quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

PEIRCE E O PRAGMATISTO OU OS SEGREDOS DA LINGUAGEM


CHARLES SANDERS PEIRCE ( 1839- 1931) ainda hoje é considerado por muitos como o mais original e importante pensador norte americano. Fundador e sistematizador do Pragmatismo, alem de criador de uma complexa teoria dos signos, o autor e sua obra constituem uma das mais influentes matrizes do pensamento contemporâneo ocidental.
Através do Pragmatismo Peirce nos propõe uma ruptura com a tradição filosófica que conduz a filosofia moderna a uma aproximação radical com o método cientifico experimental superando a um só tempo qualquer resquício de metafísica e cartesianismo. Nesse sentido ele é um filosofo contemporâneo por excelência.
Apesar da complexidade de sua obra, sua total estranheza ao senso comum, visitá-la para um não especialista em lingüística é um convite a desconstrução de nossos lugares comuns de mundo através de uma profunda reflexão sobre o lugar da linguagem e do pensamento em nossas vidas ou sobre a polêmica em torno de uma ciência positiva que não se propõe a afirmar que algo é positiva e categoricamente verdadeiro... que Peirce absolutamente não resolve; fornece apenas o ponto de partida que as desconstruções da pos modernidade levariam as últimas consequências.

Fragmento de Conferencias sobre o pragmatismo

§ 2. A Construção Arquitetônica do Pragmatismo (1905)

5. ... O pragmatismo não foi uma doutrina circunstancialmente adotada por seus autores. Foi riscado e construído. Para usar a expressão de Kant, arquitetônicamente. Como o engenheiro que antes de erguer uma ponte, navio ou casa, leva em conta as diferentes propriedades dos materiais; e não sua aço, pedra ou cimento que não tenham sido testados antes e os dispõe segundo processos minutados, assim também, ao construir a doutrina do pragmatismo, são analisadas as propriedades de todos os conceitos indecomponíveis e seus processos de composição possíveis. (...)
6. Mas qual é o objetivo do pragmatismo? Que é que se espera dele? Espera-se que ponha um termo às disputas filosóficas que a mera observaçãode fatos não pode decidir, e na qual cada parte afirma que a outra é que está errada. O pragmatismo sustenta que ambos os adversários lavram no equivoco. Atribuem sentidos diferentes as palavras, ou usam-nas sem qualquer sentido definido. O que se deseja, então, é um método capaz de determinar o verdadeiro sentido de qualquer conceito, doutrina, proposição, palavra, ou outro tipo de signo. O objeto de um signo é uma coisa; o sentido outra. O objeto é a coisa ou ocasião, mesmo indefinida, à qual o signo se há de aplicar; o sentido é a idéia que ele liga ao objeto, tanto por via de mera suposição, ou ordem, ou asserção.”


(Charles Sanders Pirce : seleção de Armando Mora D’Oliveira; tradução de Armando Mora D’ Oliveira e Sergio Pomerangblum. 2 ed. Coleção Os Pensadores. SP: Abril cultural, 1980, p.. 6 )

MODO DE VIDA

Gosto de viver
No meu imperfeito
Sentido de vida,
Buscar modos
Para moldar o cotidiano
Mais intimo.
Não importa os sacrifícios,
As janelas de outras vidas,
Perdidas nas possibilidades
De outros destinos.
O fundamental de tudo
É o particular significado
Que me abraça
Em qualquer particular versão
Do meu próprio mundo,
De minha particular busca de vida.
Afinal,
Tudo é uma questão
De subjetivo sentido e significante....

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

ANOITECER

A tarde definha
Entre incertezas
Apagando pegadas
De idéias.

Sigo mudo
Ao encontro
De um intimo infinito
Guardado na noite
Que se aproxima.

Mas o futuro
Rasgou o tempo
Espalhando retalhos
De possibilidades
Nas direções do destino.

Proliferam-se caminhos...

CRÔNICA RELÂMPAGO XLV

O pensamento, enquanto uma das manifestações da consciência humana, pode ser experimentada como uma ferida aberta em vez de um instrumento de razão. Carregamos sempre algum tipo de ânsia que nos guia pelos dias e ocasionalmente projetamos em pequenos objetos de consumo, viagens ou qualquer prazerosa e pueril vontade de momento.
Na maior parte do tempo, essas ânsias permanecem latentes, enterradas em nossos devaneios mais profundos como tesouros obscuros e perdidos de nosso mais convencional sentimento de mundo. Ironicamente, são essas misteriosas inquietações imprecisas que nos levam a viver e buscar futuros.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

IMPERFEIÇÃO...


Sei que não sou perfeito,
Que minha vida
É imperfeita...

Mas só posso me fazer
No rude esboço
De tudo aquilo
Que poderia ser.

Minhas escolhas,
Entretanto,
Dizem o mundo
Que inventei
Ou que me inventou
Como biografia
E geografia de significados
Diante dos olhos dos outros...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

UM POUCO DE HUMOR: HOMENAGEM AO MONTY PHYTON



Vc sabia que no ano de 1589, sob o reinado de sua majestade Elizabeth I, a grande rainha virgem, um dos mais poderosos símbolos do renascimento inglês, o poeta Sir John Harrington inventou um dos mais importantes utensílios domésticos de todos os tempos de civilização ocidental ?! Refiro-me ao nosso intimo e fiel amigo VASO SANITÁRIO, cuja gloriosa história já foi objeto de exposição no museu Gladstone Pottery, na cidade britânica de Stoke-on-Trent em 2001.

Desde o panfleto divulgador da invenção, intitulado “as metamorfoses de Ajax”, publicado pelo próprio inventor, passando pelo inconveniente fedor típico dos banheiros da era vitoriana, até os atuais tempos de pós modernidade e desconstruções, a velha e amiga privada jamais foi questionada ou superada por qualquer outro invento! Ao contrário! Ela permanece como um dos mais importantes símbolos da civilização ocidental e da contribuição britânica a civilidade. Cabe observar que o sistema de descarga e a tampa dobrável também foram inventadas no século XIX por um britânico: Thomas Crapper.

GOD SAVE THE QUEEN!!!!!

O PASSEIO DAS ALEGRIAS


As alegrias adivinham
O rosto do dia,
Passeiam sem destino
Pelas horas a fora.

Posso ouvir
Perfeitamente
A voz distante
De algum ato abandonado
Sobre a mesa do escritório.

Importa-me apenas,
Entretanto,
O impreciso destino
Dessas espontâneas
E gratuitas alegrias
Que se perdem
por ai agora
inspiradas pelas
Três graças...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

AS ORIGENS DA POS MODERNIDADE SEGUNDO PERRY ANDERSON


AS ORIGES DA POS MODERNIDADE...Este livro do historiador britânico Perry Anderson, como o próprio título sugere, é indiscutivelmente uma referência importante para a compreensão das origens da Pos moderno enquanto ideia e conceito, mas em contra partida é questionável para uma definição e real compreensão da pos modernidade, suas implicações e diversos significados culturais e epstemológicos. Neste ensaio, o autor baseia-se unicamente nos textos de Frederic Jamenson sob o tema, nada mais natural já que fora escrito originalmente como introdução para uma coletãnea de textos do autor sobre o tema. O problema é que em sua leitura do pos moderno Anderson, apesar da erudição, é lamentavelmente metodologicamente inspirado por um marxismo estreitro produzindo uma narrativa pouco convincente em sua insistencia em reduzir a pos modernidade em uma “ideologia” apologetica do capitalismo tardio mediante reducionismos economicistas e politicos.
Mas, como já disse, seu ensaio é importante para discursão das origens da pos modernidade que, segundo ele, em uma tese muito original, tem seus primordios ou proto-história na America Espanica e na Inglaterra. Vale apena ilustrar essa tese através do fragmento seguinte que tambem procura lançar luzes sobre a origem do modernismo, embora eu discorde totalmente dessa leitura...:

