quarta-feira, 15 de abril de 2009

O OUTRO COMO CAMINHO DA INDIVIDUAÇÃO


O que há de mais paradoxal na condição de indivíduo é a incontornável necessidade do outro para sustentar a própria auto-consciência... É através do outro que paradoxalmente nos tornamos o que já somos; um outro que em muitos sentidos sempre permanece irremediavelmente distante. Pois quanto mais íntimos nos tornamos de alguém, mas somos surpreendidos pelo seu ontológico alheamento.Disso se conclui que a individualidade, ou o humano em singularidade psicológica, não é propriamente uma condição definida pela auto consciência, mas sim um fluxo de experiências autônomas estabelecidas interativamente. É a experiência da diferença, da pluralidade de possibilidades e escolhas, através do outro o que nos torna únicos no estranho processo de tomada de consciência de si mesmo que também é uma vivencia constante de estranhamentos e redescobertas.

NOW...


Nada me prende ao agora,

Ao aleatório movimento

De me fazer

Em tempo e espaço.


Adivinho futuros calados

E pequenas esperanças

Que passeiam no vento

Para fugir ou ficar

Indiferente

Ao caos presente.


Em tudo

Sou apenas amanhã,

Esboço de um outro

Em potencial existência

E esforço de plenitude

De movimento futuro.

SOBRE A ILUSÂO DA VERDADE

Aquilo que conhecemos como verdade não é uma qualidade do mundo sensível, mas algo definido pelo intelecto humano. A verdade é tão somente uma necessidade, uma tendência inerente as configurações da consciência para estabelecer referencia e padrões de realidade. Isso faz dela uma função do pensamento, algo que não corresponde a qualquer coisa objetivamente existente.A verdade, em resumo, é apenas um mito...

domingo, 12 de abril de 2009

BLACK NIGHT


É preciso apostar
No futuro,
Mesmo quando
Não acreditamos nele,
Quando tudo
Que o tempo oferece
É o silêncio de nós mesmos.

É preciso acreditar
No acaso
Pelos labirintos da vida
Até os limites do onírico
em brilho discreto de lua...

CRÔNICA RELÂMPAGO XLIX


Há estranhas ocasiões em que penso no quanto seria decisivo, talvez, poder mudar o passado, trasmutar o presente em reinvenções de expectativas de futuros. Mas nenhum desejo poderia ser mais fútil e inútil no ato de ser precariamente em uma biografia.
Todo viver é, o tempo todo, esboço e pluralidade de possibilidades em qualquer determinado cenário de circunstâncias. O Hoje é o grande campo de batalha da vida perante um potencial amanhã que nunca morre como possibilidade.
Como esboços de sobrevivências a nós mesmos, construímos os futuros possíveis em readaptações e reinvenções do que provisoriamente somos na aventura de cada momento...

RELEITURAS


Estou a dois passos
Do passado
Apagando presentes
Em futuros sonhados.

Estou deslocado
De mim mesmo
No infinito desejo
De páginas
De tempo em branco.

Desconstruo-me
Em construção de desejos...
Perco-me em contemplação
Da mudez do céu...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

MONTY PYTHON: A VIDA DE BRIAN


Lançada em 1979 LIVE OF BRIAN, segundo filme wado grupo de comediantes britânicos Monty Python ainda hoje é a única comédia bíblica de toda a historia do cinema. Trata-se na verdade de uma inteligente e divertida critica a difusão do messianismo cristão e uma sátira mordaz as clássicas adaptações wollywoodianas de temas bíblicos.
Brian Cohen ( Gaham Chapman) é um relutante candidato a messias na Judéia do ano 33 DC, onde o Império Romano procura manter alguma ordem em meio ao caos, miséria, movimentos messiânicos, profetas delirantes e atos de crucificação.
Para mim, particularmente, o melhor momento desta singular e hilariante comedia é seu final, ou mais precisamente a crucificação de Brian após uma série de reveses e peripécias. O tema musical que acompanha a cena é certamente uma das mais preciosas amostras do humor corrosivo e irreverente do Monty Python e, porque não dizer, uma verdadeira filosofia de vida...


ALWAYS LOOK ON THE LIGHT SIDE OF LIFE


Some things in life are bad

They can really make you mad

Other things just make you swear and curse

When you're chewing on life's gristle

Don't grumble, give a whistle

And this'll help things turn out for the best...

And... ...always look on the bright side of life...

(Whistle)

Always look on the light side of life...

(Whistle)

If life seems jolly rotten

There's something you've forgotten

And that's to laugh and smile and dance and sing

When you're feeling in the dumps

Don't be silly chumps

Just purse your lips and whistle - that's the thing.

And...always look on the bright side of life...

(Whistle)

Come on. Always look on the bright side of life...

(Whistle)

For life is quite absurd

And death's the final word

You must always face the curtain with a bow

Forget about your sin - give the audience a grin

Enjoy it - it's your

last chance anyhow.

So always look on the bright side of death

Just before you draw your terminal breath

Life's a piece of shit

When you look at it

Life's a laugh and death's a joke it's true

You'll see it's all a show

Keep 'em laughing as you go

Just remember that the last laugh is on you

And always look on the bright side of life...

(Whistle)

Always look on the bright side of life...

(Whistle)

Come on guys, cheer up.

Always look on the bright side of life...

Always look on the bright side of life...

Worse things happen at sea you know.

Always look on the bright side of life...

I mean - what have you got to lose?

You know, you come from nothing - you're going back to nothing.

What have you lost?

Nothing.

Always look on the bright side of life...


