sexta-feira, 24 de julho de 2009

DARE TO DREAM YOUR LIFE....


A condição humana
espalha-se ao infinito
no múltiplo de cada indivíduo

Mas nada que digo
Explica meu mundo
Nas contradições das circunstâncias...

A cada segundo
Qualquer outra possibilidade
De mim mesmo
Surge ao acaso
De cada momento,
Qualquer novo sentimento
Ou leitura de realidade...

É como se a matéria da vida
Fosse um tipo estranho de sonho...

DARE TO DREAM YOUR LIFE...
IMAGINE IS REALITY.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

SOBRE O MAGO WIZ E O REINO DE ID





As tiras de quadrinhos do Mago Wiz, ambientadas em uma anacrônica Idade Media, são um divertido exemplo da apreensão contemporânea do passado como alegoria, tendência cada vez mais influente sob nossa percepção e consciência do tempo presente.
Criado em New York no distante ano de 1964 por Brant Parker e Johnny Hort, o Reino de Id e suas cotidianas situações bizarras, nos fala essencialmente sobre adaptação e sobrevivência em um mundo sutilmente disfuncional, mergulhado em um obscurantismo, temperado por certo cinismo, que nos parece estranhamente familiar. Afinal, trata-se na verdade do obscurantismo do nosso próprio tempo...

ENTRE OS ATOS

Há um espaço vazio
Entre os atos,
Um lapso existencial
Que não se diz,
Que não se explica
E cala no pensamento
Como intimo segredo...

Mas trata-se apenas
De um nada,
Do banal indizível
Que assombra a existência
No frágil de todo
Possível cotidiano significado
Das coisas ...

terça-feira, 21 de julho de 2009

LITERATURA INGLESA XLVI


Anthony Burgess (1917-1993) iniciou-se tardiamente na carreira literária ao publicar, já com 38 anos, seu romance de estréia: Time for a tiger ( 1956), primeiro volume de uma triologia conhecida como o ciclo The Malayan Trilogy, complementada por The Enemy in the Blanket e Beds in the East.
Apesar de no inicio dos anos 60 ter sofrido o diagnóstico de um complicado tumor cerebral acompanhado pela triste estimativa de um ano de vida, Burgess faleceu apenas aos 76 anos, em 1993, deixando uma obra extensa e significativa no cenário da literatura inglesa do séc. XX.
Embora não seja, segundo o próprio autor, seu livro mais importante, A Clockwork Orange ( Laranja Mecânica) é certamente a mais polêmica, em parte devido a sua adaptação heterodoxa para o cinema pelo celebre e imortal diretor Stanlery Kubrik.
Normalmente comparado a 1984 de George Orweel e ao Admirável Mundo Novo de Aldows Huxley, Laranja Mecânica é uma anti utopia, uma pessimista leitura do mundo contemporâneo através de um imaginário futuro totalitário e sombrio erigido sob o signo da violência.
Curioso observar que o titulo inspira-se em uma expressão anglo-saxã "As queer as a clockwork orange", ou, em uma tradução livre, "Tão bizarro quanto uma laranja mecânica". Sua concreta inspiração, entretanto, é o universo dos então corriqueiros conflitos, ocorridos em inicio dos anos 60, nas urbanas paisagens londrinas entre as gangues dos Mods e dos Rockers, duas “tribos juvenis” de origem operária inspiradas por diferentes estilos musicais. Os primeiros se vestiam com roupas de grife e cultuavam um rock agressivo de bandas semelhantes ao Who, enquanto os Rockers, com seus casacos de couro, preferiam o rock dos anos 50, principalmente Elvis, e filmes como “O selvagem da Motocicleta”.
Marcado por esta peculiaridade de época, Burgess imaginou um mundo futuro não muito distante onde a violência destas gangues e juvenis teria se radicalizado ao ponto de gerar não só um cotidiano violento, como também um aparato estatal repressivo sem limites.
De alguma maneira tal questão, aparentemente datada, nos é muito familiar uma vez que a violência é uma linguagem, de muitas maneiras e formas, dependendo do país e lugar, cada vez mais marcante e condicionadora do cotidiano contemporâneo.
Apesar disso, esta perturbadora narrativa literária deve ser compreendida como um romance de iniciação juvenil nas paisagens deste alegórico e cruel futuro imaginário. Isso pode parecer bem evidente caso consideremos a estruturação da obra em três partes, cada qual composta por sete sub- divisões totalizando 21 capítulos, numero que corresponde a maioridade etária na cultura anglo-saxã.
Através da trajetória de sua principal personagem, o jovem Alex, também narrador e ex líder de uma gangue extremamente violenta e transgressora, que acaba se transformando em uma vitima de um mundo tão violento e perverso quanto ele, nos deparamos com os paradoxos e absurdos da condição humana, nos defrontamos com os limites da moralidade vigente, na mesma medida que nos surpreendemos com a maturidade conquistada pelo narrador/personagem após um tortuoso e bizarro caminho...
Uma peculiaridade da narrativa que nos provoca um certo desconforto ou estranhamento na leitura é o uso do “natsat” dialeto das gangues utilizado por Alex que mistura inglês popular, russo e gíria cigana.
Poupo o leitor de importantes detalhes da narrativa optando por uma apresentação superficial e não muito analítica no intuito de apenas despertar interesse pela leitura da obra que, vale a pena insistir, não oferece um panorama significativo do universo ficcional do autor ora comentado...

CRÔNICA RELÂMPAGO LVIX


Pode parecer mera retórica boba, mas não pensar em nada, entregar-se ao ócio, é um modo de refletir através de silêncios e vazios sobre tudo que nos define nos dias de mundo.
Quando estamos de férias nunca descansamos, apenas administramos o tempo livre que temos sem a ditadura do relógio e da agenda para meramente nos ocuparmos de contextos privados/ familiares que nos prendem. Apenas substituímos obrigações e compromissos ignorando, como de costume, os muitos “eus” dos quais nos perdemos ao longo da realização do destino, estes restos de personalidades alternativas e possibilidades que nos acompanham como silenciosas ansiedades. ..
O que sei é que nunca é suficiente estar-se de férias sem previamente traçar um roteiro de labirinto que nos leve a uma relação provisoriamente nova entre o eu e o tempo, entre o ser e estar da vida...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

SEXO,DROGAS E ROLLING STONES



“ Quando vem até você outros caras, mais jovens, você percebe que é apenas parte de uma longa procissão de trovadores e menestreis e contadores de histórias que existe desde sempre. De certo modo, você tem a sensação de que faz parte de uma estranha fraternidade. Só que ninguém tem carteirinha. Não existem apertos de mão secretos.Mas você sente uma sensação maravilhosa de continuidade que se estende até o passado pelas brumas do tempo.E você é apenas um daqueles caras que contaram uma história e trouxe felicidade as pessoas, e cantou sua música, e eles cuidaram bem de você pelo prazer que receberam.
Keith Richards, Uncult, janeiro de 2002.

“Não tenho responsabilidade alguma em relação a quem quer que seja Nunca falei por uma geração, mas somente em meu nome. Não sou um homem político, não fui eleito para cumprir uma função ou para trabalhar pelo interesse coletivo. Minha única responsabilidade é no palco, para com o público: que ele ouça bem ( o show ), que ele assista a um bom espetáculo, e que esteja em segurança. O resto não me concerne. Não é porque estou no palco que eu devo ser um porta-voz. Se os Stones algum dia tiveram uma importância política, foi pela causa do sexo. Fazer campanha pela liberação sexual nos anos 60 era um ato político.”
Mick Jagger, Lui, setembro de 1996.


