segunda-feira, 2 de novembro de 2009

SOBRE A MORAL E A MASCARA by PATRICE BOLLON



Em A MORAL DA MASCARA, obra original de Patrice Bollon, somos desafiados pela virtualidade de indivíduos que, em diversos momentos da modernidade, através do simbolismo das vestes e das aparências desafiaram o senso comum e os valores estabelecidos por intermédio do superficial e banal de seus “sinais exteriores de comportamento”.

Como esclarece o autor:
“Sempre existiram indivíduos - nem sempre jovens e ainda menos necessariamente “marginais”- que se expressassem e se afirmassem através de um estilo, simples pose de traje ou então um modo de vida global em ruptura com as normas, aceitas por sua época, da “elegância”, do “bom gosto” e da “respeitabilidade”. Homens - e certamente mulheres também – que pretendem com sua aparência contestar um estado de coisas, uma escala de valores, uma hierarquia de gostos, uma moral, hábitos, comportamentos, uma visão de mundo ou um projeto, tais como são refletidos pelo traje dominante, pelo estilo obrigatório ou pela referência estética comum da sociedade em que vivem. Enfim, homens e mulheres que são, querem ser ou se imaginam “outros”, diferentes, estranhos, singulares e pretendem mostrá-lo com o que se vê em primeiro lugar, a aparência.”

(Patyrice Bollon. A Moral da Mascara: Merveilleux, Zazous,Dândis,Punks, etc. Tradução de Ana Maria Scherer. RJ: Rocco, 1993, p. 11 )

Somos, assim, introduzidos através desta singular pesquisa no universo simbólico dos petis-maîtres, roués e libertinis franceses do séc. XVII, decadents, pâmés e apaches do final do século XIX, os teddy boys londrinos das ruelas de East End londrina, punks,rockabillys,skinheads,skas, heavy metal kids, rastas, soul boys dos anos 70, etc... em sua profundidade pelo superficial da aparência.
Todos os estilos aqui citados, em diferentes épocas, contextos históricos e culturais, funcionam como projeções simbólicas, fantasmas sociais, que não descrevem ou denunciam a realidade, mas a imaginam, a reinventam com suas cores e alegorias. São ficções vivas que contam a si mesmas e aos outros em um modo de ser que é recusa de toda identidade na moral da singularidade que caracteriza de um modo geral a inquietude cultural recorrentemente manifesta principalmente nos fins de século....













FREDERIC JAMESON E O PROBLEMA DA CONTINGÊNCIA NO "MODERNISMO TARDIO"



Apesar de francamente avesso a leitura que Frederic Jameson faz das modernidade, considero bastante pertinente sua leitura da literatura do modernismo tardio apresentada em um dos ensaios que compõem a coletânea A Modernidade Singular (A Singular Modernity). Refiro-me mais especificamente a suas considerações em torno da apropriação moderna do conceito medieval de contingência. Tomando como exemplo a obra de autores como Nabokov, Beckett, Joyce, Sartre, etc. Jamenson sustenta que a matéria prima a partir da qual suas narrativas são construídas pressupõem uma desfiguração do conteúdo decorrente de uma incapacitação ou deficiência universal da realidade.

Jameson nos chama, portanto, atenção para a difícil equação entre autonomia da linguagem estética e codificação da realidade no dito modernismo tardio que traduz uma profunda crise epistemológica inerente a própria modernidade, ou seja, uma generalizda crise de representação ou codificação da realidade:

 
“... Diremos aqui, justificadamente, que se pode detectar muito antes do problema da contingência, em todos os próprios modernismos originais, como um indício do fracasso completo da forma para dominar e se apropriar do conteúdo que a obra destinou a si mesma ( ou melhor, que ela se destinou e propôs incorporar, como tarefa). O conceito de contingência é evidentemente um conceito ainda mais antigo, que surge na teologia medieval, onde constitui a única instância de algo que, escandalosamente, é impossível de se assimilar ao universal que constitui a sua idéia e que é associado ao divino. A contingência, assim, é a palavra para o fracasso da idéia, o termo para o que é radicalmente ininteligível, e antes pertence ao campo conceitual da ontologia do que ao das diversas epistemologias que se seguem e que substituem uma filosofia ontológica no período “moderno” ( ou desde Dercartes). A referencia medieval é, assim, de muita utilidade, na verdade, na medida em que sublinha a temporalidade do conceito, suas marés e correntezas nas vicissitudes da história, como um indício de alguma ruptura do processo ou sistema conceitual. Mas a crise da epistemologia, assinalada pelo ressurgimento do problema da contingência no século XIX ( ou desde Kant) é talvez mascarada primeiramente pelo prestigio da ciência emergente e pela transferência das afirmações epistemológicas para aquele campo totalmente novo da produção intelectual, que só começa a experimentar a sua própria crise epistemológica quando já bem avançado no século XX. De qualquer forma, desejo postular uma sutil e ao mesmo tempo fundamental distinção entre as preocupações estéticas com a sorte e o acidente, como as que deram forma ao alto modernismo, e os problemas, menos temáticos e mais formais representacionais, colocados pela contingência, no que tenho chamado de modernismo tardio.
Eis um argumento ardiloso para apresentar: a antiga idéia medieval ( seria ela realmente um conceito em algum sentido positivo?) é estrategicamente revivida pelos novos existencialismos e reencenada de forma mais enfática por Sartre, que nos informa que tinha algo a ver com as idas ao cinema, quando criança: sair de um teatro que, humanamente, produzia imagens humanas era o mesmo que suportar o choque da existência de um mundo real à luz de um barulhento dia urbano. A experiência da contingência, assim, não depende apenas de uma determinada percepção do mundo, mas tem também, como precondição fundamental, uma experiência da forma com a qual aquele mundo é dramaticamente comparado.
Mas já não era o cubismo uma tentativa de fazer face a tal experiência, multiplicando os cacos da forma, nos quais a explosão do velho objeto estável do dia a dia fora transformado? E não dá, cada linha do Ulisses, testemunho de uma realidade empírica sempre em mutação, que as múltiplas formas de Joyce ( desde o paralelo com a Odisséia até o formato em capítulos e a própria estrutura das sentenças) são incapazes de dominar? O que pretendo discutir aqui, muito apressadamente, é que entre os modernos essa forma jamais é dada antecipadamente: ela é gerada experimentalmente no encontro, conduzindo enganosamente a formações que jamais poderiam ser previsíveis ( e cujas multiplicidades, incompletas e intermináveis, são amplamente demonstradas pelos incontáveis modernismos).”
( Frederic Jameson. Modernidade Singular: Ensaio sobre a ontologia do presente. Tradução de Roberto Francisco Valente. RJ: Civilização Brasileira, 2005, p. 239 et seq. )

