade e diversidade de indivíduos deixou de ser um mero dado biológico e originou um fenômeno novo e inédito: O antagonismo e oposição entre eles sustentado pela mera e simples afirmação de sua intimidade contra a afirmação de uma abstrata universalidade fenomenológica experimentada antes de tudo como linguagem e exercício de referenciais e configurações simbólicas.

Não irei aqui me ocupar dos vários fatores culturais e sociais que convergiram para o acontecer desta singularidade contemporânea, para a construção de inédita autonomia do individuo e da singularidade humana frente aos seus pares e a mediação do social moderno. Limitar-me-ei a afirmação de que as codificações culturais contemporâneas encontram na construção da intimidade e da privacidade radical a personificação de um dos seus mais decisivos dilemas.

Isso equivale a dizer que as representações e codificações do mundo fundadas na interação meta pessoal de indivíduos já não são suficientes para da conta da experiência comum de qualquer construção social de mundo. Já não somos mediados satisfatoriamente pelo universal.... Mergulhamos cada vez mais no delicioso abismo da individuação humana.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

SOBRE A METAFISICA OU MITO DO GÊNIO....

Desde o renascimento a noção de “gênio” representou para os modernos um ideal inatingível de grandeza, quase pessoal, e de perfeição individual, algo, marcado pelo estigma do trágico teatral ou épico. Pois nele a individualidade é medida ou julgada pela realização de um grande feito cultural destinado a ultrapassar seu próprio criador, escravizando sua memória em vazia celebração coletiva, onde a singularidade do indivíduo cultuado simplesmente se perde em culto a personalidade...

domingo, 22 de novembro de 2009

NOTA SOBRE O ACASO

Quando visito através da memória meu acontecer biográfico me dou conta do quanto em certas decisivas circunstâncias, transcendi meus limites cotidianos no abraçar de destinos e acasos em intuição e instinto de sonhos de mim mesmo...

Definitivamente, o acaso tem uma lógica, um quase padrão irracional, que cognitivamente nos faz real através de decisivas coincidências frente as quais qualquer enunciado ou significado é dispensável.
O Acaso é um labirinto natural a desafiar teologias e teleologias em nossa busca humana de significado.
O acaso é puro labirnto...



OUT OF...



Diante da porta

Entreaberta do sono
Vislumbro
Meus mais radicais vazios,
Olho nos olhos
Do acaso,
Sem medos ou arrependimentos,
Aguardando o alivio
De um futuro
Que me ignora soberbo,
Como um sonho perdido e perfeito...
See the eyes in the dark...



sábado, 21 de novembro de 2009

FILOSOFIA BY HOUSE





“Querer é essencialmente sofrer, e como o viver é querer, toda a existência é essencialmente dor. Quando mais elevado é o ser, mais sofre... A vida do homem não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de ser vencido... A vida é uma caçada incessante onde, ora como caçadores, ora como caça, os entes disputam entre si os restos de uma horrível carnificina; uma história natural da dor se resume assim: querer sem motivo, sofrer sempre, lutar sempre, depois morrer e assim sucessivamente, pelos séculos dos séculos, até que nosso planeta se faça em bocados.”



By Arthur Schopenhauer in AS DORES DO MUNDO

SOBRE O IRRACIONALISMO PROFUNDO DA EXISTÊNCIA

É muito fácil criar explicações complicadas e vazias para a irrelevância dos fatos cotidianos e fazê-los em magia de letra parecerem relevantes... Mas todo significado possível que atribuímos as coisas pressupõe uma boa dose de imaginação...

Acreditamos tanto em nossas arbitrarias representações de “realidade” que não percebemos uma premissa elementar da fenomenologia da existência: Há um “algo mais” irracional em nossas representações conscientes de mundo, em nossa subjetividade, que fere sua duvidosa ou imprecisa ontologia.
Podemos, em ultima instância , associar o fenômeno da vida ao irracional da necessidade ou e uma impessoal vontade que nos devora e sustenta, não nos permitindo uma compreensão adequada daquilo que chamamos pensamento ou consciência... Já que não passam de um fosco e paradoxal reflexo do irracional...

