terça-feira, 22 de setembro de 2009

O MITO DE CARLITOS, O VAGABUNDO....

Apesar de todas as inovações tecnológicas sofridas pela estética cinematográfica ao longo das últimas décadas, o celebre vagabundo de Charles Chaplin permanece como uma imagem contemporânea e viva no imaginário coletivo.
Mesmo limitado ao preto e branco de seu admirável mundo mudo, ele ainda é capaz de nos comunicar algo, acordar imaginações e afirmar-se ainda como um dos mais populares e mágicos personagens do cinema de todos os tempos.
Lidamos aqui, obviamente, com uma imagem mítica. Humberto Braga em uma conferência sobre quatro mitos definidores da condição humana, coloca o velho Carlitos ao lado de Prometeu, Don Quixote e Fausto enquanto símbolo do ideário de liberdade em variações peculiares do da imagem arquetípica do herói civilizador.
Considero particularmente pertinente aqui a seguinte passagem desta conferência:

“Carlitos, o Vagabundo, é sobretudo um símbolo da liberdade, como bem definiu Otávio de Farias. O vagabundo afirma e preserva sua individualidade ante uma sociedade massificadora, uniformizada, destrutora da individualidade. Ele manifesta insólita e ostensivamente a sua diferença num meio que não tolera os diferentes. Tal como Dom Quixote, é um otimista ingênuo, mas irredutível. Nada o abate, vicissitude ou malogro algum o deprime. Sua luta não se apresenta como beliciosidade ou agressividade, mas numa instintiva e obstinada resistência da qual não tem família consciente, pois não a racionaliza, não a justifica, nem mesmo a verbaliza. Carlitos não tem família, não tem casa, não tem trabalho fixo, não pertence a qualquer classe social, não tem planos, não tem planos, não tem objetivos, não tem ideais, não tem ambições, não tem religião, não tem passado e não tem futuro, mas ama alegremente a vida e, se não quer mudar o mundo, tampouco se deixa subjugar por ele, apesar de sua aparente fragilidade. Como os mitos anteriores, também não está limitado pela visão da “possibilidade”



(Humberto Braga. Quatro grandes mitos humanos. In Mitos e Arquétipos do homem contemporâneo. Walter Boechat (org.) Petrópolis: Vozes, 1995, pg.16-17)


INTENTIONS OF NIGHT...

Devora-me a urgência

Dos compromissos diários...
Enquanto imaginações
Freqüentam o sol poente.

Bastaria -me agora
A paz de um jardim inglês
Em manhã de branda chuva
E serena esperança.


Não quero mais que a calma
Do silêncio que me fala
No passar e passear do vento
Encantando ruas, luas
E sonhos....

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A INTIMIDADE DE UMA PRÉ-MANHÃ...

Deito sobre o silêncio

Que antecede o amanhecer
Sem expectativas
Para o dia que se anuncia.
Apenas me contemplo,
Em segredo de mim mesmo,
Disperso na paisagem
Do acontecer humano.
Deixo-me abandonado
Aos fatos,
Calado e abstrato,
No lugar nenhum
De reflexões e pensamentos
Íntimos...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

SOBRE O INDETERMINADO DO TEMPO PRESENTE


O tempo presente é, em indeterminados sentidos e sentimentos, algo que não cabe em qualquer conceito possível, um aprendizado da indeterminação do real. Talvez, o melhor modo de dizê-lo é a afirmação de que, em relação a ele, não cabem definições, apenas descrições do imediato e instantâneo ato de viver em palavras e imagens em dialéticas confusões...

O contemporâneo pressupõe uma identidade tão profunda entre pensamento e vida que a esvazia de todo sentido abstrato ou metafísico...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

KISS


Olho nos olhos

Da noite
Procurando no escuro
O brilho de um rosto
Que se perdeu em meu disperso olhar.

Talvez eu nunca o reencontre.
Talvez ele nem tenha de fato
Existido...
Mas guardo nítido seu gosto
E a vontade de me fazer parte
De sua paisagem
Através do mundo contido
Na aventura de um beijo....

UM FRAGMENTO DE LUDWIG WITGENSTEIN...

“ A arbitrariedade das expressões lingüísticas.Seria possível dizer: uma criança tem naturalmente de aprender a falar uma língua particular mas não tem de aprender a pensar, isto é, ela pensaria espontaneamente, mesmo sem aprender nenhuma língua?
Mas, a meu ver, se ela pensar, então ela forma para si figurações e, em certo sentido, estas são arbitrárias, isto é, na medida em que outras figurações poderiam ter desempenhado o mesmo papel. Por outro lado, a linguagem sem duvida surgiu naturalmente, ou seja, é de presumir que tenha havido um primeiro homem que, pela primeira vez, exprimiu em pensamento definido em palavras faladas. E, além disso, toda essa questão tem caráter arbitrário, porque uma criança, ao aprender uma língua, só a aprende ao começar a pensar por meio dessa língua. Começa repentinamente; quero dizer: não há nenhuma etapa preliminar na qual uma criança já usa uma língua, usa-a, por assim dizer, para a comunicação, mas ainda não pensa por meio dela.
O processo de pensamento do homem comum trabalha certamente com uma m,istura de símbolos, dos quais os símbolos propriamente lingüísticos constituem talvez apenas uma pequena parte.”
( Ludwig Witgenstein. Observações Filosóficas. Selecionadas entre seus escritos póstumos por: Rush Rhees. Tradução: Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. SP: Edições Loyola, 2005, p.39 )