(Esta letra foi retirada do site www.letrasdemusicas.com.br )



quinta-feira, 9 de abril de 2009

LIVRES ESPECULAÇÕES EM TORNO DE GEORGE HARRISON


A devoção de George Harrison, “the quiet Beatle" ao hinduismo nos fins dos anos 60 do ultimo século, influenciou decisivamente a musicalidade e entrada dos Beatles na maturidade tanto quanto contribuiu para a assimilação da cultura oriental pelo ocidente em um momento de profundos questionamentos identidários e culturais para os quais o rock era uma linguagem, uma forma privilegiada de expressão. Talvez este seja o principal legado do individuo singular que foi George...
Definitivamente, o mais discreto e introspectivo dentre os Beatles também foi o mais sofisticado e complexo poeticamente. Uma canção aparentemente simples como Here Comes the sun ( 1969), por exemplo, não fala poeticamente do amanhecer, mas desnuda o caráter ilusório de nossas percepções contraposta a imagem da luz interior e exterior personificada pelo nascer sol. É uma “canção mito” de momentos de transformações, mudanças e descobertas.
Mas é sabido que, ao contrário de John Lennon, George era um pouco cético com relação ao poder da linguagem como meio de expressão. Arrisco-me a afirmar que, para ele, as questões e experiências mais importantes da vida não poderiam ser traduzidas convenientemente em palavras, pois a essência da condição humana é inefável e indefinível em termos racionais. Gosto de pensar como um exemplo desta ousada hipótese a clássica canção Something (1969). A letra não nos oferece qualquer definição do amor, apenas especula em devaneio sobre “aquela coisa” que existe no modo de se mover de uma determinada mulher que, sabe-se lá porque, atrai o narrador e a torna única para ele. O amor é aqui apenas “aquela coisa” indefinível, aquela magia sem nome que conduz um homem a uma determinada mulher. No fundo o amor é realmente apenas isso no alem de conceitos e abstratas valorações inúteis.


Something
By George Harrison

Something in the way she moves

Attracts me like no other lover

Something in the way she woos me


I don't want to leave her now

You know I believe and how


Somewhere in her smile she knows

That I don't need no other lover

Something in her style that shows me


I don't want to leave her now

You know I believe and how


You're asking me will my love grow

I don't know, I don't know

You stick around now it may show

I don't know, I don't know


Something in the way she knows

And all I have to do is think of her

Something in the things she shows me


I don't want to leave her now

You know I believe and how

TO BE...


Queria poder ser
Todos os rostos
E almas que já tive,
Viver alguma esquizofrenia
De vento de consciência.

Queria saber as coisas
Em todas as variáveis possíveis
De mim mesmo,
Atingindo o saber absoluto
De um eu em frenesi
E mergulho.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

MATRIX: 10 ANOS DEPOIS...


No último dia 31 de março comemorou-se os dez anos de lançamento do primeiro filme da triologia Matrix, escrito e dirigido pelos irmãos Andy e Larry Wachowski e contando no elenco com nomes de preso como Keanu Reeves, Lawrence Fishburne e Carrie Anne Moss.
Ganhador de quatro Oscars: efeitos visuais, efeitos sonoros, edição e som, o filme é ainda hoje cultuado e considerado um marco cinematográfico por ter criado uma linguagem e uma estética nova nitidamente impactante sobre a maioria dos filmes de ação e ficção cientifica que lhes sucederam.
O roteiro de Matrix, por si só, é surpreendentemente original. O programador Thomas Handerson (Keanu Reeves), que a noite é o hacker Neo, obcecado por descobrir o significado de uma lenda virtual: a Matrix, é contactado por Morpheu (Lawrnce Fishburne) e seu grupo de “foras da lei”. Através dele Neo descobre a aterradora verdade: O mundo real não existe, é a Matrix, uma realidade virtual criada e mantida por inteligências artificiais que após um confronto apocalíptico com a humaniodade passaram a dominar a terra convertendo humano a meras fontes de energia para o sustento de seu admirável mundo novo.Fora de Matrix, os poucos humanos que se libertaram do domínio das máquinas lutam pela liberdade defendendo arduamente a cidade subterrânea de Sião, ultimo reduto da humanidade livre.
Projetada em um futuro impreciso, a trama remete a temas como crença, livre arbítrio, amor, evolução, progresso e controle social. Entretanto, uma compreensão mais profunda desta bela peça cinematográfica pressupõe a apreensão de seu implícito diálogo com as formulações do filosofo francês Jean Baudrillard. Autor controvertido e critico radical da modernidade. É possível estabelecer paralelos surpreendentes e reflexivos entre o deserto do real de Matrix e a cultura do simulacro e o virtual na óptica de Baudrillard como demonstra claramente o seguinte fragmento que nos conduz “a toca do coelho”:

“ ... Mas é preciso que se diga que esta expressão, “realidade virtual”, é um verdadeiro oxímoro. Não estamos mais na boa e velha acepção filosófica em que o virtual era o que estava destinado a torna-se ato, e em que se instaurava uma dialética entre as duas noções. Agora, o virtual é o que esta no lugar do real, é mesmo sua solução final na medida em que efetiva o mundo em sua realidade definitiva e, ao mesmo tempo, assinala sua dissolução.
Chegando a esse ponto, é o virtual que nos pensa: não há mais necessidade de um sujeito do pensamento, de um sujeito da ação, tudo se passa pelo viés de mediações tecnológicas. Mas será que o virtual é o que põe fim, definitivamente, a um mundo do real e do jogo, ou ele faz parte de uma experimentação com a qual estamos jogando? Será que não estamos representando a comédia do virtual, com um toque de ironia, como na comédia do poder? Essa imensa instalação da virtualidade, essa performance no sentido artístico, não é ela, no fundo, uma nova cena, em que operadores substituíram os atores? Ela não deveria, então, ser mais digna de crença que qualquer outra organização ideológica. Hipótese que não deixa de ser tranqüilizante: no final das contas tudo isso não seria muito sério, e a exterminação da realidade não seria, em absoluto, algo incontestável.
Mas, no momento em que nosso mundo efetivamente inventa para si mesmo seu duplo virtual, é preciso ver que isto é a realização de uma tendência que se iniciou há bastante tempo. A realidade, como sabemos, não existiu desde sempre. Só se fala dela a partir do momento em que há uma racionalidade para dizê-la, parâmetros que permitem representá-la por signos codificados e descodificados.
(...)
Existe atualmente uma verdadeira fascinação pelo virtual e todas as suas tecnologias. Se ele é verdadeiramente um modo de desaparecer, esta seria uma escolha- obscura, mas deliberada- da própria espécie: a de se clonar, corpo e bens, em um outro universo, de desaparecer enquanto espécie humana propriamente dita para perpetuar-se em uma espécie artificial que teria atributos muito mais performáticos, muito mais operacionais. Será que é nisso que se aposta?”