( In Jose Emilio Rondeau, Nélio Rodrigues. Sexo, Drogas e Rolling Stones: Histórias da banda que se recusa a morrer. RJ: Agir, 2008, p. 337 )

Escrito por Jose Emilio Rondeau e Nelio Rodrigues, SEXO, DROGAS E ROLLING STONES, já pode ser considerado uma obra clássica na extensa biografia sobre cultura popular, música e século XX. Ao investigarem a trajetória da maior banda de rock clássica ainda em atividade, cabe alertar que o livro dá uma especial atenção as várias passagens, seja em shows ou em visitas individuais de seus membros, ao Brasil. Mas também oferece com competência um panorama geral da carreira da mega banda através de uma periodização que abrange os anos iniciais entre 1962 e 1965, a maturidade alcançada entre os sombrios anos de 1966 e 1970, a consagração absoluta entre 1971 e 1976, o quase fim entre 1977 e 1988 e a surpreendente contemporaneidade entre 1989 e 2007.
Trata-se, obviamente, de uma narrativa mais descritiva do que analítica, voltada especialmente para os fatos relevantes e curiosos acumulados ao longo dos 47 anos de carreira dos Stones.
Mas mesmo tratando-se de um ensaio biográfico, evidentemente, o livro nos fornece bons subsídios para avaliar e pensar o lugar dos Rolling Stones na ainda jovem história do rock and roll e principalmente da evolução clássica do rock britânico.
Pessoalmente, eu diria que entre Beatles e Who, os Stones são uma das princiapais matrizes elementares do rock britânico em sua formula clássica. Em seu caso, a musicalidade do novo estilo ainda é direta e radicalmente condicionada as suas raízes no blues e R&B resultando em um rock mais primitivo e cru que fala mais diretamente ao corpo do que a sentimentos e pensamentos.

A PRIMEIRA| VIAGEM A LUA: 40 anos depois II


Quarenta anos depois, pode-se dizer que obras de ficção cientifica são hoje mais importantes do que o qualquer pouso humano na lua. Afinal, a corrida espacial, iniciada nos anos 60 do último século, foi inspirada pelas mesmas duvidosas razões que sustentavam a corrida armamentista do antigo mundo bi-polar dos tempos de guerra fria. Por mais surpreendente que possa parecer as gerações mais novas, as missões Apollo, que culminariam na chegada americana do homem a lua, não foi inspirada na busca pelo progresso técnico cientifico e não merece qualquer lugar relevante na história das ciências do séc.XX. Trata-se, na verdade, de um triste capítulo de sua história política.
Do ponto de vista do imaginário epocal, a eleição de uma viagem a lua como meta política só é explicável pela simbólica da aventura e da vitória sobre o impossível. Mas mesmo como mito contemporâneo, a médio prazo a façanha revelou-se vazia e desproposital. Não por acaso os contemporâneos sonhos de retomar e ampliar o feito através de uma viagem tripulada a marte agonizam em meio a crise econômica e cortes orçamentários da NASA.
No fundo, o que há de mais revelador em tudo isso é que, em nosso tempo presente, já não há mais lugar para otimistas projeções de futuro. Estamos tão mergulhados em nosso momento coletivo, cada vez mais elástico, que ao contrário de nossos pais e avós, não nutrimos a ilusão de projetar no futuro a solução otimista de nosso presente para melhor moldar o passado.

ÓCIO

Nada me falta
Neste instante
Enterrado sob
O alvoroço do mundo.

Basta-,me estar
Aqui e agora,
Não penar
Em qualquer outra coisa
Alem do vento
Animando os objetos
Em volta,
O cheiro da manhã vazia
E o vazio profundo
Dos meus desejos.

Nada me falta
Em rosto desfeito
E deitado sobre os fatos.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

TO BE


Existo dentro do vento
Nas múltiplas direções
De um céu aberto
Em riso.

Percorro o mundo
Em aventura de imanências
Respirando as cores e sabores
Da mais crua existência.
Nada faz mais sentido
Do que o aleatório acaso
De cada momento
Em múltiplo movimento
De desarticulados atos
Em tempo e espaço.

A PRIMEITA VIAGEM A LUA: 40 anos depois.


"É um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade.”
Neil Armstrong

A Missão Apolo 11, iniciada em 16 de julho de 1969, completou esta semana 40 anos em rememorações marcadas por certa melancolia...
Produto da guerra fria, mais do que da crença no progresso técnico-cientifico, o histórico feito da nave da NASA, composta pelo módulo de comando Columbia e pelo módulo lunar Eagle, tripulada pelos astronautas Mike Collins, Buzz Aldrin e Neil Armstrong, comandante da missão, com duração de oito dias, em um olhar retrospectivo, apesar de determinante para a introdução de um novo padrão tecnológico no cotidiano do homem ocidental, não desperta muito entusiasmo.
Afinal, quarenta anos depois, já não desfrutamos do ingênuo otimismo de época que, apesar de todos os seus absurdos, como a guerra do Vietnã, que na ocasião chegava ao fim, ou a própria corrida armamentista, que profundamente lhe configurou, conseguia sustentar uma atmosfera e imaginário de esperanças e sonhos de futuro, como demosntram, por exemplo, os movimentos de juventude que então sacudiam o mundo.
O fato é que, felizmente ou infelizmente, não nos é possível, em nosso tempo presente, sustentar apologias a qualquer filosofia do progresso sem boa dose de burrice ou ingenuidade. Vivemos, afinal, sob o signo sombrio do mito do aquecimento global e das incertezas de humanidade...
Se quer prestamos atenção na Lua como imagem estético/poetica ou somos seduzidos pela evasão existencial propiciada pelos sonhos de onerosas conquistas espaciais.
Sabemos que o universo, surpreendido em expansão e tão estranho ao fenômeno humano, se quer nos percebe em sua meta racionalidade de acasos.
Em poucos palavras, o pequeno passo do homem na lua em liberdade da não gravidade, converteu-se em um salto para o abismo em nossas atuais vivências e narrativas de um mundo, cada vez mais ilegível onde a contra-cultura se refaz através do niilismo mais criativo como uma simples modalidade de pós-modernismo...

JOHN LENNON, IMANÊNCIA E INDIVIDUALIDADE HUMANA


John Lennon não formulou nada mais através da musica do que a própria individualidade em função do enfrentamento do tempo presente pela afirmação de si mesmo. Creio que é justamente isto que torna sua memória fascinantemente contemporânea... Ele não tinha nada mais precioso ou substancial para legar ao tempo futuro do que a simplicidade e complexidade de existir. Isso o torna um símbolo da cultura do século XX, dos seus impasses e dilemas entre a afirmação da singularidade e liberdade de cada um e a afirmação do poder das meta narrativas, “ideologias” , totalitarismos e violências coletivas.
Reunir fragmentos de entrevistas de John Lennon aqui, torna-se por isso um inspirador exercício de afirmação de singularidade humana, a busca do eco em caleidoscópio de momentos, de alguém que conseguiu transformar arte em afirmação de si mesmo... e apostar que cada um pode viver seu próprio sonho... em imanência.

“ Uma parte de mim suspeita que sou um perdedor e outra parte de mim pensa que sou Deus todo poderoso.”
*
“Pense globalmente e atue localmente”.
*
“As pessoas têm de perceber... que ficar nu não é obsceno. O importante é sermos nós mesmos. Se todas as pessoas fossem o que são, ao invés de fingirem que são o que não são, existiria paz.”
*
“A mulher é o negro do mundo/ A mulher é a escrava dos escravos/Se ela tenta ser livre, tu dizes que ela não te ama/ Se ela pensa, tu dizes que ela quer ser homem.”
*
“Um artista nunca pode ser absolutamente ele mesmo em público, pelo simples fato de estar em público. Pelo menos, ele sempre precisa ter alguma forma de defesa.”


Fonte: O Pensamento Vivo de John Lennon. Martin Claret Editores.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

DIALOGO


Procuro no espelho
Do inteiramente outro
Do meu mundo
A misteriosa face
Do enigma humano,
Ser em dialogo e liberdade.

Não suporto,
No fundo,
Meu próprio peso
E os limites de estar
Em mim mesmo
Em pensamento e forma
De desatualizadas versões
De eternos monologos.

Viver, afinal,
É a arte do encontro...

CRÔNICA RELÂMPAGO LVIII


Há ocasiões em que, entregue a mim mesmo no se fazer de rotinas, vislumbro mudanças,rupturas ou redefinições intimas nos dias; a busca por uma mais autêntica ou intensa experiência de minha mínima existência.
Visitam-me, então, os fantasmas dos meus eus perdidos pelos labirintos e ventos do caprichoso destino... Os amores que não vivi, as viagens que não fiz, as abandonadas apostas e todas as portas fechadas pelo acaso do acontecer dos anos.
Percebo que muito daquilo que sou deixou de acontecer

segunda-feira, 13 de julho de 2009

TIME IN LIFE....

O tempo acumulado em meus atos não define todos os momentos e anos sonhados de potenciais futuros. Pois tantas são as memórias que elucidam meus percorridos caminhos e destinos, meus passados empilhados no não lugar dos significados vividos ,que sou incapaz de vestir qualquer definição de mim mesmo para dizer minha vida e pessoal apreensão de temporalidade.