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

SOBRE A FILOSOFIA DE WITGENSTEIN II


A filosofia do segundo Wittgenstein pressupõe uma definição “complexa”... Segundo o próprio autor ela personifica a luta contra o enfeitiçamento de nosso entendimento pelos meios de nossa linguagem. Não possui, assim, uma função positiva, ou seja, a elaboração de uma concepção própria da existência ou do universo. Também não aspira a uma teoria da lógica ou da linguagem.
A filosofia, tão somente, coloca as coisas tal como são, não explica ou conclui nada. Assim, desempenha tão somente uma função terapêutica, ou seja, a de livrar os filósofos de seus problemas mediante a tomada de consciência dos seus preconceitos gramaticais.
Trata-se aqui, ao mesmo tempo, de uma retomada da filosofia critica de inspiração kantiana e de uma ruptura com o que convencionalmente se entendeu ao longo de toda tradição filosófica ocidental por filosofia...
Através da percepção de “ jogos de linguagem” Witgenstein tornou possível uma superação do método filosófico clássico assentado em definições, hipóteses, teorias e provas.
De certa maneira, sua filosofia é um sintoma da exaustão da tradição filosófica que se identifica, direta ou indiretamente com a tradição da modernidade e suas meta narrativas. A filosofia proposta pelo segundo Wittgenstein mais se aproxima da expressão artística e da experiência imediata da biográfica e socialmente vivida do que da racionalidade moderna configurada pelo modelo cognitivo das ciências naturais...













SOBRE A FILOSOFIA DE WITIGENSTEIN I


O pensamento de Wittgenstein constitui um dos mais representativos exemplos da nova concepção de filosofia emergente a partir da primeira metade do século XX inspirada pelo pragmatismo.
O desenvolvimento de suas reflexões compreendem duas fases distintas: a primeira representada pelo seu Tractatus Lógico- Philosophicus, originalmente publicado em 1921, e a segunda representada por suas Philosophical Investigations, publicada postumamente em 1953.
Em ambas as fases a preocupação central do autor é a compreensão das estruturas e limites do pensamento através da critica filosófica da linguagem. Mas enquanto o Tractatus nos oferece numa filosofia sistemática da linguagem fundada na análise logica do discurso factual, as Investigações, ao contrário, abandonam a posição segundo a qual a filosofia é uma investigação de um sistema objetivo, passando a compreende-la como uma luta contra a fascinação que certas formas de expressão exercem sobre nós. Assim, as palavras só tem significações na corrente diária do pensamento e da vida através das práticas dos jogos de linguagem.
Nas Investigações, portanto,Wittgenstein ocupa-se dos fundamentos do conhecimento factual de um ponto de vista epistemológico/ ontológico em detrimento do ponto de vista lógico/formal adotado no Tractatus.
Através dos jogos de linguagem o significado torna-se indeterminado, transcende a simples análise da expressão lingüística, diluindo-se nos múltiplos contextos de uso da prática concreta e social da linguagem, suas regras de uso cotidiano.


HUMAN CONDITION





Existimos
No pensar das palavras,
Submersos na diversidade
De imagens que traduzem
Em significados
O ilegível do mundo.
Buscamos atônicos
Migalhas de verdade,
Qualquer mínima certeza,
Ou inequívoco sentimento
De nos mesmos
Na fluida experiência
De todas as coisas
Em atos e pensamentos...
Mas nada
É suficientemente real...



domingo, 13 de setembro de 2009

SHAKESPEARE BY F.E. HALLIDAY


A bibliografia sobre Shakespeare é praticamente infinita, sendo impossível a um não especialista construir um satisfatório panorama dos temas e questões que envolvem o estudo de sua obra e biografia.
Aqueles que como eu fascinam-se com seu teatro e buscam mergulhar em seu universo como humildes diletantes, podem contar apenas com a sorte de esbarrar em algum titulo confiável que lhe sirva de guia em tão difícil empreitada.
Pessoalmente acredito que o volume da coleção “Vidas Literárias” sobre o velho bardo, de autoria de F. E. Halliday, é uma das mais competentes introduções ao complexo universo shakespereareano.
A principal característica deste ensaio biográfico é a sobriedade e rigor da narrativa que equilibra com maestria a experiência do mito, da obra e do homem nos oferecendo um convincente retrato do biografado. Neste sentido, certa passagem do aqui comentado ensaio me é particularmente significativa:
“Embora Shakespeare seja tão fugidio, porque tão multiforme, sempre mudando de um personagem para outro, seu espírito permeia as peças, e nós a lemos não só por sua poesia ou pelos personagens que nelas encontramos, mas pelo homem que ele foi. É isso, mais do que qualquer outra coisa, que as torna tão consoladoras. Nós as lemos por sua amável sabedoria, sua avassaladora e meridiana iluminação da vida, sua alegria e seu espírito, sua sanidade essencial: porque ele era o homem idealmente normal, cujas abrangentes faculdades estavam sempre perfeitamente afinadas e sintonizadas. Lemos Shakespeare porque ele é o homem que todos nós gostaríamos de ter como amigo.”
( F.E. Halliday. Shakespeare/tradução de Bárbara Heliodora. RJ: Jorge Zahar Editor, 1990, p. 120 )

THE BACK TO THE FUTURE

Sou compelido a voltar,

Retornar as origens
Em buscas de significações
Perdidas
Que de algum modo
Conduzam meu eu
Á profundeza
De algum distante futuro...
Sou compelido a buscar
Entre meus tantos passados
Um traço de perspectiva
E destino
Em labirinto
Que me guarde ou aguarde
Além de mim mesmo
Em escuro canto e encanto
De mera existência...

sábado, 12 de setembro de 2009

ENCONTRO


Toda pessoa humana

Define-se
Por sua exterioridade,
Pelo não lugar de sua essência
Na permanente desconstrução
Da existência
Em sensações coletivas.