Jean Baudrillard. Senhas. Tradução de Maria Helena Kuhner. RJ: Difel, 2001, p. 42-44.

LITERATURA INGLESA XLI


Muitos consideram Francis Bacon pelos seus escritos filosóficos o pai da ciência moderna, embora não lhe seja atribuída qualquer invenção ou descoberta original. Sem entrar neste mérito, ocupar-me-ei aqui exclusivamente de sua Nova Atlântica, obra escrita em seus últimos anos de vida e publicada postumamente em 1627.
Embora a referência ao continente perdido de Atlântica seja uma clara referência a Platão, o estado imaginário apresentado por Bacon é em todos os sentidos antagônico a República de Platão. Nele não encontramos, e nisso se Difere também da Utopia de Morus, nenhuma descrição de uma organização social ou econômica hipoteticamente perfeita como contraponto de uma realidade concreta. Sua Nova Atlântica é uma alegoria para as possibilidades abertas pelo conhecimento cientifico. Justamente por isso, a Nova Atlântica é formatada pelo domínio da natureza através da técnica e da ciência fomentada pela sua instituição central e nuclear, a “ Casa de Salomão”, onde vivem e trabalham seus sábios em cotidiana luta contra a natureza e pelo progresso de sua sociedade fundamentada no que para época poderíamos chamar não muito propriamente de tecnologia.
Esta peculiar utopia baconiana expressa uma imagem de ciência empírica e autônoma frente aos outros campos do fazer coletivo humano anunciando o advento do Homo Faber como imagem vital a época moderno que então se iniciava sob a inspiração renascentista.
Justifica-se, entretanto, este breve comentário à obra, não pelo lugar e importância do autor na historia dos saberes científicos, mas pelo fato de Nova Atlântica, pelo seu estilo literário, ser considerada por muitos um clássico da literatura inglesa, cuja imagética e caráter fantástico, aproximar-se de certa forma a literatura de Daniel Defoe e Jonathan Swift. Mas tal encontro entre literatura e ciência nos primórdios da modernidade é deveras sugestivo...

domingo, 5 de abril de 2009

APOSTA

Joguei fora
Algumas palavras
De tédio
Na avenida aberta
De um crepúsculo de semana.

Esperava,
Admito,
Qualquer resposta
De acaso
Por invisíveis princípios esculpida
Entre fatos aleatórtios.

Esperava,
Qualquer coisa viva,
Qualquer inútil acontecimento
Que me levasse embora
A alma e o tédio.

ROCK E POS MODERNIDADE: DIALOGOS...




Para afirmação da relevância do rock and roll como objeto de pesquisas historiográficas e olhares mais apurados no campo das sensibilidades subjetivas e configurações cognitivas contemporâneas, creio ser muito apropriado reproduzir aqui um fragmento de CULTURA PÓS MODERNA: INTRODUÇÃO ÀS TEORIAS DO CONTEMPORÂNEO de Steven Connor sobre cultura popular:


“Os últimos anos viram uma explosão de interesse por toda uma gama de textos e práticas culturais antes desdenhados pela critica acadêmica ou invisíveis a ela. Os críticos culturais contemporâneos, seguindo o inspirador caminho aberto por Richard Hoggart, Raymond Willians, Roland Barthes e Stuard Hall, tomam como tópico o esporte, a moda, os estilos de cabelo, as compras, os jogos e os rituais sociais, e passam a empregar nessas áreas, sem nenhum pudor, o mesmo grau de sofisticação teórica que empregariam com um artefato da alta cultura. De certo modo, isso constitui em si um fenômeno pós moderno, por ser a marca do nivelamento de hierarquias e do apagamento de fronteiras, efeito da explosão do campo da cultura descrita por Jamenson, na qual a cultura, o social e o econômico deixam de ser facilmente distinguíveis um dos outros.
Muitas dessas formas e práticas culturais contribuem-se a qualidade de elementos representativamente pós modernos em si, embora possam ser formas e práticas que nunca passaram por alguma fase modernista reconhecível. Essas formas, ao que parecem, não necessitam de legitimação da teoria pós moderna para gozarem da sua condição pós moderna. Mas isso não quer dizer que não haja formas significativas de transferência e de paralelo entre outros tipos de teoria cultural pós moderna. Na cultura popular, como em, outros campos, a condição pós moderna não é um conjunto de sintomas simplesmente presentes num corpo de evidência sociológica e textual, mas um complexo efeito do relacionamento entre prática social e a teoria que organiza, interpreta e legitima as suas manifestações.

ROCK

De certo modo, para falar a verdade, o rock como forma cultural especifica só pode ser chamado de pós moderno por analogia. Pode-se alegar que o rock passou por uma acelerada genealogia interna que imita, ou pode ser entendida como imitando, narrativas de emergência da sensibilidade pós moderna em outras áreas culturais. Frederic Jamenson chega perto disso ao apresentar os Beatles e os Rolling Stones como o “grande momento modernista” do rock. A espécie de narrativa que isso implica poderia ser: depois de sua rebelde ressurreição nos anos 60, o rock foi canonizado e assimilado pela industria cultural nos anos 70, embora os seus mais avançados representantes parecessem estar explorando estilos experimentais ou paródias desses estilos associados com a estética de vanguarda contemporânea; isso produziu um amálgama contraditório mas, discutivelmente “modernista” do experimental, e do institucionalmente incorporado. A isso se seguiu, no final dos anos 70, a musica punk e new have, associada com grupos como The Clash, The Sex Pistols e outros, que pretendiam purificar o “o rock de estádio” aristocrata que se desenvolvera através do retorno às energias e à origem primais do rock nas experiências de jovens descontentes da classe trabalhadora.”