Arthur Schopenhauer e o sentido da vida...




Citações são necesárias na cosntrução de cadeias de sentido que nos sustentam a própria vida e pensamento... Somos como individuos os elos de uma infintita e indefinivel corrente...

“ As coisas só tem atrativo enquanto nos não tocam. A vida nunca é bela, só os quadros da vida são belos, quando o espelho da poesia os ilumina e os reflete, principalmente na mocidade, quando ignoramos ainda o que é viver.”


Arthur Schopenhauer in AS DORES DO MUNDO

sábado, 14 de novembro de 2009

UMA MISSIVA DE C.G.JUNG

A missiva seguinte é uma das mais interessantes dentre a obra epistolar de C.G.Jung. Talvez por nos comunicar um dos dilemas estruturais da cultura humana... a dialética dos opostos e a fragilidade de todo sentimento de verdade em uma cultura massificada, bem como o sofrimento decorrente disto....


" A um destinatário não identificado
França

28.04.1955
“Prezado Senhor,
Suas idéias o confrontam com um problema geral da cultura, que é complicado ao extremo*. O que é verdade num lugar não é verdade em outro. “O sofrimento é o cavalo mais veloz que vos leva à perfeição”, mas também o contrário é verdadeiro. O adestramento pode ser disciplina, e esta é necessária para o caos emocional da pessoa; mas pode igualmente manter o espírito vivo, como o vemos muitíssimas vezes. Na minha opinião não há palavra mágica que resolva em definitivo este complexo de questões; também não existe nenhum método de pensar, viver ou agir que elimine sofrimento e infelicidade. Se a vida de uma pessoa consiste de duas metades- uma de felicidade e outra de infelicidade- isto é provavelmente o ótimo que se pode alcançar; mas permanece sempre uma questão insolúvel se o sofrimento educa mais ou desmoraliza mais.
Seria errado, porem, entregar-se ao relativismo e ao indiferentismo. O que se pode melhorar em determinado lugar e tempo deve ser feito, pois seria mera tolice não fazê-lo. O destino do homem sempre esteve entre dia e noite. Nada podemos mudar nisso.

O destinatário havia anexado à sua carta um manuscrito com o titulo “Die Formel der Verwirrung”. Tratava de sua reação diante da desorientação geral de nossa civilização bem como de suas idéias sobre o crescente “adestramento” dos seres humanos, que os transforma em autômatos."

(C.G Jung. Cartas de; ( volume II- 1946-1955)/ tradução de Edgard Orth; editado por Aniela Jaffé; em colaboração com Gerhard Adler. Petrópolis: Vozes,2002, p. 415-416)



KAOS




Nos diversos rostos

De meus eus perdidos
E espalhados no tempo vivido,
Desconstruo identidades,
Certezas e verdades.

Já quase não sei
Quem sou
Diante de futuros desgovernados
E imagens soltas de pensamento.
Subverto imprudente
Toda tradicional subjetividade...



MEU EU NO TEMPO

MEU

Tento encontrar

A mim mesmo
Nos passados de certos
Lugares,
Colher meus próprios
E concretos vestígios
Para enganar o vazio
De meta futuros,
Contemplando meu rosto
No obscuro
E concreto devir do tempo
Sonhado e vivido...

BREVE NOTA SOBRE A IMAGINAÇÃO DA EXISTÊNCIA

NO

São as imaginações da existência que nos edificam o rosto na experiência de cada dia novo. É o sofrer dos fatos e possibilidades que cumulativamente estabelecem quem somos nas áridas paisagens do mundo vivido.

Imersos em emaranhados de situações definidas a nossa revelia pelo caprichoso acaso, nos transformamos naquilo que nos acontece externamente, como se a realidade realmente existisse...



terça-feira, 10 de novembro de 2009

LIFE...

Respiro vida,

Como vida,
Transpiro vida,
Imergindo em abstrato
E vago pensamento...
Que me leva...
A vida...

Vida é o tudo
E o todo do absurdo
No me fazer impreciso
Entre todas as coisas
Do mundo...