As ilusões do outro
Nos vestem de profundidade
Enquanto extrapolamos
Os limites do rosto
Nas auto representações
De nós mesmos
Vomitadas em um beijo...



segunda-feira, 7 de setembro de 2009

BEATLES E POS MODERNIDADE: O EFEITO NOWHERE MAN

A crise de representação que configura a cultura contemporânea afeta especialmente o pensamento critico, esta tendência filosófica que busca a partir do modelo das ciências naturais a construção de conceitos e definições cada vez mais “precisas”, um esforço reflexivo em permanente auto superação analítica de si mesmo inspirada no mito de um “saber absoluto” a ser alcançado.
Tal metafísico objetivo, que conduziu muitos filósofos e pensadores a balburdia e confusão de indagações, definições e explicações infinitas sobre “O que é o mundo, as coisas e o pensamento”, definitivamente exauriu-se...
Já não há nenhum objeto que seja legível ao conhecimento... apenas a performance lingüística como estratégia de livre representação de um real que absolutamente nos escapa e sobre o qual não temos nada a dizer.
No tempo presente pensar identifica-se com a desconstrução do próprio pensamento... ou com a arte ou o jogo de codificar a própria imaginação...
Um dos ensaios mais interessantes da coletânea The Beatles and Philosophy BY Michael Baur and Steven Baur, é o de James Crooks “ PEGUE UMA CANÇÃO TRISTE E FAÇA-A MELHORAR: OS BEATLES E O PENSAMENTO PÓS MODERNO. Uma determinada passagem deste ensaio me é particularmente cara por definir com precisão o significado da contra cultura que os Beatles representaram e ainda representam através de uma leitura pós moderna através do “efeito Nowhere Man”, diga-se de passagem uma de minhas canções prediletas dos Beatles:
“ As palavras “deixe-me de fora!” exprimem alienação -um tema central para os Beatles do começo do fim. As vozes narrativas de “Misery”, I call Your Name”, “You Can’t Do That, “I’m a Loser”, “I’m a Loser”, “I’m Down”, “Run for Your Life”, e “I’m Looking Throught You” pertencem a amantes alienados. As mulheres retratadas em “Eleanor Rigby”, “Lady Madonna” e “She’s Leaving Home” são amigas e parentes alienadas. As pessoas Em Paperback Writer, “A Day in the Life”, “Taxman” e “Piggies” são consumidores ou trabalhadores alienados. Cantar esse tema não é, em si, algo particularmente notável. Os grupos de rhythm’n’blues que deram origem ao rock e suas conseqüências já eram, de forma coletiva,uma cultura de reclamação nutrida e sustentada por um elenco de personagens que foram deixados de fora, ou se excluíram, de relacionamentos, famílias e da corrente principal da sociedade. A quantidade de variações é impressionante. A antologia “ deixe-me de fora” dos Beatles parece incluir todos os modos de alienação- incluindo aquele audível com clareza nas obras de Heidegger ( 1889-1976), Foucault ( 1926-1984) e várias gerações de seguidores dedicados à critica minuciosa do pensamento moderno e suas instituições. Ela é reproduzida de maneira simples e elegante na letra de “Nowhere Man”.
Segundo a explicação de Jonh, essa canção nasceu de sua frustração com seu próprio bloqueio criativo ( “Não me vinha nenhuma inspiração. Eu fiquei aborrecido e fui me deitar; tinha desistido., Então, pensei em mim mesmo como o “homem de lugar nenhum” [“nowhere man”]- sentado em sua “terra de ninguém” [“nowhere land”] ). Uma breve reflexão sobre o dilema que apresentei a pouco, no entanto, revela uma referência mais ampla. Se o pensamento moderno e todas suas instituições já são, em essência, revolucionários, se o mundo moderno é definido por uma série de crises e reformas, então, um critico minucioso- que seja absolutamente sério no que diz respeito à dissensão- não tem onde se colocar. Parta Heidegger, Foucault e espíritos semelhantes, o problema com a modernidade é que, como os borgs da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, ela assimila toda oposição-ou, em termos mais técnicos- “totaliza” seus próprios valores e métodos. Sérios pensadores pós modernos, precisamente para ser sérios, devem reportar-se ao estado do mundo como se tivessem um status de refugiados em algum outro lugar-asilo, em um tipo de “nowhere land” filosófico.”

( James Crooks. Peguem uma canção triste e faça-a melhorar: Os Beatles e o pensamento pós moderno, in Os Beatles e a Filosofia: Nada que você pensa que não pode ser pensado/tradução de marcos Malvezzi. SP: Madras,2007 p.182-3 )

domingo, 6 de setembro de 2009

PÓS MODERNIDADE E PENSAMENTO CRÍTICO

A crise de representação que configura a cultura contemporânea afeta especialmente o pensamento critico, esta tendência filosófica que busca a partir do modelo das ciências naturais a construção de conceitos e definições cada vez mais “precisas”, um esforço reflexivo em permanente auto superação analítica de si mesmo inspirada no mito de um “saber absoluto” a ser alcançado.



Tal metafísico objetivo, que conduziu muitos filósofos e pensadores a balburdia e confusão de indagações, definições e explicações infinitas sobre “O que é o mundo, as coisas e o pensamento”, definitivamente exauriu-se...


Já não há nenhum objeto que seja legível ao conhecimento... apenas a performance lingüística como estratégia de livre representação de um real que absolutamente nos escapa e sobre o qual não temos nada a dizer.


No tempo presente pensar identifica-se com a desconstrução do próprio pensamento... ou com a arte ou o jogo de codificar a própria imaginação...



THE TIME IS NOW

A vida surge e ressurge,



Continuamente,


Através de rotinas


Que dizem apenas


O passar do tempo,


O permanecer vazio


Entre as coisas


A espera do momento


Incerto


De abrir a porta


De algum novo existir


De mim mesmo


Desvelando paisagens


De primaveras...