" OS ALFINETES DE SLATER NÃO TEM PONTAS" by Virginia Woolf


O pó de um pensamento
Espalhou-se no vento
E levou por toda paisagem
Meu sonho.

Encantou a vida
Em movimento
Escurecendo as certezas
De frias rotinas de ausências
Onde contrariado
Me confronto comigo mesmo
E com os fatos
Em divagações noturnas
Em segredo de lua ...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

BIOGRAFIA E REPRESENTAÇÃO DE MUNDO


Durante muitos anos cultivei o gosto pela leitura de ensaios biográficos. A narração da vida em uma narrativa linear e plena de sentido, representava para mim um confortante exercício de pensamento que sugeria a possibilidade de organização racional do caótico devir da existência humana.
Atualmente, entretanto, a narrativa biográfica, com suas periodizações, compassos etários e reflexões existencialistas, parece-me um empreendimento azas duvidoso.
Falando especificamente sobre seus usuais marcos de existência, ou seja, sobre aqueles decisivos acontecimentos que nos lançam a novos rumos e parecem realizar destinos, já não consigo levá-los muito a sério no transcurso de momentos da construção da individualidade e de uma história vivida.
Afinal, transformações e mudanças são processos permanentes e constantes. A idéia de ruptura não passa de uma ilusão cognitiva de pequeno poder explicativo, mesmo quando nos referimos a acontecimentos determinantes, como uma mudança de endereço/cidade/país, de emprego ou simplesmente um divórcio.
Em que pese seu impacto direto sobre o cotidiano, tal categoria de fatos não se diferencia significativamente de qualquer outra modalidade de ocorrências no interior do fluxo de experiências e mudanças ontológicas que compreendem todo o ocorrer temporal do existir humano.
A idéia de um salto qualitativo aplica-se aqui apenas como uma opção arbitrária, já que os fatos não se encadeiam entre si de modo linear e evolutivo. Nós é que os entendemos ou percebemos de tal maneira.
Acredito que, de modo geral, as representações contemporâneas da experiência biográfica nos conduzem hoje a uma espécie de desorganização das convencionais leituras da existência como realização concreta de um inefável “destino” ou propósito.
O acontecer de nossas vidas já não é tão obvio elegível na medida em que libertou-se do peso das convenções e seus scripts de existência centrados na reprodução cultural da família como principio de vida ou na adequação a personas vinculadas a profissões, ideologias ou religiões...
Afetam o indivíduo contemporâneo à cada vez mais evidente dilatação do tempo presente, a opacidade do passado e de suas representações, bem como os deslocamentos de identidades, sejam étnicas, nacionais, etc. definidas pelo advento da modernidade.
É, aliais, a justaposição de identidades e significados diversos na auto consciência de um mesmo indivíduo no freqüentar de espaços e tempos plurais de existência o fator decisivo para o desgaste da fórmula biográfica.
Se uma biografia, no sentido clássico, é feita de significados e não propriamente fatos, que nos lançam a mitologia pessoal de um determinado indivíduo, hoje em dia já não temos biografias...

GOLD IN THE WOLD....


Procuro o ouro do mundo
Em cada momento
De melancólico suspiro
De tarde cinza no rosto
De um jardim.

Nada é mais profundo
Que o acontecer de flores
E folhagens
Indiferentes a paisagem
Que alem delas
Se faz movimento
E caótico acontecimento.

Tudo que procuro
É a paz perfeita
De um jardim inglês,
Absolutamente sereno,
Colhendo uma tarde
De chuva e pensamento
em teu rosto...

terça-feira, 7 de julho de 2009

ACROSS THE UNIVERSE


ACROSS THE UNIVERSE, musical lançado em 2007 e dirigido por Julie Taymor, é uma mágica aventura pelo universo sonoro inventado pelos Beatles e uma releitura interessante dos conturbados fins dos anos 60 do último século.
Seu roteiro é demasiadamente simples: Jude, um jovem estivador do porto de Liverpool, viaja aos USA em busca do pai que jamais conheceu e acaba se envolvendo com Lucy, uma jovem universitária de classe media. O pano de fundo dos altos e baixos do romance que acontece entre os dois é a cultura, ou contra cultura, juvenil da época, bem personificada pelos dilemas pessoais e coletivos, apostas, sonhos,decepções e dores, experimentados pelo casal e seus amigos.
Creio, entretanto, que apesar deste recorte cronológico e cultural aparentemente datado, a linguagem musical e psicodélica do filme nos é, de algum modo, profundamente contemporânea.
Afinal, cada momento/canção deste filme atípico a emoção e linguagem da musica tece uma narrativa anímica que nos envolve e surpreendentemente transforma musica em vida...
Em outras e poucas palavras, ACROSS THE UNIVERSE faz da música um modo de sentir e viver o mundo através de lirismos e reflexões sugeridas por uma história contada através da musical magia dos Beatles.
De algum modo, esta história participa de nosso tempo presente...

NOTA SOBRE A VELHICE


Tantas são as memórias e rostos que elucidam meus percorridos caminhos, que sou incapaz de vestir qualquer definição de mim mesmo para dizer minha vida. Afinal, sou a soma de muitos eus perdidos, de desmarcados encontros com o destino.
Grande parte de mim perdeu-se em passados não vividos.Sou a viva conseqüência destas perdas e desencontros que em somatório de vazios conduziu-me ao azul do presente em que me transformei na contra-mão do tempo.
Depois de certa idade, os ganhos e vitórias pouco importam e nos dizem pouco sobre o essencial da existência.
É próprio da condição humana desejar futuros para esquecer os passados que atormentam o presente tentando provar juventudes transfiguradas nas canções do vento...

LUDICO, IMANÊNCIA E REPRESENTAÇÕES DA INFÂNCIA


O lúdico é uma modalidade de linguagem... um acontecer de fantasias, que nos afasta do dia a dia e do mundo em um exercício de sem rosto e intensidade de vida.
Quando brincamos e inventamos coisas sem utilidade e propósito, somos de algum modo apenas nós mesmos; não pensamos em nada que não seja o momento vazio de um riso que diga em segredo o mais pleno domínio da realidade.
Este é o mais profundo e significativo acontecimento possível da vida humana na ignorância de certezas, verdades, propósitos e compromissos que nos transcendem como indivíduos que brincam com o tempo, nos transformando em vazios membros de sociedades...

REAL LIFE

Deixo de lado
O exercício
De preencher cada hora
Com memórias de futuros
Escolhidos.

Procuro o presente
Em profundidade
Buscando a vida
No aqui e agora
Dos fatos
Sem a ilusão de vontades
Escritas pelo sabor dos dias
Em meus mais íntimos pensamentos.

Tudo que me importa agora
É o possível da realidade
Em mínimo rosto e persona

domingo, 5 de julho de 2009

NEWSLETERS


O efêmero desfila
Nas folhas soltas
Dos jornais diários
Afirmando a solidez
Do descartável,
Do relativo,
Ou de tudo aquilo
Que se desfaz.

O mundo segue em silêncio
No dizer informal das coisas
Afirmando o absoluto domínio
Do irracional sobre os dias.

Indiferente a tudo,
Mergulho em minhas imanências
...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

2+2=5 by Radiohead....

Uma de minhas canções preferidas do Radiohead é 2+2=5. Projeto nesta musica, na simplicidade de sua letra, meus desafios cotidianos mais profundos e incertezas de existência em sentimentto de mundo, ou aprendizado impossível de mim mesmo em desconstruções de Eus... Tudo que importa é ficar em casa para sempre... sem sofrer os coletivos cotidianos de perdas em dias de rotinas e mentiras de convencional realidade....

2+5=5 by Radiohead....

Are you such a dreamer

To put the world to rights

I'll stay home forever

Where two and two always makes a five

I'll lay down the tracks

Sandbag and hide

January has

April showers

And two and two always makes a five It's the devil's way now

There is no way out

You can scream and you can shout It is too late now

Because you're not there

Payin' attention

Payin' attention

Payin' attention

Payin' attention yeah

I feel it,

I needed attention

Payin' attention

Payin' attention

Payin' attention

Yeah

I need it,

I needed attention

I needed attention

I needed attention

I needed attention

Yeah

I love it, the attention

Payin' attention

Payin' attention

Payin' attention

Soon oh

I try to sing along

But the music's all wrong

Cos I'm not

Cos I'm not

I'll swallow up flies?