Steven Connor. Cultura Pos Moderna: Introdução às teorias do contemporâneo.lSP: Edições Loyola, 4? Ed, 2000, p.149-150

BIOMAGIA


Não sei o principio
Do dia,
O ponto cego
Onde se escondem
Os nomes das horas
Ou os números
Que definem o tempo.

Sei apenas
A intuição de um grande
Silêncio,
De um puro vazio
A preencher o pouco
De cada coisa
No acontecer mágico
Da vida.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

TEST PAPER

Há tempos
De sonho e espera
Entre ceticismos.

Faço do mundo labirinto
Em busca de sobras
Do meu próprio intimo
Na súbita reconstrução
Do meu particular infinito.

No saber do mundo
Em viver de mil coisas
Entre falsos gritos
Recolho-me em expectativas de azul
Buscando rublos espetáculos de futuro.

You reap what you sow...

terça-feira, 31 de março de 2009

CRÔNICA RELÂMPAGO XLVIII


Os primeiros momentos do despertar de cada manhã são definidos por uma involuntária constelação de idéias sobre o que nos espera no dia que se inicia. Talvez este momento seja um dos mais banais e decisivos cotidianos exercícios de memória. Em nossos primeiros pensamentos matinais podemos lamentar a rotina e a impossibilidade de mais algumas horas de sono, correr ansiosos de encontro aos fatos em expectativa de novidades ou pequenos prazeres ou ainda, simplesmente, cumprir mecanicamente os ritos do despertar enfadados com nossas realidades vividas.
Em todos esses casos predomina um irrefletido otimismo que nos leva a crer que nada irá nos desviar do curso do previsível, como se fosse possível domesticar o acaso.
Evidentemente, apesar de nossos “sentimentos de ordem”, a existência e um processo complexo, mutável e imprevisível regido por incertezas, algo impermeável a nossas teleologias e sentidos.
Em poucas palavras, a existência é um desafio que se renova a cada nova manhã, um desafio diante do qual resposta alguma mostra-se satisfatória em alguma dose de niilismo e duvida.
Afinal, até que ponto realmente existimos?

SELEÇÃO NATURAL


O modo próprio da existência
É a seleção natural,
O jogo entre inovação
E adaptação
Que define os mais aptos
Em enfrentamento de mundos.

Ha mais natureza em nossas biografias
Que biologias no pensamento...

Procuro ainda
Meu lugar na evolução
Entre peripécias
De causa e efeito
E devaneios
Que se perdem no vento.
Talvez um dia
me encontre...

SOLITUDE


Sou apenas
Este corpo
Que me define
No tempo e no espaço,
Este irrelevante ponto
De nada
Perdido na imensidão
Do universo.

Despido de significados,
Vivo apenas de fatos,
E atos de pensamento.

Vivo como as pedras
De uma estrada antiga
Perdida no silêncio
De uma erma floresta.

segunda-feira, 30 de março de 2009

MUDANÇA E CONTEMPORÂNEIDADE


Pode-se dizer que a contemporaneidade, em suas linguagens digitais e artefatos tecnológicos, nos submete a uma permanente tensão informacional, a uma gigantesca pluralidade de possibilidades de imagens e possibilidades cognitivas que somos como nunca antes deslocados de nossas convencionais identidades e referências de real.
De fato o horizonte ontológico das possibilidades humanas e trans-humanas do hibrido real que se esboça na virtualidade de nossos artefatos tecnológicos introduz um padrão novo na cultura ocidental, em nossas sensibilidades e configurações culturais. Algo que nos induz a intuir um novo tipo de presença no mundo que, a longo prazo, pode transformar de um modo inédito nossas carcumidas referências de sociedade e civilização introduzindo uma transmutação absoluta de todos os valores. Faça isso algum sentido ou não, o fato é que vivemos tempos confusos e estimulantes onde o real reconfigura-se mais rápido que o tempo e qualquer vislumbre de futuro se faz em poucos anos um esboço tosco de virtuais passados. O mundo vivido nunca foi tão descartável...

domingo, 29 de março de 2009

ESPECULAÇÕES SOBRE A LINGUAGEM ESCRITA II

Há algo de profundamente subversivo no exercício de um texto, no dizer intimo do real em palavras e jogos de imagens e pensamentos que estabelecem enunciados. Pois escrever é, ao contrário do falar, um exercício de silêncio, um alheamento onde a palavra materializada em narrativas reinventa a própria linguagem em paradoxal exercício de consciência, de irracional abstração do entrelaçamento das palavras pelo fio do significado que inventam o próprio mundo...

ESPECULAÇÕES SOBRE A LINGUAGEM ESCRITA

Ao contrário da voz, a palavra escrita transcende o tempo através da magia do pensamento.Na cultura contemporânea, porém, pode-se dizer que ela transcendeu sua dimensão semântica convertendo-se em uma verdadeira entidade, um não lugar de imagens e significados metalingüístico que, no complexo universo da propaganda sobreposto ao espaço de grandes centros urbanos como New York, parece realizar uma autonomia da letra, do signo, sobre a gramática. Talvez este seja um indicio do quanto todo significado e codificação do real tornou-se virtual, um jogo de consciência ou simulacro.

sábado, 28 de março de 2009

EXPANSÃO

Olho para fora,
Seja de mim,
Do mundo
Ou de tudo
Que se faz pensamento.

Olho para fora,
E quase não vejo nada.

Mas olho para fora...
Despindo-me
De todos os destinos,
Certezas e possibilidades
inventadas de mim mesmo.

sexta-feira, 27 de março de 2009

POEMA PÓS HAMLET


Fiz-me abandonar
No mundo
Provando desertos
Em direções de sóis
Em crepúsculos
E serenidade de luz.

Escavei meu rosto
No chão cotidiano
Até encontrar a caveira
De minhas verdades
E escrever no céu
Um grito liberdade.

