quarta-feira, 3 de junho de 2009

CRONICA RELÂMPAGO LV


As mudanças e pormenores dos dias passados invadem o momento apagando o presente. Considero todas as possibilidades perdidas em minhas irrefletidas escolhas de ocasião. Percebo que me tornei o incômodo silêncio de apagadas oportunidades somadas.
Assombra-me o fantasma do outro sepultado em meus atos. Mas sei que sou quem deveria ser na virtual paisagem de infinitas alternativas. Sei que me tornei em cada passo de tempo o que de alguma forma sempre fui...

terça-feira, 2 de junho de 2009

CRÔNICA RELÂMPAGO LIV

Respiro uma manhã corriqueira sem grandes planos ou projetos de dia. Tudo corre em rotinas, vãs expectativas e incertezas de futuros que talvez jamais existam como o melhor presente possível de mim mesmo.
Apenas me perderei daqui a pouco na paisagem urbana cumprindo ritos banais de existência indiferente a mim mesmo e diluído entre os outros.
Ao fim do dia voltarei ao ponto de partida, mergulharei no privado da existência comum sem perceber em minha face o consolo de um rosto. Surpreenderei em mim apenas minha auto imagem de fantasia a dizer o ínfimo ponto de oceano humano que involuntariamente sou.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

MINUTE

Vejo vazios
Correndo sob o céu estrelado
No corpo do vento,
Transmutando espaços
Na falsa melancolia
Dos silêncios.

Um deserto rebelado
Percorre o frio da noite
Dentro de mim.

Ofereço ao nada
Palavras de sono
Sondando os sentimentos
Vivos
Da madrugada aberta

In a minute...

domingo, 31 de maio de 2009

CONSCIÊNCIA INDIVIDUAL E INDIVIDUAÇÃO


A consciência individual é uma conquista recente no longo e tortuoso percurso da espécie humana. Em que pese antecedentes no séc. XII e a partir do chamado Renascimento da cultura ocidental dos séc. XIV e XV, sua maturação deu-se plenamente apenas na época moderna, quando a civilização industrial de fins do séc. XIX e inicio do séc. XX estabeleceu as condições propícias ao seu pleno florescimento. Ou seja, o relativo deslocamento das tradições e costumes nas vertigens do novo e complexo cenário urbano, evidenciado principalmente através das artes e novas estéticas, a diluição da consciência coletiva com o advento da sociedade de massa e conseqüente atomização do indivíduo e, principalmente, o questionamento radical da metafísica idéia de verdade como principio cognitivo assentado na ilusão de uma correspondência natural entre as palavras e as coisas. Sem isso não seria possível imaginar a autonomia da consciência individual como um paradoxo entre o singular e o universal da espécie humana.
Nietzsche foi um dos primeiros pensadores a deparar-se com o problema vislumbrando na fantasia do super-homem o caminho de uma possivel individuação futura mediante a reviravolta de todos os valores. Devemos a ele a superação da equivocada associação simples entre consciência individual e individuação, entre a necessidade de comunicação sob a qual se assenta a consciência e a individualidade/singularidade propriamente dita como expressão mais radical do fenômeno humano inconsciente.
Recorrendo a um de seus aforismas em A GAIA CIÊNCIA, intitulado “Do ‘gênio da espécie’ ” ofereço algumas fragmentárias provocações sobre o tema que curiosamente remetem a noção de inconsciente enquanto “psique objetiva” para usar uma terminologia utilizada algumas vezes por C G Jung:

“... Para que então consciência, quando no essencial é supérflua?Bem, se querem dar ouvidos à minha resposta a essa pergunta e a sua conjectura talvez extravagante, parece-me que a sua sutileza e a força da consciência estão sempre relacionadas à capacidade de comunicação de uma pessoa ou animal ( ou animal), e a capacidade de comunicação, por sua vez, a necessidade de comunicação: mas não, entenda-se, que precisamente o indivíduo mesmo, que é mestre justamente em comunicar e tornar compreensíveis suas necessidades, também seja aquele em que suas necessidades mais tivesse de recorrer aos outros.
(...)
O ser humano, como toda criatura viva, pensa continuamente, mas não o sabe; o pensar que se torna consciente é apenas a parte menor, a mais superficial, a pior, digamos:- pois apenas esse pensar consciente ocorre em palavras, ou seja, em signos de comunicação, com o que se revela a origem da própria consciência. Em suma, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da consciência ( não da razão, mas apenas do tomar- consciência- de-si da razão) andam lado a lado. Acrescente-se que não só a linguagem serve de ponte entre um ser humano e outro, mas também o olhar, o toque, o gesto; o tomar-consciência das impressões de nossos sentidos em nós, a capacidade de fixá-las e como que situa-las fora de nós, cresceu na medida em que aumentou a necessidade de transmiti-las a outros por meio de signos. O homem inventor de signos é, ao mesmo tempo, o homem cada vez mais consciente de si; apenas como animal social o homem aprendeu a tomar consciência de si- ele o faz ainda, ele o faz cada vez mais- Meu pensamento, como se vê, é que a consciência não faz parte realmente da existência individual do ser humano, mas antes daquilo que nele é natureza comunitária e gregária; que, em conseqüência, apenas em ligação com a utilidade comunitária e gregária ela se desenvolveu sutilmente, e que, portanto, cada um de nós, com toda a vontade que tenha de entender a si próprio da maneira mais individual possível, de “conhecer a si mesmo”, sempre trás a consciência justamente o que não possui de individual, o que nele é “ médio”- que nosso pensamento mesmo é continuamente suplantado, digamos, pelo caráter da consciência- pelo “gênio da espécie” que nela domina- e traduzido de volta para perspectiva gregária.”

(Friedrich Nietzsche. A Gaia Ciência/ tradução, notas e posfácio de Paulo Cezar de Souza. SP: Companhia das Letras,2001,p. 249-250)

150 ANOS DE BIG BEN


O big ben, o fabuloso sino fundido por George Mears em 1858, medindo quase 3 metros de diâmetro e pesando 13, 5 toneladas, instalado na Tower Clock do Palácio de Westminster, na sede do parlamento britânico, completa hoje 150 anos. Seu apelido deve-se a uma referência a Benjamin Hall, ministro de Obras Públicas da Inglaterra na ocasião de sua instalação e sarcasticamente apelidado por big ben por sua grande estatura.
Superando as criticas iniciais associadas a reconstrução do palácio de Westminster original, destruído por um incêndio em 1834, tornou-se o sino um monumento e simbolo do novo mundo inaugurado pela revolução industrial, e um dos mais simpáticos icones da civilização ocidental e dos esteriotipos construidos em torno da cultura britânica.
Dedicar-lhe algumas palavras pode parecer pueril, mas não quando consideramos que, 150 anos depois de sua instalação, ele ainda provoca o imaginário coletivo. Pessoalmente o considero quase um fetiche associado a incômoda consciência do tempo que passa. É como se suas solenes badaladas remetessem a finitude e fragilidade da vida em contraste com as permanencias das coisas inanimadas por uma quase eternidade...
Sobre o assunto, uma visita ao site do parlamento britânico pode ser bastante interessante:
http://www.bigben.parliament.uk/,

TEMPORALIDADE

Vejo o mundo
Pelos olhos do tempo.
Nada é permanente.
Tudo é incerto.