Back and hide

But I'm not

Oh hail to the thief

Oh hail to the thief

But I'm notBut I'm not

But I'm notBut I'm not

Don't question my authority or put me in the box

Cos I'm not

Cos I'm not

Oh go up to the king, and the sky is falling in

But it's notBut it's not

Maybe notMaybe not.

terça-feira, 30 de junho de 2009

LIFE FOREVER...

A vida é apenas
Um acontecer imperfeito
De isolados fatos
Espalhados pelo tempo,
Desarticulados em biografias
Perdidas em ilegível de mundo...

A vida é o provisório
E inacabado movimento
Da existência
Em perecível natureza.

Tudo que existe
É a mera e doce imanência
De cada dia perdido
Em enigmas de risos
Entre amigos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

CRONICA RELÂMPAGO LVII

Nada é mais enganoso em nossas rotinas do que o sentimento de que ela é determinada pelo invariável e o imutável da empiria do acontecer guiado pelos calendários e agendas... Como se o cotidiano fosse domesticável e maleável, como se pudéssemos saber, mesmo que limitadamente, ao amanhecer de cada dia, o acontecer das horas que nos esperam em ingênuo calculo de hábitos consolidados.
A existência contemporânea, entretanto, não pressupõe qualquer rotina que não implique em riscos, incertezas, repentinas e obscuras mudanças que nos quebrem rostos nas surpresas de nós mesmos diante de fatos e experiências...

ANOITECER

O mundo gira
E se transforma lá fora
Enquanto aqui dentro
Tento preservar os rastros
De emoções perdidas
Em palavras espalhadas
Sob o léu dos fatos.

Provisoriamente sobrevivo
A mim mesmo
Saboreando o sonambulismo das horas
Desencontradas do desaparecer do dia
A espera do sem nome de algum sonho
Escondido...

FREE TIME


Procuro plena e absolutamente
Viver o momento
Como se toda a vida
Existisse nele,

Como se o acontecer
Da soma de todas as coisas
Brilhasse neste instante
Ofuscando as cotidianas
Incertezas e insuficiências
De inacabamentos biográficos.

Respiro o tempo presente
Como se nada mais existisse
Alem da sensação
E quase certeza do aqui e agora
A me consumir em vontades,
Esperanças e apostas.

sábado, 27 de junho de 2009

Lennon Remembers


LEMBRANÇAS DE LENNON é a publicação, pela primeira vez na integra da longa entrevista concedida por John Lennon e Yoko Ono em dezembro de 1970 a Jeann S. Wernner para a Revista Rolling Stones. Trata-se da primeira entrevista de John após o conturbado fim dos Beatles. Não é de surpreender, portanto, a entonação por vezes colérica ou ressentida de algumas passagens.
De um modo geral, o texto nos revela um retrato nítido de John Lennon, seus contextos vividos e questões de inicio dos anos 70. A entrevista deve ser lida como a descrição de um momento bastante passional onde Lennon buscava se afirmar contra a sombra dos Beatles; ela não é mais do que isso, a cristalização de um instante biográfico do entrevistado.
Embora tenha sido concebida como estratégia de publicidade para o seu primeiro disco solo então recentemente lançado: JOHN LENNON/PLASTIC ONO BAND, com o passar dos anos esta entrevista converteu-se em um dos mais importantes documentos sobre a separação dos Beatles, mesmo que seja apenas a versão de John ainda sob o calor dos acontecimentos.
O fato é que os Beatles, enquanto personificação radical do mito vivo de toda uma época, é nesta entrevista pela primeira vez dissecado, dessacralizado, dando lugar a uma imagem mais humana e realista da Banda e dos dilemas e dificuldades vividos pelos seus membros ao longo da agitada carreira.
Ao mesmo tempo, quando visitamos este texto neste inicio de milênio, o mais pertinente é o natural questionamento sobre a contemporaneidade de Lennon e seu legado. Pode-se dizer que a luta contra o mito de si mesmo e a afirmação de sua singularidade humana foi a principal lição que ele nos legou através de sua música. Esta busca de uma vida simples e autentica voltada para a contemporaneidade de si mesmo, apesar de todo o caos de mundo que nos rodeia é na verdade um desafio de todos nós e não apenas um desafio de Lennon.
Ao longo da leitura desta entrevista ecoava em meus pensamentos a musica "God" que me parece traduzir o compromisso vital que devemos a nós mesmos ou as potencialidades de nossa individualidade acima das tantas duvidosas e coletivas verdades espalhadas por ai e circunstâncias de social existência...
Em poucas palavras, acho que Lennon contribuiu para manter aquele realismo autêntico e intenso que faz do rock and roll uma realidade viva em nossas vidas...

“ ... O rock’n’roll? Por que é primitivo e não tem embromação... as melhores coisas. E mexe com a pessoa. É a batida. Vá para floresta e eles tem o ritmo, no mundo inteiro. Você leva o som, todo mundo entra junto. Eu li que Malcolm X, Eldridge Cleaver ou sei lá quem disse que, com o rock, os negros permitiram que os brancos de classe média usufluíssem de seu corpo novamente, colocaram o corpo e a mente ali. É mais ou menos isso. Mexe com a pessoa. Comigo, mexeu. De todas as coisas que estavam acontecendo quando eu tinha quinze anos, foi a única que conseguiu mexer comigo. O rock era real. Tudo o mais parecia ilusório. O lance do rock, do bom rock’n’roll- o que quer que “bom” signifique etc., ah-ah, e toda essa merda- é que é real. E o realismo mexe com a gente, quer queira quer não. A pessoa reconhece a autenticidade ali, como em toda a arte de verdade. O que quer que seja a arte, caros leitores.É isso.Se é autêntico, geralmente é simples.E se é simples, verdadeiro. Mais ou menos isso.”


(John Lennon. Lembranças de Lennon. Entrevista de Jann S. Wenner/tradução de Marcio Glilo. SP: Conrad Editora do Brasil, 2001, p. 84-85 )

FILOSOFIA DE VIDA....

Eu amo a simplicidade de ser em cada grito vago de momento apenas o que sou na simplicidade das coisas sem a mediação de idéias e pensamentos, comer o nada dos fatos inventando e criando na economia dos atos o pouco que me define na imensidão do mundo. Quase nada tenho a dizer alem da minha ignorância de animal humano perdido no tempo e no finito em busca de inércias de prazer e desejo realizados. Nada me leva a nada alem disso...

ACROSS THE UNIVERSE

As letras perdem
Seu poder sobre as coisas.
Palavras escapam
Em repentina ausência
De espírito e significações.

Nada parece dizível,
Como se o mundo
Ficasse mudo
E fechado
No vazio da voz.

Misturo-me com o invisível
Da matéria em movimento
Perdendo-me no estado bruto
Da vida de todos os dias ,
no sumo do próprio universo...
No acontecer nervoso
De tudo que existe
Dentro de mim
Como equações de matemáticas
Jamais pensadas....
e musica de estatico momento...
ACROSS THE UNIVERSE...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

BAD RELIGION

Um outro observa-me
Em segredo
Por traz das ilusões
Da realidade.

Desfaz valores,
Morais
E mentiras
No cadáver de religiões
Em mãos de morte.

Posso saber o mundo
Ouvindo apenas
Meu próprio querer
Em estéticas de existência
E filosofias de imanências

Apenas viver
No raso de cada dia
É tudo que me importa
.

LITERATURA INGLESA XLV



“Tragado para dentro do som, tragado para dentro do mar, um mar balançante, bum, shhh, bum, shh, buuum... pam, pam, pam, pam, pam, pam, pam, para dentro e para fora, para dentro e para fora, sim, não, sim, não, sim, não. Preto e branco, vindo e indo, fora e dentro, para cima e para fora, para dentro e para fora, sim, não, sim, não, sim, não. Preto e branco, vindo e indo, fora e dentro, para cima e para baixo, não, sim, não, sim, não sim, um, dois, um, dois, um, dois, e o três sou eu, o três sou eu, O TRÊS SOU EU Eu no escuro. Eu no escuro vibrante, agachado, eu agarrado, segurando bem, buuuum, shhh, balançando, balançando, algum lugar por trás do portão, algum lugar diante da porta, e uma luz vermelha-escuro empastada e pressão e dor e depois para FORA numa luz branca e plana onde as formas se movem e as coisas faíscam e reluzem.”