“Pos- modernismo”, como o termo e idéia, supõe o uso corrente de “modernismo”. Ao contrário da expectativa convencional, ambos nasceram numa periferia distante e não no centro do sistema cultural da época: não vem da Europa ou dos Estados Unidos, mas da América Hispânica. Devemos a criação do termo “modernismo” para designar um movimento estético a um poeta nicaragüense que escrevia num periódico guatatemalteco sobre um embate literário no Peru. O inicio por Rubén Dario, em 1890, de uma tímida corrente que levou o nome de modernismo inspirou-se em várias escolas francesas-românica, parnasiana, simbolista- para fazer uma “declaração de independência cultural” face a Espanha, que desencadeou naquela década um movimento de emancipação das próprias letras espanholas em relação ao passado. Enquanto em inglês a noção de “modernismo” só passou ao uso geral meio século depois, em espanhol já integrava o cânone da geração anterior. Nisso os retardatários ditaram os termos do desenvolvimento metropolitano- assim como no século XIX “liberalismo” foi uma invenção do levante espanhol contra a ocupação francesa na época de Napoleão, uma exótica expressão de Cádiz que só muito depois se tornaria corrente nos salões de Paris ou Londres.
Assim, também a idéia de um “pós modernismo” surgiu pela primeira vez no mundo hispânico, na década de 1930, uma geração antes de seu aparecimento na Inglaterra ou nos Estados Unidos. Foi um amigo de Unamuno e Ortega, Frederico de Onís, quem imprimiu o termo posmodernismo. Usou-o para descrever um refluxo conservador dentro do próprio modernismo: a busca de refúgio contra o seu formidável desfio lírico num perfeccionismo don detalhe e do humor irônico, em surdina, cuja principal característica foi a nova expressão autêntica que concedeu às mulheres. Onís contrastava esse modelo- de vida curta, pensava, com sua seqüela-, um ultramodernismo que levou os impulsos radicais do modernismo a uma nova intensidade numa série de vanguardas que criaram então uma “poesia rigorosamente contemporânea” de alcance universal. A famosa antologia de poetas de língua espanhola organizada por Onís segundo esse esquema foi publicada em Madri em 1934, quando a esquerda assumiu o comando da república na contagem regressiva para a Guerra Civil. Dedicada a Antônio Machado, seu panorama do “ultramodrnismo” terminava em Llorca, Vallejo, Borges e Neruda.”

( Perry Anderson. As origens da pós-modernidade/tradução de Marcus Prenchel. RJ: Jorge Zahar ed., 1999, p. 9-10 )

FUTURO AMANHÃ

Aguardo uma manhã
De sol e chuva,
Um dia de paz
E liberdade,
De jornais em branco
E ruas vazias.

Preciso urgentemente
Esquecer um pouco do mundo,
Escrever meu nome na areia
E explorar os mares
Contando as estrelas do ceu
Testemunhando
As travessuras da lua.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

CRÔNICA RELÂMPAGO XLIV

A busca pela realização individual ou pessoal ocupa um lugar privilegiado no imaginário contemporâneo, o que pode parecer a primeira vista um traço de continuidade entre o ultimo século e o atual. Mas hoje em dia isso acontece para alguns de modo bastante peculiar. Não mais como uma mera afirmação egoica socialmente imposta e pouco original, mas como uma meta biográfica cada vez mais subjetiva e imprecisa, uma afirmação daquilo que irracionalmente escolhemos ou nos escolhe pelos labirintos da existência como expressão radical da singularidade.
Deste ponto de vista, tal busca não mais se associa exclusiva e unilateralmente a adesão a essa ou aquela persona profissional,religiosa ou opção sexual. Não se cristaliza em torno de qualquer forma de identidade convencional, mas aparece associada a assimilação da diversidade como um dado ontológico, um referencial que nos permite reunir em nossas próprias vidas a diversidade que define hoje o próprio mundo.
De muitos modos somos hoje saudavelmente incoerentes e confusos, capazes de articular coisas diversas e disparatadas em uma unidade definida pela diversidade como principio. Afinal, transitamos diariamente entre várias “tribos” ou realidades culturais em um mesmo espaço urbano ou através da Web sem que isso nos incomode ou espante.
A versatibilidade parece ser uma das mais marcantes características das pioneiras gerações desse novo milênio. Talvez isso lhes permita ir mais longe do que qualquer uma foi até agora na continua invenção e reinvenção daquilo que conhecemos como realidade.

O LADO FRACO

O lado fraco
Do meu ser no mundo
Escreve-se no fundo
Dos silêncios
Que calam a tarde
Em vazio.

Trata-se do ilegível
Que há na sombra
De todos os fatos,
Daquela parcela
De desconhecido
Que desafia todos
Os significados
Nos deixando a ver navios...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

AGE OF AQUARIUS NOW ?


When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars
This is the dawning of the age of Aquarius
The age of Aquarius
Aquarius!Aquarius!

Música "Age of Aquarius" do musical "Hair"- 1960


Uma das imagens utópicas do século XX que permanecem presentes no imaginário desse novo milênio é o mito da era de aquário. Alguns astrólogos fixaram seu inicio em 4 de fevereiro de 1962, outros em 20 de novembro de 2001, alguns acreditam que vivemos em um longo período de transição da era de peixes, identificada com o cristianismo, que só terminará em 2620. Nesse 14 de fevereiro, entretanto, segundo alguns outros, uma vez que a Lua em Libra entra na sétima casa de relacionamentos, Júpiter e Marte estão alinhados em Aquário na décima segunda casa, estaremos entrando na Era de Aquário NOW.
Controvérsias a parte, o fato é que o mito personifica a ansiedade por uma renovação universal, pelo marco zero de uma nova época que nos permita transcender as inquietações, ansiedades, medos, ameaças, incertezas e impasses do tempo presente. Trata-se de um modo de coletivamente domesticarmos e domarmos o fluxo caótico do tempo e teleologicamente construirmos a vida segundo nossas mais nobres idealizações.
O mito de aquário, particularmente, parece apontar para uma versão esotérica do Iluminismo já que o signo é associado a conhecimento, intuição e progresso. Assim, insinua uma espécie de releitura ou “correção” dos rumos da civilização ocidental a partir de um aperfeiçoamento técnico, cientifico, intelectual e ao mesmo tempo intuitivo sem precedentes.
Não sou capaz de apreender satisfatoriamente todas as implicações deste mito otimista sobre o futuro e potencialidades humanas. Afinal, a vida é sempre complexa e cheia de contradições e não vislumbro nenhum outro caminho além da experiência mágica da auto descoberta e complexidade cada vez maior da consciência individual. Mas tal imagem é totalmente compatível com o mito de aquário...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

NIETZSCHE E A " ANTI- MODERNIDADE"


FRIEDERICH NIETTZSCHE nos legou uma filosofia autenticamente “anti -moderna” fundada na afirmação da vontade criadora e livre que emerge do fim da ilusão em um mundo transcendente ( morte de deus) , da transmutação de todos os valores legados pela moral judaico-cristã e seu servilismo autoritário. Curiosamente, encontramos a mesma “logica critica” aplicada a sua recusa do Estado e do igualitarismo pseudo democrático frente a então emergente “sociedade de massas”.
O mais importante é que para Nietzsche já não mais existe um “mundo-verdade” de inspiração platônica e o existir humano se reduz ao aparente imediato em sua ilimitada multiplicidade de interpretações.
O caráter “anti-moderno” da “filosofia experimental” Nietcscheana revela-se em toda sua intensidade no jogo de opostos estabelecido em torno dos objetivos da filosofia que nega o Ser como problemática. Assim é demonstrado no seguinte fragmento de SOBRE O NIILISMO E O ETERNO RETORNO( 1881-1888) que realiza em síntese a transcendência do opostos e do niilismo:

“Meu novo caminho para o “sim”- Filosofia, como até agora a entendi e vivi, é a voluntária procura também dos lados execrados e infames da existência. Da longa experiência, que me deu uma tal andança através do gelo e deserto, aprendi a encarar de outro modo tudo o que se filosofou até agora: - a história escondida da filosofia, a psicologia dos seus grandes nomes, veio à luz para mim. “Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito?”- isso se tornou para mim o autêntico mediador de valor. O erro é uma covardia... cada conquista do conhecimento decorre do ânimo, da dureza contra si, do asseio para consigo... Uma filosofia radical, tal como eu a vivo, antecipa experimentalmente até mesmo as possibilidades do niilismo radical; sem querer dizer com isso que ela se detenha em uma negação, no não, em uma vontade de não. Ela quer, em vez disso, atravessar até o inverso- até um dionisíaco dizer-sim ao mundo tal como é, sem desconto, exceção e seleção-, quer o eterno curso circular:- As mesmas coisas, a mesma lógica ilógica de encadeamento. Supremo estado que um filósofo pode alcançar: estar dionisiacamente diante da existência- minha formula para isso é amor fati.
Disso faz parte compreender os lados até agora negados da existência, não somentew como necessários, mas como desejáveis: e não somente como desejáveis em vista dos lados até agora afirmados ( eventualmente, como seus complementos ou condições prévias), mas em função de si próprios, como os mais poderosos, mais fecundos, mais verdadeiros, lados da existência, nos quais sua vontade se anuncia com maior clareza.
Do mesmo modo, faz parte disso avaliar os lados unicamente afirmados da existência; compreender de onde provém essa valoração e quão pouco ela é obrigatória para uma mediação de valor dionisíaca das coisas: eu extrai e compreendi o que propriamente o que diz sim aqui ( o instinto dos que sofrem, em primeiro lugar, o instinto do rebanho por outro lado, e aquele terceiro, o instinto da maioria contra as exceções-).
Adivinhei com isso, em que medida uma espécie mais forte de homem teria necessariamente de pensar a elevação e intensificação do homem em, direção a um outro lado: seres superiores, para alem do bem e do mal , para alem daqueles valores que não podem negar sua origem na esfera do sofrer, do rebanho e da maioria- procurei pelos esboços dessa inversa formação de ideal na história ( os conceitos procurei pelos esboços dessa inversa formação de ideal na história ( os conceitos “pagão”, “clássico”, “nobre”, dispostos de modo novo.-)”
Friedrich Wilhelm Nietzsche. Obras Incompletas/seleção de textos de Gerard Lebrun; tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho; 5 ed. SP: Nova Cultural, 1991. ( Os Pensadores); p. 172-173)http://www.youtube.com/watch?v=alHu-nGqDHY

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

GOD by JONH LENNON...


http://www.youtube.com/watch?v=Wv3ic6OOXns

Quando penso em tudo, sei que nada jamais será uma questão de fé...
Sei que todo sentido depende de mim e do que serei para meu pequeno eu entre as dez mil coisas do mundo...

God

by John Lennon

God is a concept,
By which we measure
Our pain.I'll say it again.
God is a concept,
By which we measure
Our pain.
I don't believe in magic
I don't believe in
I-Ching
I don't believe in Bible
I don't believe in Tarot
I don't believe in Hitler
I don't believe in Jesus
I don't believe in Kennedy
I don't believe in Buddha
I don't believe in Mantra
I don't believe in Gita
I don't believe in Yoga
I don't believe in Kings
I don't believe in Elvis
I don't believe in Zimmerman
I don't believe in Beatles
I just believe in me
Yoko and me
And that's reality.
The dream is over,
What can I say?
The dream is over
YesterdayI was the dreamweaver,
But now
I'm reborn.
I was the walrus,
But now I'm John.
And so dear friends,
You just have to carry on
The dream is over.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

BEATLES E A FILOSOFIA: LENNON E A LINGUAGEM


http://www.youtube.com/watch?v=BQcU5w915p8

Um dos momentos mais interessantes do documentário John Lennon: Imagine, produzido por David L Walper e Andrew é o trecho de um diálogo entre Lennon e um fã anônimo descoberto rondando os jardins de sua propriedade em Ascost, Inglaterra. Não há como precisar através do documentário a data do ocorrido. Apenas posso supor que esteja em algum ponto do inicio dos anos setenta. O que importa, porem, é que durante o curto dialogo reproduzido, Lennon procura desmistificar a importância de suas letras para o seu deslumbrado visitante com um argumento muito curioso. Segundo ele, referindo-se a uma canção especifica, apenas se divertia com as palavras e a letra absolutamente não faz sentido algum, o que permite que tudo se encaixe.
Esse aspecto de sua sensibilidade e criatividade, que pode parecer excêntrica em um primeiro momento, mas é mais comum do que se imagina entre os letristas e compositores do rock, foi surpreendentemente investigada com grande e surpreendente precisão em um dos ensaios reunidos na coletânea Beatles e a Filosofia, já comentada nesse blog. Refiro-me a E É CLARO QUE HENRY, O CAVALO, DANÇA A VALSA:OS JOGOS DE LINGUAGEM NAS LETRAS DE JOHN LENNON by Alexander R. Eodice. Reproduzo parcialmente em seguida um fragmento muito elucidativo e instigante deste ensaio cujo a parte tem o sujestivo sub titulo de: SÓ DO QUE VOCÊ PRECISA É LINGUAGEM.

“Lennon ama a linguagem e adora outra sensibilidade- uma abordagem puramente lingüística- quando escreve suas letras. Ela é o principio visível em seus escritos não musicais e cômicos, principalemte em In His Own Write e A Spaniard in the Works, prosa e poesia absurdas e escritas em um estilo semelhante a Lewis Carroll, Edward Lear, e até certo ponto, Joyce em Finnegans Wake. Na breve introdução ao livro, Paul McCartney escreve”alguns tolos se perguntarão por que partes do livro não fazem sentido; e outros procurarão por significados ocultos... Nada aqui precisa fazer sentido, e se for engraçado, já é suficiente”.
Algumas letras de Lennon são simples e jocosos usos da linguagem que, de um ponto de vista literal, podem ser considerados um total absurdo ou tolice, mas que, de outra perspectiva, exibem os amplos e variados usos que podem ser dados à própria linguagem. Isso em si mesmo é um tipo de “jogo de linguagem”, que segundo Wittgenstein tem um certo poder sobre nossa imaginação, “ e que é marcante o fato de que imagens e narrativas fictícias nos dão prazer, ocupam nossa mente”. Há vários modos pelos quais a linguagem é usada e um uso importante e geral é para o prazer do sentido do absurdo que a própria linguagem retrata. Entendendo isso, também é possível entender alqgo que a principio parecia ser um “absurdo disfarçado”, um “total absurdo”. O autor que nos permite mover do sentido aparente de sua linguagem para seu total absurdo também deve ser hábil nesse jogo. Lennon é de fato esse tipo de escritor, cuja habilidade especial surge de seu aguçado senso do sentido da linguagem, pois apenas alguém que possui esse senso poderia criar uma grande ilusão de sentido.”

Alexander R. Eodice. E é claro que Henry, O Cavalo, dança a valça: Os jogos de linguagem nas letras de John Lennon. In Os Beatles e a Filosofia/coletânea de Michael Baur e Steven Baur; tradução de Marcos Malvezzi-SP: Madras,2007, p. 224-225

O DOMIGO SEGUNDO A SEGUNDA FEIRA

O domingo,
Espalhado pela casa,
Não diz coisa alguma
As horas que passam.
Também
Nada significa lá fora
Ou traduz o agora
Enterrado no silêncio sereno
Do jardim de uma praça anônima.
O domingo
Se quer existe
Na fria tarde
De uma segunda feira...

I CAN TAKE CARE OF MYSELF

No conhecimento do sol
E dos saberes da lua
Organizo as horas
Perdidas em mundo.