The time is now...



quarta-feira, 2 de setembro de 2009

NOSTALGIA DE META INFÂNCIA


Sinto falta do viés irracional



De meus dias de infâncias


Desarrumados em lúdico


E fantasias


De não compreensão plena do mundo,


Coisas imediatas e pessoas.






Sinto falta da ignorância


Roubada pelo pensamento,


Do intenso vento


Que me criava outro


Em cada jogo de fantasia...






Persigo


Meus tempos distantes e vivos


Em meta alma,


Aqueles fantasmas de mim mesmo


Que assombram a forma humana


Em indefinida maturidade


Que me surpreende no espelho...


Busco sua pedagogia e absurdo...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

ESPECULAÇÕES EM TORNO DE UMA MANHÃ DE SOL


A gratuita sensação de dia novo, propiciada por uma manhã intensamente ensolarada, normalmente nos inspira idéias de renovação, continuidade ou plenitude de vida. Independente de que qualquer fato particular ocorrido no imediato do cotidiano corrobore ou não tais idéias ou imagens. Apenas acreditamos, envolvidos pelo sabor da paisagem banhada de sol, que a realidade, em alguma medida, é plástica e sujeita aos caprichos de nossas vontades, que nossa existência pulsa entre transformações e afirmações de si mesma através de gestos e emoções.
O que é interessante nesta experiência de acordar para uma manhã deliciosa de sol é que, objetivamente, ela não contém em si mesma a beleza, bem estar ou significados que lhe projetamos. Ela se quer existe fora de nossos sentidos ou leituras de nosso corpo. Em tais circunstancias matinais apenas nos tornamos suscetíveis a arcaica experiência espontânea do mito como linguagem humana. Afinal, trata-se aqui de uma variação difusa e sem foco ( secularizada) do mito solar cujos símbolos e imagens não tiveram outra origem, mesmo que sob configurações culturais diversas, do que a vivencia diária do sol. É curioso que mesmo hoje em dia, ainda tendamos a confundir ou tomar nossas fantasias espontâneas como idênticas a meta-realidade daquilo que chamamos de verdade. Talvez porque pouco paramos para pensar em oque de fato entendemos como verdade e até que ponto ela se sustenta frente a uma reflexão mais profunda sobre as armadilhas das palavras e pensamentos na constituição da condição humana...

CATARSE

Às vezes
É preciso explorar
O próprio avesso
Para suspreender-se
Vivendo o rosto
Que se diz no espelho,
Deixar-se abandonado
E ao léu,
Mendigo de auto enganos
Ou da vontade de ser
Intensamente dentro do mundo
Até o infinito da finitude
Do muito que em si
Já se perdeu...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

PARANOID ANDROID BY RADIOHEAD...

Paranoid Android by Radiohead é uma das mais belas e poéticas canções dos anos 90 do séc XX e seu vídeo clip uma autêntica obra de arte e artesanatos de linguagens que nos lançam ao deslocamento mais intenso e profundo que a linguagem musical pode nos proporcionar em seu dizer do indizível em meta linguagem...

PARANOID...

if... in my head... now...

A chuva cai sobre mim

me desligando de todas

as vozes

que me dizem o mundo

em introspecção e segredo...

"Posso ser paranoico,

mais não um androide..."

Fique longe de mim...

não me diga a comum realidade

de caos e multidões.

Tudo que existe

é um modo dissimulado

de aprendizado de solidões...

PARANOID ANDROID

Please could you stop the noise,

I'm trying to get some rest

From all the unborn chicken voices in my head

What's that...? (I may be paranoid, but not an android)

What's that...? (I may be paranoid, but not an android)

When I am king, you will be first against the wall

With your opinion which is of no consequence at all

What's that...? (I may be paranoid, but no android)

What's that...? (I may be paranoid, but no android)

Ambition makes you look pretty ugly

Kicking and squealing gucci little piggy

You don't remember

You don't remember

Why don't you remember my name?

Off with his head, man

Off with his head, man

Why don't you remember my name?

I guess he does....

Rain down, rain down

Come on rain down on me

From a great height

From a great height... height...

Rain down, rain down

Come on rain down on me

From a great height

From a great height... height...

Rain down, rain down

Come on rain down on me

That's it, sir

You're leaving

The crackle of pigskin

The dust and the screaming

The yuppies networking

The panic, the vomit

The panic, the vomit

God loves his children,

God loves his children, yeah!

CRÔNICA RELÂMPAGO XVX

Quando temos a consciência e a expectativa de um iminente acontecimento, na exata medida em que o constatamos configurado e prefigurado em imediato de fatos, quase acreditamos que o pensamento antecipa a realidade. Mas tudo o que vivemos em tal circunstância não passa da figuração intuitiva de uma determinada possibilidade de desdobramentos factuais ou causalidades, uma ingênua representação da realidade que, no vazio de um único segundo nos surpreende, ultrapassa e supera.
Como em tudo que diz respeito a vida, também aqui, o essencial nos escapa... justamente porque não existe.

STREAM OF THOUGHT


Inerte em uma manhã chuvosa
Vejo a vida passando no tempo,
Deixo o fluir de tudo
Crescer em mim mesmo
Em múltiplas metamorfoses
De significados e figurações.

O cotidiano, de repente,
Desnuda-se como um brando absurdo,
Quase não existe...