RADIOHEAD IN RIO


No ultimo 20 de março, uma sexta feira, tive o privilegio de quebrar radicalmente a rotina e vivenciar uma apresentação da banda britânica de rock alternativo Radiohead no espaço da Praça da Apoteose no Rio de Janeiro.
Como fã incondicional da banda, devo dizer antes de tudo que não se trata apenas neste caso de participar como platéia de um espetáculo de rock and roll. Um show do Radiohead é, com certeza, mais do que isso quando se é intimo de sua singular musicalidade. Trata-se de uma experiência anímica, um momento de deslumbramento ou iluminação profana de múltiplas faces e conteúdos.
No cenário da musica popular contemporânea o Radiohead ocupa um lugar impar. Nenhuma banda possui uma sonoridade tão complexa e um universo de letras tão denso.
Parte da turnê do ultimo álbum In Rainbows, de 2007, lançado inicialmente exclusivamente na internet de modo muito original, embora não seja seu melhor álbum, o que significa apenas dizer que não supera o ontológico OK Computer, é certamente o mais complexo em simbologias e alegorias. O titulo remete ao fluir do humor da banda, as suas várias faces e fases, articuladas como as sete cores do arco-iris. O jogo de luzes que define a linguagem visual do show procura comunicar justamente isso.
Bom, não pretendo aqui definitivamente uma crônica ou impressão pessoal da ocasião da apresentação da banda in Rio, mas relembrá-la, eternizá-la em palavras que, no fundo, não significam nada comparadas a experiência de escutar ao vivo clássicos como No surprises, Paranoid Android, Karma Police e experiências mágicas como The National Anthem e avadir-se do cotidiano através da magia da musica...
Caso tivesse que escolher uma banda de rock que traduzisse em musica nosso sentimento contemporâneo de mundo, de deslocamentos e incertezas identidários, ela seria sem nenhuma duvida o Radiohead de Thom Yorke (vocais, guitarra, piano), Jonny Greenwood (guitarra), Ed O'Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo, sintetizador) e Phil Selway (bateria, percussão).

THE REAL WORLD


Esqueça todas
As palavras ditas
Em seu fazer-se
Cotidiano,
Suas roupas,
Seu rosto e forma.
Concentre-se no silêncio...
It’s the real world.

Jogue ao vento
Os falsos e verdadeiros
Problemas,
Medos e incertezas
De dia seguinte
Até provar o vazio
Do tempo.

It’s the real world
In rites of passage...

What’s the weather like?

O QUASE NADA DE CADA DIA...


O dia seguinte corre ao meu encontro como um estranho a oferecer um abraço frio e formal. O tempo, enquanto isso, oferta possibilidades de riscos, futuros, esperanças ingênuas e leves dissociações de personalidade nos acasos e sonhos que nunca socam realidades. Sei que perdi em alguma parte do jogo entre o eu e o mundo, o rumo do meu destino, o quase saber do meu futuro aberto em possibilidades, erros, a caminho de um nada essencialmente natural.

segunda-feira, 23 de março de 2009

LANCELOT: ESPECULAÇÔES SOBRE O MITO.

A personagem de Lancelot é, depois de merlin, a mais complexa e enigmática do mito arthuriano, personificando dramática e radicalmente o ideário do amor cortês contra os códigos masculinos e partriacais do imaginário medieval.

Foi entre os anos de 1177 e 1180 que Crétien de Troyes compôs Lê chevalier de la charrette, romance que introduziu a personagem na literatura ocidental, já configurado, por um lado como símbolo e representação de cavalaria e distinção e, por outro, de infâmia e degradação.

Lancelot é a personificação mais radical do mito do cavaleiro errante. Seja através do absoluto alheamento de mundo e de si mesmo, entre o fantástico do maravilhoso, do “alem mundo” celta (domínio do sagrado), e o espaço social da tavola redonda (domínio do profano). Instancias que, quase sempre, encontram-se em tensão nas versões cristianizadas da lenda.

Sua marca é a melancolia, o desespero de quem desafia seu próprio tempo na afirmação da ética do amor cortes contra a moral cristã e a cultura partriacal da Idade Media. Genebra, afinal, é para ele mais importante que o grall, personificando o mito do eterno feminino e os imperativos do desejo e do irracional contra todo obscurantismo da fé e da idéia de verdade....

domingo, 22 de março de 2009

LANCELOT


Eu te aguardo
Do outro lado dos sonhos
Dentro do espelho
Alem dos meus medos.

Desconstruo o mundo
Em palavras jogadas
Contra a realidade
Em cada grito perdido
No contido choro
Das imaginações sublimes.

Há futuros
Que jamais viverei
Pois nunca viverei a sombra
De algum nobre rei.

POEMA DE QUASE AMOR

Jamais provei teus lábios
Ou explorei teu corpo
Na emoção de estar perdido
No mundo dos teus olhos.
Se quer sei seu nome,
Nunca escutei sua voz
Em meu coração partido
Como um hino a vida que nunca vi.

Vivi apenas silêncios,
Sombras e sonhos
Na solidão de montanha
De quem adivinha
O peso da vida
Na leveza do vento.

I love my heart.

sábado, 21 de março de 2009

CONTEMPORÂNEIDADE E PÓS IDENTIDADE


A saturação de certos valores e idéias que marcaram a chamada modernidade é um processo descontinuo, invisível e plural em seus significados.
Gosto de pensar este novo momento da história social do mundo ocidental como a gestação imagética de uma revolucionária estética da imanência; como uma recusa do “deve-ser” de todos os sentidos e meta-significados característicos da linguagem da modernidade, seus universalismos, identidades e lógicas monoteístas de homogeneidade...
Faz-se no agora que nos escapa mudamente uma afirmação do efêmero, do imediato, do irracional e do paradoxal como expressão das novas leituras e vivencias de nossa cotidiana condição humana, cada vez mais individuada, deslocada de suas tradicionais representações de sentido laicos e religiosos.
Vivemos tempos de hibridismos, multiculturalismos e pluralidades infinitas de estratégias de ser no mundo.
Entretanto, ainda nos surpreendemos perplexos diante dos espelhos da fenomenologia da existência em desafio múltiplo de diálogos e reconstruções na ontologia de cada dia.
l

AUTO ESBOÇO

Tornei-me
Um simples ensaio
De mim mesmo.
Um esboço incompleto
Do que deveria ser,
Do que poderia viver ou fazer.

Desencontrei-me do destino
Em alguma curva da vida...