Sigo sozinho
Pelos caminhos do tempo
Levando vazios e sonhos.
I can take care of myself...


Não sei meu último destino,
Os rumos do pensamento,
As inadequações e indagações
Dos sentimentos.

Sofro sozinho
As marcas do meu destino...
O caos dos sentiudos.
Que importa?
I can take care of myself...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

RICHARD DAWKINS: THE GOD DELUSION


Líder de um movimento pró ateísmo surgido na Grã Bretânea, o biólogo britânico Richard Dawkins afirmou-se definitivamente em 2006, através do lançamento do surpreendente best seller DEUS UM DELIRIO, como uma atípica voz de sensatez em um cenário mundial definido pelo medo, pela incerteza e emergência de neo fundamentalismos tanto religiosos quanto laicos.
Em seu citado livro encontramos uma defesa apaixonada do imaginário cientifico e do pensamento critico contra as armadilhas e cristalizações do senso comum cotidiano. Particularmente acredito que o maior mérito é desmistificar a religião enquanto um tema tabu, quebrar o poderoso poder da crença, submetendo-a ao tribunal da razão com o mesmo status de qualquer outras questão contemporânea.
Ao afirmar o ateísmo como um ponto de vista legitimo e não um “desvio” excêntrico de pensamento, Dawkins contribui decisivamente para a construção de um imaginário cultural e social definido pela pluralidade e a tolerância de um modo realmente radical. Por outro lado, confrontando a hegemonia do senso comum, como alternativa as crendices e mistificações acriticas, que transcendem, diga-se de passagem, a questão religiosa, ele nos oferece o caminho do aprendizado da consideração cuidadosa das grandezas e certezas que definem nosso senso de realidade. Nesse sentido Dawkins vai muito alem da mera e tradicional dicotomia Ciência X Religião.

“O biólogo Lews Wolpert acredita que a esquisitice da física moderna é só a ponta do iceberg. A ciência em geral, ao contrário do da tecnologia, é violenta com o bom senso. Wolpert calcula, por exemplo, que “há muito mais moléculas em um copo d’agua do que copos d’agua no ocenao”. Uma vez que toda à água do planeta passa pelo oceano, pareceria que a conclusão é de que toda vez que você toma um copo d’agua há boas chances de que algo do que já bebendo tenha passado pela bexiga de Oliver Cromwell. É claro que não há nada de especial em Cromwell, nem em bexigas. Você não acabou de respirar um átomo de nitrogênio que um dia foi respirado pelo terceiro iguanodonte à esquerda da árvore cicadácea? Não fica feliz de viver num mundo em que, além de tal conjectura ser possível, você tem o privilégio de entender o porque dela? E explicá-la publicamente para outra pessoa, não como uma opinião ou crença, mas como algo que ela, quando tiver entendido seu raciocínio, se sentirá compelida a aceitar? Talvez esse seja um dos aspectos de que Carl Sagan quis dizer quando explicou sua motivação para escrever O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro: “Não explicar a ciência parece-me perverso. Quando estamos apaixonados, queremos contar ao mundo todo. Este livro é uma declaração pessoal, que reflete meu caso de amor de vida inteira com a ciência”.”

( Richard Dawkins. Deus, um delírio/tradução de Fernanda Ravagnani. SP: Companhia das Letras, 2007, p. 464 )

ERNEST CASSIRER E A CONDIÇÃO HUMANA


Ernest Cassirer foi um dos mais importantes pensadores do séc.XX. Os três volumes de sua FILOSOFIA DAS FORMAS SIMBÓLICAS (1929) permanecem sendo ainda hoje uma fonte indispensável para a compreensão da fenomenologia da cultura e do empreendimento humano.
Para o momento, entretanto, interessa-me particularmente seus ENSAIO SOBRE O HOMEM (1944) que pode ser lido como uma introdução a FILOSOFIA DAS FORMAS SIMBÓLICAS já que se ocupa dos mesmos temas de modo mais condensado. A primeira parte do livro, O QUE É O HOMEM compreende seus cinco primeiros capítulos. Enquanto a segunda parte, O HOMEM E A SOCIEDADE, seus sete capítulos finais.
Essencialmente, para Cassirer, o homem não se define como um animal rationale, mas como um animal symbolicum, na medida em que o símbolo é o que poderíamos definir o modo próprio de ser do homem. Seja através da arte, da linguagem, da ciência, da história ou do mito e a religião, o símbolo estrutura nossas configurações e representações de mundo. Mas a singularidade da vida simbólica e consequentemente da condição humana é a consciência individual. É ela quem nos coloca em um lugar especifico nas paisagens do reino animal. Como podemos ler na conclusão de seu ENSAIO SOBRE O HOMEM:

“É fato conhecido que muitas ações realizadas nas sociedades animais são não apenas iguais, mas em alguns aspectos superiores às obras dos homens. Foi com frequencia assinalado que, na construção de seus alvéolos, as abelhas agem como um perfeito geômetra, alcançando a mais alta precisão. Tal atividade exige um complexissimo sistema de coordenação e colaboração. Em nenhuma dessas realizações animais, no entanto, encontramos uma diferenciação individual. Todas são produzidas do mesmo modo e segundo as mesmas regras invariáveis. Não há qualquer latiutude para a escolha ou a capacidade individual. Só quando chegamos aos estágios superiores da vida animal encontramos os primeiros indícios de uma certa individualização. As observações dos macacos antropóides por Wolfgang Koehler parecem provar que há muitas diferenças de inteligência e habilidade nesses animais. Um deles pode ser capaz de resolver um problema que para os demais é insolúvel. E aqui podemos até falar de “invenções”individuais. Porém, para a estrutura geral da vida animal, tudo isso é irrelevante. Essa estrutura é determinada pela lei biológica geral segundo a qual os caracteres adquiridos não são passiveis de transmissão hereditária. Todo aperfeiçoamento que um organismo possa obter no curso de uma vida individual fica confinado a sua própria existência, e não influência a vida da espécie. Nem o homem é uma exceção a essa regra biológica geral. Mas o homem descobriu um modo de estabilizar e propagar suas obras. Não pode viver sua vida sem expressá-la. Os vários modos dessa expressão constituem uma nova esfera. Tem uma vida própria, um tipo de eternidade através da qual sobrevivem a existência individual e efêmera do homem. Em todas as atividades humanas vemos uma polaridade fundamental, que pode ser descrita de várias maneiras. Podemos falar de uma tensão entre estabilização e evolução, entre uma tendência que leva a formas fixas e estáveis de vida e outra que rompe esse esquema rígido. O homem fica dividido entre essas duas tendências, uma das quais procura preservar as formas antigas, enquanto a outra esforça-se para produzir novas formas. Há uma luta incessante entre a tradição e a inovação, entre forças reprodutivas e criativas. Esse dualismo é encontrado em todos os domínios da vida cultural. O que varia é a proporção dos fatores opostos."
( Ernest Cassirer. Ensaios Sobre o Homem: Introdução a uma filosofia da cultura Humana./ tradução de Tomás Rosa Bueno. SP: Martins Fontes, 1994, p.364)

Tal dualismo harmônico entre conservação e inovação encontra na existência individual seu fator decisivo, pois é através de indivíduos que as inovações coletivas tem um inicio, mesmo que a custa de uma dura luta contra as inércias coletivas. Esta tensão entre opostos é justamente aquilo que podemos definir como a fonte do próprio movimento da vida.

ACASO


O Ponto certo
De um pequeno ato
Escrito no fundo
Do pensamento
É o vazio...
Um vazio tão intenso
E impreciso
Que nos ensina
O infinito,
O ilimitado
Das possibilidades da vida.