Mas do outro lado da rua
Vislumbro futuros paralelos
No espelho de uma poça de lama,
Intrigas de imaginações
E divertidas solidões
À desconstruir universos...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

SOBRE O CONTEMPORÂNEO DISCURSO DA REALIDADE

Em termos de codificação da realidade, linguagem e sentimento de mundo tornaram-se, com a época moderna, sinônimos de reflexão e pensamento... Constituíram um amalgama cognitivo onde a figuração do real traduz-se em sentimento da verdade e do verdadeiro como experiência ontológica.
Hoje, em nossa contemporaneidade, tal identidade encontra-se ameaçada. Já não nos seduzem discursos ou proposições que dizem “como as coisas são” , mas que expressam nossas duvidas e angustias com relação a como consideramos, a partir de nossas singularidades e individualidades, como gostaríamos que elas fossem.
Questionamos, no fundo, a própria possibilidade de satisfatoriamente traduzir a vida em qualquer discurso...

O HOJE COMO DEVIR

Felicidade
É provar um gole de paz
Ao fim do dia,
Esquecer-se no silencio
De um sofá fechado
Entre quatro paredes frias,
Não pensar
Em qualquer outra coisa
Alem da intensidade
De si mesmo,
Escrevendo o segredo
De um nome
Em um canto escuro de mundo.

Felicidade
É vislumbrar o presente
Como único futuro
Nas inúmeras possibilidades
Da vindoura existência.

Felicidade
É saber um pouco de nada,
Ócio e lúdico
Cochilando no quase ser
Da confusão dos pensamentos
Mais íntimos e perdidos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

INTERNET E INDIVIDUALIDADE


Depois que as tecnologias digitais reconfiguraram nossa experiência do real ou cotidiano vivido, o conceito de projeção ganhou novas dimensões e significados concretos. Afinal, projetar-se no virtual da Internet é uma experiência que de muitas formas nos desloca da experiência de um eu continuo e ilusoriamente uniforme, que nos conduz à complexa vivencia de uma surpreendente afinidade entre individualidade e fantasia para a qual a nossa noção de pessoalidade não passa de uma abstrata senha no jogo da existência...

A MUSA DO MEU FUTURO


Guardo meu rosto
Em tua memória
No ilegível da existência,
Como se fosse um abstrato beijo
No silêncio das emoções manifestas,
Uma recordação dos futuros
Que buscamos em cacofonias,
Em vislumbres de aventuras
De alma e caos.
Sem nos conhecer ou saber
Nas dissonâncias do mundo
Rasgado em imensidões
De vertigens e dias.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

MITO E INDIVIDUALIDADE EM C G JUNG


No prólogo à suas memórias C G Jung nos oferece preciosos indícios de sua singular concepção da individualidade humana. Para ele a autoconstrução de cada individuo pressupõe uma “projeção mitológica”, a imaginação como senha do principio de toda realidade cognoscível . O significado da vida revela-se, assim, como uma experiência de fantasia e, por isso mesmo religiosa de um modo que contradiz e transcende toda religiosidade tradicional... o individuo como arquétipo é a essência da experiência mitológica...

“ Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e acontecimento, e a personalidade, por seu lado, que evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade. A fim de descrever esse desenvolvimento, tal como se processou em mim, não posso servi-me da linguagem cientifica; não posso me experimentar como um problema cientifico.


O que se é, mediante uma intuição interior e o que o homem parece ser sub specie aeternitatis só pode ser expresso através de um mito. Este último é mais individual e exprime a vida mais exatamente do que o faz a ciência, que trabalha como noções médias, genéricas demais para poder dar uma idéia justa da riqueza múltipla e subjetiva de uma vida individual.


Assim, pois, comecei agora, aos oitenta e três anos, a contar o mito da minha vida. No entanto, posso fazer apenas constatações imediatas. Contar histórias. Mas o problema não é saber se são verdadeiras ou não. O problema é somente este: é a minha aventura a minha verdade?”

( C.G.JUNG. Memórias, Sonhos e Reflexões/tradução de Dora Ferreira da Silva. ERJ: Editora Nova Fronteira 20° ed, s/d.)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

À MUSA DO ALÉM MUNDO


Queria perde-me...
Poder me esconder
Em seu sonho
Sem pensar o mundo,
Viver sensações em seu corpo
Em franco paraíso
De sutis e secretos materialismos
De alma
No absoluto de um indefinido
Tempo e espaço em céu aberto.
Através do pensamento,
Em vento e movimento,
Todo universo parece contido
No ilegível dos corpos
Em absoluto sentimento...

LOVE IS FREE AND REAL...

domingo, 16 de agosto de 2009

POEMA PSICODÉLICO

Respiro um sonho
No aqui e agora

Da vida refeita
Em imaginações
De momento.


Sei todas as cores do amor
E do desejo
Escritos em meu peito
Desfeito
Nas sombras de arco-iris.


O universo, de repente,
Cabe em uma lágrima de céu
Enquanto me vejo e me encontro

No mundo dos espelhos
Como viva metáfora
Da meta humanidade
Ou do alem do humano...

TEMPORALIDADE E DEVANEIO

O passado é mais que simples memória de acontecimentos vividos e perdidos, é um deslocamento do tempo presente, um estranhamento do agora através do outro de si mesmo...
O passado é o fantasma que nos assombra, como identidade e memória, a cada vislumbre de futuro, ironicamente alimentando a contemporânea invenção de um presente sem fronteiras que reinventa o tempo no indeterminado das permanentes metamorfoses da imanência...
Talvez por isso, existam dias em que nos deslocamos da existência, em que tudo se faz ilegível e provisório no vazio dos fatos cotidianos. Contemplamos, então, a nudez da vida em bifurcações de potência de atos que aleatoriamente desfiam os imperativos da vontade e vislumbres de desejados futuros... De muitas maneiras, somos o resultado amorfo de nossas perdas...

sábado, 15 de agosto de 2009

WOODSTOCK: 40 ANOS DEPOIS...