Neste exato segundo
Parte de mim cai no passado
Enquanto outra
Desaparece futura
Sem saber o presente.

Estou entre
Meu eu e o outro
Que se desfaz no tempo...

Não tenho origem ou destinos...
Apenas respiro...

sábado, 30 de maio de 2009

CONDIÇÂO PÓS MODERNA E TEMPO PRESENTE

A condição pós moderna, expressão pela qual podemos definir nossa contemporaneidade, pressupõe a existência como um eterno presente assentado no deslocamento do passado e na desconstrução do “culto do novo ou do futuro” estabelecido pela chamada modernidade.
Podemos considerá-la uma espécie de “filosofia da imanência” voltada parta o tempo neutro e permanente de um presente em desconstruções e reconstruções contínuas.
A condição pós moderna pressupõe o mundo como um espaço simbólico de intercâmbios, de redes sem centros ou pontos estáveis e articuladas pela meta ou hiper realidade do virtual.
Em nossos textos/mundos cotidianos, tudo agora existe em superfície sem a ilusão de essências ou meta narrativas...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

ILEGIVEL


Exploro um ponto vazio
Perdido no horizonte
Como um nada
A desafiar certezas
E planos.

Ele me sonda
Com seu silêncio
Buscando intercâmbios.
Enquanto corro
Contra o tempo
Inventando respostas
Que não se sustentam.

Minha vida
Já não é mais
Em qualquer sentido
Dizível...

PRESENT PAST

Nada me conduz
Alem do presente.
Reencontro o dia
Anterior
Nos vazios do agora
E a hora chora
As mágoas do tempo,
Os limites da vida,
Os biográficos buracos
Dos meus enganos
E destinos.

sábado, 23 de maio de 2009

WILLIAM JAMES: PRAGMATISMO E VERDADE


O utilitarismo pragmático pressupôs uma positiva dessacralização da idéia de verdade ao deduzir a legitimidade de qualquer enunciado pelos seus efeitos e aplicações práticas. Desta forma, a verdade deixou de ser um atributo dos objetos ou coisas a que se refere para se tornar uma característica das próprias idéias e da consciência que temos delas através de nossos discursos..
Embora em sua neutralidade axilógica reconheça a legitimidade das crenças religiosas, o fato é que o método pragmático expulsa do conceito de verdade todo entulho e resquício de metafísica, de teologia e abstrato racionalismo especulativo.
Em outros termos, o pragmatismo estabeleceu uma concepção instrumental de verdade onde como esclarece William James, “Idéias verdadeiras são aquelas que podemos assimilar, validar, corroborar e verificar. As idéias falsas são aquelas com as quais não podemos agir assim.”
(William James Pragmatismo/ tradução de Pablo Rubén Mariconda in Os Pensadores. Vol. XL. Pragmatismo: Textos selecionados. SP: Ed. Abril S/a, 1974, p. 24)

Deste modo a verdade torna-se uma invenção ou construção de nossa experiência de caráter mutável, em continua transformação e, portanto, incompatível como qualquer dogmatismo.

“O ponto mais fatal de diferença entre ser um racionalista e ser um pragmátista acha-se agora inteiramente à vista. A experiência está na mutação, nossas certezas psicológicas da verdade acham-se em mutação- assim, muito racionalismo permitirá; nunca porém, que a realidade em si ou a verdade em si seja mutável. A realidade mostra-se completa e pronta desde toda eternidade, insiste o racvionalismo, e a concordância de nossas idéias com ela é a única virtude não analisável nas mesmas da qual o racionalismo já nos disse algo. Como aquela excelência intrínseca, sua verdade não tem nada que ver com nossa experiência. Não acrescenta coisa alguma ao conteúdo da experiência. Não faz diferença para a realidade em si; é superveniente, inerte, estática, meramente uma reflexão. Não existe, retém ou obtem, pertence a outra dimensão, de fatos ou de relações de fatos, pertence, em suma, à dimensão epistemológica- e com essa palavra rebarbativa o racionalismo encerra a discussão.
Deste modo, como o pragmatismo encara o futuro, o racionalismo aqui de novo olha para trás, para a eternidade passada. Fiel ao seu hábito inveterado, o racionalismo reverte aos “princípios”, e pensa que, uma vez uma abstração sendo denominada, admitimos sua solução oracular.”

(Idem p.33)

COSMOS


Procuro não pensar
No tamanho
Da existência
Em ínfimo acontecer
Em imensidões de universos.

Sei que quase nada
Revela o existir
No silêncio dos atos
Que mudos se espalham
Pelo tempo e o espaço.

Cosmologias me roubam
Verdades
Em matemáticas
Desconstruindo
A relevância do humano...

Talvez eu seja
Uma mera abstração
De mim mesmo...

DA SOCIEDADE PÓS-IDUSTRIAL À PóS-MODERNA


Em Da Sociedade Pós Industrial à Pós Moderna, livro originalmente publicado no Reino Unido em 1995, o professor de Ciência Política e Social Krishan Kumar, da Universidade de Kent/ Inglaterra, realiza uma interessante síntese e balanço teórico das discussões em torno dos conceitos de Modernidade e Pós Modernidade.
Kumar ocupa-se nesse estudo basicamente de três variantes da chamada teoria do Pós Industrialismo em voga durante os anos 70 do último século: a hipótese de uma sociedade da informação, de um Pós Fordismo e de uma Pós Modernidade. Sua analise não busca qualquer parecer conclusivo em torno dessas teorias, mas produzir um provisório balanço critico de seu desenvolvimento a luz do desafio contemporâneo de uma radical releitura das representações e dinâmicas de nosso mundo coletivamente vivido.
No prefácio que faz a sua obra Kumar, muito lucidamente reconhece que, em termos de teoria social, o debate envolvendo a pos modernidade vem se diluindo em um incessante crescimento da literatura em torno de tal teoria em detrimento de seu desenvolvimento e aprofundamento. Sua obra, entretanto, ocupa um lugar peculiar entre a vasta bibliografia critica destinada ao tema na medida em que propõe a servir de guia em meio a verdadeira torre de babel literária que envolve o assunto.
Merece destaque a resposta formulada pelo autor a questão elementar sobre a pertinência ou não de uma Pós Modernidade:

“ ... há um grau inescapável de “reflexão” ou auto conhecimento na pós-modernidade que é inerente à sua condição e às discussões que provoca. Isso significa que terá que haver uma certa hipérbole, que não exige resposta, na pergunta que fizemos no último capítulo: A pós-modernidade realmente existe? A pergunta não pode ser respondida de forma literal. A pós- modernidade é verdadeira na medida em que nos cerca por toda parte. As industrias da cultura, que são hoje fundamentais em muitas sociedades ocidentais , tornaram-na verdadeira através da criação incessante de um ambiente saturado de imagens. A hiper-realidade- a cópia cujo original se perdeu- é o mundo que todos nós habitamos pelo menos durante parte do tempo., O “êxtase da comunicação” no mundo da Internet é uma experiência viva demais, que muito de nós apreciamos, e com a qual sofremos também, tanto em nossa vida de trabalho quanto de lazer,. Cultura não é mais simplesmente um adjunto à atividade séria de ganhar a vida, mas, em grande parte, tornou-se essa atividade. Grande quantidade de pessoas trabalham nas industrias da cultura e, nos seus momentos de folga, também consomem seus produtos.
Mais notável ainda, as próprias industrias da cultura têm se preocupado em grau extraordinário em disseminar o vocabulário, a imagística e os tons emocionais da pós-modernidade. Esse fato inevitavelmente aumenta o elemento de reflexão no fenômeno. Intelectuais e artistas posmodernos regularmente dão o ar de sua graça nas telas de televisão, em programas de debates em fins de noite. Numerosos programas populares de entrevistas e comédias exibem uma ironia zombaria inequivocamente posmodernista. Todo o nosso senso de política e de eficiência política é afetada pelo fluxo ininterrupto de irreverência e ridículo dirigido contra figuras de autoridades e sacrossantas instituições nacionais. Um dos resultados dessa promoção da cultura pósmodernista é que a resposta à pergunta “a posmodernidade existe realmente?” tem de ser em parte baseada em termos criados por essa própria cultura.”

(Krishan Kumar. Da Sociedade Pós- Industrial à Pós- Moderna: Notas sobre o Mundo Comtemporâneo./tradução de Ruy Jungman.RJ: Jorge Zahar Editor, 1997, p.194)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

EÓS


A Deusa Aurora
Surge no céu
Em silêncio
Entre Selene e Hélios.

Sua presença é tão
Imprecisa
Quanto o indeterminado
Fazer-se da vida.

Mas acompanhada
De todos os ventos
Ela se deixa
Em meu momento
Inventando o dia.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

J.R.R. TOLKIEN: SOBRE HISTÓRIAS DE FADA


SOBRE HISTÓRIAS DE FADAS de J. R.R. Tolkien (1892-1973) é um livro indispensável a plena compreensão de seu complexo mundo ficcional. Ao discutir a natureza e significados deste gênero literário o autor nos oferece um interessante painel sobre a função e lugar da fantasia no imaginário moderno e contemporâneo que, decisivamente traduz sua própria concepção literária.
Alem do ensaio que lhe da titulo, também compõe a brochura um pequeno conto intitulado FOLHA POR NIGGLE que pode ser interpretado como uma cândida alegoria do processo de criação artística.
De um modo geral, após a leitura dessas duas preciosas peças literárias, originalmente publicadas respectivamente em 1938 e 1947, nos sentimos compelidos a uma consideração mais cuidadosa e menos ingênua da arte narrativa personificada pelo universo das Histórias de fadas a ponto de vislumbrar sua contemporaneidade, sua importância para a experiência de nossa própria condição humana enquanto sofisticado e precioso exercício de imaginação criadora em meio ao nosso caos cotidiano.
A originalidade das formulações de Tolkien pode ser exemplificada pelos seguintes fragmentos onde a articulação entre realidade e fantasia nas histórias de fadas contraria em boa medida o senso comum:

“... E de fato as histórias de fadas tratam em grande parte, ou ( as melhores) principalmente, de coisas simples e fundamentais, intocadas pela Fantasia, mas essas simplicidades tornaram-se mais luminosas pelo seu ambiente. Porque o criador de histórias que se permite “tomar liberdades” com a Natureza pode ser seu amante, não seu escravo. Foi nas histórias de fadas que primeiro pressenti a potência das palavras e o prodígio das coisas, como pedra, madeira, ferro, árvore e grama, casa e fogo, pão e vinho.”


( J.R.R. Tolkien. Sobre História de Fadas/tradução de Ronald Kyrmse. SP: Conrad Editora do Brasil, 2006, p.67)


Falando mais especificamente de uma das várias modalidades de “escapismo” das histórias de fada, Tolkien considera qunto a estrutura de sua narrativa que,

“O consolo das histórias de fadas, a alegria do final feliz, ou mais corretamente da boa catástrofe, da repentina “virada” jubilosa ( porque não há um final verdadeiro em qualquer conto de fadas), essa alegria, que é uma das coisas que as histórias de fadas conseguem produzir supremamente bem, não é essencialmente “escapista” nem “fugitiva”. Em seu ambiente de conto de fadas- ou de outro mundo- ela é uma graça repentina e milagrosa: nunca se pode confiar que ocorra outra vez. Ela não nega a existência da discatástrofe, do pesar e do fracasso: a possibilidade destes é necessária a à alegria da libertação. Ela nega ( em face de muitas evidências, por assim dizer) a derrota final universal, e nessa medida é evangelium, dando um vislumbre fugaz de alegria Alegria além das muralhas do mundo, pungente como o pesar”

( idem. P. 77)

GOOD MORNING!


Mergulho no hoje
Da vida
Despido de futuros
Ou projetos de mundo.

Apenas vivo o momento
antevendo
o segundo seguinte
em provisória adivinhação
do imediato.

Não me importa
O acaso de biografias.