Sei apenas
Que todas as horas
Do dia
Resumiram-se
Repentinamente
Na subjetiva importância
De um único e minimo acontecimento
Em um ponto cego de momento certo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

CRONICA RELAMPAGO XLIII

As coisas realmente importantes, como se costuma dizer, estão além das palavras, não podem ser nomeadas ou articuladas. Nem por isso, entretanto, elas deixam de possuir veracidade, mesmo que aconteçam imprecisas e vagas no sem nome de alguma intuição ou opaco pensamento que traduz imprecisas percepções de realidade.
São estas coisas que nos calam, que nos deixam imóveis como se o próprio rosto desabasse no chão em um suspiro de quase absoluto nada. Elas pertencem aos silêncios e são inspiradas pelo onipresente vazio que nos funda a existência, que nos faz viver e fazer, buscar e acontecer. Tudo isso sem o consolo de qualquer contundente porque...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

MEMORY

As lembranças que guardo
Definem
Quem sou no mundo,
Sustentam meu rosto
No dizer de passados
Perdidos e acumulados.

Carrego a marca viva
De todos os atos sofridos.

Sou sob a sombra
De tudo aquilo que fui
Um frágil momento
De mim mesmo
A se desfazer
Na paisagem da existência.

ESPECULAÇÕES SOBRE A ROTINA...


Os protocolos e rotinas da vida contemporânea afirmam a imanência como premissa elementar da existência. Não importa os valores ou convicções que nos sustentam, nossas vidas são necessariamente voltadas para a pragmática realização da mais imediata e concreta existência. Tudo é no fundo uma questão de sobrevivência...
Afinal, trabalhamos para ganhar dinheiro, pagar tributos e consumir coisas de acordo com nossas possibilidades. Até mesmo o lazer e o ócio são apêndices dessa ingrata dinâmica que obscurece até o limite todas as possibilidades de nosso tempo biológico e biográfico
Se você soubesse que morreria amanhã o que faria do dia de hoje? ... Essa é uma pergunta clichê para qual toda resposta é de algum modo duvidosa... ou insuficiente, já que vida alguma tem ponto final e tudo geralmente acaba em reticências...

O desaparecimento de um individuo é algo que nos faz tocar o vazio...

Crença alguma muda isso.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

ABUSURD DAY

Há ocasiões
Em que as coisas
Parecem desfeitas,
Como se o dia coresse
Ao contrário,
Contrariando todas as certezas,
Rotinas e possibilidades.

É quando
As horas explodem
Em vazios,
Revelam a alma dos fatos
E nos ensinam
O não principio
Como principio…

Your just have to…
Bow to the absurd.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

JAMES HILLMAN AND LOVE...


Considero James Hilman um dos mais originais autores e pensadores da psique e sua dinâmica. Em sua singular interpretação da herança de Jung, ele nos permite fugir de nossos limites culturais construindo imagens e representações novas da psique através de um resgate dos “paradigmas” e simbolismos pagãos, ele nos convida a um jogo entre sentido e não sentido, entre imaginação e realidade, na qual os opostos se comunicam em absoluta simetria e pluralidade.
Quando transcendemos o monoteismo de um Self totalizante nos lançamos a aventura de uma configuração multipla e incerta de realidade, a um desaprendizado de nós mesmos onde a única certeza é a busca, não de verdades, mas de possibilidades, em meio a diversidades que transcendem qualquer noção de opus, ou, simplesmente, as redefine no contexto da contemporâneidade …
ALL YOU NEED IS LOVE....
Lembro-me vivamente agora, por exemplo, de um fragmento de Entre Vistas: Conversas com Laura Pozzo sobre psicoterapia, biografia, amor, alma, sonhos, trabalho, imaginação e o estado da cultura muito inspirador... Principalmente porque nos conduz a uma releitura das imagens que temos do amor e sua importância de um modo que viva e particularmente me leva subjetivamente aos Beatles, em especial a sua fase psicodelica e as mais autênticas vivências das inspirações de eros…
No fundo todos temos medo do amor… E isso o faz revolucionário em um sentido laico e profundamente secular e psicológioco…


Laura Puzo.
“Porque temos medo dele.”

James Hillman.
"… e ele pode surgir a qualquer minuto. E o que ele quer é a psique. Ele está atrás da alma, tem um trabalho a realizar na alma. Quero dizer, o amor esta muito mais interessado em nossas fantasias, em nossas imagens e complexos doq ue em nós, pessoalmente, naquilo que sentimos, precisamos, desejamos. Por isso morremos de medo. Ele ativa todos os complexos. Torna nossas fantasias irresistiveis, douradas. Afrodite Dourada, como foi chamada. Brilhante. Flamejante. Mas o amor não é uma força independente exterior às imagens, aos complexos. Esta bem dentro deles. O eros já está dentro da psique, pronto para pegar fogo. A psique é um material altamente inflamável. Estamos sempre embrulhando nossas coisas com amianto, mantendo nossas imagens e fantasias ao alcance da mão porque elas estão cheias de amor. Veja: Freud estava certo- o conteudo da psique reprimida é eros. E Resistencia tem a ver com paredes `a prova de fogo. Naturalmente todo mundo dá as costas para a analise, para seus sonhos e figures tais como Maribel. Elas estão carregadas de amor. Mas o caminho para o amor não é o imediato, você não pode ir direto nele. Terapias que encorajam o amor, que se focam na transferência, cometem o erro de ir direto nele. Pelo menos para mim o caminho é via alma, via imagem, onde o amor se esconde…É só começar a falar com alguem a partir da alma, sobre a alama, sobre o medo da morte, sobre uma lembrança dolorosa, pequenas desavenças, isolamento, e num instante surge o amor. Naturalmente, ele inrompe em sessões de terapia: onde ouver a psique, há amor, eros. O amor vem à terapia para encontrar a psique, para se tornar psicológico, e é realmente um erro psicológico tomar o amor de uma maneira pessoal. Claro, parece pessoal, porque amor é interior, íntimo, mas esta interioridade refere-se à alma, à ativação de complexos”.

(James Hilman. Entre Vistas: Conversas com Laura Pozzo sobre psicoterapia, biografia, amor, alma, sonhos, trabalho, imaginação e o estado da cultura/ tradução de Lucia Rosenberg e Gustavo Barcellos. SP: Summuis, 1989, p.194-195.)


O TEMPO E O FUGITIVO AGORA DA VIDA...


O futuro
É uma Estrada escura,
Caminho único de um presente
Que avança cego
Sobre um passado
Em ruinas.

Mas a vida
É uma eternal aposta,
Uma esperança,
A brincar com o tempo
E o destino
Nas cores do vento,
Nos cheiros das primaveras,
Como a ilusão dos pássaros…

sábado, 24 de janeiro de 2009

OASIS: DIG OUT YOUR SOUL



http://br.youtube.com/watch?v=87IQhui_Yy8

“The summer sunThat blows my mindIs falling down on all that I've ever knownIn time we'll kiss the world goodbyeFalling down on all that I've ever knownIs all that I've ever known”
Falling Down


“I'm all over my heart's desireI feel cold but I'm back in the fire


Out of control but I'm tied up tight


Come in, come out tonight”

The Shock of the Lightning



Lançado no ultimo mês de outubro, Dig Out Your Soul , sétimo álbum de estúdio do Oasis, nos apresenta uma banda mais madura e criativamente fechada em sua herança psicodélica e obsessão pelos Beatles. O dois primeiros singles deste álbum, "The Shock Of The Lightining" e Falling Down, traduzem perfeitamente sua intensa aventura musical através de letras intimistas e profundamente subjetivas que nos conduzem a uma verdadeira viagem de imaginação e autentica subjetividade... Não é exagero falar de um novo Oasis, de uma banda mais madura e mais do que nunca contemporânea e impactante. Se a assencia do Oasis é a rebeldia e a auito afirmação pode-se dizer que sua obra guarda um modo próprio de ser no mundo que cada vez mais nos ensina o quanto somos unicos e o quanto vale a pena levasr as ultimas consequencias aquilo que simplesmente somos...