1969: WOODSTOCK foi o ultimo suspiro de toda uma época em que a realidade só era possível através da linguagem dos sonhos, do suspiro de delírios múltiplos e desgovernados na desconstrução e reconstrução mágica da vida em dia a dia de imaginação selvagem... A orgia que define o evento em regressão de convencional humanidade é um testemunho da paz redentora da contra cultura, do vazio de personas em anarquia absoluta de vida... e contra cultura ou anti iluminismo radical...

DO YOU REMEMBER WOODSTOCK? PEACE TRIBUTE



Embora o movimento hippie, uma das mais expressivas versões da contra cultura dos anos 60, cultive como referência espacial e tenha surgido na cidade norte americana de San Francisco, foi em uma fazenda próxima a cidade de Woodstock, estado de New York, onde ocorreu sua maior consagração. Refiro-me, evidentemente, ao WOODSTOCK FESTIVAL, que ocorreu entre os dias 15 e 17 de agosto de 1969 e reuniu grandes e pequenos nomes do cenário musical da época sintetizando a sensibilidade e cultura musical da geração rock and roll 60 e do flok. Entre eles cabe citar Jefferson Airplane, Rolling Stones, Jannis Joplin, Jimi Hindrix, The Who, Joe Cockei e Creedence Clearwater Revival.
Do ponto de vista da história da cultura no século XX, este festival foi o coroamento e a máxima expressão do imaginário de uma década de século marcada pela aceleração dos ritmos cognitivos do sentimento de mutação do real e pela contestação severa dos valores e cultura tradicional, das representações convencionais de mundo...
A mítica de Woodstock estabeleceu uma linguagem e um campo novo na indústria cultural e nos protocolos e vivências do rock and roll enquanto fenômeno social. Em outras palavras, depois de então, os grandes festivais tornaram-se o locus privilegiado da celebração de valores, ideologias, causas ou, simplesmente, da própria música como orgiástico símbolo da cultura de massas...
A guerra do Vietnã havia terminado a pouco... o que faz de Woodstock, por razões óbvias, uma celebração de paz como nenhuma outra...

DES-REALIDADE

Procuro olhar
Para fora da minha vida,
Sorver o mundo
Que se desfaz e refaz
Apesar de mim
Até provar a embriaguez
Da existência
E o impessoal que define
Todas as coisas possíveis.

Aprendo que nada é perfeito
Ou verdadeiro
Que tudo passa
Ao sabor do acaso
Vestindo silêncios
E infinitos...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

THE BEATLES:ABBEY ROAD FOREVER!

Neste mês de agosto, ou mais especificamente no último sábado, o álbum dos Beatles Abbey Road compretou 40 anos. Ainda hoje ele é uma das peças musicais mais vendidas da discografia das banda, gozando de uma admirável atração e fascineo que transcende o tempo e se realiza no absoluto da mais perfeita mitologia desta ontologica banda de profundamente autêntico rock and roll.
Abbey Road apresenta os Beatles em um de seus melhores momentos da fase psicodélica e em plena maturidade musical. Afinal, fazem parte deste antológico album, lançado em 26 de setembro de 1969 e, de acordo com a revista musical "Rolling Stone", um dos 14 melhores discos de todos os tempos, canções como "Come Together", "Here Comes The Sun" e sumertime.
Mais o álbum tornou-se clássico também pela singularidade de sua foto de capa, sem o nome da banda e com uma imagem singularmente fascinante... onde John, Ringo, Paul e George cruzando em fila indiana uma faixa de pedestres, em uma rua iluminada onde se destaca um Fusca branco estacionado à esquerda.Cabe observar que o fusca branco, de propriedade de um vizinho de Abbey Road, teve a placa (de número "28IF") roubada várias vezes após o lançamento do disco. Claro testemunha de seu apelo mitológico e mágico sob o imaginário da época.Em poucas palavras, viver a experiência mágica do álbum vale mais a pena que qualquer definição ou definição de sua simbologia... Em sua contemporaneidade reside sua viva hitoricidade como reinvenção do passado através do atemporal de significados...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

2009: ANO INTERNACIONAL DA ASTRONOMIA


A etimologia da palavra astronomia remete a língua grega (άστρο + νόμος) e quer dizer literalmente “lei das estrelas”. Contemporaneamente esta ciencia, que viveu uma longa e complexa evolução ao longo dos séculos, nos lança em um espaço cognitivo onde dialogam agora as linguagens da fisica teórica, da matematica, da biologia e da filosofia do tempo presente, em um esforço de reflexão em torno dos limites, metamoforses e transcendências da condição humana.
Infelizmente subordinada a linguagem do poder politico institucional ao longo da segunda metade do século XX, nenhum outro saber nos oferece desafios e aventuras reflexivas sobre nosso lugar, ou não lugar, diante da compolexidade de um universo onde o fenômeno humano quase nada significa e nossa razão convencional é desafiada a aceitação da racionalidade do absurdo...
Em termos imediatos, tal divagação tem por objetivo lembrar que a ONU consagrou 2009 como o ano internacional da astronomia... Fascinante ciencia cujas possibilidades de desenvolvimento e avanço são cada vez mais subordinadas a uma injusta dependência de investimentos estatais e a subordinação mediodre a arbitrariedade de politicas públicas que nem sempre consideram o que de melhor essa configuração cognitiva pode oferecer... Uma amostra disso é o desenvolvimento de programas espaciais nacionais que sãococebidos a serviço da pueril vaidade de nações e governos...
Importante citar diante do fato que a astronomia pressupõe diversos campos de pesquisa sustentados por pesquisadores autônomos que, “audaciosamente indo onde nenhum home jamais esteve” (rs), inventam novas linguagens de realidade em quase meta humana certeza de mundo...