Tudo que Jameson procura afirmar é que a contingência no modernismo tardio funda-se na dialética entre a forma estética em si ( autonomia da arte) e os fatos brutos e concretos da realidade que, significativamente, contradizem a pretensão de uma autonomia estética. Assim, a substituição dos obscuros absolutos estéticos do modernismo clássico pelas autonomias estéticas do modernismo tardio conduzem a uma literatura mais cotidiana e associada à existência concreta recusada pelo pós modernismo. Para oautor, é bom lebrar, de ascendência marxista, é inconcebível uma literatura divorciada da realidade social...
Pessoalmente, creio que, justamente por isso, Jamenson subestima seu próprio argumento ao não reconhecer nele a constatação de uma profunda crise ou saturação de nossas formas de representação tradicionais da realidade e codificação social do mundo que põe em xeque o paradigma moderno e suas ilusões.







sábado, 31 de outubro de 2009

WHAT SHOULD I WEAR FOR HALLOWEEN?

Nosso contemporâneo Halloween(Wallow Evening) tem pouco a ver com a antiga celebração do Samhain que ocorria entre os povos celtas que habitavam na antiguidade regiões como a antiga Gália e as Ilhas Britânicas e sobre os quais muito pouco sabemos.

O único ponto comum com o arcaico festival do fim de verão que marcava o fim do ano no calendário das culturas celtas, parece ser a vaga menção ao culto aos mortos ou aos antepassados.
Já dentre as inovações posteriores, a mais significativa parece-me ser o acréscimo de disfarces ou fantasias que remonta a introdução de representações cênicas a festividade durante a Idade Média.
O folclore associado à bruxaria é mais recente e indica uma significativa tendência no imaginário social para associar o Halloween ao burlesco e ao carnavalesco. O que lhe proporciona um potencial rebelde e contestatório de uma ordem social vigente ainda fortemente marcada pela herança da tradição judaico cristã.
Nas ultimas décadas, entretanto, muitos grupos neo- pagãos sediados principalmente em paises de ascendência angro saxã, procuram resgatar uma suposta “autenticidade” da festividade.
O fato é que de todas as datas comemorativas do calendário, o Halloween é, certamente, a mais popular e atraente. Talvez também a mais “viva”, uma vez que seus conteúdos e códigos são mutáveis e seus sentidos e significados diversos e múltiplos.
Assim, resta-me aqui apenas perguntar:

WHAT SHOULD I WEAR FOR HALLOWEEN?



MATURIDADE

Jamais compreendi

Aquilo que chamam de maturidade,
Aquele sóbrio estado de espírito
No qual aprendemos a lidar
Objetivamente com as coisas,
Sem ilusões
Ou grandes expectativas.


Jamais compreendi serenidades
Em meio ao caos de vontades
Que define a existência.

Talvez a maturidade
Não passe de uma utopia vazia
A alimentar mentiras e vaidades
Na ingenuidade de falsos sábios...



quinta-feira, 29 de outubro de 2009

DISCOVERY...

Procuro a segurança

Do vazio de estar
Perdido em mim mesmo
Na festa de silêncios
Que me acordam o cotidiano da vida...

Mas nada importa!
Nada me leva a nada...
Pois tenho o mundo inteiro
Desenhado no virtual registro
De minhas fatigadas retinas
Abertas para paisagens distantes
No inesperado da imaginação
E das vontades de manhãs
De céu aberto em sol e chuva...

A PÓS MODERNIDADE E O NADA...

Existe de fato na condição humana um princípio que nos ultrapassa no mais irracional aleatório acontecer do “eu”.

Não se trata aqui de uma ponderação metafísica. Desenho apenas a razoável hipótese de que nossos mais profundos silêncios e vazios são reais e, assim, defronto-me com a vivência mais radical da existência em vertiginosa e caótica sensação de que nada que me define me faz real...
Tudo em que existo pressupõe, portanto, uma indeterminação ontológica sem a qual a codificação do mundo através da linguagem não faria qualquer sentido...
Em todos os concebíveis significados, somos apenas sombras de nós mesmos em ilusões de tempo e espaço...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

DESTINY



A entre aberta porta

Da sorte
Pode surgir
Em qualquer esquina,
Como um destino,
Um desafio,
Ou, simplesmente,
Uma distração de rotinas.

Tudo quase desaparece
No ocorrer de fatos
Na profusão irracional
De pequenas e preciosas
Mundanças...

REAL FUTURE



Não espero da vida
A perfeição de algum
Sonho antigo,
Apenas a branda alegria
De cada dia
Entre esperanças
E apostas
Na invenção de magros horizontes.


Sei que no vazio acontecer
De algum tempo futuro
Encontrarei ansioso
Algum atemporal pedaço
De primavera e existência...




terça-feira, 27 de outubro de 2009

UM FRAGMENTO DE ORLANDO by VIRGINIA WOOLF



Uma passagem em especial do capitulo VI do ORLANDO de Virginia Woolf me fascina por sua complexa simplicidade ao questionar, mediante subjetivas interpretações de pequenas e cotidianas imagens de natureza, o próprio significado da vida sem sobriamente oferecer qualquer resposta ...