DORIS Lessing. Roteiro para um passeio ao Inferno


A obra de Doris Lessing é demasiadamente extensa e plural em seu modernismo meta realista. Impossível definir seu vasto universo ficcional em poucas palavras. Assim, me parece mais fecundo falar de sua literatura através da eleição de uma obra especifica em lugar de diagnosticar suas diferentes fases e temáticas chaves. Mas não sem antes defini-la como uma da mais profundas vozes femininas do século XX.
Dentre os vários livros que já li desta autora, um que me chama particularmente atenção e visito constantemente é Roteiro para um passeio no inferno. O que há de tão especial nessa delicada e discretamente filosófica brochura literária pode ser intuído na classificação feita pela autora em sua folha de rosto:

Categoria: Ficção do espaço interior. Pois o melhor lugar para onde se ir é para dentro de nós mesmos.”
Trata-se neste romance das desventuras de um indivíduo anônimo encontrado certa madrugada andando a ermo e delirante pelo Embankment, próximo de Wartello Bridge ( Londres).
De inicio nada sabemos sobre sua identidade e acompanhamos curiosos seus longos dias de paciente no Hospital Central de Internamento; seu difícil trato com os médicos, as enfermeiras e outros enfermos, como por exemplo, o impasse com relação a sua submissão ao tratamento com eletro-choques, e, principalmente, seus densos devaneios de desmemoriado onde o mar e seus mistérios, surge como alegoria central do secreto correr da mais individual e pessoal profundeza da condição humana.
Pouco muda descobrirmos em determinado ponto da narrativa que nosso misterioso protagonista chama-se Charles Watkins professor de Línguas Clássicas na Universidade de Cambridge. 50 anos, casado, pai de dois filhos... apesar de sua relutância em lembrar-se de sua própria vida. É possível tomá-lo por um Ulysses contemporâneo cuja odisséia é a recusa à retornar ao lar em prol da aventura de desconcertantes auto descobertas pelos domínios de suas próprias profundezas.
A própria personagem nos sugere isso como, por exemplo, na seguinte passagem onde o contruír-se de uma biografia humana nos é apresentado como uma mera questão de cronometragem :

“- Mas suponhamos que eu me lembre das coisas de que quero lembrar-me? Eles tem certeza de que me lembrarei daquilo que querem que eu recorde. E é muito urgente que eu me lembre, isso eu sei. É tudo uma cronometragem , sabe. Também sei disso. São as estrelas em seus rumos, o tempo e o lugar. Eu estava pensando e pensando... Fiquei deitado , acordado, a noite passada e a outra antes dessa e a outra ainda... eu estava resolvendo alguma coisa. Porque tenho essa sensação de urgência? È conhecida. Não é coisa que eu só tenha desde que perdi a memória. Não. Já a tive antes. Agora acho que sei o que é. E não apenas isso. Há uma porção de coisas em nossa vida de todo o dia que são sombras. Como coincidências, ou sonhos, o tipo de coisas que não se coadunam com a vida comum, está me entendendo Violet?
(...)
- O meu sentido de urgência é muito simples- disse o professor.- Lembrei-me disso, pelo menos. O que preciso recordar tem a ver com o tempo se expirando. E isso é a ansiedade, em muita gente. Elas sabem que tem de fazer alguma coisa, deviam estar fazendo outra coisa, não apenas vivendo o dia a dia, pintando o rosto e decorando suas cavernas e pregando peças maldosas em seus competidores. Não. Sabem que tem de fazer alguma outra coisa antes de morrerem... e assim os hospícios estão cheios e os farmacêuticos prósperos.”

(Doris Lesing. Roteiro para um passeio ao Inferno/traduçãoLuzia Machado da Costa. SP: Record/Atalaya (Coleção Mestres da Literatura Contemporânea), s/d, p.215)

Mas nada disso é suficiente para apresentar esse interessante livro sem mencionar certa passagem do Apenso que acompanha a narrativa. Neste a autora nos fala de sua experiência com um script que certa vez elaborou para um filme que não saiu do papel. Afinal, seu argumento pode ser tomado como o mesmo deste livro:

(...) Blake pergunta:
Como sabes se cada pássaro que corta a
Estrada aérea
Não é um imenso mundo de prazer fechado por seus
Cinco sentidos?

Conhecer muito bem e por muito tempo uma pessoa que sente tudo de modo diferente das pessoas “normais” encerra a mesma pergunta.
O argumento desse filme era a que a percepção e sensibilidade extra do herói ou protagonista devia ser uma desvantagem numa sociedade organizada como a nossa, que favorece os conformados, os medíocres, os obedientes.”

( idem, p. 219)

FREE NIGHT


Estou em fase
De mundo
Em preto e branco
Sem cores e decorado
Por muitas esperas.

Estou em tempos de brumas,
De ermos e caminhos
Sem sentido
Em busca de vontades,
Potências e ventanias
De um ofuscante sol bi-partido
E arrependido de si mesmo...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

ON THE ROAD

A margem da rua,
Dentro do meu silêncio,
Percorro o mundo
Mudo e em segredo.

As pessoas são como coisas
Em movimento
Entre objetos e cores,
Carros e prédios.

Tudo existe
Como involuntária imaginação
Na bagunça dos meus pensamentos.

domingo, 21 de junho de 2009

POS MODERNIDADE E SENTIMENTO DE TEMPO

A partir da segunda metade do século XX o “espírito epocal” gradativamente reduziu-se ao misero recorte cronológico de uma década. Não se trata de uma simples aceleração de nossa sensibilidade para realizar ou perceber as mudanças e transformações continuamente em curso nas tantas conjunturas culturais e históricas. O que me parece decisivo é a emergência de um tipo novo de percepção do passar do tempo condicionada a sua fragmentação e a nossa libertação do passado como tradição, o que estabelecia o costume como premissa da organização social do cotidianamente vivido através de ritos e regras que deveriam perpetuar-se indefinidamente no fluxo de gerações . Essa liberdade relativamente recentemente adquirida com relação ao passado nos conduziu a um “presentismo contemporâneo” que parece rearticular nossas representações do passado e do futuro em um continum atemporal de uma pluralidade de estratégias de construção de imanências. Definitivamente não vivemos mais no mesmo mundo de nossos avós ou de nossos pais, nem mesmo no da nossa infância. Ele também, com certeza, não será o de nossa velhice. Tal fenômeno, que levaria ao desespero nossos antepassados, não nos perturba significativamente, pois nos habituamos a um eterno presente ontológico pós histórico onde a novidade é uma regra básica. O novo do sempre igual é o que define nossa contemporânea percepção do passar das coisas, a teleologia do imediato. É impreciso falar de um “fim da história” como se propôs a algumas décadas. Foi a própria idéia de “evolução”, da história como um processo direcionada por metas e objetivos civilizacionais, que felizmente se perdeu na poeira do tempo. Neste ponto, sem sombra de duvida, superamos as ofuscações iluministas.

MUNDO ONIRICO


Sonhos dormem
Sob o leito
De um mar profundo
Quando a noite abraça
A paisagem
Em suave visita
Eles me devolvem
Ao intimo mundo
Que perdi na infância.