FILOSOFIA DO BRINQUEDO

Há um mistério
Na vida intima das coisas,
Na alma dos objetos,
Que se misturam
As leis do destino humano.

O brinquedo quebrado
Guarda memórias
De evasão e êxtase,
Rasga realidades
E fantasias.

Mas somente crianças
Conhecem os fundos abismos
Do luto de um brinquedo perdido
Que diz em sua perda
O próprio passar da vida
Ou a incerteza
De todas as coisas feitas e ditas.

THE PAUPER


As sombras do passado
Escrevem silêncios no presente
Sem o afago de sonhos futuros.

Administro as perdas
Concretas e abstratas
Que o tempo da vida
Impõe aos anos.

Sei o inevitável pesar
De todas as mudanças,
Transformações de alma
E de mundo
Que tornam a vida
Aleatório e obscuro
MOVIMENTO...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

CONTEMPORANEIDADE, INDIVIDUAÇÂO E CRISE DO JORNALISMO FORMAL


No suplemento Mais da Folha de São Paulo de 30 de novembro de 2008 foi parcialmente publicada uma interessante resenha de John Lloyd, colaborador do Jornal Financial Times, de três livros recentemente lançados no Reino Unido que discutem o futuro do jornalismo. Tratam-se das obras SuperMedia de Charlie Beckett, Can you Trust the Media de Adrian Monck e a coletânea UK Confidencial organizada por Charlie Edwards e Chatherine Fieschi. De diferentes maneiras cada uma delas discute a crise e perspectivas do jornalismo contemporâneo e o impacto das novas tecnologias. Tal discussão me é particularmente interessante e decisiva para a delimitação dos espaços e conteúdos de nossas contemporaneidades. Afinal, essa crise do jornalismo traduz significativas mudanças em nossas sensibilidades e praticas de realidade. Com a internet e a novas tecnologias digitais o individuo alcançou possibilidades praticamente ilimitadas de criação e auto expressão permitindo uma dessacralização de praticas antes monopolizadas por “grupos” ou “organismos coletivos”. O caso do jornalismo é um ótimo exemplo disso. Como reconhece, mesmo que com algumas reservas, John Lloyd,

“ De certa forma, os blogs e a web marcam um retorno ao jornalismo do século 17 e 18- um período empreendedor, no qual pessoas que tinham algo a dizer montavam sus negócios e publicavam panfletos e boletins noticiários.
Também vivemos um período de maior incerteza, o que lembra a era vitoriana, quando os jovens aspirantes a literatos, vestidos com trajes modestos, ganhavam a vida trabalhando arduamente em um mercado formado majoritariamente por free-lancers.”

A efervescência de opiniões e perspectivas plurais estabelecida pela cultura da Web e dos Blogs representa, ao meu ver, uma tendência para uma experiência cada vez mais direta entre o indivíduo e a informação, sua circulação e repercussão, transcendendo as formalidades e censuras das convencionais estruturas coletivas de imprensa e propaganda.
De fato, o consumo de noticias e informações pelas formas eletrônicas e impressas tradicionais torna-se cada vez menos atraente, o que de fato nos permite falar de uma crise do jornalismo. Por outro lado, essa individuação saudável do exercício da informação e da opinião pode ser vista também como o embrião de novas formas de se pensar e fazer jornalismo, um jornalismo cada vez mais democrático e interativo, não mais formatado para uma sociedade de massas, mas destinado a uma sociedade de indivíduos.

SUMMER

O calor e o sol
Abraçam o corpo
Em imaginações de verão.
Quase não há lugar
Para pensamentos
Entre tantas vontades
E inquietações.

A tarde ferve,
As ruas estão em febre
E em festa de vida.

A existência percorre as almas
Como rubra matéria
E absoluto agora.

SONHOS DE UMA NOITE DE VERÃO


O calor do verão
Tem outro gosto a noite,
Um sabor de deserto
Ou de tédio.

É quando um cansaço
Cala o corpo
Frente ao rosto de um pensamento,
Uma mensagem de Apolo...

Mas a lua ainda ensina magias
E tudo acontece
Em sonhos de uma noite de verão.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

BREVE HOMENAGEM A EDGAR ALAN POE


O critico, poeta e escritor Edgar Alan Poe é um dos grande escritores malditos da literatura universal. Nascido em Boston, EUA, em 19 de janeiro de 1809 morreu em Baltimore em 7 de outubro de 1849. Serão celebrados este ano nos EUA, portanto, o bi centenário do seu nascimento e os 160 anos de sua morte através de exposições, debates e ate mesmo uma encenação em Baltimore do seu funeral. Como já falei sobre sua obra em uma das postagens consagradas a série Literatura Inglesa, limitar – me – ei hoje a esta singela e breve homenagem ao autor na noite de seu bi centenário. Afinal, ele foi um dos construtores da linguagem da literatura contemporânea e de massas através de uma narrativa “realista” destinada ao convencimento do leitor, a persuadi-lo da veracidade do discurso ficcional conduzindo ao extremo a tensão entre realidade, verdade e fantasia na mesma medida que explorava os limites e abismos da alma humana em uma atmosfera não raramente sombria e fatalista em sublimes estímulos a imaginação. Por tudo isso, Poe é definitivamente um do escritores favoritos...

sábado, 17 de janeiro de 2009

LITERATURA INGLESA XL


Considero o irlandês George Bernard Shaw (1856-1950) uma das mais importantes e singulares vozes do século XX. Sua independência e integridade como indivíduo, seu humor e espírito crítico, fizeram dele um intelectual polêmico e nada convencional em um sentido que raramente se vê na história das idéias. Há quem o considere um Volteare do séc. XX, mas acho que ele foi muito mais do que isso...
Embora tenha se consagrado por suas peças teatrais e ensaios de critica de arte e musical, Shaw iniciou-se na literatura através de romances como O Problema Irracional e um Socialista Anti-Social que só tiveram a atenção do público depois de seu prestigio conquistado a duras penas como Dramaturgo.
Cabe lembrar que Também foi um ótimo orador, tendo participado das discussões políticas de fins do séc. XIX e inicio do século XX, a partir de uma peculiar adesão ao socialismo. Aliais, em conjunto com outros intelectuais ele foi um dos fundadores da Sociedade dos Fabianos, núcleo do futuro Partido Trabalhista Inglês.
Shaw foi antes de tudo um homem de idéias e polêmicas. Mesmo seu teatro é expressão dessa sua inegável vocação. Sua critica e superação ferrenha do teatro vitoriano, consagrado a pregação moral e ao divertimento gratuito. A tal formula ele respondeu corajosamente através da denuncia da hipocrisia das convenções e da sarcástica critica a tudo aquilo que sustenta a sociedade contra o individuo. Shaw foi em todos os sentidos a afirmação de um espírito livre e, justamente por isso, risonho, a colorir de alguma esperança o sombrio mundo da primeira metade do século XX de consolidação de uma sociedade massificada.
Vejo Bernard Shaw como um perfeito “aristocrata do espírito”, um tipo de pensador que em nossa contemporaneidade apenas pode ser mimeticamente resgatada como paródia ...

Seguem fragmentos de "O pequeno breviário de George Bernard Shaw":

Amizade


Trata o teu amigo como se um dia ele pudesse tornar-sde teu inimigo, e teu inimigo como se pudesse um dia ser teu amigo.

Amor


Ao queremos ler sobre atos praticados por amor, aonde nos viramos? À seção dos assassíneos.
***
Não há amor mais sincero que o da comida.

Civilização


A civilização é uma doença devida à pratica de construir sociedades com materiais podres.

Democracia


A nomeação de uma pequena minoria corrompida é substituída, na democracia, pela eleição por uma multidão incompetente.