Life is real..
Real is love....

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

TORN DOWN THIS DAY 20 YEARS AGO...




A queda do muro de Berlim completa hoje 20 anos consolidando-se como um dos principais marcos da história social e política do século XX. Embora uma de suas conseqüências diretas tenha sido, obviamente, a reunificação alemã não me parece fecundo interpretá-la como um acontecimento nacional, mas global, no contexto da revolução que então ocorria na Europa centro oriental através da implosão do chamado “socialismo real”.

A queda do muro foi, portanto, um dos mais decisivos momentos do surpreendente fim da guerra fria ou da desconstrução do insano embate ideológico maniqueísta que pateticamente a sustentava.
O mais curioso é que nenhum analista previu na época a possibilidade do evento e, ainda hoje, sua história, bem como dos seus desdobramentos e implicações, permanece por ser escrita...
Talvez caiba aqui uma heterodoxa interpretação da construção dos fatos históricos, como tradução imaginativa do ilegível das épocas... Afinal, toda historiografia não passa de uma curiosa narrativa arbitrária e fecunda que nos inventa e reinventa nas configurações múltiplas de tempo e espaço.





domingo, 8 de novembro de 2009

UMA MANHÃ DE TÉDIOS E ACASOS...



O zumbido do tráfego urbano

Mistura-se a música suave
Do apartamento
Ao lado
Decorando o quarto.

Há algo de frívolo
Ou fátuo
Nesta manhã encolhida
No estreito tempo
Dos atos,
Há um forte cheiro
De tédio
Em tudo que faço,
Além de um grande
Silêncio
Crescendo aqui dentro...



NARCISISMO



Não sei que aparência

Guarda esta época,
O gosto dos acontecimentos
Fotografados no virtual
Dos jornais diários.
Tudo que me importa
É meu próprio retrato,
O perfume dos sentimentos
Espalhados em tempo biográfico
E desarticulado
No abstrato do mais profundo
E fundo pensamento...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

SOBRE O NONSENSE



Uma das mais interessantes codificações culturais legadas pelos anos 60 foi o NONSENSE, cuja origem remonta a literatura oitocentista de Lewis Carroll e Edward Lear .
Podemos apreciá-lo como estilo ou estado de espírito que despreza a artificial coerência racional do senso comum através, por exemplo, dos despretenciosamente inteligentes filmes realizados pelos Beatles como Help e Yellow Submarine.
O NONSENSE funciona como uma espécie de código de liberdade individual frente a racionalidade pragmática a qual somos cotidianamente induzidos, como um resgate falsamente ingênuo da dimensão lúdica e descomprometida da existência...


PÓS MODERNIDADE E CULTURA GLOBAL



Uma das principais características da cultura contemporânea é a fragmentação dos códigos culturais e a interpenetração global das manifestações multiculturais, gerando diversos formatos de hibridismos e sincretismos.
Há uma tendência para construção de um pluralismo cultural global centrado no indeterminado e no efêmero da experiência cada vez mais fragmentada e aberta da vida nos grandes centros urbanos como Londres e Nova York. Isso para não falar do fenômeno da virtualização da experiência cultural...
Os fluxos globais de cultura vem construindo identidades partilhadas e multifacetadas configuradas pela experiência radical de um mercado de tecnologias, imagens, ideias, estilos e linguagens cada vez mais complexas.
Somos cada vez mais livres das inventadas tradições das identidades nacionais e menos condicionados a lógica da formula identidaria “ estado nação”.
É a criatividade individual que agora ganha o primeiro plano dos espaços públicos virtuais e reais através de dispositivos discursivos inspirados na diversidade como principio ontológico em detrimento da adequação a uma identidade social e cultura fixa e rigidamente demarcada.

VERA LYNN : We'll Meet Again



Dentre as “comemorações”, se assim se pode chamar, dos setenta anos de inicio da Segunda Grande Guerra, chamou atenção nos últimos meses o lançamento da coletânea We’ll Meet Again: The Very Best of Vera Lynn. Vera Lynn, hoje com 92 anos, foi uma antiga cantora da época da guerra que pode ser considerada uma espécie de Marlene Dietrich britânica que, com seu inconfundível estilo “diva do jazz”, inspirava as tropas britânicas. A citada coletânea, surpreendentemente alcançou o primeiro lugar nas paradas britânicas no último mês de setembro, o que é um fenômeno no mínimo curioso.