SITE RELACIONADO: www.sab-astro.org.br/

www.astronomia2009.org.br/

http://cosmicdiary.org/blogs/alberto_krone_martins/?p=150

ZERO


O sem nome de um fato
Deixou-me vazio,
Quase inexistente,
No acontecer das coisas
Em devir;
Como se não fosse realidade
Tudo o que foi imprudentemente
Vivido
Nas últimas horas,
Como se o dia
Abandonasse o tempo
Na definitiva desconstrução
Das minhas mínimas certezas...

Mas a vida acorda

em um texto de cores vivas

de puras e cruas imanencias...

sábado, 8 de agosto de 2009

DEVIR E TEMPO PRESENTE

Dentro do finito
De um dia,
Quantas infinitudes
De possibilidades,
Quantos possíveis desdobramentos
De mim mesmo...
Mas tudo acontece
Mínima e permanentemente
No ilusório fato consumado
Do que me tornei
Em aventuras de aqui e agora.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Meat Free Monday II

A campanha de Paul McCartney não nos oferece ou impõe a adesão a principios naturebas...Apenas sugere um dia de semana sem carne em ludico acontecer de metamoforse à toa de hábitos e existência. Nada mais lúdico e radicalmente profundo no acaso dos atos...

Meat Free Monday




"Temos de nos preocupar com a mudança climática porque, caso contrário, vamos deixar nossos filhos e os filhos deles em uma situação muito complicada."
Paul McCartney ao jornal britânico The Independent.

No último dia 15/6 Sir Paul McCartney, Mary e Stella McCartney, iniciaram no Reino Unido, ao lado de outras celebridades e artistas como Yoko Ono, Kevin Spacey e Woody Harrelson e Chris Martin, vocalista da banda Coldplay, uma curiosa campanha para combater os efeitos das mudanças climáticas sobre o planeta definida pelo seguinte slogan: Meat Free Monday “Segunda Feira sem carne”.Cabe esclarecer que a campanha é uma reação a um relatório da FAO/ Organização das Nações Unidas (ONU) que alerta para o fato de que a produção de carnes para o consumo humano é responsável pela imissão de 18% dos gases responsáveis pelo efeito estufa, superando assim o setor de transportes. No site oficial da campanha há informações mais detalhadas sobre o assunto: http://www.supportmfm.org/.
A iniciativa de Paul é realmente louvável, e traduz o quanto no mundo contemporaneo as linguagens sociais estão se transformando e reformatando o modo como as pessoas se mobilizam e expressam coletivamente pensamentos, causas ou idéias a partir da experiencia cotidiana.
As transformações da esfera pública passam agora por uma desconstrução da cultura politica da modernidade e pela experiência ludica de “temas alternativos” que de um modo profundo transformam o cotidiano a partir de uma reinvenção de nosso modo de viver e sentir o imediatamente dado de cada dia...
Seguem alguns links relacionados:

AUTO ESQUECIMENTO


Mal sei o rosto
Que compreendo no espelho
Como a face que me define
E me faz perdido
No olhar dos outros.

Estou longe de mim mesmo
A buscar propósitos
E futuros que me devoram
E realizam,
Estou a alguns segundos
De me esquecer
Nas necessárias fantasias
De viver a vida
Em indiferente cotidiano...

HAPPY DAY


Em alguma parte da vida,
No azul de algum dia,
Sei que me aguardam
EXISTÊNCIAS
Com o sabor de jardins,
Alguma alegria a toa
De tempo e mundo
Que me conduzirá
A simplicidade
De estar vivo nos labirintos
Do aqui e agora
Sem peso de significados vagos
De permanências e tempo...

domingo, 2 de agosto de 2009

O DEUS ESCORPIÃO by WILLIAM GOLDING


O Deus Escorpião (1971) reúne três novelas do consagrado escritor britânico William Golding, também autor do clássico O Senhor das Moscas, uma dos mais prestigiados romances da literatura inglesa. Trata-se das seguintes novelas: O Deus escorpião, que dá nome a coletânea, Clonk, Clonk e O Emisário Extraordinário, este ultimo escrito em 1956. As três narrativas, ambientadas na Roma e no Egito antigo, pelo seu abstrato caráter fantástico, podem despertar certa perplexidade no leitor mais desavisado e não habituado com as experiências de vanguarda do modernismo. Afinal, trata-se aqui de esboços literários formatados por uma desvairada e insólita aventura imaginativa e imagética que rompe com a narrativa convencional. Sua leitura é quase ilegível exige do leitor certo esforço cognitivo para preencher seus vazios e nuanças.
Podemos considerar esta obra uma tripartida variação sobre um mesmo tema: o imaginário do poder e sua elementar e absurda codificação da vida coletiva, ambientadas em uma antiguidade imaginária onde despontam Estados dinásticos e estratificados... Cabe observar que o Egito antigo fascinava o autor que demonstra aqui o quanto merece o titulo de “antropólogo da imaginação”.
Pela ousadia formal e estética destas narrativas, profundamente satíricas em sua critica alegórica a modernidade, tendo a classificá-las, não sem polemicas, como Pós modernas.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A PÓS MODERNIDADE DA RELAÇÕES AFETIVAS: UM ESBOÇO


Desbotado e roto o amor romântico deixou de expressar ou codificar satisfatoriamente nossos mais generosos sentimentos de privada alteridade. Emoções e sentimentos, o irracional da vida, no tempo presente, já não são mais domesticadas por códigos de representações e sensibilidades inspiradas em estereótipos coletivos.
Já não seguimos em nossos relacionamentos padrões coletivamente cultivados sobre aquilo que devemos buscar ou realizar em um relacionamento. Neste campo da vida, aprendemos a ser pragmáticos, a investir mais no cotidiano conflituoso das trocas afetivas possíveis entre o “eu” e o “outro”, do que nas fantasiosas expectativas definidas por carências emocionais e idealizações de relacionamentos perfeitos.
Em linhas gerais, a grande novidade do tempo presente é que aprendemos que emoções e sentimentos são grandezas psíquicas que vivem mais em função de sua própria dinâmica interna do que da auto realização de seus portadores.
No plano dos jogos emocionais e de intimidade o amor secularizou-se no deslocamento das subjetividades... Eros se reinventa em nossos dias...