Minha existência
Ainda não aconteceu.

quinta-feira, 19 de março de 2009

DIA PERDIDO

Deixei o dia
Passar por mim
Em silêncio.
Fiz dele uma data
Em branco,.
Um furo no calendário
A doer na memória
Como um testemunho
De antigas inércias e niilismos,
De minha falta de mundos
Dentro da insensatez do mundo.

PASSEIO

Acordei com o tempo
Pesando no corpo
E a vida engasgada
Nos pensamentos.

Só me restou
Sair sem rumo
Pela cidade aberta
Em aleatório movimento
De ser entre as coisas.

CRÔNICA RELÂMPAGO XL VII


Quanto do seu tempo dedicas a si mesmo, aos frívolos caprichos do seu simples acontecer? Talvez seja essencial ao equilíbrio dos pensamentos e incontornáveis passos automáticos e tensos do dia a dia ocupar-se regularmente com o nada mais intimo e incomunicável; abandonar-se as delicias e preguiças que produzem as inércias essenciais a mais plena experiência de individualidade e imanência.
Periodicamente precisamos esquecer o mundo, estabelecer nossas estratégias de silêncio e entregar o corpo e o viver a inspiração das preguiças, pequenos e fúteis prazeres.

domingo, 15 de março de 2009

APOLOGIA A PAN


A flauta de Pan
Em minhas mãos
Anuncia sonhos de florestas
Em alguma quente noite de verão.

É tarde,
E meus pensamentos desconcertados
Passeiam no conteúdo de um copo
Assentado sobre uma discreta mesa
De bar de periferia.

Entre euforia e vertigem
Descubro a vida,
Que sou apenas um corpo
Perdido no mundo.

sábado, 14 de março de 2009

NOTA SOBRE BAUDRILLARD, CULTURA DO SIMULACRO E PÓS MODERNIDADE


Para Baudrillard a superação do domínio do econômico sobre a vida é uma ilusão ingênua uma vez que os artefatos culturais , as imagens, representações, sentimentos e estruturas psíquicas tornaram-se parte dos jogos simbólicos da economia. Na verdade a economia tornou-se a grande mediadora de nosso consenso de realidade.
Por outro lado, segundo esse mesmo autor podemos pensar a cultura contemporânea como um regime de simulação, de incessante produção de imagens não fundamentadas na “realidade”, de objetos e experiências manufaturadas que tentam ser “hiper-realistas”, mais reais que a realidade objetiva. Em outras palavras, já não se exige mais que os signos tenham algum contato verificável com o mundo que supostamente representam.

GREEN EYES


Na floresta aberta
Meus olhos se fizeram verdes,
Provando a terra,
O céu e o vento
Na mais viva realidade
Das sensações e desejos.

Violence against
Nature,
Denounced
By green eyes
Moving towards the future.

sexta-feira, 13 de março de 2009

ILUSION


Abracei em uma tarde fria
Um destino qualquer
Para viver de ilusões...

Serei como todo mundo,
Saberei saboreando o concreto
O fugidio momento
Que agora se perde vazio
Na realização dos atos.

Mergulharei na multidão
Correndo ao encontro do nada
Em poses de sentido
Com um discreto sorriso
De certeza de amanhã pretendido
E estética de ilusões.

Decorarei a face estática
Que me define
Com o brilho de um sol de outros mundos...

quarta-feira, 11 de março de 2009

ATOS IMPUROS: A VIDA DE UMA FREIRA LESBICA NA ITALIA DA RENASCENÇA by JUDITH C BROWN

Atos impuros: A vida de uma freira lésbica na Itália da renascença, da historiadora norte americana Judith C. Brown, é uma pesquisa bem documentada e original sobre as representações sociais da sexualidade configuradas pelo imaginário renascentista.
Chama atenção nesta narrativa histórica, as dificuldades que as autoridades ( homens...) da época enfrentavam para compreender a sexualidade lésbica na ausência de vocabulários e conceitos que lhes permitissem "ler" essa experiência feminina de modo adequado ou, ousaria dizer, satisfatório.
Cabe observar que, mais que a “sodomia masculina”, a “sodomia” entre as mulheres era o “pecado que não pode ser nomeado”; consequentemente os documentos de época sobre o tema são escassos, tornando-o um dos mais complexos campos de estudo da historia da sexualidade ocidental.
Por tudo isso, o caso de Benedetta Carlini de Vellano, a visionária abadessa das freiras Teatinas de Pescia, que viveu no séc. XVI, é um precioso e raro estudo de caso que, considerando o método e narrativa adotados por Judidth, também nos leva as fronteiras entre história e literatura.

NOTAS PARA UMA MORAL PÓS MODERNA

O cândido ideal ética universalista, ao contrario do que pensam alguns, tornou-se nos últimos tempos uma pretensão filosófica ingênua. Já não é mais possível conceber uma finalidade teleológica valida para todos os indivíduos.
A ética tornou-se uma questão individual, remetendo antes de tudo a qualidade das escolhas realizadas pelos indivíduos e seus desdobramentos coletivos. Mas tais escolhas já não são mais constrangidas por abstratas e pueris convenções e preceitos dogmáticos como ainda sonham os adeptos dos diversos neo fundamentalismos religiosos.
Uma ética pos moderna tem como ponto de partida uma espécie de principio de responsabilidade por tudo aquilo que escolhemos e fazemos. Pressupõe indivíduos cujo nível de consciência é suficientemente elevado para, transcendendo qualquer orientação moral coletiva pretensamente universalista, estabelecer sociabilidades positivas através do exercício de sua liberdade e do reconhecimento da pluralidade e diversidade como principio da vida humana.

ESPECTATIVA

Guardo sonhos
Perdidos
Em algum eu esquecido
No fundo da memória.

Guardo a lembrança
De coisas jamais vividas,
De reais ilusões de infância.


Pois aguardo o dia
De viver plenamente
A vida que me espera
A sombra de algum presente.

segunda-feira, 9 de março de 2009

CETICISMO

Sigo pela vida
Apenas existindo,
Prosseguindo,
Pura e simplesmente...