“... Continuaremos, pois, a explorar esta manhã de verão em que todos estão adorando a flor da ameixa e a abelha. E cantarolando vamos perguntar ao estorninho ( pássaro mais sociável que a calhandra) em que pensa, à beira da caixa de lixo, de onde recolhe, por entre os gravetos, restos de cabelo do cozinheiro. Que é a vida? Perguntamos, no portão da granja. Vida, vida, vida, grita o pássaro, como se estivesse ouvindo e soubesse precisamente o que queremos dizer, com este maçante hábito de fazermos perguntas dentro e fora de casa, e vai piando e piando margaridas, como fazem os escritores quando não sabem o que hão de dizer em seguida. E então, diz o pássaro, que eles vêm aqui, e me perguntam o que é a vida; vida, vida, vida.
Arrastamo-nos pelo caminho do brejo, até o cabeço do morro, azul-vinhoso e púrpura escuro, e atiramo-nos ao chão, e sonhamos, vendo um gafanhoto carregar para casa uma palinha. E ele diz ( se a cicios como os seus ser dado nome tão sagrado e terno) que a vida é trabalho, ou assim interpretamos o ruído de seu gasnete sufocado de pó. E a abelha e a formiga concordam, mas se ficarmos aqui bastante tempo e interrogarmos as mariposas, quando chegam a noite, insinuando-se por entre as campânulas mais pálidas do que elas, sussurrarão aos nossos ouvidos coisas sem sentido, como as que se ouvem nos fios telegráficos, em tempestades de neve: hi-hi-há. É riso! Dizem as mariposas.
Tendo, pois ,interrogado o homem, o pássaro e os insetos, porque os peixes- dizem os homens que têm vivido em grutas verdes, solitários, anos inteiros,, para ouvi-los falar -, os peixes nunca, nunca falam, e assim talvez saibam o que a vida é; tendo interrogado a todos sem ganharmos em ciência, e apenas aumentado em velhice e frio ( pois não tínhamos implorado o dom de aprisionar num livro uma coisa tão difícil, tão rara, que se pudesse jurar ser o sentido da vida?), voltemos para trás e digamos diretamente ao leitor que ansiosamente espera ouvir o que é a vida: - ai de nós, não o sabemos.”

( Virgina Woolf. Orlando/tradução de Cecília Meireles. RJ: Nova Fronteira, 1978, p. 152-15 3)



O PARADOXO DA "PSICOLOGIA PROFUNDA"


A psicologia profunda pode ser considerada o mais complexo e difícil campo dos saberes ditos científicos. Pois se seu objeto é a mente humana, por razões obvias, não é possível produzir qualquer formulação exterior a ele.
Toda formulação ou reflexão sobre a mente pressupõe a própria mente como premissa conceitual; paradoxo que lhe afasta das demais ciências.
Ao ocupar-se do irracional e do indeterminado da mente através da noção de inconsciente, a psicologia profunda tende a definir-se acima de tudo como um jogo simbólico. O que faz da sua matéria prima concreta justamente as fantasias que estruturam a consciência e qualquer experiência cognitiva do que chamamos ou socialmente consideramos real.
Ao longo do século XX a psicologia analítica de Carl Gustav Jung, mais do que qualquer outra vertente, parece ter explorado esta perspectiva de modo criativo e fecundo, no que diz respeito a muitas questões hoje não tão polêmicas...
Mas ainda há muito o que se explorar neste campo... O que pressupõe uma nova concepção de ciência e racionalidade; uma definitiva superação da modernidade...


sábado, 24 de outubro de 2009

PRESENT TIME



O tempo amanhã

Será claro e firme.
Mas hoje permanecerá
Nebuloso e fechado
Desfazendo o dia
Em um silêncio raso
E cotidiano.


Mil horas dormem
Em minha insônia.
Escapo aos fatos
Mínimo e provisório,
Deixando correr
O momento
De colher a chuva
Que me chama lá fora...

DREAM IN DAY



No ponto incerto

Do nascer do dia
Tento tocar o sentimento
Do desencontro de todos os eus,
Sondar vazios, abismos
E infinitos
On the road
Até que nada mais
Faça sentido,
Tenha importância
Ou me machuque
Como uma emoção quebrada.

DEVIR BIOGRÁFICO E MEMÓRIA



O segredo da vida é que nada nela é essencial. Tudo é provisório e descartável. Inclusive a própria existência... Mas é justamente o fato de nada ser definitivo e eterno, o que nos faz atribuir qualidades e valores a determinados momentos e situações; o que nos leva a rebelião contra a temporalidade de tudo mediante o evocar da memória. Uma memória que não recolhe apenas detritos de passados, mas que também inventa futuros e se perde nos labirintos bizarros do tempo presente...




quinta-feira, 22 de outubro de 2009

VOICE POINT



Sei que a vida

Não cabe nos signos
Espalhados no branco
De uma folha de papel.
Tudo que lá está
É o abstrato significado
Que nos encanta a existência,
A aventura de dizer
O que somos in mundo
No caos profundo
De palavras domesticadas
E livres de cotidiano
In ontology of the present
And pós- modernity life...

UMA LEITURA PÓS MODERNA DO LUDICO DE VIAJAR



Uma das mais universais e atemporais imagens que decoram o rico universo do patrimônio simbólico da humanidade é a viagem. Não basta invocar a imagem de Ulisses, a saga dos argonautas ou os inúmeros relatos de viajantes da época dos descobrimentos marítimos de primórdios da modernidade, para dizer a essencialidade deste mito à condição humana. Isso porque ele transcende qualquer aventura épica contaminando o micro universo cotidiano do mais convencional individuo contemporâneo.

A final, toda viagem representa um deslocamento ontológico. Não importa muito seu destino, propósito ou a pré- disposição anímica daquele que se lança em seu roteiro. Mas para algumas pessoas viajar pode se confundir com o domínio de uma arte muda centrada na experiência radical do outro na relativização de si mesmo, em uma modalidade quase ilegível de evasão ou suspensão do cotidianamente vivido na experiência do inteiramente outro de um lugar desconhecido.
Viajar pode ser assim a chave de um múltiplo deslocamento; a um só tempo ontológico, social, cultural e, de varias maneiras, afetivo e intuitivo em discreta transgressão de si mesmo no afrouxamento de cristalizadas referências biográficas e pessoais de lugares e pessoas vividos como parte de nossa identidade.
Em outras palavras, em um mundo globalizado e cada vez mais multi cultural onde todas as distâncias e referências foram relativizadas por um desenvolvimento técnico cientifico sem procedentes, viajar pode ser algo mais do que visitar e conhecer lugares. Pode ser um desafio a velhas certezas da cultura gregária e nacional estabelecida pela modernidade mediante um exercício constante de desconstrução e reconstrução de si mesmo na incorporação da pluralidade e diversidade de uma realidade que nos faz cada vez mais indeterminados... como tudo que nos cerca.
Já não a contexto que domestique o caos infinito de possibilidades que agora definem o mundo que coletivamente inventamos a cada novo e desafiante dia...