PERSPECTIVAS

Passo à tarde
Rascunhando o futuro
No latente desejo
De escrever meu tempo
Em coloridas páginas
De vida.

Fosse hoje outro dia,
Talvez me perdesse
Do rosto
No desconhecido de estradas,
Mergulhasse em labirintos
De antigas buscas
Reinventando a existência
Em desconstruções de mim mesmo...

terça-feira, 28 de julho de 2009

TEMPO E MOMENTO

Brincando com palavras
Aprendo que nada mudará
Meu mundo
Na magia do tempo que passa
Fazendo meu eu múltiplo
No espaço vivo de cada pessoa.

Toda realidade é intercâmbio
De sentimentos e sensações
Que se vão com o vento
No vago da própria vida
Em duradoura sintonia
De mero momento....

segunda-feira, 27 de julho de 2009

PRELUDE

Atravesso a rua
Apressadamente
Sem tempo
Para pensar,
Indo ao encontro
De um pequeno destino
De momento
Que nada diz a biografia...

Imerso na multidão,
Percebo o quanto
Levamos a vida
Entre apostas e fatos
Enquanto o mundo
Passa por nós em silêncio...

domingo, 26 de julho de 2009

A LEX BY SEPULTURA AND A CLOCKWORK ORANGE

Nas faixas do album A LEX do Sepultura encontramos uma expressão singular e violentamente lírica da sensibilidade pós moderna ou contemporânea de uma confusão de linguagens... Dizendo de outra forma, musica e literatura encontram-se aqui em um caos criativo e agressivo que beneficia a arte como não lugar cotidiano da linguagem, como deslocamento existencial e estranhamento da própria realidade... Neste álbum o rock se faz meta linguagem, extra-territorialidade, realizando o profundo e feliz desconforto sombrio que o texto original de Anthony Burgess nos provoca... Trata-se de uma tradução... talvez a altura daquela realizada por Stanley Kubrick para o cinema, que não contou, infelizmente, com a aprovação do autor...

TÉDIO...

Um vento rasga
O rosto de um sonho
Revelando a paisagem
De um eterno outono
Dentro da viva de cada dia.

Tudo acontece
Opaca e provisoriamente
Ao sabor dos tédios
Que animam as horas.

Tudo é tão banal
Que quase
Não me percebo
Nos fatos abertos
Em mera mesmice...

POP POEM


Ícones,
Ídolos
E mitos
Consomem o real
Desfazendo a realidade
No vento
Até o sonho
Tornar-se concreto.

Sacralizado no imaginário
Das multidões,
O indivíduo torna-se
Símbolo vivo
Da aventura humana.

A fama de particulares rostos
Veste nossas personas
Famintas de singularidade
E da paz de jardins ingleses...

sábado, 25 de julho de 2009

LITERATURA INGLÊSA XLVII


Dentre todas as literaturas do mundo, a de língua inglesa é a mais prodigiosa em vozes femininas, fato que constitui uma de suas mais atraentes peculiaridades. Um bom exemplo disso é a obra da britânica neo-zelandesa Katherine Manfield ( 1888-1923) que pode ser considerada uma das maiores ficicionistas do séc. XX.
Sua matéria são histórias curtas; contos, ou short stories and long short stores, em que explora com singular sensibilidade e simplicidade o pouco do dia a dia, a profundidade inerente a experiência do banal através de personagens comuns através dos quais nos defrontamos com o mais profundo da condição humana nas pequenas coisas... Justamente por isso sua narrativa é econômica, direta, desconcertadamente coloquial no dizer do mais profundo da vida.
Katherine viveu no inicio do século passado uma vida bastante atribulada. Seja do ponto de vista afetivo,sexual ou social. Casou-se e divorciou-se em um único dia, sofreu um aborto e experimentou diversas relações homo e hetero sexuais em um tempo em que a condição feminina ainda era prisioneira de uma caprichosa cultura falocrática. Com apenas 34 anos encontrou a morte através da tuberculose deixando para traz uma experiência de intensidade da vida que se traduziu magistralmente em seu universo literário.
Não por acaso, a publicação póstuma de seus diários, álbuns de recortes e epistolas, gerou uma vasta bibliografia.
A festa ( The garden party) é um de seus contos mais famosos e lidos e, diga-se de passagem, um de meus favoritos. Neste, a simultaneidade da vida e da morte, da alegria e da tristeza na paisagem do se fazer humano, nos surge sem filosofias através da sensibilidade e lirismo da pequena Laurie... Em poucas palavras, o que Katherine nos oferece em sua simplicidade é uma reflexão sobre a complexidade do banal de cada dia... Devo-lhe pessoalmente muito por isso, como leitor e admirador inconteste.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

PALAVRA ENIGMA


Não sei onde me leva o esforço de cada palavra em verso e prosa. Sinto, apenas, que o discurso, a letra,me ultrapassa na construção de um pensamento que me desconstrói, que se impõe como experiência do ilegível abstrato da condição humana.
Procuro sondar a sombra dos textos, buscar-me em seus vazios na contramão de enunciados e sentidos.

Talvez, se o conseguir, compreenda plenamente o universo que se expande caótica e aleatoriamente em meus castelos de textos inúteis...

ACROSS THE UNIVERSE...