Um pouco de mim
Se perde em passado
Outro se faz futuro
Apesar das incertezas
Que pesam nos olhos.

SOBRE O 8 DE MARÇO


O 8 de março, comemorado ontem, ainda traduz uma necessidade vital da cultura ocidental de integração da mulher e do feminino como imagem simbólica e psicologica da condição humana, superando assim definitivamente as heranças partriacais e sexistas que durante séculos relegou a mulher a marginalização e desqualificação cultural no obscurantismo religiosamente justificado de uma idade dos homens... A apologia a mulher, não em suas representações idealizadas, mas como sujeito concreto e ativo do mundo criado todos os dias pelos atos e imaginações humanas, é engendrar novas maneiras de olhar, sentir e representar o mundo. Desafio que, de muitas maneiras, apenas começamos a vivenciar e formular cotidianamente a poucas décadas.

quinta-feira, 5 de março de 2009

PSEUDO AUTO IDENTIDADE


Posso viver
Em meus dias futuros
Das sobras
De antigas alegrias,
Dos murros na realidade,
Imaginando passados
Que nunca existiram...

Poso viver
Do mínimo de mim mesmo
Em rostos de fantasia,
Até o limite da dor
De ser quase eu mesmo
Em rostos de fantasias.

Mas prefiro viver
Em grito
E desafio de aceitar
O niilismo e liberdade
Da mera poesia de viver.

terça-feira, 3 de março de 2009

STEPHEN BANN E AS INVENÇÔES DA HISTÓRIA


AS INVENÇÕES DA HISTÓRIA: ENSAIOS SOBRE AS REPRESENTAÇÕES DO PASSADO, do historiador britânico STEPHEN BARNN, é uma coletânea instigante sobre os rumos e possibilidades da historiografia contemporânea. Embora tenha sido publicada originalmente nos inícios dos anos 90, ela ainda goza de atualidade pelos temas e questões que aborda. Cabe dizer que, decididamente não são poucos, indo desde a linguagem do fragmento histórico personificada pelos museus e antiquários do séc. XIX, passando pela imaginação histórica do escritor francês Vitor Hugo ou do falsificador literário Charles Bertran, pela relação entre a história e suas ciências irmãs de nascimento, ou seja, a medicina, o direito e o campo teológico, chegando aos tantos discursos da historiografia contemporânea, seu status estabelecido entre o fato, a fé e a ficção, a cartografia e a história da arte.
Esta erudita coletânea insere-se no cenário de um amplo debate internacional, ainda hoje em curso entre os historiadores profissionais, sobre as implicações de uma visão interdisciplinar das representações do passado e do tempo presente sob as formas convencionais já consagradas de se produzir a história enquanto historiografia. A peculiaridade de BARNN nesses ensaios é propor-se, como ele mesmo esclarece em seu prefácio, a ir um pouco além dessa discussão explorando a pluralidade de discursos e perspectivas que definem a historiografia contemporânea, aquilo que torna impossível defini-la no singular. Particularmente acredito ser mais apropriado hoje em dia o uso do conceito “ciências históricas” para definir o nosso complexo conjunto de discursos historiográficos onde, diga-se de passagem, o elemento subjetivo, individual, assume um papel cada vez mais relevante na construção dos discursos historiográficos ao definir e configurar um conjunto de opções metodológicas e sensibilidades:

“ ... Eu diria que esta coletânea de ensaios é altamente relevante para o debate sobre os usos contemporâneos da história que foram mencionados aqui- se esta é uma questão do “novo” contra o “tradicional”, ou da necessidade de historicizar os museus, casas e jardins e deste modo evitar a suavidade sintética de uma exposição desinformada. Mas obviamente eu não me proponho a solucionar qualquer aspecto deste debate. Minha abordagem foi mais no sentido de concentrar atenção sobre o que poderia ser chamado de arqueologia da história: as estruturas e conexões que tornaram possível, durante os últimos séculos, a emergência de um modelo integrado de representação histórica. Por exemplo, no primeiro ensaio, não estou preocupado prioritariamente com o crescimento da profissão histórica, nem com a relevância do que poderia ser chamado de historiografia normativa para a questão de como a história deveria ser ensinada nas escolas. Em vez disso, olho para as fronteiras em mutação entre a história profissional e os protocolos das veneráveis profissões do direito, da medicina e da teologia, sugerindo os modos pelos quais elas contribuíram para definir o espaço disciplinar no qual a história emergiu. Em meu ensaio de conclusão, olho para a mais recente e problemática área disciplinar da história da arte. Pode a arte ter uma história? Nenhum dos influentes porta vozes que escolhi como representantes de dois significativos pontos de vista contemporâneos veria essa pergunta como merecedora de uma resposta simples. Se meus três primeiros ensaios (interessados nas relações entre história e outros materiais textuais) enfatizam a importância dos registros trocados e partilhados, os três últimos abordam, assim, o status histórico da imagem. A descrição semiótica da imagem é utilizada, mas não de modo a excluir o investimento subjetivo do indivíduo.
(...)
As invenções da história são, portanto, para mim, decididamente plurais. Ainda assim, as mudanças de perspectiva e método que emprego são planejadas, em última instância, para indicar, como um fenômeno unificado, as diversas expressões e representações da imaginação histórica que pairam, uma após a outra, nestas páginas. Seria agradável se esta coletânea pudesse ter assumido a mesma forma poética unificada do encantador estudo de Anne Cauquelin, L’invention du paysage; que também é escrito tanto como uma exposição de códigos quanto como um relato de um investimento psicológico e pessoal.”

(Stephen Bann, As Invenções da História:ensaios sobre a representação do passado/ tradução de Flávia Villas Boas. SP: Editora da Universidade dEstadual Paulista, 1994, p. 17-19)

domingo, 1 de março de 2009

A PIECE OF THE FUTURE

Um pouco de futuro
Habita o presente
Soçobrado ao tempo.

Toma de empréstimo
Alguma relíquia perdida
No passado.

A piece of the future,
Very dangerous piece...