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Arthur Hugh Clough e a cultura vitoriana




“Se as esperanças eram ingênuos, os medos podem ser mentirosos”.

Arthur Hugh Clough

Nascido em Liverpool, Arthur Hugh Clough (1819-1861) foi um dos mais celebres poetas britânicos do século XIX. Sua poesia é profundamente vitoriana, marcada por uma religiosidade não ortodoxa, pois tanto sua vida como poesia personifica como nenhuma outra a crise religiosa que caracteriza a cultura na Inglaterra oitocentista. Justamente por isso, uma das temáticas centrais de sua obra é a indecisão ou a incapacidade de agir. Alem da questão religiosa, também lhe afligiram as crises políticas do seu tempo. Em 1848 o poeta viajou a França para testemunhar os conflitos que então sacudiam Paris e culminariam na experiência da Comuna.

Embora inspirados por um mundo bem diferente do nosso, os poemas de Clough ainda nos encantam com seu profundo sentimento de impotência que, de outras formas e por razões diferentes, nos são contemporâneos...
 
In a London Square

Put forth thy leaf, thou lofty plane,
East wind and frost are safely gone;
With zephyr mild and balmy rain
The summer comes serenly on;
Earth, air, and sun and skies combine
To promise all that's kind and fair:—
But thou, O human heart of mine,
Be still, contain thyself, and bear.
December days were brief and chill,
The winds of March were wild and drear,
And, nearing and receding still,
Spring never would, we thought, be here.
The leaves that burst, the suns that shine,
Had, not the less, their certain date:—
And thou, O human heart of mine,
Be still, refrain thyself, and wait.

Tradução livre e precária:
 
Em uma avenida de Londres

Estende a folha teu plano elevado, tu
Oriente vento e geada são seguramente findados;
Com a chuva leve e refrescante
O verão vem serenamente;
Terra, ar, sol e céu a combinar
Prometem tudo que é justo: --
Mas tu, ó meu coração humano,
É fadado ainda, a conter a ti mesmo, e suportar.
Os dias de dezembro foram breves e frios,
Os ventos de março foram selvagens e melancólicos,
E, tendo-os afastados e próximos, 
pensamos presente
A primavera.
As folhas que nascem, os sóis que brilham,
Não tinham, no entanto, a data certa: --
E tu, ó meu coração humano,
é ainda fadado a abster-te e esperar.




NIETZSCHE E O SIGNIFICADO DA HISTORIOGRAFIA



A coletânea ESCRITOS SOBRE A HISTÓRIA reunindo fragmentos de Fredrich Nietzsche sobre o tema, é uma referência indispensável para os críticos da modernidade e, mais especificamente dos defensores da pretensão a objetividade do conhecimento histórico.
Pode-se dizer que a historicidade, esta grande invenção do século XVIII, é inerente a imagem de mundo cristalizada pelo espírito moderno e suas teleologias racionais assentadas sobre o vicio da verdade que inspira toda tradição ocidental.
O mais radical exemplo de tal filosofia encontra-se no sistema hegeliano e na sua concepção de História como processo contra a qual Nietzche se insurge ferrenhamente em sua critica ao historicismo. É essencialmente contra a idéia de totalidade, de universal e identidade articuladas pela racionalidade sistêmica dos conceitos que Nietzche elabora sua critica a historiografia de seu tempo.
Para ele, o mundo, o homem e a natureza existem em devir, em uma intricada pluralidade de processos ou fluxos inspirados por uma potência cega condicionada apenas ao acaso e a necessidade.
Nestes termos, perde qualquer sentido a hipótese de uma “História Universal” ou racional. O que é muito coerente com a leitura que o filosofo fazia de sua época como um momento de reviravolta de todos os valores e na qual anunciava a boa nova da “Morte de Deus” ou do fim definitivo de toda metafísica, de todas as finalidades e sentidos tradicionais.
Destaca-se na coletânea aqui comentada a “ II Consideração intempestiva sobre a utilidade e os inconvenientes da História para a vida”,onde o autor desenvolve a premissa de que o elemento histórico e o elemento a-histórico são igualmente necessários à saúde de um indivíduo, de um povo e de uma cultura:

“... A serenidade, a boa-consciência , a atividade alegre, a confiança no futuro,- tudo isto depende, num individuo, assim como num povo, da existência de uma linha de demarcação entre o que é claro e visível e o que é obscuro e impenetrável, da faculdade de sentir com um poderoso instinto quando é necessário ver as coisas sob o ângulo histórico, e quando não. Este é exatamente o princípio sobre o qual o leitor é convocado a refletir: o elemento histórico e o elemento a-histórico são igualmente necessários à saúde de um individuo, de um povo, de uma cultura.”

( II Consideração Intempestiva sobre a utilidade e os inconvenientes da História para vida. In Fredrich Nietzsche. Escritos sobre História./ Apresentação, tradução e notas de Noeli Correia de Mello Sobrinho. RJ: Ed. PUC-Rio; SP, Loyola, 2005, p.74 )

Tal relativização da consciência histórica elege a vontade livre como cifra para a singularidade humana. Sem ela o individuo dilui-se na impessoalidade do processo histórico, torna-se um apêndice dele, o mesmo ocorre com uma cultura ou “povo”. A individuação,.. A singularidade social e pessoal, reside no a-histórico de uma “consciência irônica de si mesmo” além de toda referencia de processo e sentido temporal...

PRIMAVERA E MATERIA




Rendo-me ao paraíso

De pequenas vontades
E mínimos prazeres
Que enfeitam os dias doces
De primavera.

Tudo se faz demasiadamente
Simples
No acontecer do querer
Que me sustenta.

Sinto-me vivo em cada coisa
Que conquisto e faço
Em lúdico exercício
De físico e concreto
Pensar das coisas
em simbólicos paradoxos.

ESPECULAÇÕES SOBRE O CONCEITO DE PÓS-CULTURA

Depois do fim do longo século XX, marcado por tensões ideológicas e violências sociais e políticas, é cada vez mais difícil associar cultura a identidades coletivas orgânicas e coerentemente articuladas em um ethos ou sensibilidade.