Apenas respiro o sol,
O azul e as cores
Embriagado de dia
Como se não houvesse amanha...

terça-feira, 19 de maio de 2009

META FILOSOFIA

Preciso de um instante
Diante de mim mesmo
Para contemplar meu rosto
No alem das certezas
De cada dia,
Viver intensamente acasos,
Ocasos, desejos e deslocamentos,
Até o mais profundo abraço
De noite e poesia.
No céu aberto de um possível
E certo futuro de sol tardio,
De deslocamento de ego...
Preciso explodir
Como um grito de vida...

domingo, 17 de maio de 2009

ROBERTO MUGGIATI. ROCK: O GRITO E O MITO


Lançado originalmente em 1973 e atualmente esgotada, a obra Rock: O grito e o Mito de Renato Muggiati, apesar de datada em alguns aspectos, permanece sendo uma referência importante para aqueles que se interessam pela história do rock. Cronologicamente ele cobre um período que vai dos primórdios nos anos 50 a inicio dos anos 80 do último século, o que lhe circunscreve a evolução do chamado rock clássico.
A analogia entre Rock e grito feita pelo autor, uma das chaves de leitura de sua pesquisa, é particularmente interessante. Remete, antes de tudo ao significado do rock, enquanto fenômeno cultural surgido em determinado contexto de crise de valores dos EUA no pós II Grande Guerra. Pensando esse momento vinculado ao progresso das mídias eletrônicas, não é surpreendente a possibilidade de paralelos com a relação contemporânea dos jovens e as mídias e linguagens digitais.
Nas palavras do autor:

“... Se a canção popular americana já por volta de 1950 havia perdido sua função social, é preciso lembrar que o blues, concreto e vital, tinha sobrevivido a todas essas mudanças.Ganhando corpo depois da Primeira Guerra Mundial quando a canção popular ou era marcadamente triste, ou alegre e buliçosa, a mistura doce amarga do blues abria uma nova frente musical, que seria trazida até nossos dias pelo rock e pelas modernas formas de blues e soul. O blues olhava o mundo sem ilusões como a coisa complexa que é. Cultivava, por exemplo, uma certa ironia ( “Eu antes te amava,mas,ora, vá para o raio que te parta!”). Segundo LeRoi Jones ( Blues People), o grito e o blues eram acima de tudo afirmações da individualidade do negro. Manifestavam sua consciência de separação do restop da sociedade americana. Também como os negros arrancados bruscamente do seu solo natal, os jovens de metade do século XX se viram de repente sem raízes, jogados numa terra incógnita, cenário novo e ameaçador. Até o começo do século, a tradicional família praticava impunimente a lavagem cerebral dos filhos: o mesmo repertório de informações e valores era transmitido quase intacto de geração a geração. Com o dilúvio de dados provocado pelos novos media- sobretudo os eletrônicos- esses compartimentos estanques de classes e hierarquias foram invadidos e todo mundo se viu bruscamente na situação de naufrago: nadar para sobreviver. Nadar, no caso, equivalia a digerir e manipular convenientemente a massa de informação despejada diariamente pela industria das comunicações. Foi dentro dessas condições que os jovens, para se defender, criaram um campo de informação próprio. Na realidade, o movimento que uns definem como “contracultura”, outros como “revolução cultural”, é formado por muitas dessa nova ideologia e sua colocação em prática será a luta das próximas décadas.”

(Roberto Muggiati. Rock, o Grito e oi Mito: A musica pop como forma de comunicação e contracultura. Petrópolis: Vozes,3° edição, 1981, p.11-12)

REAL

A vida não nos oferece
Mais do que a superfície
De cada momento,
Do que a emoção
Das cores
Em escrita de fantasia
Através de pessoas e coisas...

Há mais realidade
Nos adjetivos
Do que nos substantivos...

“I am mysey but a vile link
Amidlife’s weary chain.”

PERDAS

Eu amo o vazio
Que me leva a duvida;
O absoluto do absurdo
De estar aqui agora
Em palavras e vento
Contemplando o universo.

Eu amo o que passa,
Dentro de mim e no mundo,
E se perde em infinito vazio
Que me desloca,
Me rasga,
Em vontade de presente
E dos outros
Em definitivos silêncios...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

ENTRE MATURIDADE E INFÂNCIA


Habitualmente representamos a infância como a era dourada de nossas biografias, como aquele período mágico e lúdico da vida em que freqüentamos um mundo de cores vivas e contraditórias indiscutivelmente alegre; algo a parte do que se convencionou chamar vida adulta ou madura.

Evidentemente, trata-se de uma representação fantasiosa, mesmo que para sustentá-la possamos recorrer a uma série de pueris e caros fragmentos de memória sobre ocasiões de inocente felicidade perdida.

De modo geral, a infância, ao contrário de nossas apropriações subjetivas de adultos, não passa de um período de indefinições, inseguranças, fragilidades e dependências quase ilimitadas que levam as crianças a ansiar o quanto antes a experiência da maturidade social e etária.

Talvez o que nos conduza a fantasiar a infância seja nossa irresponsabilidade e impulsividade reprimida, indomável apesar do império das racionalidades e pseudo maturidades do pactuado mundo das convenções; nossas frustrações e decepções com as complexas dinâmicas da vida adulta.

Crescer, torna-se um individuo etariamente ativo significa quase sempre assumir o desencantamento do mundo e a desfuncionalidade da realidade contra a qual lutamos todos os dias para sobreviver como apêndices de nossas artificiais responsabilidades em meio ao caos onipresente.

LITERATURA INGLESA XLIV


Alice at 80 ou Alice aos 80 do poeta e romancista norte americano David R. Slavitt, é um curioso exercício de imaginação literária. O livro em questão possui como tema central as permanências na idosa Alice Liddell da experiência de infância estabelecidas pelo seu relacionamento com o reverendo Charles Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll. Cabe esclarecer que Alice Liddell fora a musa inspiradora de sua obra clássica Alice no País das Maravilhas e Alice no Espelho.
Cabe esclarecer que Carroll é polêmico entre os seus biógrafos pelo seu voyeuismo, pelo seu discreto erotismo e curiosa amizade com garotinhas que gostava de fotografar e destinar pequenas missivas. A imaginação de R. S. Slavitt nos permite preencher os vazios deixados por esses heterodoxos relacionamentos.
O ponto de partida da narrativa é a homenagem prestada a Alice Liddell, então com 80 anos, pela universidade de Columbia/ NY, através do diploma de doutora honoris causa em Letras, como parte das comemorações do centenário do autor em 1932. A partir daí fantasia e realidade se misturam construindo uma profunda e fascinante aventura psicológica envolvendo Alice, sua família e o reencontro com outras duas antigas modelos ou amiguinhas mirins de Carroll, como a personificada pelo fragmento que segue:

“... Minha impressão daquele primeiro momento está obscurecida por outros momentos, mas acho que me comportei adequadamente- quero dizer, de acordo com os desejos e necessidades dele. E acho que ele me pôs no chão e voltei para a plataforma. Acho que foi isso. Talvez tenha mandado que eu me vestisse. Seja como for, sei que desapareceu no quarto ao lado, para apanhar outro pedaço de carvão. Ou outro pretexto qualquer. Certamente saiu para se masturbar.
Imagino que fosse isso, baseando-me em experiências posteriores. Para a maioria das meninas que ele convencia a posar para fotografias ou desenhos, acho que era o máximo que fazia- mandar a garota tirar a roupa, beija-la e abraça-la sentando-a no colo, e depois desaparecer no outro quarto. Nada que pudesse provocar grandes distúrbios psicológicos. Algumas delas provavelmente nem percebiam o que estava acontecendo. Eu sabia porque era mais velha do que a maioria das amiguinhas dele e porque tinha tido uma vida diferente. Além disso, tinha consciência das possibilidades, porque minha própria mãe tinha raspado meus pêlos”.