Vera Lynn também viveu experiências cinematográficas estrelando filmes como We'll Meet Again (1942), Rhythm Serenade (1943), One Exciting Night (1944) e Venus fra Vestø (1962). Seu nome é normalmente associado a faixa “Vera” da opera rock The Wall do Pink Froyd, que lhe presta justa homenagem:
 
"Does anybody here remember Vera Lynn
  Remember how she said that
  We would meet again
  Some sunny day
  Vera! Vera!

  What has become of you
  Does anybody else in here
  Feel the way I do ?"







quarta-feira, 4 de novembro de 2009

SEX PISTOLS by Patrice Bollon...

Patrice Bollon nos oferece em A MORAL DA MASCARA uma leitura bastante interessante do niilismo personificado pelo movimento punk. Tratar-se-ia, segundo ele, de uma verdadeira pedagogia do absurdo, de uma denuncia da desrealidade da sociedade a partir de sua caricaturização. Ou seja tudo se resumiria em ironizar o mundo. Naturalmente, ele utiliza como referencia em sua reflexão o explosivo fenômeno dos Sex Pistols, o mais emblemático dentre as bandas punks.

Em suas palavras:


“ ... “A maior vigarice do rock and roll”, como se gabou abertamente o empresário e “criador” absoluto do grupo, Malcolm McLaren, foi realmente muito mais do que uma simples ação caótica de agitação, que aproveita qualquer provocação na desordem de uma espontaneidade exacerbada, a qual só conhece seu prazer imediato; foi um verdadeiro empreendimento consciente e deliberado de desmitificação que os “quatro anarquistas absolutos” quiseram realizar. Uma ação proposital de “agit-prop”. O Sex Pistols queriam mostrar, demonstrar, com seu exemplo o absurdo daquela “sociedade do espetáculo”que os cercava, levando ao extremo seus mecanismos até o ponto em que estes, se embaraçando em sua própria lógica fatal, caiam na irrealidade e no vácuo. Sua estratégia consistia em se introduzirem cada vez mais profundamente, como cavalos de Tróia, nas engrenagens do Show-business e da mídia para destrui-las do interior, ou melhor: levá-las a se autodestruirem. Procuraram desestabilizar o sistema. No momento suas provocações pareciam ser “espontâneas”- era issoaliás o que lhes dava força: elas pareciam sempre imprevistas, inimagináveis, “inéditas”, com o recuo elas apareciam, pelo contrário, todas colocadas numa mesma direção, no mesmo alinhamento, um único vetor. Na falta de convergirem para um projeto preciso, claramente formulável, ordenavam-se segundo uma estratégia, uma progressão lógica quase implacável: elas apareciam como verdadeiras “invectivas” cada vez mais violentas e cada vez mais agudas, destinadas a fazer a sociedade perder as estribeiras, até que ela “confessasse”, mais ainda, confessasse a si mesma sua nulidade.
Com efeito, quanto mais os Sex Pistols queriam ser Punks, mais eles eram realmente “nulos”, mais eles obtinham sucesso; e esse sucesso os levava a ultrapassar continuamente novos degraus no movimento punk. O vazio selava seu triunfo, e esse triunfo os levava a recuar ainda e sempre os limites do vazio.”

(Patyrice Bollon. A Moral da Mascara: Merveilleux, Zazous,Dândis,Punks, etc. Tradução de Ana Maria Scherer. RJ: Rocco, 1993, p. 149 )

ALIVE

As cores explodem

Em um campo de girassóis.
Tudo parece perfeito
E frágil na paisagem
Que me beija os olhos
Em festa de cores e luz.

Posso escutar a matéria
Em forma de natureza
Na simplicidade de ser
No acontecer do tempo
Preso a quase realidade
De um belo jardim...

From you have
I been absent in the spring...