Já não cabe a cultura re-presentar socialmente o mundo, mas formatar a superficialidade e aparência do individuo em meio ás cotidianas frivolidades inerentes a existência.
A cultura agora não passa de uma mascara densa e inútil que vestimos para viver nossas fantasias de realidade...

domingo, 18 de outubro de 2009

NOTA PARA REDEFINIÇÃO DO CONCEITO DE CULTURA



Nossas representações contemporâneas de mundo são um amalgama impreciso e incerto composto de inúmeras citações. Já não cabe falar mais em visões de mundo ou ideologias, pois já não somos capazes de acreditar ou viver de acordo com qualquer prerrogativa de fé ou crença em qualquer invenção do intelecto humano.

Sabemos que equações matemáticas ou tautologias não remetem a qualquer realidade objetiva. Categorias como “necessidade”, “leis naturais” ou “valor” não são aplicáveis de modo convincente as descrições do real que nos povoam e orientam cotidianamente.
Tal ceticismo em relação as possibilidades do conhecimento humano nos afasta da sedução da verdade, da vocação que temos para nos confundir com criações do intelecto a ponto de derivar delas identidades e visões de mundo. Toda modalidade de saber já não passa de uma relativa codificação do real sobre a qual nunca estamos inteiramente seguros.
Nem mesmo a maior ou menor eficácia alcançada por este ou aquele campo do conhecimento cientifico personificados por suas realizações pragmáticas, parece ser um critério valido para atribuir valor a qualquer pensamento. Pois não importa quais sejam suas premissas ele será irremediavelmente arbitrário e unilateral...
Em poucas palavras, deslocado da idéia de verdade e de significação ontológica os saberes humanos convertem-se cada vez mais em performance do espírito. O que significa que, se para modernidade o método das ciências naturais foi o grande modelo para construção de saberes, a arte tende a desempenhar papel análogo no indeterminado da pós modernidade.

BIG NIGHT

Agora mesmo

Há flores florescendo
Em algum telhado
De antiga casa de subúrbio,
Luzes decorando calçadas
No espelho de uma poça
De chuva
E tropeços embriagados
No caos do passeio público.

A noite me abraça
Enquanto visto
Minha própria sombra
Na magia da madrugada.
Nada mais existe
Alem deste instante
Simples...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

SOBRE O NÃO SENTIDO DA VIDA E A IMANÊCIA COMO PRINCÍPIO

Vivemos todos abandonados ao passar do tempo, entregues ao aleatório acontecer das coisas, administrando emoções e pensamentos diversificados e conflitantes.

Tudo faz pouco sentido... Mas a vida, pura e simplesmente, parece-me suficiente em meio ao acumulo do efêmero e das imanências cotidianas.
Tudo é aparência... Não há qualquer profundidade a explorar ou nos iludir como meta. Apesar de nossas intuições de transcendências, o tempo sempre nos ultrapassa na simplicidade tosca do dia a dia e nada há alem disso...

RED DAY

Preciso

de uma gota de silêncio
para olhar a vida
nos olhos
e explorar nervoso
todas as cores
da existência. ,
esquecer-me
Tão completamente
A ponto de perceber
A beleza de um dia aberto
Em riscos e possibilidades...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

ALLEGORIES OF READING

Sob o apagamento

Constante do tempo,
Procuro-me em restos
De infância,
Em desfeitos momentos
E metafísicas ruínas
De familiares lugares perdidos...

Em parte alguma me encontro
Ou surpreendo em encanto
De estar simplesmente
No mundo...




Todas as coisas
Passam mudas
Em progressivo infinito
Para o absoluto vazio
Que constantemente
Nos transforma em realidades...



ESPECULAÇÕES PÓS MODERNAS SOBRE O CONCEITO DE REALIDADE E INDIVIDUALIDADE



O conceito moderno de subjetividade, fundado na premissa de que o homem é dotado de uma consciência autônoma e de uma racionalidade cognitiva pré-figuradora de um “eu” funcional, já não nos parece convincente no tempo presente. O velho conceito de “eu” é cada vez mais deslocado pelo revisionismo do conceito de simulacro, diante do qual o “eu” só pode ser um principio de incerteza, algo múltiplo e discontínuo condicionado a eficácia de nossas sempre provisórias codificações do mundo e da “realidade”. Em outras palavras, tudo é linguagem e, ao mesmo tempo, condicionado a uma variável incerta sem lugar no tempo e no espaço que nos corresponde aos instintos nos animais. C G Jung procurou dar conta dessa dinâmica que define a condição humana através do conceito de arquetipico e de individuação.

Mas ainda estamos longe de qualquer conclusão... ou de uma satisfatória fantasia ou codificação do abstrato de nós mesmos e do real...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

UM FRAGMENTO DE LUDWIG WITTGENSTEIN II


Se considerarmos óbvio que um homem aufira prazer de suas próprias fantasias, lembreme-nos que a fantasia não corresponde a uma imagem pintada, a uma escultura ou a um filme, mas a uma formação complicada, de componentes heterogêneos- palavras, imagens, etc. Então, não contrastaremos o operar com signos escritos e falados com o operar com “imagens da imaginação” de eventos.


(A feiúra de um ser humano pode ser repelente num quadro, numa pintura, como na realidade, mas pode também ser repelente numa descrição, em palavras.)

A postura para com uma imagem ( para com um pensamento). A maneira como experimentamos uma imagem torna-a real para nós, isto é, liga-a com a realidade, estabelece uma continuidade com a realidade.


( O medo liga uma imagem aos terrores da realidade.)