(David R. Slavitt. Alice aos 80/tradução de Aulyde Soares Rodrigues. RJ: Rocco, 1986, p.142-143 )

PENDÊCIAS COTIDIANAS

I

Procuro princípios
No mais imperfeito
Do provisório saber
De ser entre as coisas.
Transcendo-me
Em silêncios e sensações
Buscando soluções passageiras
Para as pendências
De ontem...

II

O quase saber
Do meu provisório
Viver de acasos
Entre sombras
Desconstroe-se
Na adivinhação do nada
Entre as sobras do dia...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

LIFE....


Cada instante de vida é um desafio de acasos, de percepções de caos de universo, que me conduz ao risonho da minha finitude e ao mínimo absoluto do nada de meus imprecisos momentos biografias... Sou tudo que faço no se fazer de acasos como principio do caos que inventa o mundo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

FUTURE


Vivo diariamente
O mito do dia seguinte,
A essencial incerteza
Da expectativa de um novo
Que me transforme
Em realidade
entre os desfocados
Acontecimentos
Que fazem a vida.

Talvez,
Eu nunca exista
Como perpétuo fato
De singular humanidade...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

FILOSOFIA DO QUERER DESEJO

Todo o querer do mundo
Não cabe no desejo
Que pela vida
me move
em buscas de imensidões.

O universo acontece
Em vontades múltiplas,
Em dialógicos conflitos
Que se propagam ao infinito
Na significação positiva
De VAZIOS,
CARÊNCIAS,
APETITES

E DESAFIOS...

CRÔNICA RELÂMPAGO LIII

Cotidianamente,muitas vezes falamos apenas para fazer barulho, para preencher o incômodo silêncio que surge do estar a presença de outras pessoas. Freqüentamos sistematicamente o lugar comum da linguagem, da superficialidade de nosso ser entre os outros.
O decisivo nisso é que realmente não temos nada de muito significativo a dizer ou compartilhar uns com os outros. O fazer-se da vida dar-se sob o signo da banalidade e a construção de nossa individualidade, o mais profundo de nossa experiência privada de estar no mundo é essencialmente incomunicável....

terça-feira, 5 de maio de 2009

“NOTHING’S GONNA CHANGE MY WORD...”

Invento um instante dourado
De piruetas
Para rir das sutilezas
Que somam a realidade
Ao doce das fantasias.

The fool on the hill...
Across the universe...
“NOTHING’S GONNA CHANGE MY WORD...”
A linguagem me devora
No virtual exercício de ser....
Em irracional existência
Em decafônicas decomposições...

Mas a vida
Tende a si mesma
Em um silêncio de tempo
Que passa...

JOHN LENNON E 1969: 40 ANOS DEPOIS...


O longo Século XX foi, entre outras definições possíveis, a Era das Individuações. Dentre os indivíduos singulares gerados por ele, John Lennon ocupa um lugar realmente especial em meio ao labirinto de suas contradições, impasses, ingenuidades, senso de humor ou de liberdade e aposta em alguma possibilidade de desdobramento futuro de seu generoso tempo social e epocal marcado por esperanças radicais de desconstruções e reconstruções do mundo compartilhado a partir da singularidade e originalidade da experiência da individualidade...
Vale à pena resgatar aqui, por tudo isso, um momento especial de sua trajetória subjetiva ocorrido no já distante ano de 1969, lembrado por Lucia Linhares, em um pequeno e despretensioso ensaio biográfico que nos leva a refletir sobre seus dilemas enquanto figura pública, sobre suas recusas e irreverente afirmação de si mesmo conmo sendo apenas um individuo entre os outros e além das projeções que lhe eram coletivamente impostas:


“... No começo de outubro, o New Cinema Club, de Londres, apresentou alguns filmes de John, entre eles uma première: SELF PORTRAIT. Durante 15 minutos vemos o pênis de John e mais nada, a não ser uma ereção em câmera lenta. As interpretações foram muitas: mais uma mostra de seu senso de humor, mais uma agressão à critica, mais uma tentativa de filmar o absurdo... John disse, na época:
“ Eu me recuso a liderar, e vou sempre mostrar meus genitais, ou fazer qualquer coisa que me previna de ser Martin Luther King, ou Ghandhi, e ser morto.” ( One Day a Time)
Numa manhã de novembro John acordou e pediu ao motorista que fosse até a casa de Tia Mimi buscar a medalha da Ordem do Império Britânico que estava em cima do aparelho de televisão. John resolvera colocar em prática uma idéia que há um ano tinha na cabeça; a Inglaterra envolvia-se no Vietnã, no conflito Nigéria e Biafra, e John não estava gostando nada disso. Foram ao escritório e John redigiu uma carta:
“Sua Majestade,
Estou devolvendo a Ordem do Império Britânico em protesto contra o envolvimento da Inglaterra no caso de Biafra-Nigéria, contra o nosso apoio à presença dos EUA no Vietnã e contra a baixa colocação de Cold Turkey nas paradas de sucesso.
Com amor
John Lenon do Saco” ( “of the bag”, uma referência ao “ bagism”)
Poucas pessoas entenderam a piadinha com Cold Turkey. Esta brincadeira não impediu, entretanto que Bertrand Russel admirasse o ato de John e lhe mandasse congratulações.”


(Lucia Villares. Lennon: No céu de diamantes. SP: Brasiliense( coleção Encanto Radical), 1992, p.94-95)
,

sábado, 2 de maio de 2009

DOCE MELANCOLIA

A serena paisagem
De um dia de outono
Comunica-me mais coisas
Do que qualquer
Palavra humana.

Desejo apenas, então,
Ficar entre as coisas,
Em silêncio,
Vivenciando



As mágicas certezas
Do estar vivo,
Explorando o pensar
Dos pensamentos
Nas abstratas sensações
Do corpo em reflexões,
Em sentimento
De renovações e chuvas
Em fertilidade de sonos, sonhos
E sombras de amanhãs possiveis.

PARADOXO TEMPORAL

Sinto saudades
Do meu destino,
De tudo aquilo
Que não me tornei
Na vontade de ser
Um outro
Que jamais aconteceu.

O fato
É que não me vejo
Nas virtuais versões
De mundo
Que me inventaram...