O futuro, afinal,
Não se faz de puro amanhã,
Mas da soma dos tempos
De uma vida inteira.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

THE LA'S: CONSAGRAÇÃO PÓSTUMA


Uma banda pouco conhecida dos inícios dos anos 80 e que, no entanto, é uma das melhores coisas do rock inglês do período, é o THE LA’S, ironicamente oriunda da cidade de Liverpool que também nos presenteou com a melhor e mais venerada banda de rock de todos os tempos THE BEATLES.
Liderada pelo vocalista e guitarrista Lee Mavers, a banda teve como segundo homem John Power (baixo, backing vocal), acompanhados de um elenco rotativo de guitarristas e bateristas THE LA”S tem entre seus singles mais conhecidos “There she goes" e “Way Out”.
O grupo dissolveu-se melancolicamente em 1992. Ironicamente converteu-se depois do fim em um icone do rock e objeto de culto por aqueles que tiveram o prazer de escuta-los.
Aliais, uma das coisas engraçadas na cultura social do Rock é que, embora sustentado por uma poderosa e milionária industria, suas referências não estão necessariamente condicionadas a consagração de mercado. Pelo contrário, há muitas bandas que jamais fizeram muito sucesso, mas deixaram com bons albuns sua eterna marca na história do Rock e fazem parte da biografia musical de muitos amantes do estilo. Eu os definiria comos THE BEATLES que não deram certo ou talvez tenham dado certo a sua maneira... Afinal, o que é dar certo?

http://www.youtube.com/watch?v=k8JZHiCeADQ&feature=PlayList&p=4660D1ECB40F4B5F&index=5

http://www.youtube.com/watch?v=lG-ttghlRJ8&feature=PlayList&p=4660D1ECB40F4B5F&playnext=1&index=4

http://www.youtube.com/watch?v=A9rr97nAvI0&feature=PlayList&p=4660D1ECB40F4B5F&index=6

A ARTE DE OLHAR


Certas fotografias
São mais belas
Do que os lugares
Que dizem,
Ensinam a diferença
Entre ver e olhar,
O quanto os olhos
Guardam em segredo
Sutis filosofias.

Mas quem se importa
Se os olhos transcendem
A objetividade da visão?

CRÔNICA RELÂMPAGO XLVI


Sob determinadas circunstâncias, o passado pode afigurar-se em nossas trajetórias individuais como um confuso somatório de erros e situações que limitam nossas possibilidades de futuro. Diante disso o presente perde substância e não passa de um momento opaco e indefinido condicionado a fatalidades. É como se o tempo nos roubasse toda a iniciativa nos convertendo em involuntários atores de seu teatro. Quando isso acontece nos rendemos as inércias do inevitável e esperamos impacientes o alívio de qualquer imprevisível novidade...

PIERCE , O PRAGMATISO( E O SEGREDO DA LINGUAGEM II

Cabe acrescentar que PEIRCE, em todos os sentidos, pensou e viveu como um homem do século XIX, afinal ele faleceu em 1914 sem ter sido impactado por todas as mudanças da conturbada e revolucionária primeira metade do século XX que, no plano da cultura e da ciência, produziria novas modalidades de percepção e linguagem sem precedentes.
Não se deve estranhar, portanto, seu otimismo cientificista, até porque a segunda metade do século XIX, período em que produziu intensamente, também foi um momento de franca afirmação da cultura e identidade norte-americana.
Mesmo assim, não deixa de chamar atenção um aspecto de sua obra: O não lugar do individuo, o que absolutamente não se justifica inteiramente pela desconstrução do sujeito cartesiano inerente a formulação pragmática.
Em poucas palavras, se para o autor o homem define-se, poder-se-ia dizer, como um animal simbólico através da linguagem, seu desenvolvimento é condicionado a sociedade, a experiência da coletividade, e o individuo diferenciado não seria capaz de contribuir para o seu aperfeiçoamento. Pessoalmente diria quer essa é uma premissa bastante relativa dado que o progresso da cultura humana geralmente depende da inovação de indivíduos contra a inércia das convenções. Isso vale também para o desenvolvimento do conhecimento, da linguagem e seus usos que invariavelmente são invenções, construções condicionadas a um dado momento histórico. De um modo ou de outro, deixo aqui um fragmento do autor sobre o tema:

“ 314- ... basta dizer que não há elemento na consciência que não possua algo correspondente na palavra: a razão é obvia. É que a palavra ou signo usado pelo homem é o próprio homem. Se cada pensamento é um signo e a vida é uma corrente de pensamento, o homem é um signo; o fato de cada pensamento sert um signo exterior prova que o homem é um signo exterior. Quer dizer, o homem e o signo exterior são idênticos, no mesmo sentido que a palavra homo e homem são idênticas. A minha linguagem, assim, é a soma de mim próprio; porque o homem é o pensamento.
315- É difícil o homem entender isso, pois persiste em identificar-se com a vontade, como o seu poder sobre o organismo animal, com força bruta. Ora, o organismo é tão somente um instrumento do pensamento. E a identidade do homem consiste daquilo que faz e pensa, e esta é o caráter intelectual de uma coisa, o expressar algo.
316- O conhecimento real de uma coisa só ocorrerá num estágio ideal de informação completa, de modo que a realidade depende da decisão derradeira da comunidade; o pensamento constituiu-se caminhando na direção de um pensamento futuro, que tem como pensamento o mesmo valor que ele, só que mais desenvolvido; desta forma, a existência do pensamento de agora depende do que virá; tem apenas existência potencial, depende do pensamento futuro da comunidade.
317- O homem individual, cuja existência separada se manifesta apenas através do erro e da ignorância, separado de seus companheiros e daquilo que ele e eles hão de vir a ser, é apenas uma negação. Este é o homem.

... proud man,
Most ignorant of he’s most assured,
His glassy essence.”




(ESCRITOS PUBLICADOS, in Charles Sanders Pirce : seleção de Armando Mora D’Oliveira; tradução de Armando Mora D’ Oliveira e Sergio Pomerangblum. 2 ed. Coleção Os Pensadores. SP: Abril cultural, 1980, p.. 82-83 )