( Ludwig Witgenstein. Gramática Filosófica/ organizada por Rush Rhees/tradução de Luis Carlos Borges. Edições Loyola, 2003, p. 137 )

NOTA SOBRE O DÂNDI E O ARTISTA NA OBRA DE BAUDELAIRE


Um dos mais significativos fenômenos sócio-culturais do século XIX, o dandismo, de certa maneira, formatou o estereotipo do artista oitocentista. Pode-se dizer que, ao apresentá-lo em uma versão bastante heterodoxa e pessoal, a obra de Baudelaire foi uma das principais fontes para tal simbiose que posteriormente seria cristalizada por Oscar Wilde e seus seguidores.
Em linhas gerais, o dandismo foi uma nova e derradeira categoria aristocrática definida pela estetização irrestrita da vida no jogo das aparências e das excentricidades; jogo regido pela ilimitada busca de distinção em uma sociedade em que, com o triunfo da revolução industrial e do liberalismo político, tornava-se cada vez mais impessoal e massificada.
Em Baudelaire, extrapolando essa imagem, o dandismo é a teorização estética e moral de uma revolta absoluta e “satânica”. Ele é essencialmente um transgressor e anti-social que leva as últimas conseqüências sua inglória luta contra a multidão e a sociedade...





O AMOR COMO MONOLOGO...

“O amor é o estado em que o homem vê mais as coisas como não são”.

F. Nietszche in O Anticristo

Pode-se falar do amor como uma espécie de princípio de ligação, ou atração, observável na natureza que, como metáfora para dizer relacionamentos humanos, procura dar conta desta irracional pré-disposição inata ao individuo para buscar intimidade com “o outro”. Mas do que uma banal fatalidade, trata-se aqui de uma inesgotável fonte de fantasias, imagens impessoais e desencontros pessoais.
Afinal, contrariando os pareceres mais ingênuos, o amor é um monologo intimo onde nos buscamos em um rosto estranho e oposto, é uma desesperada e dramática invenção do outro como parte de nós mesmos e de nossas mais obscuras carências...

THE END IS HERE...




A biografia de um indivíduo não encontra um fim com seu falecimento. Ela apenas se interrompe sob o signo de um “antológico” inacabamento...
O que talvez mais nos incomode na morte é a dura constatação de que nunca alcançaremos qualquer objetivo ou meta teleologicamente definida que permita rotular como “esgotada” a experiência cotidiana de viver... Somos assim dolorosamente um trágico esboço de nós mesmos....Não importa a vida que realizamos....

terça-feira, 6 de outubro de 2009

CONDIÇÃO HUMANA, SIMBOLO E LINGUAGEM

O uso de signos e símbolos é inerente a condição humana... Através deles inventamos coletivamente aquilo que conhecemos como realidade na exata medida em que nos comunicamos uns com os outros. Pois, a maneira como experimentamos uma imagem psíquica através da linguagem tornamos real determinada coisa cognoscível.




A realidade existe na medida em que codificamos nossas experiências. Mas, ao fazê-lo, somos aprisionados ou configurados por tais experiências, em que nos projetamos nelas. Nos tornamos, assim, prisioneiros de nossas próprias discussões através daquela tonalidade afetiva definida por um sentimento de “verdade”. Não nos damos conta que o mundo só é verdadeiro quando o inventamos como tal...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ILUISION OF LOVE



Vejo teus olhos
Dentro dos meus
Na mudez do momento
Que nos apaga
No sonho de um futuro
Que se perdeu em nossos rostos.


Talvez não valha a pena
A imaginação...
Minha aposta cega nos atos
Que se escrevem na imensidão
Do encontro de nossos lábios...


Talvez,
Nada disso
Faça algum sentido
Dentro de ti
Ou em muitos dos eus
Que me definem
Em buscas de imperfeito amor
em suas intimas diversidades... 

domingo, 4 de outubro de 2009

A DAY IN THE LIFE




A DAY IN DE LIFE... Talvez seja a mais destoante faixa do Sgt. Pepper. Suas imagens melancólicas e cotidianas dizem psicodelicamente o passar do tempo em triste ritmo de auto recuo do "eu" frente os micro-universos que definem o mundo como labirinto de idéias e fatos além de todo possível pensamento e palavra pessoal... Eu li as noticias hoje e não aconteci em qualquer uma delas no deserto de me fazer em minha mínima moralia alem do mundo...







(sugar, plum, fairy... sugar, plum, fairy.)


I read the news today oh boy


About a lucky man who made the grade


And though the news was rather sad


Well I just had to laugh


I saw the photograph


He blew his mind out in a car


He didn't notice that the lights had changed


A crowd of people stood and stared


They'd seen his face before


Nobody was really sure if he was from the House of Lords.


I saw a film today oh boy


The English Army had just won the war


A crowd of people turned away


But I just had a look


Having read the book, I'd love to turn you on...


Woke up, fell out of bed,


Dragged a comb across my head


Found my way downstairs and drank a cup,


And looking up I noticed I was late.


Found my coat and grabbed my hat


Made the bus in seconds flat


Found my way upstairs and had a smoke,


and somebody spoke and I went into a dream


I read the news today oh boy


Four thousand holes in Blackburn, Lancashire


And though the holes were rather small


They had to count them all


Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall.


I'd love to turn you on.



A TARDE E O VENTO

O vento vai e vem

No morno acontecer
De uma tarde qualquer
Onde quase nada
Parece real.

Sinto o presente
Passeando em silêncio
Sem vocação
Para futuros
E sigo sem direção
No passar das coisas
Até me confundir
Com o vento...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

MAR E VIDA...



Viverei o mar

Como errante
E livre marinheiro
No castelo da proa
De um pequeno
E doce navio.

Verei o sol brincando
Nas ondas
Em ritmos de tempo
E vento.

Serei pirata, baleeiro,
No receio de terra firme
E incerteza
De vida de cada dia
com o louco do mar...
Longe daqui...



terça-feira, 29 de setembro de 2009

SOBRE A INSUFICIÊCIA DO TEMPO PRESENTE...

O presente, como substantivo ou adjetivo, não possui signifado real, na medida em que não oferece uma satisfatória diferenciação do que entendemos como passado e como futuro.


Ele é, em nosso cotidiano, uma ideia fugidia e vaga fundada na experiência de existir apenas em um corpo no tempo e espaço… ou na perpetuação da experiência ciclica de acontecer em cada dia como quase não lugar do mundo socialmente apreendido…


Tal premissa não é suficiente para nos permitir conclusões satisfatórias ou “verdadeiras” sobre aquilo que nos ocorre como existência em condição humana …
Apenas nos serve de esterco para a gratuita semente da duvida...





NOSTALGIA

O melhor de mim
Perdeu-se em passados,
Foi corroido pelo tempo
Em meio a duvidas
E ceticismos…


O que, afinal,
É o aprendizado da existência
Além do progressivo domínio
Do cândido vazio
Que nos ensinam os ventos?