Imoralidade


Tudo o que contraria as maneiras e os hábitos estabelecidos é imoral... Todo o avanço9 em matéria de pensamento e comportamento é imoral, por definição, até que não tenha convertido a maioria.

Patriotismo

Nunca tereis um mundo tranqüilo enquanto não expurgardes dele o patriotismo da raça humana.

Progresso


A idéia de que houve qualquer progresso desde a época de César ( menos de vinte séculos) é absurda demais para entrar em discussão. Toda a selvageria, a barbárie, o obscurantismo e todo o resto de que nós guardamos lembrança, no passado, existe no presente momento.”

(Pequeno Breviário Shawiano in Geoge Bernard Shaw. Socialismo para milionários/tradução de Paulo Ronai. RJ: Ediouro, s/d, p. 109 et seq.)

O BRITPOP E A CONTEMPORÂNEIDADE DO ROCK


Surgido na Inglaterra durante os anos 90 do último século, o chamado movimento BRITPOP, que revelou ao mundo bandas como o Oasis, Blur, Radiohead, Supergrass, dentre tantas outras, mesclava referências ao rock psicodélico dos anos 60, principalmente Beatles, com tendências posteriores como o punk e o new have produzindo uma sensibilidade e musicalidade nova.
Cabe lembrar que a partir dos fins dos anos 80, no Reino Unido e EUA, varias bandas já haviam resgatado e relido a herança psicodélica, como por exemplo, o My Bloody Valentine, Spacemen 3, The Charlatans ou The Hypnotics. Mas foi através do BRITPOP que definitivamente estabeleceu-se uma nova estética e linguagem musical construída com base nessas releituras. Ao lado do Grunge norte americano ele estabeleceu-se como uma das matrizes renovadoras da linguagem do rock ocorrida ao longo dos anos 90 e que asseguraria, mais do que nunca, sua contemporaneidade.
Diferente do rock clássico dos anos 60, o rock contemporâneo, desde então, passou a expressar uma cultura de juventude mais hedonista, caótica/plural em termos identidários e, em certas vertentes, até mesmo profundamente niilista em um sentido diferente daquela desconstrução absoluta expressa nos anos 70 através do movimento Punk.
Particularmente, considero o Oásis e o Radiohead as duas grandes expressões do BRITPOP. No caso do Oásis temos a atualização do lado dionisíaco do rock, a rebeldia agressiva enquanto o Radiohead leva as ultimas conseqüências seu lado niilista, a rebeldia silenciosa e estóica contra o caos e absurdo do mundo. Tratam-se de tendências opostas e complementares que traduzem o Rock hoje em dia como fenômeno cultural e social ainda muito significativo, mesmo que não mais se proponha a mudar o mundo e sim alimentar nossas meras individualidades diante dos limites das convencionais convenções coletivas e o caos que é o mundo em que vivemos.

IMAGINAÇÃO MATERIALISTA

Meus olhos habitam
O azul do céu
Percorrendo infinitos mares
De ordinária imaginação.

Sei o mundo acordado
Em cores, luzes
E odores,
Na embriagues das sensações.

Neste instante
Quase não estou aqui
E sinto o mundo
Em meu corpo
Como um sonho
Em carne viva
Espalhado em todas as direções.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

SONG

Atravesso o dia
Deitado no colo
De uma musica,
em sentimentos...
Sem saber do mundo em volta.

Ouço apenas a vida,
A alma das coisas
Em intimo ritmo
De existência.

Tudo se faz melodia nervosa
A espalhar movimento e forma,
Espelhar sentimentos de tempos sem tempo
Em um mundo fechado e aberto
Nas vibrações e mistérios de sons e sentidos
Simplesmente, ritmos de uma estranha melodia...

CRONICA RELAMPAGO XLII


"A cada etapa da vida do homem corresponde uma certa Filosofia. A criança apresenta-se como um realista, já que está tão convicta da existência da peras e das maçãs como da sua. O adolescente, perturbado por paixões interiores, tem que dar maior atenção a si mesmo, tem que se experimentar antes de experimentar as coisas, e transforma-se protanto num idealista. O homem adulto, pelo contrário, tem todos os motivos para ser um céptico, já que é sempre útil pôr em dúvida os meios que se escolhem para atingir os objectivos. Dito de outro modo, o adulto tem toda a vantagem em manter a flexibilidade do entendimento, antes da acção e no decurso da acção, para não ter que se arrepender posteriormente dos erros de escolha. Quanto ao ancião, converter-se-á necessariamente ao misticismo, porque olha à sua volta e as mais das coisas lhe parecem depender apenas do acaso: o irracional triunfa, o racional fracassa, a felicidade e a infelicidade andam a par sem se perceber porquê. É assim e assim foi sempre, dirá ele, e esta última etapa da vida encontra a calmaria na contemplação do que existe, do que existiu e do que virá a existir.

Johann Wolfgang von Goethe, in "Máximas e Reflexões"

Hoje em dia percebo, nestes tempos de quase quarenta anos, o quanto mudei, ou tudo para mim mudou no sentimento de todas as coisas. Talvez já não me envolva tão profundamente com o mundo e com as pessoas como antigamente e tenha perdido o encanto subjetivo que nos conduz a irracionais pertencimentos a rotinas e pessoas.
O fato é que atualmente quase não sei do mundo nos labirintos de mim mesmo e minha única verdade é o pragmatismo de seguir em frente em busca de qualquer outra coisa alem do mero presente.
Mas não sei dizer se o passar dos anos me fez mais realista ou vazio, introspectivo, ou pleno na busca de sentidos e significados, quando simplesmente aprendi que todos eles são relativos e a vida objetiva nos oferece apenas modestas e provisórias possibilidades de realização e certeza... A finitude hoje é meu único desafio e aprendizado de existência em ant-metafísico sentimento do tempo que passa...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

ALMOÇO


Não há nada de novo
Na mesa do almoço.
A comida tem o gosto de ontem
E o tempo parece gasto e usado
Como as palavras trocadas
Entre estranhos.

O relógio dita o momento
No silêncio da hora presente
E o tempo apenas passa
Nos cotidianos
Ritos de existência.

domingo, 11 de janeiro de 2009

SAGRAÇÃO DO DESEJO


Abri a porta de um sonho,
Vi apenas
Meu próprio rosto
Preenchendo o céu
E a terra,
Vislumbrando faminto
O infinito.

Soube, então,
O querer
Como o único e múltiplo
Impulso
Que me faz ilimitado
Dentro de imensidões.

O desejo, afinal,
É o único segredo,
O único mistério
Que ainda nos move....

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

ACROOS THE UNIVERSE


Percorro o universo
Em cada palavra viva,
Em qualquer louco pensamento
Que me surpreenda aberto
Em algum sentimento de dia
E de mundo.

Tudo é absurdo e absoluto
Particular multiverso
De coisas em movimento
Que em mim se transformam
Em onírica, concreta e fixa
Quase realidade...
Nada vai mudar meu mundo...

http://www.youtube.com/watch?v=Rj-4t9drUlM

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

APOLOGIA A PALAVRA


Nada é definitivamente mais humano que a palavra. No além do signo, da concretude da letra, ela é viva expressão d’alma, de sentidos e significados que nos arrastam em tempestades, emoções e pensamentos.
A palavra, no mais que si mesmo da gente, é sentimento das coisas e pessoas que configuram o mundo e estruturam nosso universo particular, aquela mínima moralia ou dimensão de gentes, objetos e realidades aos quais nos irmanamos eletivamente em afinidade estranha e irracional de dia a dia da vida. Amar a palavra é amar o humano e o meta humano, fazer de cada coisa e ser um interlocutor em um ato de subjetividade no qual descobrimos, construímos, desconstruimos, o próprio humano em nós em paradoxos... O que podemos ser fora dos diálogos, das buscas, certezas, decepções e, acima de tudo, movimento que a vida ensina alem dos conceitos e na abstração delirante do brincar com as palavras enquanto jogos mágicos de linguagem e imagens? Nada há de mais mortal, mais criativo....
http://www.youtube.com/watch?v=kZjCGF57v4Q

VIRGINIA WOOLF:OS ANOS


O tema central dos escritos de Virginia Woolf é invariavelmente o tempo que passa em nossas vidas... No caso de Os Anos (1937), romance em 11 episódios em, torno do dia a dia da família Pargiter, nos deparamos com um verdadeiro ensaio literário sobre a experiência cotidiana, sobre a complexa relação entre individuo e cultura coletiva ou sociedade. Considero este, seu livro mais elaborado e intensamente humano, um mergulho profundo nos fatos, no fluxo abstrato de consciência e sentimento de mundo que nos define o movimento da própria vida.
A estrutura narrativa articula-se naturalmente em anos: 1880, 1891, 1907, 1908, 1910, 1911, 1913, 1914, 1917,1918 que desembocam no conclusivo “ O dia de hoje”. O acumulo dos anos nos conduz assim ao tempo presente e sua vitalidade perene e quase onírica diante da qual nos auto questionamos: E agora?...