MEMORY...


A memória é em grande parte um inventário de lugares, pessoas, coisas, sensações e emoções que nos inventaram. A memória é uma espécie de silêncio em movimento onde o passado surge como sonho...

terça-feira, 28 de abril de 2009

POEMA A VIRGINIA WOOLF


Inteiramente imóvel
Sob o estático do dia
Que desaparece
No passar das horas,
Quase me reconheço,
Quase percebo o tempo
Dentro de mim
Como biografia.

Mas tudo me escapa
Em um segundo de incertezas
No falso de realidades.

Na radical desconstrução de experiências
Em absolutos de linguagem
E concretismos do nada
Submerso,
Desapareço...
Como testemunho do Tempo
que vivo infimamente
como duvida...

INCERTEZA

Seguir em frente
A direita ou a esquerda;
Escolher,
Pura e simplesmente,
Sem o peso dos determinismos
Que o passado impõe,
É o desafio
Do meu ser futuro.

Sou mais o produto
De erros
Do que de acertos.

Sou sombra
De tudo aquilo que me corroe
Em incertezas de amanhãs possíveis
Em azul
sob inspirações de lua.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A CONTEMPORANEIDADE E O POSITIVO DO VAZIO

O tecido do que reconhecemos tradicionalmente por realidade vem se alterando significativamente através nas novas experiências e vivências proporcionadas pelas novas linguagens digitais. Inaugurou-se no domínio do humano uma nova perspectiva de vazio. Vazio confunde-se agora com a ausência de qualquer referencial seguro de totalidade e universalidade. Talvez, dentre muitas outras coisas, a contemporaneidade seja a constatação simples de que somos definidos por jogos entre a linguagem e o vazio... Mas é justamente isso que nos faz humanos e nos destina um lugar especial no reino animal...

sábado, 25 de abril de 2009

OLD HOUSE


O passado
É como uma ferida aberta
No doer de memórias
De muitos eus perdidos,
De lugares redefinidos,
Existências reconstruídas
No deslocamento de coexistências.

The house is silent...
I am alone;
I wonder where
Ends this darkness...
Only life hás a way out.

LITERATURA INGLESA XLIII



Rupert Brooke ( 1887- 1915), morreu com apenas 28 anos de idade em uma trágica batalha durante a I Grande Guerra. Não nos legou, portanto, uma obra passível de avaliação profunda das dimensões e possibilidades de seu talento. Não é, francamente, considerado um grande poeta pelo que produziu em seus breves anos de atividade. Basicamente, deixou-nos intimistas poemas de juventude onde insinua claramente sua opção homossexual, alguns bons versos como em The Old Vicarage, Grantchester e poemas de guerra que o tornaram imortal como testemunha e vitima da barbárie européia que destruiu e fez desaparecer muitos gênios europeus cuja potencial contribuição a cultura ocidental perdeu-se dramaticamente.
Além de Brooke, outros poetas britânicos morreram na guerra e merecem serem citados nesta pequena lembrança...

John McCrae (1872-1918)
Wilfred Owen (1893-1918)
Isaac Rosenberg (1890-1918)
Alan Seeger ( ?)
Edward Thomas (1878-1917)


The War Sonnets by Rupert Brooke


I. Peace


Now, God be thanked

Who has matched us with

His hour,

And caught our youth, and wakened us from sleeping,

With hand made sure, clear eye, and sharpened power,

To turn, as swimmers into cleanness leaping,

Glad from a world grown old and cold and weary,

Leave the sick hearts that honour could not move,

And half-men, and their dirty songs and dreary,

And all the little emptiness of love!
Oh! we, who have

known shame, we have found release there,

Where there's no ill, no grief, but sleep has mending,

Naught broken save this body, lost but breath;

Nothing to shake the

laughing heart's long peace there

But only agony, and that has ending;

And the worst friend and enemy is but

Death.


II. Safety


Dear! of all happy in the hour, most blest

He who has found our hid security,

Assured in the dark tides of the world at rest,

And heard our word,

"Who is so safe as we?"

We have found safety with all things undying,

The winds, and morning, tears of men and mirth,

The deep night, and birds singing, and clouds flying,

And sleep, and freedom, and the autumnal earth.

We have built a house that is not for

Time's throwing.

We have gained a peace unshaken by pain for ever.

War knows no power.

Safe shall be my going,

Secretly armed against all death's endeavour;

Safe though all safety's lost; safe where men fall;

And if these poor limbs die, safest of all.


III. The Dead


Blow out, you bugles, over the rich

Dead!There's none of these so lonely and poor of old,

But, dying, has made us rarer gifts than gold.

These laid the world away; poured out the red

Sweet wine of youth; gave up the years to be

Of work and joy, and that unhoped serene,

That men call age; and those who would have been,

Their sons, they gave, their immortality.
Blow, bugles, blow!

They brought us, for our dearth,

Holiness, lacked so long, and

Love, and Pain.

Honour has come back, as a king, to earth,

And paid his subjects with a royal wage;

And nobleness walks in our ways again;

And we have come into our heritage.


IV. The Dead


These hearts were woven of human joys and cares,

Washed marvellously with sorrow, swift to mirth.

The years had given them kindness.

Dawn was theirs,

And sunset, and the colours of the earth.

These had seen movement, and heard music; known

Slumber and waking; loved; gone proudly friended;

Felt the quick stir of wonder; sat alone;

Touched flowers and furs and cheeks.

All this is ended.
There are waters blown by changing winds to laughter

And lit by the rich skies, all day.

And after,Frost, with a gesture, stays the waves that dance

And wandering loveliness.

He leaves a white

Unbroken glory, a gathered radiance,

A width, a shining peace, under the night.


V. The Soldier


If I should die, think only this of me:

That there's some corner of a foreign field

That is for ever

England.

There shall beIn that rich earth a richer dust concealed;

A dust whom England bore, shaped, made aware,

Gave, once, her flowers to love, her ways to roam,

A body of England's, breathing

English air,

Washed by the rivers, blest by suns of home.
And think, this heart, all evil shed away,

A pulse in the eternal mind, no less

Gives somewhere back the thoughts by

England given;

Her sights and sounds; dreams happy as her day;

And laughter, learnt of friends; and gentleness,

In hearts at peace, under an

English heaven.

O SILÊNCIO DOS MARES


O mar dos argonautas
Já não existe.

Os oceanos já não dizem
Desafios, tragédias
Batalhas ou conquistas.

O mar agora
É apenas o mar
Desvendado em todos
Os mapas..
Em silêncio de tempestades,
Despido de mitos.