Tudo que há
É o passar dos dias e noites
Entre a imaginação de estrelas…

domingo, 27 de setembro de 2009

SOBRE A ESSÊNCIA DO MUNDO COMO LINGUAGEM...

Uma vertiginosa variedade de alternativas… Eis aqui a mais adequada definição do acontecer da vida na suceder-se interminável dos fatos vividos. … Interesse, desejo, mudança, segurança… emoção!... Incerteza…

O desencanto é o remédio para todas estas tolices que nos pertubam no acontecer humano. O pensar enxuto e objetivo, sem surpresas ou expectativas. Isso é tudo que importa… Somente quando nos distanciamos de tudo podemos tocar e saber a existência, suportar o mundo vivido e imediato como um jogo gramatical socialmente construido…

THE PEACE FESTIVAL: 40 anos depois...



Em 13 de setembro de 1969 ocorreu em Toronto (Canada) o PEACE FESTIVAL, obviamente uma referência a guerra do Vietnã. Participaram do show ícones do rock and roll como Chuck Berry, Jerry Lee Lewis e Litle Richard, além de John e Yoko Ono, acompanhado de figuras como Erich Clapton. Os Beatles, então, ainda não haviam oficialmente terminado, o que aconteceria um pouco depois. Este evento pode ser considerado, portanto, a primeira performance pós Beatles de Lennon . Cabe observar que este involuntário marco da histório do rock mostra muito significativamente a vitalidade e atualiudade do velho rock dos anos 50, apesar das reformatações sofridas nos anos 60….

sábado, 26 de setembro de 2009

THE BEATLES AND REAL LOVE…



Neste  ano completam-se 40 anos que os Beatles acabaram… O fato foi lembrado através da reedição de sua obra no mágico dia 09/09/09 e de um videogame, mas também  pela matéria de capa da lendária revista Rolling Stonnes consagrada em sua edição de setembro a um ótimo e minuncioso ensaio de Mikal Gimore sobre os conturbados bastidores do fim daquela que foi a mais importante banda de rock de todos os tempos.
O crepúsculo da saga dos Beatles, para o autor segue as vicissitudes de uma história de amor. Imagem que me parece adequada para traduzir seu legado musical e ontológico. Sobre isso é curioso observar que essa imagem tambem foi explorada através do musical ACROSS THE UNIVERSE dirigido por Julie Taymor.
Ofereço ao leitor as próprias palavras do autor para experiência e julgamento:

“… TUDO ISSO LEMBRA UMA HISTÓRIA DE AMOR? O amor perde todo o seu valor quando tudo termina? Talvez sim, embora finais não apaguem a história; em vez disso, a concluem. A história dos Beatles sempre foi, de certa forma, maior do que os próprios Beatles, tanto a banda quanto os indivíduos que a formaram: foi a história de uma época, de uma geração que buscava novas possibilidades. Foi a história do que acontece quando você encontra essas posibilidades, e o que acontece quando suas melhores esperanças vão por agua abaixo. Sim, foi uma história de amor- e o amorquase nunca é uma benção simples. Porque, por mais que os Beatles possam ter amado o que faziam juntos, o mundo em volta os amava ainda mais. Foi esse amor que, mais do que qualquer outra coisa, exaltou os Beatles e os acorrentou juntos por tanto tempo. Algo que, por fim, nenhum deles conseguiu suportar. Jonh Lennon, em particular, sentia que precisava acabar com o romance, enquanto Paul McCartney em especial odiava a idéia de vê-lo despedaçado. E, uma vez que estava feito, estava feito. Tudo que eles criaram-cada uma das maravilhas-ainda reverbera, mas os corações responsáveis por tudo aquilo também foram responsáveis pelo seu fim, e nunca se recuperaram totalmente da experiência. “Foi a tanto tempo”, George Harrisson declarou anos mais tarde. “Às vezes, me pergunto se eu estava mesmo lá ou se foi tudo um sonho. Um sonho que nos elevou, que partiu nossos corações, que ainda perdura e que provavelmente jamais será igualado.””






DEVOULING TIME



Até a pouco
Gratuitamente experimentava
O superficial do agora
De todos os dias iguais…
Mas avançou repentinamente
Sobre mim
Algum outro instante
De vivido e vívido momento,
Um vazio estranho
De absurdo de tempo e espaço.

Deslocado das coisas,
Surpreendi-me despedaçado,
Em metafísico silence,
Rasgando meu próprio rosto
Na paisagem magical
De um simples espelho…



sexta-feira, 25 de setembro de 2009

DE PROFUNDIS by OSCAR WILDE



Publicado originalmente em 1905 pelo amigo Robert Ross, o longo relato epistolar, De Profundis, de Oscar Wilde, um de seus vários textos escritos durante o cárcere, é uma resposta do autor a sociedade conservadora inglesa de sua época, que lhe condenou a dois fatais anos de prisão por atentado a moral vigente devido a sua homossexualidade.

Cada uma de suas partes corresponde às cartas que Wilde escrevia para seu jovem ex-amante, Lord Alfred Douglas, pivô do processo que lhe condenou.
Trata-se de um texto realmente singular na história da literatura inglesa devido a sua melancólica intensidade e simultânea aposta do autor na recuperação póstuma de seu perdido prestigio literário.
Mas trata-se acima de tudo de uma intensa reflexão sobre a condição humana, seus autos e baixos, bem como sobre a natureza da arte...
Segue um interessante fragmento da comentada obra:

“O artista esta sempre buscando um modo de vida, no qual a alma e o corpo sejam uma coisa só, indivisível, em que o exterior seja a expressão do interior e a forma revele tudo. Tais modos existem, e não são poucos, Num determinado momento, a juventude e as artes que se preocupam com a juventude podem nos servir como modelo. Em outros, podemos talvez preferir a idéia de que na sua sutileza e na sensibilidade de suas impressões, na sua sugestão de um espírito que habita as coisas externas e faz de suas vestes de terra e de ar, de bruma e cidade, indistintamente, a moderna arte do paganismo, na mórbida afinidade do seu clima, dos seus tons e cores, realiza para nós, pictoricamente, aquilo que os gregos realizavam com tanta perfeição plástica. A música, na qual o tema é absorvido pela forma de expressão e não pode ser separado dela, é um exemplo complexo- e uma flor ou uma criança são um exemplo simples- do que estou tentando dizer, mas o sofrimento é o exemplo fundamental, tanto na arte quanto na vida.
Por trás das alegrias e do riso pode esconder-se um temperamento grosseiro, áspero e insensível. Mas por trás do sofrimento há sempre mais sofrimento. Diferente do prazer, a dor não usa mascara. A verdade na arte não é a correspondência entre a idéia essencial e a existência acidental, não é a semelhança entre a forma e a imagem, ou entre a forma refletida no espelho e a própria forma em si; não é o grito que ecoa no vale entre as montanhas, nem o poço de águas prateadas que refletem a imagem da lua para a lua, ou a imagem de Narciso para Narciso. A verdade na arte é a união da coisa com ela mesma, o exterior tornando-se expressão do interior, a alma revestida de forma humana, o corpo e seus instintos unidos ao espírito. Por essa razão, não há verdade que se compare ao sofrimento. Há momentos em que esta me parece ser a única verdade. Outras coisas podem ser ilusões dos olhos ou do apetite, feitas para cegar um e saciar o outro, mas é o sofrimento que tem construído os mundos, há sempre dor no nascimento de uma criança ou de uma estrela.”

( Oscar Wilde. De Profundis e outros escritos do cárcere/tradução de Julia Tetamanzy e Maria Ângela Saldanha Vieira de Aguiar. Porto Alegre: L&PM Editores, 2002, p. 101-102 )

CONDIÇÃO HUMANA

Viver é como correr

Por desertos
A espera de notícias
De terras distantes.

Não importa
O que aconteça,
Estamos sempre vazios,
Sedentos de experiência
E existência…

Send more love…
Now…

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

UNIVERSE




Somos todos
Poeiras de estrelas,
Restos animados
Da história
De um mágico universo
Onde existimos anônimos
E atônicos.

A mais profunda natureza
Contradiz
As certezas humanas...

Existir é um conceito
Relativo e provisório
Que escapa a razão
Que desenha a palavra.



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

SOBRE O MOVIMENTO PUNK ( ORIGENS E SIGNIFICADO)



Originalmente o punk surge por volta de 1975, nos Estados Unidos, através do punk rock da banda The Ramones , cuja proposta era a de uma revitalização da cultura rock and roll (músicas curtas, simples e dançantes) e do estilo rocker/greaser (jaquetas de couro estilo motociclista, camiseta branca, calça jeans, tênis e o culto a juventude, diversão e rebeldia). Contraposto as então grandes bandas e icones do rock, o estilo “faça você mesmo” de musicas simples de três acordes, que qualquer um poderia fazer, começou a se difundir rapidamente. No ano seguinte a boa nova chegou a Inglaterra, onde o descomprometido punk rock ganhou novas formatações e conteudos originando assim o chamado movimento e cultura Punk.



Dois marcos fundadores deste movimento merecem ser citados: o Fanzine Sniffin’Glue ( Cheirando cola) e a radicalmente anarquica e niilista banda Sex Pistols, tutelada por Malcom McLaren, um afccionado pelo dadaismo e a cultura de vanguarda. Nenhuma outra banda de rock até hoje vociferou tão radicalmente contra a cultura estabelecida, ideologias politicas, valores morais e religiosos como os Pistols. Ainda hoje simbolo máxio do niilismo punk, apesar da curta carreira, eles se tornaram um dos maiores icones de rebeldia e cultura juvenil dos últimos tempos. A partir de 1977, a cultura punk começou a se tormar as ruas e se ramigicou em diversos sub generos consolidando-se tambem como uma estética que influenciava modas e comportamentos. É facil compreender o impacto do punk rock na Inglaterra dos anos 70, marcada pelo Thatchismo mas a força do seu impácto na cultura popular é bastante complexa.


Sabe-se hoje o quanto o mundo do rock foi profundamente abalado e transformado pelos punks. O New Have e o Heavy Metal dos anos 80 foram apenas as primeiras ondas pós punks aos quais, ironicamente, muito deve a musica pop dos últimos anos.


Ao buscar desconstruir o mito do rock que se difundia através da industria do enterterimento e representava certa diluição de sua cultura social, o punk não fez mais do que dessacraliza-lo e lembrar o quanto o rock é muito mais do que um estilo musical, mas uma cultura.

SPRINGTIME

A primavera

Enterra-se no em torno
Como um perfume
Onipresentemente adocicado

A decorar com cores a paisagem.

Parece dizer alguma esperança
Ou intuição de novidade
Em pequenos ritos mudos de fertilidade,
Como se alguma intencionalidade
Encantasse o mundo...



terça-feira, 22 de setembro de 2009

A PÓS MODERNIDADE E O BINÔMIO TEMPO E ESPAÇO

Uma das questões nodais do novo século, que apenas começamos a construir ou discutir em nossos conservadorismos de representações e linguagens, talvez seja a redefinição da noção de tempo e espaço.

Mesmo assim, o fato, é que já não olhamos o futuro do mesmo modo otimista e, ao mesmo tempo, pessimista, personificado pela ambigüidade do imaginário do século XX, profundamente apegado a fantasia da continuidade linear entre passado/presente/futuro.
A retração e simultânea expansão de nossas representações do tempo presente sugerem, ao contrário, que o passado e o futuro já não são para nós dimensões diferenciadas da experiência do agora. Mas simultâneas manifestações daquilo que compreendemos como tempo, ou como representações da temporalidade, já que ela não passa de uma projeção de apostas e projetos que fazemos de nós mesmos enquanto imaginação de existência em referência organizada de nosso próprio acontecer fenomenológico.
Vivemos hoje em sucessão de memórias e experiências que já não formam um “roteiro”, que não dizem significados ou especuladas possibilidades de futuro ou identidade.
Afinal, é importante frisar, toda tradição jaz morta e tudo que temos agora é, na verdade, um desregramento de nossas representações tradicionais do tempo e da temporalidade...
A vida vivida em pensamento e sentido foi abolida pela irracionalidade mágica do caos de sucessivos instantes em saudável confusão....