Inutilmente procuro ser
Apenas aquilo que sou
Submetido ao susto
De cada manhã.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

POETICA DEFINIÇÃO DA IMANÊNCIA


Minha vontade é correr o mundo em direções múltiplas de discursos desarticulados, perdidos, em palavras e frases de vento; provar o mundo em colorido pensamento de não dizer as coisas, sentindo-as em ativo verbo. Descobrir o nada como o segredo dos significados que nos sustentam verdades provisórias, desvelando o vazio em um riso de imaginação criativa e duradoura da realidade como estética, como sensível idéia inventada em meus atos na realização do corpo em macro e micro fisico movimento.

terça-feira, 16 de junho de 2009

MIRCEA ELIADE E A PROBLEMATICA DO SOGRADO COMO LINGUÁGEM



No prefácio que faz a ORIGENS, uma coletânea de seus ensaios publicada em 1969, Mircea Eliade define a experiência do sagrado não como a fé ou crença em deus, deuses ou adesão emocional a princípios e dogmas metafísicos, mas como a experiência de uma realidade significativa que é a própria condição do homem no mundo, ou ainda, como a uma estrutura inerente a fenomenologia da consciência.
Desta forma, considerando a crise da religiosidade contemporânea, que é em grande parte um desgaste dos modelos religiosos definidos pela tradição, é interessante observar como Eliade que, no conturbado contexto de fins dos anos 60 afirmava simplesmente que,

“... O que eu digo é que num período de crise religiosa não se podem prever as respostas criativas e, como tal, provavelmente irreconhecíveis, dadas a semelhante crise. Além do que não é possível prever as expressões de uma experiência do sagrado potencialmente nova. O ‘homem total” nunca é completamente dessacralizado, e é de duvidar até que tal seja possível. A secularização é altamente bem sucedida ao nível da vida consciente: as velhas idéias teológicas, dogmas, crenças, rituais, instituições, etc. são progressivamente expurgados de sentido. Mas nenhum homem normal vivo pode ser reduzido à sua atividade racional consciente, pois o homem moderno continua a sonhar, a apaixonar-se, a ouvir música, a ir ao teatro, a ver filmes, a ler livros – em resumo, a viver não só em um mundo histórico e natural, mas também num mundo existencial privado e num Universo imaginário. É, em primeiro lugar, o historiador das religiões quem é capaz de reconhecer e decifrar as estruturas e sentidos “religiosos” destes mundos privados ou Universos imaginários.”

( Mircea Eliade. Prefácio in Origens: História e Sentido na Religião / tradução de Tereza Louro Perez. Lisboia: Edições 70, s/d, p.12 )

Cabe complementar tal reflexão com os primeiros parágrafos do citado prefácio onde o autor, ao apresentar seus próprios textos, contrapõe os conceitos de “religião” e “sagrado” de modo realmente interessante e sugestivo:

“ É lamentável não termos a nossa disposição uma palavra mais precisa que ‘religião’ para designar a experiência do sagrado. Este termo traz consigo uma história longa, se bem que culturalmente bastante limitada. Fica a pensar-se como é possível aplicá-lo indiscriminadamente ao Próximo Oriente antigo, ao Judaísmo, ao Cristianismo e ao Islamismo, ou ao Hinduismo, Budismo e Confucionismo bem como aos chamados povos primitivos. Mas talvez seja demasiado tarde para procurar outra palavra e “religião” pode continuar a ser um termo útil desde que não nos esqueçamos de que ela não implica necessariamente a crença em Deus, deuses ou fantasmas, mas que se refere à experiência do sagrado e, consequentemente, se encontra relacionada com as idéias de ser, sentido e verdade.
Com efeito, é difícil imaginar como poderia funcionar a mente humana sem a convicção de que existe algo de irredutivelmente real no mundo, e é impossível imaginar como poderia ter surgido a consciência sem conferir sentido aos impulsos e experiências do Homem. A consciência de um mundo real e com um sentido está intimamente relacionada com a descoberta do sagrado. Através da experiência do sagrado, a mente humana aprendeu a diferença entre aquilo que se revela como real, poderoso, rico e significativo e aquilo que não se revela como tal- isto é, o caótico e perigoso fluxo das coisas, os seus aparecimentos e desaparecimentos fortuitos e sem sentido.”

( Idem p. 9)


Parafraseando Eliade a experiência do sagrado, ao desvelar o ser, o sentido e a verdade no confronto com um mundo desconhecido, caótico e temível, preparou o caminho para o pensamento sistemático. Não é, portanto, de todo inútil nos ocuparmos dele dado que o estudo dos diversos mitos e símbolos construídos ao longo da história da humanidade, nos levam a confrontar e explorar situações existências fundamentais e elementares inerentes a experiência humana em sua linguagem arquétipa e pré-reflexiva.


LOST MEMORY


Já é demasiadamente tarde
Para empilhar passados
Em meus quartos de memória.
Todo o tempo do mundo
Tornou-se silêncio
No exercício de presentes
E existências
Que me sustentam a palavra aberta.

Observo serenamente
O passar das coisas
Adivinhando futuros sonhados
Que o ontem esqueceu...

CRÔNICA RELÂMPAGO LVI


Talvez uma parcela de nossos rotineiros hábitos de existência possa ser classificada, na falta de melhores palavras, como vícios de dia a dia. Refiro-me aquele insignificante conjunto de hábitos e gestos concretos que diariamente reproduzimos irrefletidamente em nossa intimidade e constituem o núcleo de nossas rotinas.
Assistir a um dado programa de TV diariamente, freqüentar determinados lugares públicos ou pessoas, possuir esta ou aquela dieta alimentar e até mesmo usar certas gírias ou expressões vazias para se expressar, convencionalmente, diz muito sobre quem somos. Penso, entretanto, que, longe disso, tais “manias adquiridas” não passam de superficialidade pragmática, independente do quanto somos moldados por elas.
Definitivamente não é como vivemos que define o que há de mais singular em nossa singularidade e individualidade. Nisso só encontramos duvidosas explicações de como nos adaptamos melhor ou pior as experiências vividas ao longo do acumulo de tempo no mundo.É em como gostaríamos de viver que surge nossas potencialidades básicas e bem ou mal realizadas através de nossas escolhas e configurações de existência. Somos sempre um esboço de tudo aquilo que poderíamos ser, um pálido retrato de nossas anciãs, desejos e inclinações mais básicas.
Afinal, quantos sonhos guardamos no bolso enquanto sofremos o peso de nossas personas sociais? O quanto guardamos de nós mesmos ao longo do acontecer da vida?

sábado, 13 de junho de 2009

PRESENT

Tudo passa e se perde
Em um segundo de certeza
Esboçado em pensamento.

O caos e o mundo
Deitam sobre mim
Em um sonho de dias perdidos.

Vivo imanentemente o agora
Mergulhado no efêmero
Do acontecer de um instante.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

HAWKING E OS BURACOS NEGROS


Publicado originalmente no Reino Unido em 1997, a coleção “Em 90 Minutos” de autoria do professor de filosofia e matemática da Universidade de Kingston, Paul Stratheen, oferece ao público leigo, breves e panorâmicos ensaios sobre a vida e obra de filósofos e cientistas de relevante impacto sobre o pensamento contemporâneo.
Um dos volumes mais interessantes da coleção é HAWKING AND BLACK HOLES, dedicado a Stephen W. Hawking, considerado o mais brilhante físico teórico desde Einstein que, muito apropriadamente , ocupa a cadeira de professor lucasiano de Matemática em Cambridge que já fora ocupada um dia por Newton.
Conhecido do grande público desde a publicação em 1997 de “Uma breve História do Tempo”, Hawking é reapresentado aos leigos através deste pequeno manual através de um interessante recorte biográfico que, indiretamente, nos aproxima do complexo conjunto de problemas e hipóteses que o brilhante cientista generosamente nos oferece.
Creio que o mérito desta pequena brochura é justamente a de permitir uma leitura menos abstrata do autor e das implicações de sua obra nos convidando a refletir sobre ela e sobre o lugar que a ciência especulativa, ou a cosmologia ocupa em nosso imaginário contemporâneo.
Tudo que sei é que uma bela e inspiradora descrição de Hawking, enquanto mito vivo do pensamento cientifico e das potencialidades da mente humana, pode ser encontrada ao final do ensaio de Stratheen:

“ Não é por acaso que Hawking trabalha no Departamento de Matemática Aplicada de Física Teórica. Se seu trabalho. Se seu trabalho fosse provado, poderia se tornar prático e ele perder seu gabinete. Foi nesse gabinete que Hawking levou a cabo boa parte de suas mais profundas reflexõesm ( como o aviso de “Silêncio, por favor, o chefe esta dormindo” pendurado em sua porta). Talvez seja esta a melhor maneira de descrevê-lo. Uma figura pequena, enterrada em uma cadeira de rodas motorizada, com sua rede de computador, seu espelho, fios complexos e cliques dos engenhos mecânicos. Hawking em silêncio combina pequenos cálculos com vastas teorias. Sobre a mesa em frente, outra tela de computador e pilhas de papel. Mais além, o grande pôster de Marilyn Monroe olha para baixo, com ternura, para seu protegido intelectual. Perdido nesse hambiente, Hawking confronta sua mente com os limites do universo. De vez em quanto, um assistente ou uma enfermeira entra e sai, silenciosamente, sem ser notado.
Às quatro horas em ponto, todos os dias, encena-se um ritual . A hora do chá. Hawking é levado em sua cadeira até o salão comum, onde fotografias de antigos Lucasian Professors revestem as paredes. Nesse local, trocas vigorosas acontecem entre os jovens pesquisadores reunidos. A aparência desse grupo já foi comparada a “uma banda de rock em um mau dia” e sua linguagem é igualmente incompreensível aos seres humanos normais. A figura central desse grupo se senta em sua cadeira de rodas usando um babador. Uma enfermeira segura seu copo e mantém uma das mãos em sua testa, controlando sua cabeça para que ele possa beber. Seus óculos deslizam pelo nariz e seus lábios frouxos sugam ruidosamente o chá, enquanto vozes jovens discutem calorosamente em torno dele. Algumas vezes a conversa se interrompe e um componente do grupo escreve uma formula matemática no tampo de fórmica da mesa. !”Quando queremos conversar alguma coisa, tiramos xérox da mesa”, disse Hawking certa vez a um visitante.)
De vez em quanto, o grupo se volta para a pequena figura na cadeira de rodas, e ele digita uma resposta que ressoa na voz debilitada do sintetizador. Alguém faz um comentário de mau gosto, típico dos estudantes, e a figura na cadeira de rodas irradia seu famoso sorriso largo. Ele está em seu elemento: o centro de seu próprio universo matemático, já matéria de lenda.”


( Paul Strarthern. Hawling e os Buracos Negros em 90 minutos/tradução de Maria Helena Geordane, consultoria Carla Fonseca-Barbatti. RJ: Jorge Zahar,1998, p. 79-80 )

ASTROLOGIA

Quero ser como o vento
Que vai e vem
ao sabor
do aleatório momento
de seus acasos,

Pensar silêncios
Adivinhando a escrita
Dos astros
Em meus destinos abertos
E hábitos.

Sei que sobre um céu vazio
Estrelas adivinham meus passos
E possibilidades.

domingo, 7 de junho de 2009

STEPHEN HAWKING E UMA BREVE HISTÓRIA DO TEMPO


“O progresso da raça humana em compreender o universo estabeleceu uma pequena área de ordem num universo crescentemente desordenado.”
Stephen W. Hawking

Quando li pela primeira vez UMA BREVE HISTÓRIA DO TEMPO do já lendário físico de Cambridge Stephen W Hawking, no inicio dos anos 90, tinha um pouco mais de 18 anos e apenas começava a definir meus interesses de estudo e eleger caminhos possíveis de vida e pensamento.
O tema pouco acessível, somado a popularidade do livro, que então já havia se convertido em um dos grandes best sellers de fins dos anos 80 e inicio dos 90, aguçou minha curiosidade. Através dele acabei, então, realizando meu primeiro contato com o denso universo da ciência contemporânea, sua linguagem e imagens vivas de significação de mundo. Posso hoje em retrospecto classificar como decisiva tal experiência em meus anos de formação como indivíduo. Pois esta foi uma das vivencias bibliográficas que alimentaram meu senso critico e radicais questionamentos em um momento de profundo questionamento das seguranças de fé e certezas metafísicas que o senso comum ingenuamente me oferecia.
É bem verdade que o livro em questão era ( e ainda é em grande parte) ilegível para o leigo no assunto que sou, mesmo que, como prudente obra de vulgarização não contenha aquelas cansativas e complicadas formulas matemáticas inerentes ao raciocínio de um físico teórico. Em que pesem meus limites de leigo, entretanto, creio que fiz na ocasião através dessa singular e ainda hoje clássica brochura uma descoberta deveras importante. Descobri o conhecimento humano como um processo, uma construção e desconstrução constante de teorias que confirmam e renovam em cada nova imagem de mundo que criam as potencialidades quase infinitas do intelecto humano. Em contra partida também aprendi que em nosso cotidiano não entendemos quase nada do mundo mesmo nos beneficiando na vida diária cada vez mais dos produtos do avanço do desenvolvimento técnico-científico.
O fato é que ainda hoje a idéia de um universo em expansão, a teoria dos buracos negros, a teoria da corda e a utopia de uma teoria unificada me fascinam como testemunho do esforço humano de traduzir o universo em linguagem e superar seus mais arraigados limites.
Uma das grandes questões especulativas do livro de Hawking é justamente a busca de uma teoria unificada cuja implicações ele assim esclarece:

“ O que significaria se atualmente se descobrisse a teoria definitiva do universo? Como foi explicado no Capitulo 1, jamais se teria certeza de que, de fato, seria a versão correta, uma vez que teorias não podem ser comprovadas. Mas se fosse matematicamente consistente e sempre fornecesse previsões que concordassem com observações, poder-se-ia ter razoável certeza de que seria a teoria correta. Colocaria um final no longo e glorioso capítulo da luta intelectual da história da humanidade para entender o universo. Mas também revolucionaria a compreensão comum que se tem das leis que governam o universo. No tempo de Newton era possível para uma pessoa culta abarcar todo o conhecimento humano, pelo menos em linhas gerais. Mas desde então, o ritmo do desenvolvimento da ciência tornou esse saber impossível. Dado que as teorias estão sempre sendo mudadas para dar conta de novas observações, não são nunca adequadamente digeridas ou simplificadas para que os leigos possam compreende-las. É necessário ser especialista, e mesmo assim pode-se esperar dominar apenas uma pequena proporção das teorias científicas. Além disso, a razão do progresso é tão acelerada que o que se aprende nas escolas e universidades já é sempre um pouco ultrapassado. Poucas pessoas podem fazer face às fronteiras do conhecimento que avançam rapidamente e é necessário devoção integral e se especializar numa pequena área. O restante da população tem apenas uma vaga idéia dos avanços que estão sendo feitos ou da excitação que eles estão gerando. Setenta anos atrás, acreditando-se em Eddington, apenas duas pessoas compreendiam a tória geral da relatividade. Atualmente cada dez em cem universitários graduados o fazem, e muitos milhões de pessoas tem pelo menos alguma familiaridade com a idéia. Se uma teoria completa unificada fosse descoberta, seria apenas uma questão de tempo até que ela fosse digerida e simplificada da mesma forma e ensinada nas escolas, pelo menos em linhas gerais. Seriamos então todos capazes de ter alguma compreensão das leis que governam o universo sendo responsáveis por nossa existência.”

( Stephen W. Hawking. Uma Breve História do Tempo: Do Big Bang aos Buracos Negros/ tradução de Maria Helena Torres. RJ: Rocco, 19° ed, 1989, p. 229-230 )

VIDA E LINGUAGEM

Há em toda comunicação e diálogo algo de um intraduzível sentimento de mundo, uma involuntária sensação de estar aqui e agora a construir discursos contra os limites da própria linguagem.
Trata-se de uma imprecisa consciência de si mesmo que por trás das palavras escreve involuntários silêncios nas múltipla sensações de compartilhar a experiência de estar vivo...

BLACK HOLE

Vejo a existência espalhada
Na desordem do tempo
Sem qualquer margem
Ou limite,
Livre no inverso do pensamento.