CRÔNICA RERÂMPAGO LII

Nada é mais desconcertante do que a experiência de um susto, de um tremer de momento e rotina em ocasional surpresa de inesperado. Tal experiência remete, afinal, a elementar incerteza da existência e ao fluxo não linear dos fatos cotidianos, ao incontrolável...
Através dela nos damos inesperadamente conta do quanto o destino é aleatório, o quanto, em nosso irrefletido agir cotidiano, somos meros joguetes a mercê dos caprichos e irracionalismos do absoluto caos que define a existência e o mundo...
Naturalmente, não há nada que possamos fazer sobre isso...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O REAL E O IMAGINADO

Ainda aguardo resposta
Dos desfeitos versos
De vento
Que me fizeram seguir
Em frente
Inventando universos
Em lágrimas de esperanças.

Mas creio,
Tão somente,
No imediato e efêmero
Das nuanças de pequenos prazeres,
Ocultos em rasgos de realidades
Pseudo sonhadas.

Acredito
nas imaginações do acaso...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

FANTASIA DELIRIO

Sinto falta
De um rosto
Em minhas palavras,
De uma certeza de beijo
Entre as ilusões da verdade.

Sinto falta de ser criança,
De um devaneio e crepúsculo
No alem do ego
Que me escapa.

Sinto falta de você
De quem nunca soube
No até agora da vida...

NIETZSCHE E FILOSOFIA DA LINGUAGEM


Sobre Verdade e Mentira no sentido extra moral ( 1873) é um dos mais instigantes textos já produzidos por Nietzsche. Neste, o autor aborda com peculiar maestria o clássico problema da verdade em sua relação com a fenomenologia do intelecto humano, descrito, entre outras formas, como um meio para a conservação do individuo, como um “disfarce” que estabelece a linguagem como mediadora da oposição entre “mentira” e “ verdade” no fazer-se do existir em sociedade ou “viver em rebanho”.
No prefácio para Humano, Demasiadamente Humano de 1886, Nietzsche refere-se a este texto como um escrito juvenil e de formação condicionado a um momento de crise ou niilismo absoluto no qual duvidara até mesmo de seu grande mestre Shopenhauer. Nada disso elimina a coerência do texto com o desdobrar posterior de sua filosofia.
O fato é que, naquele momento, para Nietzsche, a verdade não passava de uma invenção semântica não correspondente a qualquer hipotética realidade. Ela seria uma convenção estabelecida pela vida coletiva, pelo arbítrio da moral dominante. Por outro lado, quando o intelecto se liberta da escravidão dos conceitos e das convenções socialmente estabelecidas, transforma o homem através da intuição em um construtor de metáforas, desvela o domínio absoluto da arte sobre a vida no ininterrupto fluir da existência em sua pluralidade que jamais se cristaliza sob qualquer momentânea forma e conteúdo.
Creio que é nesse sentido que ele nos diz:

“ O que é uma palavra? A figuração de um estímulo nervoso em sons.Mas concluir do estímulo nervoso uma causa fora de nós já é o resultado de uma aplicação falsa e ilegítima do principio da razão. Como poderíamos nós, se somente a verdade fosse decisiva na gênese da linguagem, se somente o ponto de vista da certeza fosse decisivo nas designações, como poderíamos no entanto dizer: a pedra é dura: como se para nós esse “dura” fosse conhecido ainda de outro modo, e não somente como uma estimulação inteiramente subjetiva! Dividimos as coisas por gêneros, designamos a árvore como feminina, o vegetal como masculino: que transposições arbitrárias! A que distância voamos alem do cânone da certeza! Falamos de uma Schlange ( cobra): a designação não se refere a nada mais do que o enrodilhar-se, e portanto poderia também caber ao verme Que delimitações arbitrárias, que preferências unilaterais, ora por esta, ora por aquela propriedade das coisas! As diferentes línguas, colocadas lado a lado, mostram que nas palavras nunca importa a verdade, nunca uma expressão adequada: pois senão não haveria tantas línguas. A “coisa em si” (* tal seria justamente a verdade pura sem conseqüências)é, também para o formador da linguagem, inteiramente incaptável e nem sequer algo que vale a pena. Ele designa apenas as relações das coisas aos homens e toma em auxilio para exprimi-las as mais audaciosas metáforas. Um estimulo nervoso, primeiramente transposto em uma imagenm! Primeira metáfora. A imagem, por sua vez, modelada em um som! Segunda metáfora E a cada vez mais completa mudança de esfera, passagem para uma esfera inteiramente outra e nova. Pode-se pensar em um homem, que seja totalmente surdo e nunca tenhas tido uma sensação do som e da música: do mesmo modo que este, porventura, vê com espanto as figuras sonoras de Chladni desenhadas na areia, encontra suas causas na vibração das cordas e jurará agora que há de saber o que os homens denominam “som”, assim também acontece a todos nós com a linguagem. Acreditamos saber algo das coisas mesmas, se falamos de arvores, cores, neve e flores, e no entanto não possuímos nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem. Assim como o som convertido em figura na areia, assim se comporta o enigmático X X da coisa em si, uma vez como estimulo nervoso, em seguida como imagem, enfim como som. Em todo caso, portanto, não é logicamente que ocorre a gênese da linguagem, e o material inteiro, no qual e com o qual mais tarde o homem da verdade, o pesquisador, o filósofo, trabalha e constrói, provém, se não der Cucolândia das Nuvens, em todo caso não da essência das coisas.”

Friedrich Wilhelm Nietzsche. Obras Incompletas- Vol.I /seleção de textos de Gerard Lebrun; tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho; 5 ed. SP: Nova Cultural, 1991. ( Os Pensadores); p. 33-34)

LITERATURA INGLESA XLII ( Edward Hughes: in memoriam)


O nome do poeta britânico Ted Hughes, ou Edward James Hughes ( 1930-1998) é normalmente lembrado pelo seu trágico casamento com a também poeta Silvia Plath que suicidou-se em 1963.
Mas Hughes, embora pouco conhecido e lido, foi um dos mais interessantes nomes das letras inglesas de sua geração. Alem de poesia, dedicou-se a literatura infantil, possuindo também um sem numero de boas traduções. O horizonte de imagens de infância e delicada fantasia lhe propiciam uma introspecção e uma linguagem poética realmente singular. A lembrança do nome do autor, infelizmente ocorreu-me hoje em função da noticia do recente suicídio de um de seus filhos com Plath, o biólogo Nicolas Hughes, professor e pesquisador na Escola de Ciências Oceânicas e da Pesca da Universidade do Alasca.
Avesso a qualquer discussão ou comentário sobre a obra e vida de seus pais, sua morte, ao contrário do que pode ser sugerido, como certamente proporia o morto, não esta vinculada a qualquer resquício ou influencia das opções ou eventuais episódios biográfico envolvendo seus progenitores. O suicídio foi para ele uma opção pessoal e intima cujas motivações não temos o direito de fazer objeto de especulações sem sentido e meramente inspiradas pelas curiosidades e arbitrariedades do imaginário coletivo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

MEMORY


Recordo pequenas belezas
Que me bastaram
Na magia incerta dos ventos,
A intensidade dos verdes momentos
De distante e dourada infância.