“Era um crepúsculo de verão. O sol se punha. O céu ainda azul tingia-se de dourado, como se tudo se cobrisse de um fino véu de gaze. Aqui e ali, na amplidão ouro e azul, pairavam ilhas de arminho em suspenso. Nos campos as árvores se erguiam majestosas e ricamente ataviadas por suas inumeráveis folhas. Viam-se ovelhas e vacas, cor de pérola ou malhadas, jacentes as mais das vezes ou passando através da relva translúcida. Tudo estava orlado de luz. E o pó vermelho que subia das estradas como um rolo de fumaça tinha também um corte de ouro. Até as pequenas casas de tijolo vermelho aparente à margem das estradas eram porosas, incandescentes de claridade, e as flores nos jardins dos cottages, lilás e róseas como vestidos de algodão, brilhavam e tinham veios como que iluminados por dentro. E os rostos das pessoas paradas às soleiras das portas ou flanando pelas calçadas mostravam o mesmo rubro fulgor, como se encarassem de frente o sol que aos poucos desaparecia.”

( Virginia Woolf. Os Anos/tradução de Raul de Sá Barbosa. RJ: Nova Fronteira, 1982, p.335 )

A UMA JANELA...

Uma fantasia
Me puxou a pouco
Pelo braço
Convidando a um passeio,
A um devaneio,
Pela paisagem
Urbana e anônima.

Por algum tempo
Esqueci o dia,
As calçadas,
Semáforos, pessoas
E lojas.

Concentrei-me
No segredo de uma silenciosa janela,
Daquela pequena abertura
Ao outro mundo de um prédio perdido
No infinito do dia presente.

A janela, entretanto,
Oferecia – me apenas questões
E realidades entre abertas
Na desconstrução de respostas
e portas.

domingo, 4 de janeiro de 2009

SOBRE “ O ILUMINADO” DE STANLEY KUBRICK E O SOBRENATURAL


Adaptação de uma história de Stephen King, “O Iluminado” ( 1980) de Stanley. Kubrick, contrariando a obra original, é quase um tratado cinematográfico sobre o ceticismo e a ficção envolvendo o sobrenatural.
Afinal, o filme parece focado na pura e simples decadência de um homem fraco e problemático que, incapaz de conduzir a bom termo a oportunidade de reconstrução de sua própria vida, sucumbe a pressão e a loucura, mergulhando em, uma atmosfera insólita, imaginativa e alegórica mediante a qual desconstroi sua própria vida.
A presença do componente sobrenatural confunde-se assim, de modo ambíguo, com o aspecto psicológico induzindo a uma relativa recusa da premissa de uma causalidade metafísica na narrativa para sustentar o clima de terror e suspense que define a trama.
A originalidade desta heterodoxa adaptação para o cinema de uma história de terror encontra-se justamente nesse surpreendente realismo anti-metafísico que nos induz a pensar sobre a natureza de nossas crenças e superstições, seus “poderes” e “possibilidades” enquanto expressão de estados de consciência bastante peculiares. Afinal, como se define e até onde nos conduzem as imagens de realidade dentro das quais existimos? ...

YEAR AND FREEDOM


No ano que se inicia
Quero a mais plena
Existência,
A vida intensa em ventanias,
Saber o imprevisível
E impossível de cada momento
Na absoluta surpresa de mim mesmo.

No ano que se inicia
Meus caminhos serão
Sem esperanças e destinos
Em uma certeza de pedra
E imensidões;
Serei como um pássaro
Em espaços abertos
E corpo de movimento
De puro e livre pensamento
In a hurry,But carefully...

MULTICULTURALISMO

A vontade que vivo,
A necessidade
Que tenho,
É ir ao fundo
Do mais que profundo
Deste instante,
Percorrer o riso do tempo
Oculto em todas
As coisas que passam
Até desvelar em totalidade
As múltiplas possibilidades
Do meu pequeno rosto.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

QUENTIN TARANTINO: CINEMA, VIOLÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE


Se é possível falar sobre a influencia ou construção de uma estética e sensibilidade pós-moderna no campo da sétima arte, alguém que poderíamos sem sombra de duvida indicar como um de seus mais talentosos representantes, seria o renomado diretor, roteirista e ator norte americano Quentin Tarantino ( 1963-...). Desde seu filme de estréia, Cães de Aluguel (1992), passando pelo brilhante e original Pulp Ficcion (1994) e os dois volumes de Kill Bill ( 2003-2004) Tarantino construiu uma linguagem e um estilo próprio combinando como ninguém violência e humor em uma descontraída leitura alegórica da realidade.
Para sustentar a “pós modernidade” de Tarantino, basta observar que o roteiro de todos os filmes aqui citados não são organizados em ordem cronológica, estão recheados de diálogos que contradizem ou extrapolam a trama, em meio a citações de outros filmes e, principalmente, de referências a cultura dos anos 70, criando normalmente uma charmosa atmosfera retro.
Quanto a pseudo questão do abuso e banalização da violência em seus filmes, argumento que a violência é elevada por ele a condição de linguagem estética e não se reduz a um instrumento ou recurso utilitário e apelativo de expressão destinado a atrair a atenção do público, diga-se de passagem, propenso a consagração de filmes violentos. A violência nos filmes de Tarantino é desconcertadamente pop e alegórica, não-realista ou impressionista.
Considero-o um diretor "META-alternativo", o caso único de um aficcionado por cinema que, de funcionário de uma locadora de vídeos em Los Angeles, tornou-se um criador de filmes ímpar justamente por jamais ter perdido a sensibilidade de um devorador ANÔNIMO de filmes.

INDIVIDUIALIDADE, PÓS - MODERNIDADE E EXPERIÊNCIA VIVIDA


O domínio da experiência imediata da própria individualidade pressupõe uma codificação provisória do mundo, uma organicidade e hierarquização dos desejos e das emoções moldada apenas pelas especificidades biográficas e aleatórias escolhas de cada um ao sabor dos momentos.
Isso é o mesmo que vincular a individualidade HOJE a uma espécie de estilhaçamento do mundo empírico e coletivo. Tal recusa relativa da objetividade do mundo e valorização de uma subjetividade aleatória é o que agora permite a cada individuo um esboço de autonomia e liberdade cada vez maior frente a vida coletiva e ao irracional vinculo natural de espécie inerente ao animal humano. Afinal, a individualidade tornou-se em todos os sentidos um não lugar dentro do mundo em lugar da afirmação inútil do próprio ego.
Surpreender-se como um individuo hoje é tão somente aceitar a própria fluidez e finitude ontológica como referencial de não ou virtual sentido no exercício de nossos cotidianos e pseudo-metafísicos apetites de auto-realização pueril.
Afinal, a individualidade transcende o pensamento e a lógica de qualquer conceituação positiva ou estável...