A vida estática
E abastrata
No imaginário de um devaneio
Desloca-se das coisas
Impludindo infinitos
E desvelo
Meu intimo
Lugar nenhum.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

ORIGENS DO ROCK AND ROLL


Não é uma tarefa muito fácil falar com alguma precisão ou rigor sobre os marcos de origem do velho rock and roll nos Estados Unidos do pós segunda grande guerra. É mais seguro tomá-lo, enquanto novo estilo musical, como uma construção coletiva da primeira e extremamente criativa geração de rockers. Dentre eles destacam-se nomes como o de Chuck Berry, Elvis Presley, Bill Halley, Litle Richard, Gene Vicent e Jerry Lee Lews, e tantos outros.
Segunda uma versão sacralizada o rock and roll teria sido “inventado” por Chuck Berry e sua certidão de nascimento seria a gravação de Maybellene em 1955. Outra versão, entretanto, toma como seu primeiro marco a gravação do compacto Rocket 88 em 1951 por um conjunto de rhythm & blues chamado The King of Rhythm.
Como em seus primórdios o rock encontrava-se muito próximo de suas matrizes de origem a ponto de pouco diferenciar-se delas, é muito difícil precisar em que momento e através de quem ele se emancipou de suas raízes a ponto de constituir um estilo e personalidade musical própria. Afinal, as raízes do rock and roll são diversas. Suas influencias iniciais compreendem o blues tradicional, o rhythm & blues, a musica country, o folk, o boogie woogie e até mesmo um pouco de gospel. Se podemos defini-lo como uma musica rápida e dançante, baseada em três ou quatro acordes e interpretada de modo alucinado e jocoso, isso não é absolutamente suficiente para distingui-lo sem equívocos, por exemplo, do rhythm & blues.
De um modo ou de outro foi ao longo dos anos 50 que, impulsionado por uma poderosa industria cultural, o rock projetou-se como fenômeno diferenciado em meio ao rico cenário musical do período cativando um público de adolescentes que a partir dele construiu uma identidade e um universo próprio de questões e dilemas. De certo modo o rock reinventou as representações sociais do ser jovem e redefiniu seu lugar e espaço na sociedade ocidental ao relativamente libertá-lo do peso das tradições e costumes convencionais...
@@@@@

Mesmo sendo uma obra demasiadamente sintética e factual dada sua formatação, o ALMANAQUE DO ROCK: HISTÓRIAS E CURIOSIDADES DO RITMO QUE REVOLUCIONOU A MÚSICA de Kid Vinil é uma referência relevante para os estudiosos do rock na medida em que fornece um panorama da evolução e diversificação gradativa deste singular estilo musical ao longo do tempo. A obra abrange um período relativamente longo que compreende os primórdios nos anos 50 até o diversificado e complexo cenário dos anos 00, discutindo também suas perspectivas de então.
No que diz respeito especificamente ao rock dos anos 50, o autor nos lembra uma influencia normalmente ignorada na formação do rock and roll:o Bebop. Em suas próprias palavras:

“ O Bebop que apareceu com o fim das big bands, foi outra raiz do rock and roll. Era um tipo de jazz misturado ao blues feito pelos jovens negros, mas não era dançante como o som das swing bands. Nomes como o do saxofonista Charlie Parker e do trompetista Dizzy Gillespie destacaram-se nessa onda.”

( Kid Vinil. Almanaque do Rock: Histórias e curiosidades do ritmo que revolucionou a música. SP: Ediouro, 2008, p. 17 )


Ele também resgata o lugar do Doo-Wop como estilo de rock dos anos 50:

“Um estilo importante dentro do rock and roll dos anos 50 foi o doo-woop, uma espécie de exercício vocal feito por grupos de jovens negros e brancos, pobres e, às vezes, ítalos-americanos, que começaram a carreira cantando sem nenhum acompanhamento de instrumentos, naquilo que chamamos a capella. Nessa década, apareceram diversos grupos desse estilo, e alguns conseguiram certo sucesso, como The Crows, The Penguins, The Ravens e The Orioles. Mas outros também merecem destaque, entre eles: The Platters, The Clovers, The Spaniels, Flankie Lymon and The Teenagers, Dion, The Flamingos e The Drifters.
Em 1954, um dos grupos precursores foram os canadenses do Crew Cuts que chegaram ao primeiro lugar em algumas paradas com a musica “Sh’Boom”, que consistia em um arranjo vocal dos quatro integrantes. No ano seguinte emplacaram mais uma: “Earth Angel”, regravação dos The Pingüins.
The Crows foi o primeiro grupo vocal a tocar em rádios de brancos em 1954, com a música “Gee”. Entretanto, um dos grupos mais bem sucedidos foi o The Clovers, que se emplacou 13 sucessos entre 1951 e 1954. Sem contar o The Platers, grupo de dôo-eoop que entrou nas principais paradas com “The Great Pretender” em dezembro de 1955.”

( Idem p. 15)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

CONTOS DE VIRGINIA WOOLF


A HAUTED HOUSE AND OTHER STORIES (Uma casa assombrada e outras histórias), segundo livro de contos de Virginia Woolf (1882-1941), organizado e publicado postumamente pelo seu marido Leonard Woolf, é uma peculiar e sedutora amostra do complexo e revolucionário universo ficcional da ilustre e sensível romancista do ciclo de Bloomsbury.
Pode-se dizer que os contos ocupam um lugar menor em sua vasta obra relacionando-se diretamente com a peculiar dinâmica de seu processo criativo. Pelo menos é o que sugere o prefácio de Leonard a coletânea de 1944:

“ MONDAY OR TUESDAY ( Segunda ou terça feira), o único livro de contos de Virginia Woolf a sair enquanto vivia, foi publicado há 22 anos, em 1921.Permaneceu esgotado durante muitos anos. Ao longo de toda a sua vida, vez por outra Virginia Woolf escreveu contos. Quando lhe ocorria alguma idéia para conto, costumava esboçá-lo em forma bastante rudimentar e depois guardava-o em uma gaveta. Posteriormente, quando acontecia que um editor lhe pedisse um conto, e quando ela se sentia disposta a escrever ( o que não era muito comum), tirava um dos esboços da gaveta e o reescrevia, por vezes exaustivamente. Quando julgava, como amiúde fez, que enquanto escrevia um romance precisava de um período de descanso mental através do trabalho de outro texto, escrevia ensaios críticos ou elaborava os esboços de contos.”

(Leonarde Woolof. Prefácio in Virginia Woolf.Uma casa Assombrada/tradução de Jose Antônio Arantes. RJ: Nova Fronteira, 1984, p.7)

Não deve, portanto, surpreender certo “sentimento de esboço ou inacabamento” que a leitura dos contos de Virginia por vezes nos despertam ao fim da leitura. Lidamos aqui na maioria das vezes realmente com elaborados esboços. Nem por isso deixamos de encontrar neles os temas chaves do complexo universo ficcional da autora: o tempo, o fluxo de imagens, percepções e reflexões subjetivas e uma sensibilidade única para as sutilezas do fazer-se cotidiano da existência.

Um dos contos mais interessantes da coletânea é o intitulado “Um Romance não escrito” onde por capricho do acaso penetramos na intimidade da anônima Minnie Marsh em uma aventura pelas paisagens humanas que nos cercam em silêncio no fluxo da multidão ocultando tramas, impasses e dilemas ordinários cuja substância é a de verdadeiros romances jamais escritos, mas dos quais não nos damos conta de tão mergulhados nos impasses de nossas próprias consciências individuais.
O conto inicia-se com uma cena corriqueira e significativa:

“Uma tal expressão de infelicidade por si só bastava para o nobre rosto da mulher-insignificante sem aquele olhar, com ele quase um símbolo do destino humano. A vida é o que se vê nos olhos das pessoas; a vida é o que elas aprendem e, depois que o aprenderam, jamais, embora procurem escondê-lo, deixarão de estar cientes- de que? De que, parece, a vida é assim. Cinco rostos frente a frente- cinco rostos maduros- e em cada rosto a consciência. Estranho, porém, como desejam dissimulá-la! Há sinais de reticência em todos os rostos: lábios cerrados, olhos sombrios, cada uma das cinco pessoas faz alguma coisa para esconder ou anular a consciência. Uma fuma; outra lê; as terceira verifica notas num livro de bolso; a quarta fita o mapa do trajeto no painel em frente; e a quinta – o mais terrível a respeito da quinta é que não faz absolutamente nada. Ela olha a vida. Ah, mas minha pobre e infeliz mulher, participe do jogo-por nossa causa dissimule!”

(Virginia Woolf. Um Romance não escrito in Uma casa Assombrada/tradução de Jose Antônio Arantes. RJ: Nova Fronteira, 1984, p. 15 )

COTIDIANA UTOPIA


Seduzido
Por um perfume distante
De dia novo
Deixo para trás
Posses perdidas,
Paisagens e dores
Para explorar horizontes virgens.

Dou adeus a antiga casa,
A roupa rota
E aos silêncios da vida.

Mendigo de risos
Acompanho uma esperança
Com a inocência de crianças.

Mas tudo,
Eu sei,
Não é mais que um sonho
Do qual em, segundos
Despertarei.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

MULTIDÃO

Toda emoção se fez
De repente
Vaga percepção
Das coisas em profusão,
Parcial realização
Do entremecimento da vida
Diante do mundo.

O tempo sustenta a existência
Precariamente.
Quase me vejo em silêncio
Inerte no fluxo da multidão.

Tudo é puro e difuso
Sentimento
Sem objetos, objetivos
Ou futuro...