Recordo a doce dor
Que me aguarda
Alem do infame dia a dia
Entre os jardins do infinito,
A felicidade da intimidade do mero finito
Em majestosa realidade
Do ínfimo como principio
E pluralidade de ilimitadas
Direções do sentir e do pensamento.
.

I FEEL EMPTY


Aquilo que conquistamos
Jamais estará a altura
Do que queremos.

Pois é próprio do humano
Buscar o futuro,
Rasgar leis e limites
No vislumbre de seu
Mais intimo absoluto.

É próprio do humano
A liberdade
De reinventar-se
A cada segundo
De ontológica insatisfação.

I feel empty....

terça-feira, 21 de abril de 2009

PAUL IS DEAD...


A história do rock and roll é recheada de mitos e lendas envolvendo os ícones de sua cultura. Uma das mais famosas e curiosas é a da suposta morte de Paul McCartney em um fatal acidente automobilístico com seu conversível Aston Martin onde teria supostamente tido o crânio esmagado ou a cabeça decapitada.
O boato surgiu um pouco depois do lançamento de REVOLVER, em 1966, mas ganhou novo fôlego em 1969, quando os Beatles já não faziam turnês, através do disc jockey Russ Gibb, da cidade americana de Detroid que, motivado por um telefonema, leu comicamente no ar uma lista de indicios sobre a suposta morte de Paul que, para sua surpresa, foi levado a sério por muita gente figurando em manchetes de jornais no dia seguinte.
O cúmulo da ironia é que, apesar das negativas e impaciências do próprio suposto morto sobre o assunto, o boato alimentou-se, por muitos anos, através de sofisticadas especulações envolvendo a hermeneutica de letras dos Beatles e do simbolismo contido na capa dos seus albuns.
É muito provável que, considerando o profundo senso de humor da banda, os próprios Beatles tenham deliberadamente criado uma serie de pistas falsas ironizando a inusitada fantasia.
De um modo ou de outro, apesar desse pseudo mistério, Paul jamais foi istigmatizado como um impostor, embora até os dias de hoje existam pessoas que percam tempo considerando com alguma ingênua seriedade tão descabido asunto.
O fato é que os Beatles, enquanto icones máximos de toda uma época, foram demasiadamente expostos, solicitados, questionados e admirados de um modo profundamente irracional e imprevisível. O episódio “Paul is Dead” não é no fundo muito diferente das repercursões das declarações de John em uma entrevista, se não me engano, de 1964 ao jornal London Evening Standard à Maureen Cleave, onde inocentemente ousou dizer singelamente que:

“ O cristianismo vai passar. Vai se encolher e desaparecer. Não há necessidade de discutir esse assunto. Estou certo disso, e o tempo é o que vai me provar. Somos hoje mais populares que Jesus. Eu não sei qual desaparecerá primeiro, se o rocki and roll ou se o cristianismo. Jesus era o.k., mas seus discipulos eram pessoas estupidas e comum. É a dertupação feita por eles que, para mim, causa todo o estrago.”

NOTHING'S GONNA CHANCE MY WORD..."

Estou convicto unicamente de minhas incertezas, dos meus vazios, limites e dúvidas. Pois são elas que, em última instância, determinam minha vida. Logo, nada me prende a nada, nada espero de nada. Tudo que sou já é passado ou futuro que abandonei em, definições de presentes.

“NOTHING’S GONNA CHANGE MY WORD...”

segunda-feira, 20 de abril de 2009

DAY

O tempo
Passou por mim
Em silêncio
Como se o dia de hoje
Não existisse.
Deixou-me vazio
Com palavras mortas
Na boca
Diante de um relógio
Quebrado
Entre preguiças, inércias
E atos abandonados.

domingo, 19 de abril de 2009

INDIVIDUALISMO POSITIVO

No mundo contemporâneo, em que pesem outros abstratos referenciais ontológicos, o individuo isolado, auto-performático, é a medida de todas as coisas que nos definem as dinâmicas da existência coletiva.
Afinal, somos todos orientados a buscar o prazer e o conforto como metas últimas da existência. Estamos positivamente condenados a um mundo criado e moldado por nossas instabilidades e incertezas, definido por um ordenamento instável, que reflete pura e simplesmente nosso mais intimo sentimento pessoal de mundo ou incerto e inconstante estado de espírito. O ingênuo apelo a qualquer moral inspirada pela tradição e de natureza coercitiva pode mudar tal fato.
Dizendo de outra maneira, a existência, enquanto construção coletiva, já não é referencia para a cognição social e a invenção de significados. Somos cada vez menos sensíveis a f orça de qualquer mitologia laica ou ainda sacralizada. Aprendemos a depender cada vez mais apenas de nós mesmos no continuo esforço de reproduzir a própria vida. Como em nenhuma outra época passada, a auto consciência que define o indivíduo foi tão decisiva para as mutações das possibilidades humanas...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

CRÔNICA RELÂMPAGO L I

O fim de um dia de trabalho é como uma página em branco de biografia onde nos contentamos com a insignificante expontâneidade do acontecer sem compromisso de rotinas não laboriosas.é quando passamos dos desertos públicos aos desertos privados na continuidade de vazios que nos definem no exercicio de insondáveis silêncios intimos e constantes...

A TRAGÉDIA DE Hillsborough


Nesta quarta feira, a cidade de Liverpool vestiu-se de luto para lembrar amargamente os 20 anos daquela que foi a maior tragédia do football inglês.
Trata-se da partida de 15 de abril de 1989 da semifinal da Copa da Inglaterra, entre os times Liverpool e Nottingham Forest, no estádio Hillsborough, em Sheffield.
O jogo foi interrompido seis minutos após o início quando, depois de uma agromeração e confusão nos tuneis estreitos que davam acesso ao estadio, 730 pessoas ficaram feridas e, 96 torcedores, todos do Liverpool, morreram esmagados...
Entre as homenagens aos mortos desta quarta, houve dois minutos de silêncio na cidade de Liverpool às 14 : 06 horas (horário local), quando a 20 anos atrás a tragédia aconteceu...
Até hoje o time do Liverpool não joga no dia 15 de abril...
Que dias como esse jamais voltem a acontecer pelos caminhos incertos de cada acaso e fortuna ...
Essa tragédia ainda é uma ferida aberta...